Entre Grades e Destinos
25 O Altar das Ilusões e o Início do Fim
O espelho de moldura dourada na salinha paroquial da pequena igreja do Vermont refletia a imagem de uma noiva deslumbrante, mas completamente perdida. Ashley usava um vestido de renda branca clássica, com um véu longo que caía sobre os ombros. Seus olhos azuis, no entanto, pareciam flutuar em um mar de ansiedade. Ela segurava o buquê de jasmins com tanta força que os nós dos seus dedos estavam brancos.
Ela havia aceitado seu destino. O afeto que desenvolvera por Damon nos últimos meses a blindara contra a culpa, e ela estava pronta para dar aquele passo para proteger Pietro.
De repente, o som do trinco da porta pesada de madeira ecoou pelo ambiente. Ashley achou que fosse Sofia, mas quando ergueu os olhos para o espelho, o ar sumiu de seus pulmões. Suas funções vitais pareceram congelar.
Matteo Blake estava parado na porta.
Ele usava um terno escuro impecável, com a postura rígida e implacável do Administrador Geral que se tornara. Seus olhos escuros, outrora cheios de paixão quando a olhavam, agora eram duas pedras de gelo cortantes. Ele fechou a porta atrás de si com um clique suave e caminhou lentamente até parar a dois passos dela, observando-a através do reflexo.
— Você está linda, Ashley — Matteo disse, a voz saindo grave, oca, sem qualquer traço de emoção humana. — O branco realmente combina com a sua nova vida de mentiras.
Ashley virou-se devagar, o coração martelando contra as costelas. Ver o homem que um dia fora o amor de sua vida a machucava, mas a farsa precisava ser mantida. Ela ergueu o queixo, endurecendo as feições.
— O que você está fazendo aqui, Matteo? — ela perguntou, tentando manter a voz firme. — Damon me disse que você viria, mas eu não achei que teria a audácia de entrar no meu camarim.
— Eu vim ver com os meus próprios olhos o tamanho da sua traição — Matteo deu um passo à frente, e a dor oculta em seu olhar era devastadora. — Eu passei dois anos achando que você tinha fugido de Nova York por medo, por racionalidade. Mas a verdade é bem mais suja, não é? Você me usou. No minuto em que me deu as costas, correu para a cama do meu irmão.
Ashley sentiu uma facada no peito, mas se lembrou das fotos, do detetive e de tudo o que Damon criara. Ela não podia recuar. Se desmentisse a história, Pietro estaria morto.
— Eu não te usei, Matteo. Eu simplesmente caí em si — ela respondeu, a voz fria como o inverno do Vermont. — Você era o caos, a destruição. O Damon me deu o que você nunca pôde dar: estabilidade, um lar, segurança. Ele me acolheu quando eu mais precisei.
— Ele te embreagou, Ashley! Ele te tomou na mesma semana em que nós terminamos! — Matteo esbravejou em um sussurro tenso, aproximando o rosto do dela. — E você gerou um filho dele. Um bastardo que carrega o sangue do homem que eu mais odeio. Como você pôde ser tão baixa?
— Não fale do meu filho! — ela rebateu, os olhos faiscando. — E não seja hipócrita. O passado acabou, Matteo. O que eu vivi com você foi um erro, um impulso imaturo. Os meses passaram, e o Damon se provou um homem de verdade. Ele é carinhoso, atencioso e ama o Pietro. Eu aprendi a conhecê-lo. Eu mudei. E hoje... hoje eu amo o Damon. O que eu sentia por você é passado, poeira. Eu vou me casar com o homem que eu amo de verdade, e você é apenas uma lembrança incômoda.
Matteo recuou um passo, como se tivesse levado um soco físico. A confirmação de que ela amava Damon rasgou o que restava de sua alma. Ele soltou uma risada curta, gélida, e ajeitou o paletó.
— Excelente, Dra. Park. Obrigado pela honestidade — Matteo sibilou, a carranca fria retornando ao seu rosto. — Viva o seu conto de fadas com o meu irmão. Mas lembre-se: no mundo dos Blake, tudo o que é construído com sangue, com sangue termina. Tenha um bom casamento.
Ele girou nos calcanhares e saiu batendo a porta, deixando Ashley desabar em lágrimas silenciosas sobre a mesa de maquiagem. O preço da segurança de Pietro havia sido enterrar o amor de Matteo sob uma pilha de mágoa.
Matteo marchou pelo corredor da igreja e saiu para o pátio lateral, onde o ar frio bateu em seu rosto. Suas mãos tremiam levemente de ódio e dor. Ele puxou o celular criptografado do bolso e discou o número do Agente Miller.
— Miller — Matteo disse, a voz cortante como uma lâmina. — Está tudo pronto. A cerimônia vai começar. Como estão as coisas para a recepção?
Do outro lado da linha, o agente do FBI respondeu com firmeza:
— O perímetro do salão de festas já está cercado, Blake. Temos trinta agentes disfarçados de garçons e convidados. Mandados de prisão de segurança nacional expedidos para Ricardo, Damon e os principais cabeças da rota do Vermont. O cerco está fechado.
— Ótimo — Matteo sorriu de forma cruel, os olhos escuros fixos no horizonte. — O FBI tem o meu ok. Hoje, o império Blake cai na lama. E a Ashley... a Ashley vai ficar completamente sozinha, sem o maridinho que ela tanto ama. Eu vou assistir a queda de todos eles.
Minutos depois, a marcha nupcial começou a ecoar pelos altos-falantes da pequena igreja. Na entrada da nave central, Ashley segurava o buquê, prestes a dar o passo definitivo. Mas quando o homem que deveria acompanhá-la se postou ao seu lado, ela congelou de puro terror.
Não era Arthur Miller. Era Ricardo Blake.
O velho patriarca vestia um terno de gala, exibindo um sorriso cínico e vitorioso. Ele estendeu o braço robusto para ela. Ashley, sem saída diante dos convidados que olhavam, entrelaçou seu braço ao dele, o corpo inteiro tremendo.
À medida que caminhavam lentamente pelo tapete vermelho, Ricardo inclinou a cabeça levemente na direção de Ashley, sussurrando entre os dentes, sem perder o sorriso simpático para os fotógrafos:
— Você achou que era esperta, não é, doutorinha? — Ricardo sibilou, a voz mansa e mortal. — Eu mandei investigar a clínica do Vermont logo após a notícia do noivado. Eu sei de tudo, Ashley. Sei que o Pietro não é filho do Damon. A conta não bate. Aquele menino é o sangue do Matteo.
Ashley quase tropeçou no tapete, o pânico paralisando suas pernas.
— Por favor... — ela implorou em um sussurro desesperado.
— Cale a boca e continue andando, sua vadia — Ricardo ordenou, apertando o braço dela com força o suficiente para deixar um hematoma. — Você vai ficar quieta. Vai subir naquele altar, vai dizer sim e vai agir pelo resto da sua vida como se o Pietro fosse do Damon. Eu não vou deixar o Matteo saber que tem um herdeiro, porque ele precisa continuar sendo a minha máquina financeira em Nova York. Você agora pertence ao Damon. Se abrir a boca para o Matteo, eu mato os dois.
Eles chegaram ao altar. Damon esperava com um sorriso radiante, de braços dados com Selina, sua mãe. Ricardo pegou a mão de Ashley e a entregou formalmente ao filho mais velho.
— Cuide bem da sua esposa, meu filho — Ricardo disse em voz alta, antes de se inclinar no ouvido de Damon e sussurrar: — Eu já sei do moleque. Depois conversamos.
Damon tencionou os ombros por um segundo, mas manteve o sorriso. Ricardo afastou-se, caminhando até o banco da frente e sentando-se ao lado da esposa com a postura de um rei.
No banco oposto, Matteo assistia à cena. Seus punhos estavam tão cerrados que as unhas cortavam a palma de suas mãos. A vontade de pular naquele altar e matar Ricardo, Damon e até mesmo Ashley pelo que considerava uma traição imperdoável quase o fez perder o controle. Mas ele respirou fundo. O plano com o FBI estava em movimento.
A cerimônia seguiu seu curso. O padre proferiu as palavras tradicionais sobre amor e fidelidade.
— Damon Blake, você aceita Ashley Park como sua legítima esposa?
— Aceito — Damon respondeu, olhando nos olhos dela com posse e triunfo.
— Ashley Park, você aceita Damon Blake como seu legítimo marido?
Ashley olhou para o fundo da igreja, onde Sofia segurava Pietro no colo. Ela engoliu o próprio orgulho, olhou para Damon e proferiu a sua sentença:
— Aceito.
Os aplausos ecoaram pela igreja de madeira. Damon a puxou e a beijou com paixão, selando o matrimônio diante de todos. Eles eram, oficialmente, marido e mulher. Mal sabiam os Blake, e mal sabia a própria Ashley, que o verdadeiro gran finale não seria ali no altar sagrado, mas sim na recepção da festa, onde o inferno planejado por Matteo estava prestes a desabar sobre suas cabeças.
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