Entre Gregos e Romanos
11 Cap. 10
Não estava psicologicamente preparada para começar os testes que Mary havia se referido, nem tinha noção de que tipo de testes seriam esses, mas sabia que uma mente tranquila ajudaria muito e isso era o que eu não tinha após ler a maldita profecia, que havia grudado em minha mente.
Guardei o livro exatamente onde estava momentos antes e encaminhei-me até o refeitório, mesmo sem estômago para ingerir qualquer coisa que fosse. Sentei-me na mesa que havia sentado no jantar anterior e a única coisa que peguei para beliscar foi um pequeno cacho de uvas verdes, as quais não consegui comer mais do que 5, num período consideravelmente longo. Minha mente requeria todas as forças necessárias, toda a minha atenção estava em desembaralhar a porcaria da profecia que eu tinha acabado de ler, só que a cada novo pensamento a confusão aumentava, o que me fez crer que se eu continuasse com isso sem nenhuma anotação, eu ficaria louca em poucos minutos, por isso peguei um guardanapo e uma caneta (que por algum motivo bem aleatório estava na mesa) e anotei a profecia, bem como algumas suposições malucas que iam surgindo. Assim que ouvi passos perto de mim, larguei a caneta e dobrei o guardanapo, enfiando-o no bolso da minha calça.
Sorri amigavelmente quando reconheci Lua, a garota da parede de escalada, afastando uma cadeira da mesa em que eu me encontrava e sentando-se.
–Como você tá?
–Tá tudo certo, só bati a cabeça na hora que caí, mas... bom, tô inteira – deu um sorriso sem graça -. Preciso confessar algo: eu sou péssima com altura. – olhou ao redor, temendo que alguém tivesse ouvido.
–Mas você não é filha de Zeus?
–Sou. Por isso mesmo ninguém sabe disso. Ninguém além de você e do Gui, meu meio irmão semideus.
–Você não precisava ter me contado isso, parece bem pessoal... – julguei que aquela confissão foi um tanto estranha, considerando a situação.
–Não, eu preciso começar a admitir isso, mas é muito complicado. É como ser do filho de Atena e ser um tapado, ou de Poseidon e ter medo de nadar, ou de Hades e ter medo do escuro... Coisas assim, que se você assume, você vira um total fracassado e ninguém mais olha na sua cara. É bem complicado. Achei que, sei lá, como você é nova aqui, não teria esses pré-julgamentos, então seria uma boa te contar.
–Ah, sim. Pode ficar tranquila. Seu segredo está a salvo. – pisquei de maneira cúmplice.
–Obrigada, de verdade. É um ótimo começo... – seus olhos baixaram para o cacho quase intacto – Não vai comer isso? A hora do jantar está quase no fim.
–Estou com coisa demais na cabeça e isso está atrapalhando minha fome, então, não, não vou comer. – suspirei, porque elas estavam realmente suculentas e em outras ocasiões, teria comido dois cachos facilmente.
–Espero que essas preocupações te abandonem logo. – após isso, levantou-se e saiu em direção aos chalés, bem na hora que todos os campistas levantaram-se e fizeram o mesmo.
***
Ao chegar na Arena, apenas Mary, as caçadoras e 24 campistas — 2 para cada deus olimpiano (menos Hera e Ártemis), 2 para Hades e 2 para os deuses menores – estavam lá. Comecei a tremer e senti minha respiração ficar mais pesada, minha vontade de sair correndo para Nova Roma nasceu e começou a crescer desesperadoramente. Todas aquelas pessoas me olhando cheias de expectativas e julgamentos faziam com que meu estômago – graças aos deuses – vazio desse cambalhotas e se contorcesse freneticamente.
–Millene. – gelei ao ouvir meu nome sendo dito de maneira tão severa por Mary, que deu um passo a frente das outras pessoas. – Hoje os 12 testes serão iniciados para instigarmos seu pai olimpiano a se mostrar. Você está preparada? – Consegui assentir levemente, o que foi uma mentira enorme. – Então começaremos com o teste número 1. Guilherme e Luana, expliquem para ela.
Luana era a Lua, que estava apertando nervosamente a mão do garoto – Guilherme, provavelmente o “Gui” que ela falara mais cedo. O rosto dele mostrava serenidade, e ao mesmo tempo firmeza. Típico de um líder, típico de Zeus.
–O teste de hoje nos mostrará sua aptidão para o nosso chalé, o chalé 1, de Zeus. Ele consiste em escalar o muro de escalada – Guilherme revirou os olhos por sua redundância – e lá de cima focar e tentar trazer chuva para o acampamento.
Aquilo parecia simplesmente absurdo. Se eu era filha de Baco, a forma romana de Dionísio, por que não me assumirem logo como filha de sua versão grega? Claro, Mary já havia explicado que foi um erro me colocarem em Nova Roma, como podiam ter certeza de que não nomearam erroneamente meu pai? As chances disso ter acontecido eram pouquíssimas, mas não inexistentes, e aqui no acampamento, eles só trabalham com certezas em relação a isso. Enquanto não fosse reclamada, não era filha dele.
Subi o mais rápido que pude a tal parede, o que não foi uma tarefa difícil, já que entre todas as atividades compartilhadas entre meu antigo e meu novo lar, essa era a que eu mais gostava. O grande problema foi no topo daquele lugar, que era realmente muito alto, quase fez com que eu me sentisse nauseada, quase. Sabia que era absurdo o que estava por vir, mas mesmo assim tentei. Limpei minha mente de tudo o que havia acontecido durante os últimos dias e tentei me conectar com Zeus, pedir pela chuva e toda a papagaiada que me instruíram a fazer. O que aconteceu? Exato. Absolutamente nada. Olhei para baixo e gritei que aquilo era inútil e não daria em nada. Me mandaram descer.
–Ok, volte para seu quarto. Amanhã, após o café da manhã, nos encontre no mesmo lugar. Faremos mais testes.
–Ok – e voltei.
***
Acordei mais cansada do que estivera ao ir dormir, com mil coisas fervilhando em minha mente, e sem ter a mínima ideia do que fazer, sem saber quem procurar pra poder conversar sobre a profecia que eu havia lido e montado todo o tipo de teorias na noite anterior. A Thay seria uma boa opção, já que tudo indica que nós duas somos as gêmeas, mas não queria assustá-la ou dar falsas esperanças. Sabia que o mais correto seria falar com alguém do chalé de Atena, já que eles são realmente bem inteligentes, mas também são extremamente corretos, o que poderia me trazer certos problemas, caso eles resolvessem que Mary tinha que ficar sabendo do que eu fiz. Foi nesse momento que lembrei de Peach. A pequena garota loira que havia sido tão prestativa comigo no momento da primeira aparição das caçadoras. Por mais que ela fosse inteligente e correta como todas as pessoas do chalé 6, omissão não era seu forte.
Entrei sorrateiramente no escritório e achei o livro com os cronogramas de todos os chalés. A primeira atividade do dia do chalé 6 era na quadra de vôlei, então era pra lá que eu iria.
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