Entre Eles

8 VII - Surpresas


Entre Eles

Capitulo VII — Surpresas

A porta se abriu na mesma velocidade de sempre, as chaves foram esquecidas em cima da mesinha logo em seguida passos cansados foram dirigidos em busca da cama enorme que havia no último quarto do corredor. Estava com fome, mas estranhamente não tinha vontade nenhuma de comer. A porta do quarto antecedente ao seu estava aberta e ela teve uma rápida visão do que havia em cima da cama, mas logo quando a informação foi processada ela fez o caminho de volta batendo o pé no batente. O cansaço se foi, a fome não deixou nenhum vestígio, agora todo o seu corpo e sua cabeça estavam em alerta.

– Que malas são essas, Hermione?! – Luna quis saber irritada.

Uma Hermione surpresa saiu do banheiro que havia no seu quarto com um papel amarelado numa mão e uma caneta na outra, sua expressão era tal qual a de quem acabou de ser pega com a mão no crime.

– Achei que você só chegaria mais tarde... – tentou começar.

– O que você pensa que está fazendo?

– Luna... Achei que não precisaria vê-la antes de ir...

– Ir? – A loirinha entrou de vez no quarto – Do que você está falando, Hermione?

– Eu preciso sumir, Luna.

– Seja mais clara, garota. Sumir pra onde? Por quê?

A morena baixou a cabeça engolindo em seco. O papel que tinha na mão já estava todo preenchido de tinta de caneta, eram as respostas para as perguntas de Luna que estavam ali. Pensou que talvez saindo o mais rápido possível do apartamento, poderia evita-la e causar menos dor para ambas, mas nem isso era capaz de fazer.

– Ele sabe onde estou... – ela disse junto com um choro ainda preso no fundo da garganta.

– Ah não... – Luna suavizou a expressão.

– Eu tenho que ir, Luna. Tenho que sumir de novo... Pra qualquer lugar longe daqui! Só assim ele me deixa em paz, só assim você fica fora disso. Não quero ninguém numa fria por minha causa.

– Você não acha que está sendo preciptada?

– Preciptada, Luna? – Hermione riu em deboche. – A cada pessoa que eu conheço, a cada pessoa que se aproxima de mim... Todas elas estão em perigo. Eu não posso deixar isso acontecer.

– Querida, por favor! Vamos nos acalmar e pesar um pouco com a cabeça!

– Não há tempo, Luna! Só me deixe ir embora, não quero mais incomodá-la...

– Tá, Hermione! – Luna bufou – Mas por quanto tempo, por quanto tempo ele vai te deixar em paz? Quanto tempo até ele te achar de novo e você precisar mudar tudo mais uma vez?

– Eu não sei, Luna! Não sei! O que eu sei é que eu não posso deixar que ele me infernize e muito menos a vocês por sua causa!

– Mais do que está fazendo?! Do que está falando?! Tem que dá um basta nisso! Tem que fazê-lo parar, você não pode viver assim pra sempre! Não pode viver com medo, isso é doentio!

Um longo suspiro na tentativa de controlar as lágrimas foi dado por Hermione, mas em vão, porque logo seus olhos estavam ensopados e sua respiração bastante irregular.

– E... E o que... O que você... sugere? – perguntou entre soluços, erguendo os olhos para a amiga.

Luna suspirou, aproximando-se de Hermione sem desviar o olhar, retirou com cuidado o papel e a caneta de suas mãos e os descansou na cama retornando para um abraço de conforto.

– Chega de desistir da sua vida, Mione. – ela disse enquanto a morena desabava em seus ombros. – Você tem a mim e a lei de Londres para protege-la... Chegou a hora de lutar contra isso, amiga. Não permitirei que você sacrifique sua faculdade e suas chances de ser feliz por medo. Estarei sempre aqui para ajudá-la. E tenho minhas suspeitas de que não há mais só eu para fazer isso.

.:x:.

Dois toques na porta a despertaram de um breve cochilo em cima do teclado do notbook. O susto a fez perder a noção por alguns segundos, mas logo tratou de arrumar o cabelo ruivo e o óculos no rosto.

– Entre – ordenou endireitando a postura na cadeira.

– Trouxe seu almoço. – O ruivo se pôs para dentro da sala erguendo dois pacotes brancos. – Espero que não se importe de eu acompanha-la nessa refeição...

– Mas é claro que não! Você dirigiu? – A expectativa de repente tomou conta dela.

– Não. – ele se sentiu mal com a resposta – Fui andando.

– Sete quadras, Ronald?

A decepção na voz de Gina não o deixou responder, o ruivo apenas se concentrou em tirar as duas marmitas e os talheres de dentro das sacolas e distribuir para os dois. Decidindo não discutir, ela tratou de tirar os papeis que estavam ali por cima para que não houvesse perigo de nenhum relatório chegar na Direção Geral manchado de comida.

– Você sempre sabe o que me trazer para almoçar! – Exclamou Gina descobrindo o que havia dentro da sua marmita: frango frito, purê de batatas, arroz, feijão e salada.

– Claro. – Ron lhe sorriu saboreando a própria refeição, o mesmo da irmã dessa vez. – Depois que descobriu aquele restaurante brasileiro, você não come outra coisa. Já pensou em se mandar para lá?

– Obrigada de qualquer forma, seu grosso.

Comeram em silêncio, Gina não sabia o quanto estava com fome até a primeira colher de purê se desmanchar em sua boca. Só depois de saborear cada opção do seu prato, foi que ela percebeu algo na postura e no olhar do irmão enquanto este comida. Parecia perdido e ao mesmo tempo desesperado para se achar e para gritar por ajuda, o que a surpreendeu, porque havia séculos que Ronald não mostrava nada mais que o sentimento de frieza e agora, com apenas alguns dias, ela pode ver uma boa quantidade de emoções no olhar dele.

– Quer me contar alguma coisa? – a ruiva quis saber, falando tranquilamente para não assustá-lo.

– Você acha que eu a matei? — Ron largou o garfo e encarou Gina como um bichinho acuado.

Aquela pergunta certamente não era nada do que ela esperava, não da forma que foi pronunciada. Por um momento ela não soube do que se tratava.

– Do que está falando, Ron?

– Sabe muito bem do que, Gina. Por favor, me responda com sinceridade, com imparcialidade... Não como minha irmã, diga a verdade olhando nos meus olhos. Você acha que eu a matei?

Então a ruiva soube exatamente do que se tratava. A surpresa não poderia ter sido maior, porque (a) Ronald jamais tocara naquele assunto depois de tantos anos, jamais quis conversar com ninguém, nem mesmo com ela que sempre foi sua fiel escudeira e (b) porque sabia que o irmão carregava fantasmas daquela noite que o destruiu e o transformou em alguém tão rude, mas achava que era apenas a dor da perda que ele nunca permitiu que cicatrizasse, nunca ela imaginou que ele se culpasse verdadeiramente pela própria desgraça.

– Não, Ron. – Gina o encarou profundamente, passando toda a sinceridade que conseguia. – Você não matou ninguém naquela noite, nada daquilo foi sua culpa.

Ele apenas abaixou a cabeça e deixou que algumas lágrimas fluíssem silenciosamente, ela não se conteve com aquilo, seus olhos também umedeceram e sua mão direita procurou a do irmão pela superfície da mesa.

– Então é isso que o atormenta todos esses anos? – ela questionou chorosa. O aceno em resposta de cabeça quase a desmoronou. – Por que, Ron? Por que escondeu isso pra si por todo esse tempo? Por que não procurou a devida ajuda? Por que fez isso com você meu irmão?

– Porque eu sempre achei que sobreviver aquilo foi uma sorte que eu não merecia porque eu causei todo o sofrimento, mas mesmo assim não poderia desperdiçá-la. Eu continuaria vivendo aqui porque foi me dada a oportunidade, mas por ter sido negado o mesmo a ela, eu no mínimo só merecia a miséria. Era ela quem devia sobreviver, Gina. Ela! Não eu!

Oh, Deus, ele estava falando! Em todos esses anos ele nunca disse uma palavra a respeito e agora ele estava ali se abrindo com ela, a cada frase que ele dizia era um pedaço que se quebrava no coração da irmã.

– Oh, Ron! Você não teve culpa, meu bem! – Gina se esforçava para não explodir num choro, ela sentia a dor dele agora mais do que nunca. – Por que não me deixou ajuda-lo antes, Ron? Meu Deus, se você está vivo é porque há mais coisas nesse mundo que você ainda não fez! Ron, você se destruiu por todo esse tempo porque achou que não merecia ser feliz já que ela não pode ser?

“Meu Deus, meu irmão! Lilá, foi feliz! Até o seu último suspiro ela foi feliz!”

Ron afastou a refeição e cruzou os braços sobre a mesa e apoiou a cabeça, seus ombros passaram a tremer pelo choro. Gina levantou-se e correu para abraça-lo por trás, oferecendo todo o apoio que podia.

– Estou sentindo algo novamente, Gina. Algo bom! Mas tento me convencer todos os dias que isso não me pertence, só que hoje eu percebo que não quero ter culpa... Eu tenho tanto medo desse “algo bom” ser a minha última chance em meio a tantas que desperdicei.

– Então não a deixe escapar, baby! Corra atrás do que quer que seja que te faça feliz, esqueça o passado. Está mais do que na hora de você exorcizar esses fantasmas...

– Eu não quero mais sentir essa culpa, Gina. – O ruivo choramingava, como um bebê. – Quero acreditar que posso fazer isso, quero acreditar que tudo naquela noite foi um grande acidente. Quero poder sorrir de novo sem me sentir tão mau...

– Oh, meu irmão... Seu sorriso é tão lindo que não há ninguém nesse mundo que possa julgá-lo quando você o expõe.

.:x:.

– Você só não era pra voltar daqui a um mês? – Harry foi rude.

– Sirva-se, querido. – Cho insistiu ignorando a pergunta mais uma vez.

O dois haviam escolhido a mesa mais distante e reservada do centro de convivência. Harry ainda estava puto com a intervenção inapropriada feita a pouco na sua conversa com Ginevra, ele não estava para joguinhos, havia cansado deles a muito tempo. Não estava afim de comer nada dos bolinhos e leite que ela tinha pedido, muito menos queria se demorar muito ali.

– Você foi desrespeitosa naquela sala, Chang, em todos os sentidos! – vociferou o moreno.

– Ora, Harry! Está fazendo uma tempestade em copo d’água... – defendeu-se com seu famoso sorriso presunçoso – E desde quando me chama pelo sobrenome?

– Não me faça ficar mais alterado do que já estou! Que tal só me dizer o quer comigo e pronto?!

Cho suspirou, sua expressão de menina mimada suavizou até ser substituída por uma seriedade perturbadora, Harry franziu o cenho estranhando aquela face que nunca vira nela.

– O que está acontecendo, Cho? – Por mais que não quisesse recordar de nenhum momento que viveu ao lado de Chang, Harry não tinha um coração de pedra, nem de longe. A seriedade e preocupação que tomando o ar dela o deixou incomodado.

– Você sabe que viajei depois da audiência, fui visitar minha irmã... – ela começou. – Adoeci na viajei, achei que era só uma simples gripe pela mudança de clima e fuso, mas nada estava funcionando. Consultei o médico da família, fizemos uma bateria de exames...

– Cho, — Harry avisou – não estou gostando do rumo desta conversa.

– Você acha que eu gosto?

– Quais foram os resultados, afinal?

– A gripe e febre eram de fato uma besteira, mas a fraqueza que veio junto era surreal. Foi descoberto uma massa no meu cérebro com as tomográficas para as fortes dores de cabeça que eram demais para ser sintoma de um leve congestionamento.

Harry tirou os óculos coçando os olhos com violência, numa tentativa meio que desesperada para despertar de qualquer que fosse a brincadeira. Mas quando seu foco repousou novamente em Cho Chang e sua expressão destruída, ele lamentou por não ser um mero pesadelo.

– Oh não... Cho. – Era difícil de acreditar.

– Sim, Harry. Eu tenho tumor no cérebro.

.:x:.

O telefone vibrou no seu bolso, acordando do que poderia ser o eterno transe no qual estava destinado a viver depois que Luna o deixou ali sentado, sozinho e perdido, no chão da biblioteca.

Okay! Estava sendo muito dramático. Já fazia quase uma hora que ela havia saido e que ele já devia ter feito o mesmo, mas sua cabeça ficou tão perdida em pensamentos relacionados com tudo o que estava acontecendo que ele simplesmente desconectou dessa realidade e ficou se perguntando pela milésima vez:

O que diabos eu quero com tudo isso?, pensou.

Quer dizer, ele não a conhecia, ela não lhe causara nem um mal e nem ele a ela, porém, sobre a última parte, sabia que era só questão de tempo. O caso mesmo era o porquê disso tudo que não o deixava em paz. Luna não era nenhuma manda chuva da faculdade, não era como ele e sua turma, ela vestia roupas estranhas, passava mais tempo na biblioteca do que qualquer outro lugar, andava sempre com uma ou duas amigas, não praticava nenhum esporte ou atividade artística extracurricular e até onde ele sabia, ela nem mesmo existia. Então por quê? Por que seus amigos teriam algum motivo para colocá-lo contra a parede e obriga-lo a fazer algum mal aquela garota que sem dúvidas não fazia mal a nem uma mosca?

Essas perguntas eram cada vez mais frequente, se fosse qualquer outra pessoa, Draco faria o que seus amigos lhe pediram sem nem olhar a quem, simplesmente faria. Mas o caso era diferente, Luna era diferente, quanto mais a conhecia, mais ele queria conhece-la e mais ele se sentia culpado pelo que estava armando.

O telefone continuava a vibrar no seu bolso, ele não queria atender, sabia perfeitamente quem era, mas não queria atender. Como se o responsável pela ligação soubesse disso, o celular continuou a chamar atenção, definitivamente, ele não iria perder a luta. E não o fez.

– Alô? – Draco perguntou com uma voz mal-humorada logo depois de ter tirado o aparelho ferozmente do bolso.

– Sr. Draco Malfoy? – A voz enjoada do outro lado da linha deu-lhe vertigem.

– Sim?

– Senhor, estou ligando a pedido do seu pai, Sr. Lucius Malfoy, para lhe lembrar do jantar marcado hoje à noite na faixa da 20h30min. O Sr. Malfoy adiciona que sua presença é de extrema importância, pedindo que não falte ou se atrase.

– Mais alguma coisa, Audry?

– Fui instruída a perguntar também se o senhor tem alguma preferência no cardápio dessa noite?

– Mais alguém além de mim e do meu pai estará presente? – O loiro perguntou se levantando. A voz enjoada de Audry, secretária do seu pai, o deixava irritado. Mas sua irritação não tinha nada a ver com a voz dela ou a sua face constante de gentileza, o que o deixava irritado era o chefe dela, que por acaso era o seu pai.

– Não sei lhe informar, senhor. O cronograma recebido está manhã só menciona o jantar, mas infelizmente não informa para quantas pessoas.

– Mas você não sempre sabe de tudo, Audry? Droga!

– Desculpe, senhor. – A voz da mulher do outro lado parecia abalada com a grosseria. – Mas hoje só sei o que estou lhe contando.

Draco respirou fundo com o celular ainda preso no ouvido. Seu pai estava tramando alguma para cima dele e isso de longe não era nada, nada bom.

– Esqueça. Apenas diga ao chefão que tentarei, ouviu bem? Tentarei chegar o mais cedo que puder. Pode dizer com todas essas palavras.

– Sim, senhor Malfoy. – Uma pausa, Draco achou que ela fosse desligar. Mas então a voz soou de novo. – Senhor?

– Hm?

– Desculpe, eu só queria lhe dizer que seria bom se o senhor realmente chegasse o mais cedo que puder. O senhor Malfoy não parece está de bom humor hoje.

– Ele nunca está, Audry