Entre Dois Mundos
8 Revelações: Em busca de respostas
Notas iniciais
A situação era preocupante. Victor tinha certeza que o chefe da guarda havia nos reconhecido. Carlisle me disse que Emil fazia parte da guarda desde a época do reinado de Rei Vlaus. Ele era muito próximo de Claus, ainda quando este era apenas um príncipe. Ele conhecia a família real a muitos anos. E também conhecia o Victor, sabia que ele era meu guardião e que estava comigo e minha família na noite que fomos atacados. A aparição de Victor no Castelo, acompanhado de uma moça que parecia uma vampira, mas não tinha o cheiro puro de uma, comprovaria a ele que a princesa meio-humana estaria viva.
Claus a essa altura já estaria preparando seus servos para encontrarem a sobrinha que "ressurgiu das cinzas”.
E em meio a tudo isso, nós ainda estávamos em menor número. Nossas chances contra o Rei eram mínimas. Ele não pouparia esforços para me destruir. Ele não pouparia esforços para manter seu reinado intacto. Ele não poupou quando matou sua família. E agora que a minha volta significava um problema para ele, porquê seria diferente? Não seria.
Devido as circunstâncias. Não seria necessário mentir para Nicu e Íon sobre a verdadeira identidade de Victor, Carlisle e a minha. Precisávamos de aliados. Seria mais fácil se eles soubessem pelo o quê estávamos lutando. Eles e Milla nos apoiaram em nosso propósito. Se juntaram a nós. Mas o nosso número ainda era muito inferior, comparado ao exercito do Rei.
—Temos que procurar apoio nos outros vilarejos.- anunciou Carlisle
—Vocês estão sendo procurados. Seria muito arriscado.- disse Milla
—Mas se permanecermos parados aqui eles irão nos encontrar ainda mais rápido.- alertou Victor. -Só iríamos facilitar as coisas.
—Carlisle tem razão, muitos são contra o reinado de Claus. Temos mais chances se tivermos o apoio dessas pessoas. — apoiou Adrien.
—Muitos têm medo do Rei. Teremos trabalho para convencê-los a lutar contra ele. -disse Nicu.
—Começaremos pelos ’’rebeldes”. Eles vêm dando trabalho ao Rei nos últimos anos.- afirmou Íon.
—Que assim seja feito. Partiremos ao amanhecer e en... -dizia Carlisle.
Eu estava angustiada. Os pensamentos gritavam na minha cabeça. Eu sabia que não seria fácil, mas a teoria é muito diferente da prática. Mas que nunca, agora tudo estava sendo real.
A cada segundo que passa eu posso sentir que o meu reencontro com Claus se aproxima, e isto me trás uma aflição inquietante. Estou em constante asfixia e eu preciso respirar. Eu preciso respirar.
Os outros estão no interior da casa, concentrados em estratégias de divisão de grupos e territórios a serem explorados. Sufocada, me dirigir à varanda na entrada da velha casa. Sentei nos degraus de pedra que davam acesso a calçada. A rua estava deserta e silenciosa. Respirei fundo. Era tudo o que eu precisava.
O vento está cortante. A madrugada está escura, poucas estrelas são vistas daqui. Mas admirar à noite é a única coisa que me faz sentir que tudo é normal de novo. Os lados do mundo podem ser diferentes. Estradas, construções, e belezas. Mas compartilham uma coisa em comum. O céu. Ele sempre é o mesmo. Não importa em que lado você esteja.
—Você não deveria está aqui.- uma voz ecoou entre a escuridão das árvores na lateral da residência. O meu coração disparou. Paralisada, observei uma silhueta ser revelada entre a pouca iluminação. Era Adrien.
Respirei fundo. -Você também não.
—Eu não deveria muitas coisas. -ele se sentou ao meu lado.
—...Os problemas sempre me encontram. Está aqui fora ou lá dentro, não faz muita diferença...
—Então temos algo em comum. — nos entreolhamos, permanecendo em silêncio por alguns instantes, mas diferente das outras vezes, a quietude entre nós era favoravelmente agradável.
—Os seus amigos...Eles estão certos de se envolverem nessa briga?
—Nós gostamos de uma boa aventura. -sorriu de canto.
—Mas com certeza, essa será a mais perigosa.- voltei meus olhos para um ponto vazio, do outro lado da rua.
—Quando se escolhe um lado, não se tem espaço para temer as consequências.- voltei meus olhos para ele. — Nós escolhemos o nosso.- completou.
Sorri fracamente. -Vocês são muito próximos, não é?
—Nos conhecemos a um tempo, sim. Alguns transformos procuraram briga comigo. Íon e Nicu se envolveram na discussão.- ele riu baixo. — Não deu muito certo. — revirou os olhos. — Eu não precisava de ajuda. Mas a Milla...- ele sorriu. -...apareceu e acalmou os nervos de todos... Desde então compartilhamos muitas outras histórias.
—Você parece gostar muito dela.-mordisquei o lábio inferior.
—Milla é como uma irmã. Muito irritante às vezes e super protetora. Ela quer cuidar de todos ao mesmo tempo. Quando nos metemos em encrenca, ela sempre acaba nos salvando. A baixinha pode parecer indefesa, mas é muito esperta.
Rimos em acordo.
—Brie? -uma voz soou atrás de nós. Virei. Victor estava parado em frente a porta principal.
Adrien sorriu de canto e se levantando, passou direto por Victor. Eles trocaram um breve olhar e Adrien entrou na casa.
Levantei-me caminhando em sua direção.
—Vamos nos preparar.- ele disse.
Assenti. — ...Victor... — entrelacei meus braços em torno do seu corpo em um abraço. -...Você acha que teremos alguma chance?
Ele afundou seus dedos em meu cabelo, acariciando-os. -Eu não sei, Brie. Eu não sei.
Estávamos nos preparando para partir. Nos dividiríamos em grupo. Íon e Milla seguiriam para os vilarejos da direção oeste, Nicu e Adrien para o norte e Carlisle, Victor e eu para o leste.
Os rapazes estavam discutindo os últimos detalhes. Milla estava em seu quarto, à procura de roupas confortáveis para a viagem. Eu estava na sala de estar, deitada em um dos sofás do cômodo. Meus olhos estavam pesados, a madrugada havia sido longa. Aos poucos minhas pálpebras se fecharam.
Tudo estava escuro. Pisquei os olhos algumas vezes. As poucos a visão desembaçava. Eu vi um limpo céu azul. Estava em um lugar diferente. Era uma espécie de floresta, mas a vegetação não eram algo comum, as folhas das árvores e a grama no chão possuíam cores alaranjadas. Lembravam a estação do outono, mas não parecia que aquele local só ficava daquela maneira apenas por alguns meses do ano.
Segui caminhando entre os arbustos cor de fogo. Me deparei com uma grande rocha. Havia uma pequena abertura na superfície da pedra. Existia algo lá dentro. A fenda expelia uma luz azulada. Eu entrei no buraco. Era uma das coisas mais lindas que meus olhos já haviam admirado. Do lado de fora da caverna ainda era dia mais dentro da gruta existia bilhões de pontinhos brilhantes. Era um céu incrivelmente estrelado. Toda aquela beleza era hipnotizante. Mas um barulho chamou minha atenção. A abertura da caverna estava fechando. Corri para o lado exterior, e o ambiente externo havia mudado. A vegetação não era mais avermelhada, era verde. Era a Floresta Hoia-Bacio. O céu tinha perdido seu brilho, estava escuro, era noite e não haviam estrelas, não havia nada, só havia uma coisa, uma lua cheia com um tom avermelhado. Ouço mais um barulho. Eram murmúrios, que logo depois se tornaram gritos e choros. Corri para o interior da mata. O barulho só aumentava. O som era angustiante. Encontrei uma clareira. Na escuridão existia uma silhueta no centro da zona aberta. Me aproximei. A corpo à minha frente se tornava cada vez mais visível e familiar. Eu poderia não ter muitas memórias do meu passado, mas havia uma imagem que eu jamais pudi esquecer. Aquele olhar vermelho por todos esses anos permaneceram presentes em meus pesadelos. O dono daqueles olhos sombrios sempre foi o motivo dos meus maiores medos, a razão das minhas aflições e incertezas.
Tudo ficou escuro repentinamente. Ouvi alguns sussurros incompreensíveis. Mas logo ficaram claros. Era uma voz, chamando meu nome. Uma voz que eu conhecia muito bem.
—Brie, acorda.
Minhas pálpebras se abriram lentamente.
—Beatrice. -ouvi a voz de Victor. Ele estava ajoelhado ao meu lado.
—Victor.- me pus sentada um pouco zonza.
—Você estava muito inquieta, achei melhor te acordar.
—Eu tive um sonho, eu acho...-Um sonho que me trouxe uma sensação estranha no peito.Um sonho muito real. Real como alguns outros sonhos que já tive.
—O que você viu?
— ...Era uma floresta com folhagem avermelhada e tinha uma caverna com estrelas no teto dela..
—A Caverna Noapte. — uma voz ecoou. Era Adrien, ele estava em pé, recostado perto da lareira. Olhei em volta, só estávamos nós três no cômodo.
—Você conhece esse lugar?- questionou Victor.
—Sim, fica mais ao sul. Eu encontrei à alguns anos, é um lugar de difícil acesso, poucos conhecem...
—Esse lugar existe mesmo?... – O sonho me trouxe a mesma sensação de quando sonhei com Carlisle. Claro! – ... Eu preciso ir até esse lugar.
—Não é tão perto. -alertou Adrien.
—Não importa...- minha fala foi interrompida.
—Você vai arriscar tudo em algo que pode ter sido apenas um sonho?! Você já teve outros sonhos... E só um aconteceu realmente. –argumentou Victor.
Talvez ele tivesse razão. Já tive tantos sonhos. E é comum os sonhos parecerem reais. Não dava para confiar em algo que era incerto. Não agora...
Dei um longo suspiro. Meus olhos fixaram nos de Victor.-... Você...- Um minúsculo ponto verde em seu cabelo castanho me chamou a atenção. Um miúdo pedaço de uma folhagem, um pequeno vestígio da nossa aventura pela madrugada. Um aroma exalado pela planta prendeu minha atenção.
Espera! Não foi só uma vez... As flores! O aroma das flores nos arbustos do Castelo, eram doces e únicos. O mesmo cheiro que agora emanava dos fios da cabeça de Victor... O mesmo aroma que senti no sonho que tive na noite anterior a missão! No sonho eu estava correndo, correndo muito rápido, mas ao mesmo tempo tudo ao meu redor passava devagar como... Como quando fui atacada pelo ogro! Eu tive uma revelação que descobriria uma nova habilidade no Castelo. Que quando eu sentisse o cheiro daquelas flores seria o dia em que eu desenvolveria a habilidade de me mover tão rápido quanto um vampiro! -... Não Victor! Já aconteceu. Eu tive uma revelação que meu lado vampiro desenvolveria em mim a supervelocidade, uma noite antes!
—Uma noite antes? –Victor e Adrien disseram em coro.
— Aada disse que eu precisava decifrar esses sonhos. Sinto que encontrarei respostas lá.
— Brie, teríamos que desviar o caminho, mudar o plano. – advertiu Victor.
—O plano permanece. Você segue com Carlisle para o leste.- voltei meus olhos para Adrien. – Você me leva até essa caverna?
Adrien assentiu em concordância.
—Não! E se você se machucar? Eu não estarei lá para impedir. E eu não confio esse papel a ele. -Victor retrucou.
—Adoro quando você fingi que eu não existo. -ironizou Adrien.
Victor rosnou baixo.
—Victor, quando se trata de mim, você não costuma confiar em muitas pessoas.- séria, arqueei uma das sobrancelhas.
—Relaxe Victor, você se preocupa demais. Você sabe que ela pode fazer isso.- Adrien estava sério.
Os olhos de Vitor estavam cerrados em sua face. Segurei suas mãos habitualmente frias, mas mais rígidas como de costume. Ele estava realmente tenso.
—Vamos... O tempo está passando... Precisamos de aliados e eu preciso de respostas. Adrien é o único que pode me ajudar a encontra-las agora. Por favor, eu preciso que confie em mim... Por favor.
Foi uma decisão difícil de ser tomada. Pela primeira vez, Victor e eu teríamos que nos separar. Saber que aquilo aconteceria doía em nós dois, mas sabíamos que era necessário. Sinto que essa última revelação quer me dizer algo muito importante. Talvez seja útil para ganharmos a batalha que está para acontecer. Se for, tenho que descobrir o mais rápido possível. A cada dia que passa meu tio Claus tem mais chance de vencer, de estar mais perto de me encontrar. Tenho que estar preparada para isso. Tenho que estar preparada para tudo.
Era hora de partir. Todos já possuíam suas rotas definidas. Adrien e eu seguiríamos para o sul, além das montanhas de Piatră. Segundo ele, devido minhas limitações humanas- provavelmente teríamos que parar para eu descansar- a viagem duraria um dia inteiro. A boa notícia era que, com a minha nova capacidade, percorreríamos mais quilômetros em pouco tempo e isso era muito útil.
O combinado era que nos encontraríamos novamente em dois dias, na antiga caverna de Carlisle. Isso se não tivermos surpresas indesejadas pelo caminho.
Todo o grupo seguiu até a saída do vilarejo. Seguimos juntos até o caminho onde as árvores indicavam o inicio da mata.
—É aqui que nos separamos. –sinalizou Nicu.
—Boa sorte. –Milla me abraçou em despedida.
—Vocês também.- nos afastamos. Milla e Adrien se cumprimentaram. Me aproximei de Carlisle e o abracei.- Cuide dele para mim.-sorrri. Carlisle iria para o leste com Victor.
Eles são as pessoas que mais amo, são minha família e saber que eles estariam juntos me confortava.
—Cuidarei.- sorriu. Carlisle tinha um olhar tão acolhedor, me fazia muito bem.
Victor se aproximou. Nos abraçamos –Não faz nenhuma besteira.
—Não vou, prometo.- o abracei mais forte.-...Eu vou ficar bem. Fique também, tá? — meus olhos começaram a lacrimejar.-... Eu te amo.
Victor encostou seus gelados lábios em minha testa e beijou.- Eu te amo. –ele sussurrou.
Meu coração se apertou em meu peito. Aquelas palavras soaram muito intensas para mim. Haviam me tocado de uma maneira diferente, um significado diferente. Era algo a mais...
Por um momento senti Victor hesitante, seus olhos me gritavam algo que seus lábios não conseguiam pronunciar.
—Victor... -soltei. Ele piscou os olhos algumas vezes, sorriu tristemente e me desprendeu dos seus braços.
As despedidas foram finalizadas. Nicu tomou o caminho para o norte, os irmãos seguiram para o oeste, Victor e Carlisle correram em direção ao leste, Adrien e eu mais para o sul, rumo as montanhas de Piatră.
***
Estávamos caminhando. Conversávamos sobre o que enfrentaríamos ao chegar nas cordilheiras. A caverna que procurávamos estava do outro lado das montanhas. Teríamos que atravessa-las, mas Adrien afirmou que isso não seria um dos nossos maiores problemas. Perguntei o que seria nossa maior dificuldade. Mas repentinamente ele mudou de assunto.
—Ele leva à sério mesmo esse lance de guardião.- Ele se referiu ao Victor.
—Ele prometeu aos meus pais que cuidaria de mim. E Victor Danilova não costuma descumprir uma promessa.
Nunca mesmo... Ele nunca me decepcionou.
—Mas você não acha que às vezes ele é um tanto obsessivo?
—... Talvez... Mas é o jeito dele dizer que ’’ sempre vai estar comigo”.
E ele sempre estava...
Senti um aperto no coração. Nunca pensei que sentiria saudades tão rápido. Mas é, ele estava me fazendo falta.
Tentei dissipar a angústia com outros pensamentos.
—Adrien, o quanto você é rápido?
—Por quê?- frisou a testa.
—Aposta uma corrida?- desafiei.
Ele riu.
—Você nunca me venceria, princesa. -ele sorriu de canto.
Retribui o sorriso. Dei um impulso e iniciei uma corrida. Adrien veio logo atrás de mim. Tão veloz quanto eu.
A sensação de correr daquela maneira era incrível, tão nova e ao mesmo tempo tão natural para mim. Eu havia desenvolvido aquela habilidade há apenas algumas horas, mas sentia que já fazia aquilo desde sempre. O vento gelado tocar meu rosto, o meu cabelo dançando com o movimento, era libertador.
Adrien era muito rápido. Ao desviar das árvores, seus movimentos eram precisos, mas delicados. Seus pés quase não deixavam pegadas no chão. Os cabelos negros fluíam com o vento. Era tão... Bonito.
Sem esforço, Adrien me ultrapassou. Acelerei, para alcança-lo.
Repentinamente ele parou. Tentei fazer o mesmo, mas só obtive êxito alguns metros à frente. Ele observava algo à sua esquerda. Ele correu, surgindo em minha frente.
—Ogros. -ele afirmou. -Vamos por aqui. – Ele correu para à direita e eu o segui.
Desviamos alguns quilômetros do nosso antigo caminho. Encontramos um riacho.
—Vamos atravessar.- anunciou.
Atravessar?!
—O quê? – O riacho estava em época de cheia. E a distância de uma margem para a outra era de pelo menos uns quinze metros.- Olha a força dessa água! Eu vou ser levada em dois tempo.
Ele revirou os olhos.
— Eu não disse que iríamos entrar.
***
Adrien me fez subi em suas costas. Deu alguns passos para trás. -Isso não é uma boa ideia...- segurei firme no seu corpo.
—Relaxe Beatrice. -ele riu baixo.
Oh droga!
Cerrei meus olhos. Senti um impulso, seguido de uma forte pressão, uma forte ventania em meu rosto. Abri os olhos. Estávamos muito, muito alto. Por um segundo, eu podia ver quilômetros e mais quilômetros de mata fechada. E voltamos a descer, pousando do outro lado da margem.
Eu me soltei de Adrien. Tudo girava ao meu redor. Estava tonta, e um pouco enjoada. Sentei no chão.
—Você está bem?- perguntou arqueando uma das sobrancelhas.
—...Eu, preciso de um tempo...- deitei na grama verde.
Ele olhou ao redor.
—Tudo bem, estamos seguros aqui.-ele deitou ao meu lado.
Assenti. Fechei os olhos, tentando controlar a vertigem.
A temperatura estava agradável. Podia sentir o calor do sol em minha pele. Uma leve brisa fazia com que alguns fios do meu cabelo acariciassem meu rosto. Algum tempo depois, abri os olhos e já me sentia melhor.
Virei meu rosto para o lado.
Ele ainda estava lá. Imóvel e com os olhos cerrados. Uma fresta de luz iluminava seu rosto. A pele fria e pálida contrastavam muito bem com a negritude dos seus cabelos.
Era hipnotizante. Eu poderia ficar ali, parada, por muitas horas, admirando aquela imagem. Adrien parecia uma estátua de pedra... Uma atraente estátua de pedra.
—Melhor?- soltou. Ainda com os olhos fechados.
Pisquei algumas vezes, tentando acordar dos meus devaneios.
—... Eu...Estou.
Ele abriu os olhos.
—Que bom. – soltou displicente. Ele permaneceu olhando para o céu. E eu não conseguia tirar os olhos dele. -... Você não está acostumada com isso, né?
—...Não mesmo...
Permanecemos em silêncio por alguns minutos.
—Adrien... Posso te perguntar uma coisa?...- mordi os lábios.
Ele enrugou a testa.
—Vá em frente. –sorriu de canto. -Eu estou de bom humor hoje.
—...Por que você concordou em ficar com meu tio Claus, depois de tudo que ele fez com sua família?- soltei.
Ele apertou os olhos, desconfortável.
Eu já havia feito aquela pergunta antes, mas ele nunca me respondeu. Aquilo parecia ser um assunto delicado para ele...
Acabei com seu bom humor?
—Tudo bem se não quiser responder.
— Não foi por mim, nem por ele...- ele enrijeceu a mandíbula. -... E nem pela minha família...-seus olhos focaram em mim. -Foi por Dana.
Meu coração gelou. Dana? Que Dana?
—...Dana?- a palavra quase não saiu.
— A esposa de Claus. -bufou.
Claus tem uma esposa?
— Ele a transformou, e eles se casaram um tempo antes da minha chegada. A miserável é apenas mais um dos seus caprichos.- revirou os olhos.
—E... O que ela tem haver com sua permanência no Castelo?
—Ela sempre quis ser mãe, mas o atual estado dela não permite mais que isso aconteça. Depois que Claus me levou para o Castelo, ela viu em mim o filho que não podia ter.- ele frisou a testa. — A Rainha Dana é uma boa pessoa... A única naquele Castelo, na verdade. Ela apenas cometeu um grande erro. Se apaixonou pelo Rei.- revirou os olhos.- ...Ela me ajudou e cuidou de mim durante o período da minha mudança. Quando me recuperei, não conseguir deixa-la. Eu era o único naquele lugar em quem ela pudia confiar. – ele cerrou os olhos com força.- ...Ela precisava de mim.
Eu podia sentir a dor em sua face. Ele se sentia mal por ter fugido e a ter deixado aqui.
—Você se arrependeu de ter ido embora?
—Eu confrontei uma ordem do Rei... Eu não iria fugir, estava pronto para confrontá-lo. Ela temia, queria que eu sobrevivesse, e implorou para que eu fosse embora. -nossos olhos se encontraram, ele sorriu.
Meu coração se encheu de deleite. Aquele sorriso, aqueles dentes perfeitamente brancos e alinhados. Ele ficava ainda mais lindo quando sorria daquela maneira...
Retribui o sorriso.
—Ela me disse que eu encontraria algo bom lá fora. Ela estava certa.
Minhas bochechas queimaram em minha face, com certeza, elas não estavam tão pálidas quanto de costume.
Nos entreolhamos por algum tempo, em silêncio. Ao fundo, se ouvia uma brisa suave acariciando a grama verde ao nosso redor, se propagando entre as folhas virgens na copa das árvores, revelando um refrescante perfume de plantas silvestres. Aqui, só se ouvia o som do meu respirar e as batidas do coração em meu peito.
—...Posso te contar uma coisa? -mordi os lábios.
Soltou um riso baixo e assentiu.
Apertei os olhos.
—... Eu tenho medo de altura.
—Você poderia ter dito isso antes.- ele riu.
—...Eu não consegui.- fiz uma careta envergonhada.
***
Seguimos em frente. Logo encontramos um campo verde aberto e já era possível ver as altas montanhas de Piatră. As cordilheiras eram compostas por um conjunto de quatro picos, sua estrutura era rochosa, mas possuía pequenas áreas verdes.
O lugar era muito bonito, mas quando nos aproximamos, percebi que o relevo das pedras não eram favoráveis para uma escalada.
—Sério?
Pela sexta vez tentei me apoiar em uma das fendas da grande rocha. Sem sucesso.
—Tem um jeito mais fácil...- Adrien me observava tentando segurar uma risada.
—E por que não disse antes?! – o encarei irritada.- Qual é?
Ele sorriu de canto. Eu entendi na hora o que aquilo significava.
—Não, não! Eu não quero passar mal de novo e se eu desmaiar? E se eu cair?
—Você não vai cair. Não confia em mim?
—...Eu...É claro que confio.
—Então, não precisa fazer escândalos.
—Adrien...
—Vamos Beatrice, você é melhor que isso.
Exitante, subi nas costas do vampiro. Segurei firme, cerrei os olhos e acomodei meu rosto entre a curva do seu gelado pescoço.
—Pronta?
Neguei compulsivamente com a cabeça.
Subitamente sinto um solavanco. Com a velocidade, automaticamente cerrei os dentes. O lapso temporal entre os saltos e as aterrissagens eram tão curtas que os meus ouvidos zumbiam dentro da minha cabeça. Quatro, cinco saltos e por fim, Adrien anunciou:
—Bem vinda à Maiade.
Lentamente abri minhas pálpebras. Para o meu alívio, já estávamos do outro lado.
A imagem era fascinantemente bela. Da grama no chão até as folhagens das árvores, toda possuía uma coloração avermelhada. Os raios de sol que adentravam na sobre as frestas da mata deixavam o ambiente ainda mais bonito e iluminado.
—Adrien. É aqui. -me soltei de suas costas.
—Eu não disse?
Seguimos pela trilha de pedras douradas e encontramos os arbustos avermelhados.
—O que é isso?
Dois pontos de luz flutuavam entre as árvores.
—Eu não sei, nunca vi isso antes. -observou Adrien.
As pequenas luzes se aproximaram. A luz ficou cada vez mais forte e se propagou por todo o ambiente. Vozes em uma língua incompreensível ecoaram em meus ouvidos e duas silhuetas surgiram no meio da claridade.
—Beatrice?- ao fundo reconheci a voz de Adrien.
Um forte odor tomou conta das minhas narinas e um enorme peso veio sobre minhas costas, minhas pernas enfraqueceram. E tudo se tornou escuridão.
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