Notas iniciais
Não me matem, titia Mille ama vocês

Eu e Franciele ficamos ali no porão por algumas horas a mais. Ela não era uma das pessoas mais simpáticas, e de longe o tipo de pessoa que você gostaria de passar horas, porque ela simplesmente ficou lá, quieta e parada, feito uma estátua, mas após algum tempo desembestou a falar... E descobri que ela é uma garota legal, quando se expõe um pouco mais. Fiquei sabendo de toda a sua vida anterior à caçada e até um pouco da vida como caçadora, o que me pareceu incrivelmente fascinante.

Ser caçadora era, definitivamente, extremamente complicado. Sem se apaixonar, sem se aproximar de pessoas do sexo oposto, a não ser que fossem gays, ou seja, antigamente era impossível falar com qualquer homem, já que os gays eram mais escondidos, por causa do preconceito e tudo o mais. E tudo isso por toda a eternidade, ou até morrer numa batalha, o que também não era uma das coisas mais fáceis de acontecer, pois todas as caçadoras são excelentes guerreiras e realmente letais para quem se atreve a fazer qualquer coisa errada. Caso o Cúpido as flechasse e elas se deixassem levar, elas já podiam ser dadas como mortas.

–Mille? – Mary apareceu ali na sala, com um olhar preocupado no rosto. – Pode me acompanhar até a sala, por favor? E Fran, já pode sair.

Levantei enquanto trocava um olhar apreensivo com a caçadora que havia se tornado algo perto de amiga. Mary não esperou que eu a acompanhasse, apenas subiu e deixou a porta da sala aberta, esperando por mim sentada em sua enorme cadeira atrás de uma escrivaninha, como em um escritório. Assim que entrei, a líder do acampamento fez um sinal para que eu fechasse a porta, o que rapidamente fiz antes de sentar numa cadeira do outro lado da mesa onde se encontrava a garota.

–Então, o que está acontecendo? – não consegui me segurar.

–Tive uma conversa com Evelyn, a tenente das caçadoras, e bom, ela quer que você... Ahn, eu não consigo fazer isso. – suspirou.

–O que ela quer eu faça? – cada segundo naquela sala fazia com que minha cabeça doesse.

–Ela quer que você se junte à caçada. – Mary disse, abaixando o olhar.

–O quê? Por quê? – faltava ar em meus pulmões.

–Ela disse que você é forte e que ela está interessada em suas habilidades. Mas ela não pode forçar nada, você tem que desejar ser caçadora, porque não é uma coisa simples e que você liga e desliga quando quer.

–Então ela não deveria esperar eu demonstrar algum interesse pela caçada?

–Sim, deveria. Só que ela quer que você saiba que tem essa opção, e sabe que eu nunca lhe faria essa oferta.

A ideia de ser caçadora não era abominável, na verdade, eu até gostava dela. Nada aqui nesse acampamento me prendia, ou melhor, nada em lugar nenhum me prendia. A única coisa que realmente eu não queria deixar em aberto é aquela profecia da qual a Thay me disse na minha primeira noite aqui.

–Mary, o que você sabe sobre a profecia das gêmeas? – observei seu rosto passar de tenso, para mais tenso ainda e então passar para uma calma fingida.

–Quem te contou sobre isso? – tinha uma grande dose de apreensão em sua voz.

–Eu só ouvi uns boatos e quis saber mais sobre isso... Pareceu uma profecia interessante, sabe? Nada demais. – tentei me fazer de desentendida, não achei que seria esperto mostrar a ela minha desconfiança.

–Ahn, pouquíssimas pessoas sabem sobre essa profecia... Onde você ouviu isso? – sua cara não apresentava mais a estranha calma, agora era um nervosismo crescente que se apoderava dela.

–Nenhum lugar específico – provavelmente eu entraria numa grande enrascada por estar mentindo descaradamente para a líder do acampamento, mas eu não poderia me importar menos.

–Não estou autorizada a falar sobre isso – nunca havia visto Mary com uma cara tão fechada quanto agora -. Voltando ao assunto que viemos tratar aqui, você quer entrar para a caçada? As garotas só vão ficar aqui mais dois dias.

–Isso significa que tenho mais dois dias para pensar melhor no assunto. – fechei minha cara, como num espelho – Gostaria de saber antes a qual chalé pertenço, antes de deserdá-lo.

–Nós temos uns testes que podem ajudar a descobrir quem é seu pai. E caso eles não funcionem, porque os resultados nem sempre são claros, o deus olimpiano se sentirá atiçado e acabará te reclamando como filha.

–Quando podemos começar com esses testes? – estava ansiosa para descobrir logo se era possível mesmo que eu e a Thay fossemos gêmeas.

–Hoje. Depois do jantar. Encontre-me na Arena, está bem? – levantou-se e subiu a escada que levava ao seu aposento, sem antes esperar por uma resposta minha.

–Acho que não tenho escolhas. – sussurrei.

Assim que me toquei da situação em que me encontrava, levantei da cadeira e fui até o lado da escrivaninha pertencente a Mary. Havia ali uma única e enorme gaveta, abri-a sem problema algum. Ela era bem rasa, o que significava que ela possuía um fundo falso, que assim que pensei nele, achei uma espécie de tranca, que só abriria com uma chave extremamente pequena. Resolvi olhar o conteúdo da parte aberta da gaveta, que continha basicamente alguns papéis e um livro com o título “Gastos do CHB”, o que levantou suspeita, afinal, com o que temos gastos aqui? Folheei o tal livro, que na verdade estava cheio de profecias. A última delas era “As Gêmeas”.