Entre Linhas
6 O Cativeiro e o Rei
Após suas falas ele voltou a ficar sério e começou a fingir novamente que não me conhecia.
Meu corpo me traiu.
A princesa ao meu lado, de olhos arregalados e mãos trêmulas, sussurrou algo que não compreendi. Meus ouvidos zumbiam, meu peito latejava com a força de um tambor de guerra.
Os músculos congelaram quando o vi à frente do pelotão — aquele rosto outrora tão familiar, agora uma máscara impassível sob o elmo real. A cicatriz que serpenteava seu rosto brilhava pálida sob o sol da tarde.
Ele nos escoltava como prisioneiras.
O mundo parecia ter parado. Meu corpo não respondia, preso em uma estranha letargia enquanto ele comandava os guardas, nos conduzindo como prisioneiras em direção ao castelo. Seus passos eram firmes, suas costas voltadas para mim — como se eu fosse apenas uma sombra insignificante em seu caminho.
A princesa desconhecida ao meu lado pressionou seu ombro contra o meu, um contato silencioso que dizia: "Respire". Mas como respirar quando cada passo em direção ao castelo inimigo arrancava pedaços da minha alma?
O Salão do Trono
Os portões se abriram com um rangido sinistro, e logo estávamos diante do salão do trono, onde o rei nos aguardava.
Eu nem sequer sabia o nome da garota que agora tremia ao meu lado, mas mantínhamos ambas as cabeças erguidas, fingindo uma coragem que não sentíamos.
Ele era imponente, sua presença preenchendo o espaço como uma tempestade contida. Seus olhos, afiados como lâminas, percorreram cada detalhe de nossas figuras desamparadas.
O rei de Orion se ergueu como uma tempestade personificada. Seus dedos, adornados com anéis de prata e ouro, tamborilavam no braço do trono enquanto pronunciava o nome que finalmente conheci:
— Princesa Dahlia.— sua voz ecoou, cortante e calculista.
O rei recostou-se no trono, os dedos batendo lentamente no braço do assento.
— Meus homens tiveram facilidade em te encontrar... — seus lábios se curvaram em um sorriso frio. — Alguém da realeza jamais permitiria tal captura, a menos que fosse de propósito.
Ele era astuto. Percebi naquele momento que estávamos em um jogo muito mais perigoso do que imaginávamos.
A garota (não mais uma desconhecida, mas a herdeira de Sirius) endireitou a postura, transformando-se diante de meus olhos. O tremor em suas mãos contradizia a firmeza em sua voz:
Dahlia respirou fundo, e sua voz, embora suave, não vacilou:
— Vossa Alteza, o senhor é sábio. Venho pedir um acordo... — seus olhos brilharam, úmidos. — Preciso de uma planta que só existe aqui para salvar meu pai.
E então, lentamente, seus olhos se voltaram para mim.
Eu não conseguia desviar o olhar. Havia algo naquela boca cruel, na forma como ele nos estudava, que me prendia como um feitiço.
— Que planta seria essa, Princesa Dahlia? — perguntou, mas seu olhar ainda estava fixo em meu rosto.
— Leatus, Vossa Majestade.
Seus músculos tensionaram-se por um segundo. Ele não esperava essa resposta.
O silêncio que se seguiu foi tão espesso que ouvi o tilintar das armaduras dos guardas. O rei nos estudou como um xadrezista avalia suas peças — seus olhos escuros pousando por fim em mim com reconhecimento calculado.
— ...O Rei Maximus está morrendo?— sua voz era suave, quase um sussurro, mas as palavras caíram como uma sentença.
E então, finalmente, ele sorriu.
A pergunta pairou no ar, carregada de séculos de história não contada. E enquanto aguardava a resposta da princesa, senti o peso do olhar dele queimando minha nuca — finalmente, após todo o percurso, o homem que jurou me proteger com a própria vida se permitiu olhar para trás.
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