Entre Grades e Destinos
26 O Baile de Sangue e o Fim da Linha
A recepção do casamento acontecia no suntuoso salão do hotel de luxo do Vermont. A atmosfera, para os convidados da cidade, era de pura sofisticação e alegria. Garçons circulavam com taças de champanhe, risadas ecoavam e a música suave de um quarteto de cordas preenchia o ambiente. Na mesa principal, Ricardo e Selina Blake brindavam à expansão de seus negócios, enquanto Damon mantinha o braço firmemente ao redor da cintura de Ashley, ostentando-a como seu maior troféu.
Ashley mantinha o sorriso ensaiado, mas seus olhos buscavam constantemente o canto do salão, onde Sofia segurava o pequeno Pietro. A ameaça de Ricardo no altar ainda ecoava em sua mente como um sussurro de morte.
— Chegou a hora, minha linda — Damon sussurrou no ouvido de Ashley, puxando-a pela mão. — A dança dos noivos.
A música mudou para uma valsa lenta e melancólica. Os convidados abriram um círculo no centro da pista. Damon envolveu Ashley em seus braços, conduzindo-a pelo salão com precisão. Por um breve momento, enquanto olhava nos olhos escuros de Damon e sentia o toque firme, mas agora atencioso dele, Ashley permitiu-se relaxar. O afeto que cultivara por ele nos últimos meses era real; não era a paixão avassaladora que sentira por Matteo, mas era um amor construído na convivência, na proteção e no cuidado com seu filho.
De repente, o som estridente de palmas lentas e ecoantes cortou a música.
O quarteto de cordas parou de tocar. Os convidados viraram-se, confusos. Vindo da entrada principal, Matteo Blake caminhava em direção ao palco improvisado da banda, batendo palmas com um sorriso gélido e assustador no rosto. Ele subiu os degraus, tomou o microfone das mãos do vocalista e encarou a plateia, fixando os olhos em Ricardo, Damon e Ashley.
— Que cena linda. Um brinde ao amor, à família... e às mentiras — a voz de Matteo ecoou poderosa pelos alto-falantes. O salão mergulhou em um silêncio sepulcral. — O teatro de vocês foi divertido, mas a cortina está prestes a fechar.
Damon deu um passo à frente na pista de dança, o rosto contraído em fúria, protegendo Ashley atrás de si.
— Que porcaria você está fazendo, Matteo?! Ficou louco? Saia da porra desse palco! — Damon esbravejou.
— Cala a boca, Damon! Passou o tempo de você falar! — Matteo rugiu no microfone, a voz carregada de todo o ódio entalado em seu peito por dois anos. Ele enfiou a mão no paletó e, em vez de uma arma, puxou um distintivo dourado e uma credencial, erguendo-os para que todos vissem. — Eu não sou apenas o administrador das finanças de vocês. Eu sou um agente infiltrado do FBI.
Gritos de choque ecoaram pelo salão. Ricardo Blake levantou-se da mesa principal em um solavanco, o rosto vermelho de fúria.
— Matteo... seu herdeiro maldito... você nos traiu?! — o velho mafioso sibilou.
— Eu limpei a minha alma, Ricardo! — Matteo rebateu, os olhos injetados de sangue. — Passados três anos de espionagem, eu cataloguei cada porto, cada grama de droga, cada conta na Suíça. O império dos Blake está destruído. Ricardo Blake, Damon Blake e, consequentemente, Selina Blake... vocês estão presos por crimes contra a segurança nacional. O cerco acabou.
Nesse exato momento, as portas laterais do salão foram arrombadas. Dezenas de agentes do FBI armados com fuzis invadiram o local, gritando ordens de prisão. Os convidados civis entraram em pânico, correndo e se jogando no chão. No canto do salão, o pequeno Pietro, assustado com o barulho e os gritos, começou a chorar alto, estendendo as mãozinhas em direção à pista de dança:
— Papai! Papai! — o menino gritava por Damon.
Ashley, tomada pelo pânico materno, correu em direção ao filho, arrancando-o dos braços de Sofia e abraçando-o contra o peito, tentando cobrir os ouvidos da criança.
No centro da pista, a discussão entre os irmãos atingiu o ápice.
— Você é um homem morto, Matteo! Você destruiu a nossa família por causa de uma vadia! — Damon gritou, os olhos ensandecidos de raiva.
Em um movimento rápido e desesperado, Damon levou a mão à cintura para sacar sua arma. Matteo, antecipando o movimento com reflexos cirúrgicos, avançou dois passos e desferiu um soco brutal e armado com a base da pistola diretamente na têmpora de Damon. O impacto foi seco. Damon cambaleou para o lado e desabou no chão, desacordado, sangrando pela cabeça.
— Damon! — Ashley deu um grito dilacerante ao ver o marido cair.
Ao ver o filho mais velho ser derrubado, Ricardo Blake perdeu completamente o controle. Ele puxou um revólver do paletó e apontou diretamente para a cabeça de Matteo.
— Eu devia ter te matado no berço, seu bastardo! — Ricardo gritou.
Antes que Ricardo pudesse puxar o gatilho, o Agente Especial Miller, que liderava a invasão pelo flanco esquerdo, disparou duas vezes. Os tiros atingiram a cabeça de Ricardo Blake. O patriarca da máfia tombou para trás sobre a mesa de doces, estraçalhando os cristais, o sangue manchando as toalhas brancas. A máfia Blake de Nova York estava oficialmente decapitada.
— Não! Ricardo! — Selina Blake gritou, o desespero de perder o marido e o império transformando seu rosto em uma máscara de demônio.
Ashley, horrorizada com o banho de sangue, correu até o corpo estendido de Damon. Ela se ajoelhou no chão de mármore, ignorando o perigo, e colocou a cabeça dele em seu colo. Suas lágrimas caíam sobre o rosto ferido do homem.
— Damon... acorda, por favor, não me deixa... — ela soluçava, sentindo seu coração sangrar de verdade. Ela havia aprendido a amar aquele homem; não era o mesmo amor que sentira por Matteo, mas era um sentimento real de cumplicidade, o homem que fora seu porto seguro no momento mais sombrio. E agora ele estava ali, destruído.
No caos do salão, Selina, cega pelo ódio, ajoelhou-se perto do corpo do marido e pegou o revólver caído de Ricardo. Ela girou o corpo e apontou a arma diretamente para as costas de Ashley, que chorava sobre Damon.
— A culpa é sua, sua loira maldita! Você destruiu a minha família! — Selina berrou, prestes a atirar.
Matteo, vendo a cena do palco, não hesitou. Ele ergueu sua pistola e disparou duas vezes contra a própria mãe. Os projéteis atingiram o peito de Selina, que caiu sem vida ao lado do marido. O silêncio finalmente se instalou no salão, quebrado apenas pelos soluços de Ashley e o choro de Pietro.
No dia seguinte, a chuva fina e persistente do outono do Vermont caía sobre o cemitério local. Três caixões de madeira escura desciam simultaneamente para as covas rasas na terra lamacenta: Ricardo, Selina e Damon. Apenas algumas poucas pessoas estavam presentes, a maioria agentes federais vigiando o perímetro.
Ashley estava de pé na beira da cova de Damon, usando um casaco preto longo. Em seu colo, o pequeno Pietro chorava baixinho, abraçado ao pescoço da mãe, sentindo a tristeza do ambiente, embora não entendesse a totalidade da tragédia.
Quando os coveiros começaram a jogar as primeiras pás de terra sobre o caixão de Damon, Ashley fechou os olhos, sentindo uma dor oca no peito. O homem que a chantageara, mas que depois a amara e criara seu filho, agora era apenas poeira.
A cerimônia acabou. As poucas pessoas começaram a se afastar. Matteo, vestindo um sobretudo escuro, caminhou lentamente até parar ao lado de Ashley. Ele olhou para o pequeno Pietro e depois focou seus olhos escuros e cansados no rosto pálido da mulher.
— Ashley... — Matteo começou, a voz saindo baixa e rouca. — O que aconteceu aqui... era o único jeito de acabar com o inferno deles. Eu sei que você me odeia agora, mas... se você precisar de qualquer coisa, dinheiro, segurança, um lugar para ir... é só entrar em contato comigo. O Pietro... o Pietro é meu sobrinho. Ele merece ser criado bem, longe de tudo isso. Eu vou prover para vocês.
Ashley virou o rosto devagar, encarando Matteo com um olhar frio, desprovido de qualquer afeto do passado.
— Eu não preciso de você, Matteo. E não preciso dos Blake para absolutamente nada na minha vida — ela respondeu, a voz cortante como o gelo daquelas montanhas. — Vocês trouxeram o sangue e a morte para a minha porta duas vezes. Fique longe de mim. Fique longe do meu filho.
Sem dar tempo para réplicas, Ashley girou nos calcanhares com Pietro nos braços e caminhou em direção ao carro de Arthur Miller, deixando Matteo sozinho sob a chuva, colhendo os frutos amargos de sua vingança.
No final da tarde, Ashley entrou em sua casa no centro da cidade. O silêncio do imóvel era sufocante. Ela caminhou até o banheiro, deu um banho morno e demorado no pequeno Pietro, tentando lavar o cheiro de tragédia de suas peles. Vestiu o menino com um pijama confortável, deu-lhe uma mamadeira e o colocou no berço. Pietro, exausto de tanto chorar, pegou no sono rapidamente.
Ashley voltou para a sala de estar. A lareira estava apagada, tornando o ambiente frio. Ela sentou-se no centro do sofá, o mesmo sofá onde tantas vezes Damon sentara para massagear seus pés, para brincar com Pietro ou para lhe trazer taças de vinho após um dia cansativo de trabalho.
Ela olhou para a mesa de jantar vazia, onde o buquê de rosas que ele trouxera meses atrás já havia murchado. Uma onda avassaladora de solidão e saudade a atingiu em cheio.
Damon havia realmente entrado em seu coração. Ele havia quebrado suas barreiras com persistência, carinho e com o amor sincero que demonstrara pelo menino. Ele se tornara o seu pilar, o homem daquela casa. E agora... agora ela estava completamente sozinha em uma casa vazia, sem saber o que fazer do futuro, sem saber como explicar para o filho que o "papai" nunca mais cruzaria aquela porta. Ashley encolheu as pernas contra o peito, escondeu o rosto entre os joelhos e chorou o pranto da mais profunda incerteza, perdida na escuridão que a máfia deixara para trás.
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