– Vamos logo, Charlie! Desse jeito vamos perder o avião! — gritou Sarah.

– Só tenho que conferir mais uma coisa. Vá descendo e já peça o táxi, te encontro lá embaixo.

– Tudo bem, mas não demore.

Charlie e Sarah sempre tiveram um bom relacionamento. A mãe de Charlie havia falecido quando ele tinha apenas cinco anos. Seu pai e Arya, a mãe de Sarah, estão juntos há oito anos e ele a considera como uma verdadeira mãe.

Depois de algum tempo ele conseguiu achar o que estava procurando. Uma pequena bússola de bolso que havia ganhado de sua mãe quando a viu pela última vez, antes dela partir numa viagem que ninguém imaginava que acabaria sendo sem volta. Charlie ainda se lembrava de suas palavras, "Meu filho, quero que fique com isso. Para que quando tudo pareça estar perdido, você ainda mantenha a esperança".

– Eu disse para não demorar! O táxi que estava aqui acabou de se mandar — disse Sarah, dando um tapa na cabeça de Charlie. O que era difícil, pois ela era muito mais baixa que ele.

– Desculpe. Agora quer parar de escândalo e entrar logo no táxi? Desse jeito vamos perder o avião. — disse Charlie, rindo.

– Ah se eu pudesse usar magia fora da escola. — Sim, magia. Por mais inacreditável que pareça esses dois são bruxos. Bruxos de verdade, com varinhas e tudo. Mais adiante você vai conhecer mais sobre eles e conseguir entender melhor sobre essa bizarrice toda, mas agora, voltemos à história.


Com sorte conseguiram chegar a tempo da última chamada para o embarque.


– Conseguimos. Eu disse que íamos conseguir, mas você não me ouve. — disse Charlie à Sarah, que ainda estava meio brava com ele.



– É, agora senta e fica quieto porque estou me segurando para não pegar minha varinha — respondeu Sarah empurrando Charlie no banco do avião e colocando as malas no compartimento que havia acima dos acentos.

Ei, Sarah, dá pra acreditar que daqui a algumas horas estaremos em Nova York? — disse Charlie, tentando animar a irmã. — E poderemos ver tudo de antigo e chato que existe naquele Museu de História Natural.


– Não é nada chato querer saber mais sobre o passado e mal vejo a hora de poder descer desse avião, nem decolamos e já estou passando mal... — parece que o plano de Charlie de animá-la não deu muito certo, mas pelo menos ela estava enjoada demais para se zangar com ele.

Após horas de viagem e de idas e vindas de Sarah do banheiro, finalmente desembarcaram no Aeroporto de Nova York. No caminho ao hotel, ficaram completamente impressionados com a cidade. Ao chegarem, desfizeram as malas e se jogaram na cama caindo no sono no mesmo instante, sem imaginar o que iria de acontecer aos dois no dia seguinte.

***

– Vamos, Thomas! Pelos deuses, depois dizem que são as garotas que se atrasam — disse Jane, impaciente.

– Calma, não tenho culpa se sou um cara precavido... Ambrosia, néctar, água. Jane? Você pegou a lanterna?

– Que droga, Thomas. Peguei, agora vamos logo!

– Tudo bem, já estou indo.


Demoraram mais um cinco minutos até saírem da proteção do Acampamento porque Thomas havia esquecido de pegar seus dracmas. Depois de um tempo andando até o ponto de ônibus mais próximo, com Thomas se queixando a cada cinco minutos, os dois ficaram esperando pelo próximo que os levaria à Manhattan e de lá iriam a procura do tal garoto que Quíron mencionou. Segundo ele, esse cara tinha chances de ser um semideus, e um dos bons, mas estava em perigo e precisava de ajuda. Então Quíron decidiu que a melhor escolha seria mandar duas pessoas que se odeiam, ajudá-lo. Esse cara é muito sábio.



O ônibus chegou após vinte minutos de puro tédio, tanto para Thomas quanto para Jane. Já que os dois tinham parado de discutir não sobrava mais nada pra fazer. Encontraram dois lugares no fundo do ônibus onde poderiam passar despercebidos.

– Não acha estranho? — perguntou Jane.


– O quê?

– Não termos encontrado nenhum monstro até agora.

– Acho, mas também não podemos reclamar.

Passou algum tempo até que alguém voltasse a falar, e esse alguém foi Jane.

– Thomas...

– Fala.

– Eu andei pensando e, acho que o motivo de termos sido mandados juntos nessa missão foi para melhorarmos nosso comportamento.

– Que não é dos melhores quando estamos juntos.

– Exato. E acho que, pelo bem da missão, e desse semideus que vamos resgatar, podiamos tentar nos dar bem.

– Concordo plenamente.

E a conversa se encerrou por aí. O resto da viagem seguiu estranhamente calma, os dois ainda estranhavam o fato de nenhum monstro ter tentado devorá-los mas também estavam felizes por isso, por que afinal de contas, quem é que gosta de ser perseguido por um monstro horrendo e de trezentos mil anos de idade?

Chegaram à Manhattan quando já eram duas horas, então decidiram parar para fazer um lanche rápido num Starbucks que havia ali perto.

Enquanto Thomas pedia um café para os dois, Jane sentou-se em uma mesa próxima a janela. Ficou observando as pessoas andando meio que correndo, atrasadas para os seus compromissos, os carros passando pela rua, as crianças correndo... Mas espere, aquilo era uma Quimera? E estava perseguindo um garoto que parecia não ter mais de onze anos.

– Thomas! Vem aqui. Agora. — gritou Jane enquanto corria para fora do café, atraindo a atenção de todos.

– Mas eu quero um muffin, tem desconto se levarmos quatro — disse ele, correndo atrás dela.

– Esquece o muffin, acho que encontramos nosso semideus.

– O que você quer diz... — Thomas não precisou terminar a frase porque quando olhou para onde Jane apontava entendeu o que estava acontecendo.

Uma quimera estava bem ali a alguns metros de distância dos dois, mas parecia nem notar a presença deles. Seu olhar estava fixo no garoto a sua frente.