Entre Dois Mundos
3 Capitulo 03
Eu não fazia ideia do que ele estava pensando, o porquê dele querer que eu vá com ele, isso me deixava ainda mais curioso. Corro o mais rápido possível para a entrada que ele fez, mas ele já não estava mais a vista.
Olho para a floresta abaixo, mas a chuva dificultava a visão. Fiquei ali, parado, observando a chuva, imaginando como eu desceria dali sem voltar a escorregar, mas acabo desistindo no processo. Eu apenas me sento perto da entrada e fico ali observando a chuva até voltar a dormir.
Acordo com o sol no meu rosto, a chuva já havia parado e eu conseguia ouvir os pássaros cantando ao longe. Eu me levanto e vou até à entrada, talvez eu conseguia sair com mais segurança agora.
Vou descendo, devagar, fazendo o mesmo esquema para descer a montanha, pisando sobre as pedras até finalmente chegar ate a planície. Já haviam se passado mais de 24 horas desde que eu havia saído de casa, mas não tinha certeza se tinha alguém estava a minha procura, de qualquer forma, eu precisava arrumar um jeito de cobrir essas marcas antes de voltar para casa.
Enquanto eu andava sem rumo pela floresta ate eu ouvir alguém gritando o meu nome ao longe, eu reconhecia aquela voz..
— Erick? Pergunto o alto o suficiente para ele me ouvir, logo ele aparece a minha esquerda.
Ele sorri ao me ver e vem na minha direção, mas para ao observar as marcas espalhadas por todo o meu corpo.
— O que aconteceu com você? Ele pergunta me analisando. — Você ficou desaparecido por mais de 24 horas...
— Você não acreditaria se eu te contasse. Sussurro, eu gostaria de me aproximar dele, mas sabia que ele provavelmente recuaria a qualquer movimento meu.
— O que são essas marcas no seu corpo?
— Ah, é complicado... Falo passando a mão nos meus cabelos — Muita coisa aconteceu, eu quase morri, meio que eu quase morri a "pessoa" que me deu essas marcas me salvou.
— Vicent, você precisa retirar essas marcas antes de voltar para casa, você sabe como o seu pai vai reagir ao ver isso...
— Eu sei! Falo desesperado. — Eu não tive escolha.
— Vamos da jeito nisso. Ele fala se aproximando de mim e me envolvendo com seus braços, eu encolho ao seu toque, meu corpo ainda estava muito machucado. — Vamos para o doutor Ruan para tratar esses ferimentos e talvez ele saiba como retirar essas marcas.
Ele retira seu sobretudo e coloca nos meus ombros.
— Eu não acredito que isso seja possível...
— Quem fez isso com você? Ele volta a perguntar.
— Não sei ao certo o que ele era, mas ele se chamava Marion.
— Um fanático religioso? Ele pergunta sem entender, não o julgava, eu também não entendia nada do que havia acontecido comigo.
— Não exatamente, mas de qualquer forma, porque você veio atrás de mim? Falo tentando fugir do assunto. — Supus que meu pai iria lhe proibir de vir para a floresta.
— Ele não sabe que vim para cá, vim assim que a chuva passou.
— Entendo. Falo enquanto seguíamos rumo a cidade.
Fui ingênuo em pensa que meu pai estaria preocupado com a minha ausência. Por que eu ainda tinha esperanças? De qualquer forma, eu precisava cobrir essas marcas de alguma forma, pois eu tinha certeza que isso não iria sair.
Passamos pelos arredores da cidade, tentando evitar os olhares curiosos que provavelmente me perseguiriam, até finalmente chegarmos em um pequeno templo, um pouco distante da nossa casa, o suficiente para que nós não tivéssemos chance de cruzar com meu pai.
— Doutor Ruan! Erick chama batendo na porta freneticamente. — Sou eu, o Erick, preciso da sua ajuda! A porta se abre, o fazendo se afastar no susto.
— O que aconteceu? Para que todo esse escândalo? Um homem alto de cabelos grisalhos aparece na porta, seu rosto estava inchado, como se ele tivesse acabado de acordar.
— É meio que uma questão de vida ou morte. Erick fala me puxando para que ele me visse. — Ele está machucado.
— Entre... Ele fala deixando espaço para nós entrarmos. O templo era simples, mas cheio de frascos e plantas perto das estátuas dos deuses. — O que aconteceu com você?
— Cai num buraco durante a última tempestade...
— Venha aqui, darei uma olhada na sua situação. Ele fala apontando para uma maca, ainda receoso e agora mancando de leve, eu me sento no lugar indicado. — Vamos, tire o manto para eu poder te ajudar.
— Tem um detalhe, doutor. Erick fala se aproximando. — Ele já foi parcialmente curado por algum lunático religioso, que acabou deixando algumas marcas nele, nós esperávamos que você conseguisse retira-las.
— Que tipos de marcas? Ele me encara curioso.
—Mostre a ele, Vicent. Erick fala, eu concordo e retiro o manto, já deixando amostra as marcas nos meus braços, mas logo retiro o resto da minha blusa.
Agora eu conseguia ver o estrago que a queda havia feito, os símbolos cobriam boa parte dos machucados, mas dava para notar cortes e escoriações por todo o tronco e alguns cortes profundos nos braços, porém eu não sentia dor alguma.
— Olha só isso. O doutor Ruan fala se aproximando ainda mais, enquanto ajeitava seus óculos.
— Já viu isso em algum lugar? Pergunto preocupado.
— Não, nunca vi essas marcas na minha vida, a pessoa que te curou disse o nome do deus da qual ela seguia?
— Marion, esse era o nome.
— Nunca ouvi falar de nenhum deus com esse nome, o que é preocupante. Ele se afasta passando a mão nos seus cabelos. — Sendo um deus desconhecido, provavelmente não há inscrições sobre ele ou sobre suas marcas...
— Ele não pode voltar para casa assim, o senhor conhece o pai dele.
— Primeiro cuidaremos desses ferimentos, podemos nos preocupar com isso depois. Ele fala começando a pegar algumas coisas em sua maleta.
—Acho que o senhor entendeu o que eu quis dizer... Erick fala aproximando dele, devagar.
— Erick, olha o estado do seu irmão, e você está preocupado com o que o pai dele vai pensar com uma coisa que pode ser facilmente coberta? O doutor fala o encarando. — Por favor, espere um pouco lá fora.
—Tanto faz. Ele fala se afastando a passos largos.
— Garoto estranho, não? Ele pergunta sorrindo.
— Ele só está preocupado.
— De qualquer forma, eu não conseguirei retirar essas marcas agora, preciso de um tempo para descobrir sobre elas. Ele fala colocando as coisas do meu lado. — Por hora, trataremos esses machucados.
— Eu acho que não tenho machucados internos. Sussurro.
— Isso facilita as coisas. Ele fala pegando um líquido transparente e molhando um algodão e passando sobre os cortes da minha mão esquerda. — Pode arder um pouquinho.
— Certo... Falo vendo ele tratando os machucados, mas não ardeu, na verdade, eu mal senti dor, nem mesmo quando ele deu alguns pontos em alguns machucados mais fundos.
— Você chegou a comer algo hoje? Ele pergunta enquanto terminava de enfaixar meu braço.
— Não, assim que o Erick me achou, me trouxe para cá...
— Espere um pouco, buscarei algo para você comer. Ele se levanta rapidamente.
Fico olhando para as marcas espalhadas pelos meus braços, quanto mais eu a olhava, mais familiar elas ficavam. Eu tinha a sensação que um dia eu conseguiria o significado delas.
— Você está bem? Está com dor? O doutor pergunta parado ao meu lado com um prato com alguns pães recheados.
— Não, estou bem. Sorrio pegando os pães e começando a comer. — Obrigado.
— Desconfio que essas marcas te protegem, amenizam a sua dor, já que eu nem mesmo precisei usar anestesia em você para costurar os machucados.... Ele fala se sentando ao meu lado, me analisando.
— Bem, então não é de todo mal, pelo menos. Sussurro dando nos ombros.
— Sobre seu pai, cobriremos com faixas os símbolos, ate eu achar um jeito de tira-las do seu corpo. Concordo com a cabeça enquanto devorava o resto dos pães.
Eu estive tão ocupado tentando sobreviver que eu havia esquecido totalmente das minhas necessidades básicas, como eu estava com fome e cansado, eu realmente precisava descansar.
Depois de um tempo Erick volta visivelmente ansioso, ficou o tempo que o doutor estava enfaixando meus braços e tronco, andando de um lado para o outro.
— Obrigado. Falo para o doutor enquanto me levantava.
— Tome mais cuidado, de agora em diante.
— Vamos Vicent, já ficamos tempo de mais fora de casa. Erick fala segurando e me arrastando para fora do templo.
— O que deu em você? Pergunto me afastando dele. — Você está agindo estranho desde que você viu as mascas, você sabe algo sobre elas?
— Não, não sei, mas são runas tão antigas que nem o doutor as conhecem, com certeza não deve ser uma coisa boa. Ele me encara. — Você que parece estranho, esta calmo de mais para tudo oque aconteceu com você! Você quase morreu e parece que nada aconteceu!
— Estou apenas cansado, Erick. Falo voltando a andar, me afastando dele. — Parece que tudo o que aconteceu comigo não passou de um pesadelo, eu só quero descansar um pouco.
— Você tem razão, me desculpe...
— Tudo bem, só espero que os deuses tenham piedade de mim em relação ao meu pai. Me arrependo assim que aquelas palavras saem da minha boca, eu havia me esquecido de que eles não se importavam com pessoas como eu. — Esquece o que eu disse.
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