Notas iniciais
A vida é mesmo uma caixinha de surpresas, sempre pronta para nos surpreender. E quando menos esperamos, tudo pode acontecer...

Estávamos na Transilvânia, em direção ao oeste de Cluj-Napoca. Uma bela e típica região europeia onde senhoras se reuniam para comer doces e bebericar chás nos café’s do centro e idosos conversavam sentados próximos a um jardim. Inocentes humanos, que viviam suas monótonas vidas, mas que ainda assim seguiam sorrindo, cheios de expectativas.

Meu avó Rei Von Vlaus Dalca, à cento e vinte e cinco anos, escolheu que assim deveria permanecer. Para salvar seu povo teve de sacrificar suas antigas vidas, mas a ele não caberia escolher o caminho daqueles que viviam após o portal de pedras. Foi por isso que sempre lutou. Para proteger seu reino e os que viviam além dele. E é com tudo isso que Claus quer acabar, com a esperança que ainda existe do lado de cá.

Acordando dos meus devaneios, percebi que a paisagem havia mudado, não existiam mais casas ou grandes vestígios de civilização, apenas uma longa estrada cercada por grandes e antigas árvores.

— Seguiremos à pé. Não podemos deixar o veículo muito perto da entrada.- alertou Victor diminuindo a velocidade do automóvel.

Abandonamos o carro em um canto escondido na estrada asfáltica e seguimos caminhando.

Era entardecer quando encontramos um grande arco de pedra- como um portal- entrelaçado por longas trepadeiras e outras folhagens. Era a entrada da Floresta Hoia-Baciu, a floresta conhecida como ’’mal assombrada’’ em todo o mundo. Sua vegetação era realmente amedrontadora, com altas árvores de troncos retorcidos que cobriam boa parte da luz solar. Mas não era somente o aspecto aterrorizante da floresta que lhe dava a má fama, mas os misteriosos desaparecimentos que ocorriam naquela região. Alguns dizem que as pessoas que nela adentram são abduzidas por extraterrestres, ou que são levadas por espíritos perdidos. Mas somente o povo que vivia secretamente depois da floresta conhecia o verdadeiro desfecho das pessoas perdidas na Floresta Hoia-Baciu.

Anoiteceu e decidimos acampar em uma das muitas cavernas de pedras que existiam dentro da floresta. Resolvemos seguir nossa caminhada pelas manhãs. A noite era guardada pelos lobisomens e, definitivamente, queríamos evitá-los.

Embora estivesse acompanhada por dois vampiros- e mesmo sabendo que eles não poderiam ser vítimas de um sono profundo- não conseguia me sentir suficientemente segura para dormir. Por muitas vezes ouvimos distantes uivos ao longo da madrugada, o que fez com que Victor e Adrian ficassem ainda mais alertas ao longo da interminável noite. Tempo depois o cansaço acabou por se apoderar de mim e finalmente adormeci.

Era manhã quando despertei- um pouco dolorida- percebi que estava sozinha na rochosa caverna. Levantei rapidamente. Saindo da gruta, encontrei Arien observando um cinzento coelho de porte médio com o pescoço quebrado. O animal possuía um corte no local, destilando algumas gotas de sangue.

—Onde está o Victor? –me aproximei.

—Ele foi caçar. –Arian mantinha o olhar fixo no animal. –Mas disse que estaria por perto.- completou.

—Ele sempre está.- afirmei, sorrindo.

—Deixou isso para você... — apontou para o cadáver.

—Obrigada por vigia-lo para mim.- ri fraco.

Utilizando o meu canivete, tirei um pouco do excesso de pelo do animal- próximo ao local do ferimento- e iniciei minha refeição, sugando o espesso líquido vermelho do mamífero.

Adrien a todo o tempo me secava. Já estava ficando um tanto desconfortável para mim.

—Algum problema?

—...Como é que isso funciona para você? –ele disse agora observando a densa floresta.

—Como assim?. –disse após terminar minha refeição matinal.

—Nos últimos dias você só se alimentava com ’’fast foods’’, e hoje se delicia com o sangue de um animal recém abatido.- disse com um tom indiferente.

—Bem...- limpei dos meus lábios os últimos vestígios de sangue animal.- Faz parte de ser uma meio-humana e meio-vampira. Consigo me adaptar às circunstâncias, me mantenho forte tanto com ’’fast foods’’, quanto com sangue.

—E esse coelhinho consegue te saciar?- ironizou.- Como você e Victor conseguem se alimentar de animais? O cheiro não é agradável. –Adrien bufou.- O sangue humano é bem mais doce e suave.

Naquele momento pude notar que seus olhos já não se encontravam tão vermelhos- provavelmente, por que já passara alguns dias desde sua última refeição, o sangue humano já estava sendo absolvido pelo seu corpo- agora estavam mais escuros, um belo par de olhos profundamente negros.

—Minha sede por sangue não é como a sua, ou do Victor, vocês precisam de muito. Já eu consigo me manter forte com pouco. Mas em compensação, minhas refeições são diárias, não condigo ficar dias sem me alimentar como vocês. –sorri. -Aliás, ser ’vegetariano” não é tão ruim assim. Você acaba se acostumando. É útil, os olhos não ficam vermelhos, o que ajuda quando você tem que se ’’misturar’’. Além disso, te faz mais ’’humano”, se assim podemos dizer...

—Humano...-bufou. –Eu não sou há muito tempo. O mais perto que chego da humanidade é quando estou me alimentando dela.

Suspirei profundamente.

—Adrien, o destino nos encontra, mas somos nós que temos o poder de escolher o que faremos com ele... — suspirei nostálgica. -... Narin dizia que, " você pode não ser mais humano, mais manter a humanidade em você é uma escolha sua". Eu acredito nisto. Você também deveria acreditar.

Depois de um longo silêncio, Adrien me surpreendera com com mais uma pergunta. -Você já provou, sangue humano?

—...Já, mas não como você pensa.

—Como seria então?

— Eu estava no ventre da minha mãe. Me alimentava do sangue dela, o que quase a fez morrer.- suspirei. — É estranho. Eu ainda não havia nascido, mas se fecho os olhos, ainda posso me lembrar exatamente de como era o sabor. E no entanto, não tenho muitas lembranças dela, do seu rosto... -instintivamente acariciei o medalhão preso ao meu pescoço. — É uma culpa que levo comigo. Já fazem tantos anos, mas a dor não desaparece. Você apenas aprende a conviver com ela.

Um nó se formou em minha garganta.

—Eu entendo perfeitamente.

Adrien permaneceu com um olhar vazio e inexpressível contra mim. Um silêncio dramático pousou entre nós. Desconfortável, desvio o olhar para meus pés.

—Você é uma criatura nada convencional. — ele diz. — Sua aparência é tão... -hesita. — Sua pele, é tão pálida quanto a minha, mas seu coração bate em seu peito. Você nasceu de uma humana e envelhece como uma. Se alimenta de comida humana, mas também de sangue. Seu corpo se cura rapidamente. Esqueci algo? -Adrien parou um segundo.- Ah sim, e ainda é uma nobre. Mas alguma coisa que eu não saiba?

—Você tem uma boa memória. — sorri. -Não, acho que isso é tudo. Pelo menos, é tudo que eu sei.

—Então, como você e seus amigos violaram a lei saindo de Piatră? –indagou.

—Eu tinha apenas seis anos quando Victor, Narin e Corina me levaram...-relatei toda a minha história a Adrien, desde o meu nascimento até o dia em que ele tentou me atacar, algumas noites atrás. – E o resto você já sabe, estou voltando para casa, para reivindicar o trono à qual é meu por direito. Foi a vontade do meu avô que Caleb fosse o Rei, e como ele não está mais entre nós...Eu sou a próxima na linha sucessória.

—Sempre soube que Claus não era digno de se depositar confiança, mas assassinar a própria dinastia...-disse Adrien pensativo. – ...Ninguém ousa comentar as histórias que ocorreram antes da coroação de meu pai, finalmente pude compreende-la. — Há quanto tempo vivi aqui? Digo, você não estava aqui quando tudo aconteceu...- disse me reacomodando em uma das pedras que havia sentado à alguns minutos. — Há sete anos. Aparentemente, as terras do Reino estava sofrendo com a escassez de alimento na floresto. As visitas dos humanos se tornaram raras por aqui... Claus, acompanhado de outros vampiros, invadiu uma aldeia ao norte, além da floresta, onde eu morava com meus pais e um casal de irmãos, eu era o do meio...-Adrien, por um instante interrompera a sua fala, mas logo a completou.-... Foi um massacre, alguns foram deixados para serem transformados, eu fui um deles. –finalizou sua fala friamente.

Sete anos, pouco tempo. Adrien era um recém nascido. Um recém nascido que conseguiu controlar sua sede em um tempo muito curto. Era surpreendente. Victor sempre me disse que ir contra os instintos era algo muito difícil para um vampiro. Ele e todos os outros que escolheram não se alimentar com o sangue humano, demoraram muitos anos para se acostumarem com o sangue animal- inclusive os membros da família real. O único recém nascido que conseguiu se adaptar rapidamente foi minha mãe Cecília, mas ela precisou fazer isso, ela tinha uma bebê para cuidar.

—Quantos anos você tinha, quando tudo aconteceu? – sua aparência era jovem, não tão mais velho que eu.

—Dezoito.-confirmou minha suspeita.

Adrien possuía vinte e cinco anos... Um tanto distante dos noventa e sete anos de Victor.

Logo Victor retornou de sua caçada. Trocou de turno com Adrien. Assim, Adrien pode se ausentar à procura de alimento. Já se aproximava o fim da manhã quando finalmente retomamos nossa caminhada floresta adentro. O solo repleto de grossas externas raízes dificultavam meus passos, que com o passar das horas, se tornou cada vez mais lento.

—Brie, você está bem?- questionou Victor.

—Sim, só preciso respirar um pouco. –respirei fundo. Apoie-me em meus joelhos. Após três suspiros, notei que os olhares de Victor e Adrien estavam bem atentos, observando toda a floresta.

—O que houve?- indaguei, analisando a floresta, sem sucesso, não havia nada de anormal para mim.

—Tem alguém por perto.- Adrien disse secamente.

—Então, não é melhor seguirmos em frente?.

—...Esse cheiro me é familiar... –disse Victor congelado. Após alguns segundos quebrou o irritante silêncio. –...É muito bom vê-lo novamente. –disse com um sorriso de canto.

—Posso dizer o mesmo. –ouvi uma grossa voz vinda às minhas costas. Rapidamente me virei. Havia uma silhueta masculina entre as árvores à quinze metros de distância.

Senti uma forte e estranha sensação de ’’Dejá vu’’. Aquilo já havia acontecido antes. Eu tinha certeza, mas não me lembrava quando, nem como.

O homem possuía uma vestimenta visivelmente gasta com o tempo. Seus cabelos eram singelamente ruivos, sua pele branca como a neve, e os olhos caramelados eram confortavelmente familiar.

—Beatrice. –disse o homem de presumivelmente vinte e um anos. Mas eu sabia, que a aparência não revelava a sua verdadeira idade.

—...Carlisle...–sorri ao perceber que o gentil olhar ainda se mantinha em sua face, exatamente como me lembrava. Corri ao seu encontro abraçando-o.

—Venham, vamos para um lugar mais seguro.- disse Carlisle nos guiando pela floresta.

***

Alguns minutos de caminhada e já estávamos dentro de uma gruta estrategicamente escondida atrás de várias espécies de grandes árvores centenárias. O local não era muito espaçoso, mas ainda assim era agradável. No interior da caverna haviam vários livros e alguns papiros antigos empilhados em um canto, uma grande e lisa pedra que possuía a vivível função de um assento, compunha o ambiente.

—Naquela noite, depois que nos despedimos, fomos atacados por Vacile e sua matilha. Lutamos, mas nossos esforços não foram suficientes. Os lobos acabaram nos decapitando.- Carlisle disse cabisbaixo.-... Caleb e Cecília não sobreviveram... Acabei descobrindo algo à mais sobre minha habilidade de cura. Eu não posso ser morto a menos que destruam meu corpo por inteiro. Se isso não ocorrer, minha estrutura se renova, me permitindo à vida novamente. Passado algumas horas, eu já estava totalmente curado. Eu sabia que não poderia voltar para o Castelo, então me abriguei nessa caverna todos estes anos.- Carlisle disse analisando as paredes rochosas.-Soube que Vacile os seguiu em busca de Beatrice. Acreditei que também não haviam escapado...Mas aqui estão vocês.

—Estou muito feliz em saber que tenha conseguido sobreviver. –afirmei com um sorriso.

Era verdade. Carlisle possuía o dom de cura, assim como eu. Não eram todos os vampiros que possuíam ’’dons especiais”. De uma maneira ou outra, meu tio e eu éramos privilegiados.

O meu dom foi descoberto aos oito anos. Na época, morava na Alemanha. Lembro como se fosse ontem. Eu estava fazendo uma das coisas que eu mais gostava na infância, desenhar. Entre uma pintura e outra, acabei me cortando com o papel que usava para a atividade. Sangrou muito. Assim que o corte foi feito, Victor apareceu preocupado, e quando foi verificar a gravidade do ferimento, não estava mais lá. Narin logo encontrou a explicação para o fenômeno. Eu havia herdado o dom da autocura. Narin fez alguns teste comigo, precisávamos saber até que ponto essa capacidade de ajudaria. Minha habilidade é restrita, está ligada ao meu coração, enquanto ele bater, meu corpo consegue se regenerar de qualquer ferimento, mas se ele parasse, o dom não seria capaz de me assegurar a vida.

Carlisle me disse que o seu dom era um pouco diferente. A única maneira de matar um vampiro era arrancando-lhe sua cabeça. Para Carlisle, a única maneira de destruí-lo era tornar o seu corpo em cinzas. Apenas o fogo era sua fraqueza.

A cura. Aparentemente, os lobisomens não se lembraram desse detalhe, quando somente decapitaram sua cabeça.

—Minha querida, olhe só para você, tornou-se uma bela moça. – disse sorridente. -E como vão meus amigos Narin e sua esposa Corina?

—...Na nossa viagem de volta, fomos atacados por metamorfos... Eles não conseguiram escapar...-pude senti uma dor no peito ao pronunciar aquelas palavras.

— Eu, sinto muito...Sinto muito Victor.

Victor assentiu como agradecimento.

—...Carlisle, você disse que após o ataque que vocês sofreram, Vacile e seu bando vieram em nossa direção...- Victor estava pensativo.

—Sim,o próprio Vacile espalhou aos quatro cantos do reino que ninguém da família real havia sobrevivido.-reafirmou Carlisle.

—Ele mentiu, posso assegurar, ninguém nos seguiu.- objetivou Victor. – Mas por quê ele não o fez?-murmurou baixo.

A noite- mais uma vez- abraçara a Floresta Hoia-Baciu. Decidimos acampar ali mesmo, na companhia do meu sábio e gentil tio Carlisle.

Carlisle nos contou um pouco mais sobre os apesares que os piatrianos vem enfrentado nesses últimos anos. As ninfas haviam sido extintas, em virtude de sua lealdade ao Rei Vlaus. Boa parte dos transformos se tornaram escravos do atual Rei e há poucas semanas a vila dos híbridros, ao sul, foi atacada. ’’Espero que meus amigos tenho escapado dessa”, ouvi Adrien murmurar quando Carlisle comentou o ocorrido.

Supostamente, embora Carlisle vivesse secretamente isolado na floresta, o local era favoravelmente apropriado para saber o que se passava em todo o reino. O local era passagem obrigatória para quem quisesse se deslocar de uma região à outra. Aquilo era estrategicamente perfeito para nós.

—Então, vocês voltaram depois de tanto tempo...Estavam seguros lá fora, por que retornaram?- disse Carlisle.

Estávamos à sós na caverna. Victor e Adrien estavam do lado de fora da gruta, observando o movimento na floresta.

—...Semanas atrás, Corina teve uma visão. Claus pretende quebrar a lei. Ele quer deixar pública a existência do nosso povo aos humanos.

—Claus realmente quer destruir tudo o que nosso pai tentou proteger. A vingança dele não tem fim... Quando ele pretende por em prática o seu plano?

—Nós não sabemos, mas não eu não posso permitir que ele consiga...

—Não iremos.- jurou.

—...Clarlisle,o que o você sabe sobre visões? Como saber que o que nossa mente cria são visões ou apenas coisas da nossa imaginação?

—Infelizmente, eu não sei muito. Mas por quê quer saber sobre isso?

—Há alguns meses eu tive um sonho. Eu estava aqui na floresta e vi um rapaz com olhos muito familiares... Na época eu não sabia quem era, mas hoje eu sei... Os olhos eram os seus. Quando nos encontramos hoje, eu senti exatamente a mesma sensação que tive em meu sonho.

—Você acha que teve uma visão... Viu que iríamos nos reencontrar?

—Eu não sei... Talvez. É por isso que tenho que descobrir se foi ou não.

—...Eu acho que conheço alguém que pode te ajudar.

Carlisle conhecia uma vidente. Ele a conheceu durante esse tempo morando na floresta. Ela morava em uma cabana no lado oeste da Hoia-Baciu. Ela poderia me ajudar a descobrir mais sobre os meus últimos sonhos. Na manhã seguinte seguimos nossa viagem em direção a oeste, em busca da velha conhecida de meu tio.

O caminho foi longo, caminhamos grande parte da manhã, até que finalmente avistamos a casa. Era uma cabana de madeira envelhecida, com vários arbustos de flores silvestres e árvores ao seu redor, um caminho de pedras levavam até a porta.

Nos aproximamos. Estávamos à poucos metros do casebre quando a porta se abriu.

—Carlisle, finalmente vocês chegaram. – disse uma moça em pé na entrada da cabana. Ela era jovem, devia ter uns trinta e cinco anos, seus olhos eram verdes, os cabelos eram compridos cachos dourados.

—Olá Aada, é bom revela.- disse Carlisle a cumprimentando.

—Digo o mesmo. Vamos entrem!- nos deu passagem para que entrássemos. A casa era tão florida quanto seu exterior. Era pequena, mas muito agradável.

—Aada, esses são Victor, Adrien e Beatrice.- Carlisle nos apresentou. –Aada também vivi como eu, escondida dos olhos do Rei Claus. Ela é de confiança, me ajudou muito nos últimos anos.-assegurou.

—Prazer em conhecê-los. – ela sorriu.

—Vejo que sabia que viríamos.- afirmou Carlisle.

—Eu vi que estariam aqui hoje. –ela disse nos oferecendo assento. Somente eu aceitei o convite.–Mas não sei por qual motivo. Então, os que os trazem aqui?

—Carlisle me disse que você é uma vidente. Eu estou tendo alguns sonhos estranhos... Mas não sei distinguir se são coisas da minha imaginação ou visões...Poderia me ajudar com eles?

—Venha, me conte mais sobre esses sonhos... –ela disse estendendo a mão em minha direção.- Meninos, esperem aqui por favor.

Eu a acompanhei até um outro cômodo. Era uma cozinha, com uma decoração muito parecida com a sala em que nos encontrávamos a pouco. Ela se acomodou em em frente a uma mesa de madeira.

—Chá?- perguntou oferecendo a bebida dentro de um bule com estampa floral.

—Obrigada. –aceitei. Ela me serviu e sentamos diante da mesa uma de frente para a outra.

Eu contei sobre a minha possível visão de ter encontrado meu tio Carlisle.

—E o seu sonho foi exatamente igual como foi o seu encontro com Carlisle? Diga-me os detalhes...

—Bom, aconteceu um pouco diferente. No meu sonho eu estava sozinha na floresta e foi aí que vi o rosto de Carlisle... Quando nos encontramos, eu estava acompanhada de Victor e Adrien. Mais a sensação que eu tive no sonho foi a mesma que senti quando o reencontrei.

—Entendo...- ela estava pensativa -... O que você tem não são visões.- afirmou.

—Não?- fiquei surpresa.

—Se fosse uma visão você veria seus amigos nele.

—Então tudo isso é coisa da minha imaginação?- bebi um pouco do chá.

—Não,não. Os seus sonhos tem significados...- bebericou um pouco do chá de jasmim. -São revelações.

—Como assim? Revelações de quê?- eu estava confusa.

— Visões nos permitem ver aquilo que irá acontecer no futuro. Suas revelações são sinais, mensagens do seu ’’eu’’ interior para você mesma.- bebeu mais um gole do chá.-Quando você viu Carlisle, não era uma visão de que você iria encontra-lo, mas uma revelação de que ele estava vivo.

—Uma revelação...-a princípio as coisas começavam a fazer sentido, mas eu precisava de mais respostas.- Se a imagem de Carlisle foi um sinal para me mostrar que ele estava vivo... O que quer dizer os meus outros sonhos?

—Isso você vai ter que descobrir sozinha. O seu espirito quer lhe mostrar algo. Você terá que decifrar os sinais.

—E como faço isso?- falei mais confusa que antes.

—Terá que conhecer a si mesma.- concluiu.

Revelações. É o que aparentemente significavam ser os meus sonhos. Sinais. Mais sinais que quê? Eu precisava decifra-los, e para isso teria que conhecer a mim mesma. Como eu faria isso? Eu não sabia. Não sabia de nada. Mas de uma coisa eu tinha certeza, teria que descobrir como desvendá-los rápido. Se eles foram capazes de me mostrar que Carlisle estava vivo, talvez eles pudessem me ajudar a derrotar meu tio Claus. Em muitos dos sonhos que tive, ele estava lá. E eu preciso saber porquê.

***

Após o fim da visita à Aada, voltamos para a caverna de Carlisle.

—Já fazem dois dias que estamos acampados aqui, e ao meu ver, não estamos tendo muito progresso. -Ironizou Adrien.

—Seria idiotice atacar o castelo, nunca iríamos conseguir, não sem uma estratégia.- retrucou Victor

—Uma boa estratégia. -Adrien corrigiu. -O castelo de Claus é guardado por vampiros e metaformos. Dezenas contra três vampiros e meio.- ele olhou para mim quando pronunciou a palavra ’’meio”. Seríamos massacrados antes de chegarmos na sala do trono.

—Obrigada, pela parte que me toca. -arqueei uma das sobrancelhas cruzando os braços.

—Só disse a verdade...-Adrien revirou os olhos.

—...Precisamos de aliados...- afirmou Carlisle.- O reinado de Claus não é muito aceitado por parte do povo. Talvez não seja difícil encontrar pessoas que queiram se juntar à nós...

—...Alguma sugestão?- disse Victor.

—Podemos começar com o vilarejo dos híbridos do sul. Claus ordenou que eles fossem atacados. Ele os considera ’’rebeldes” a ele.-disse Adrien.

—Você tem amigos lá, não é?- perguntei. Ele assentiu confirmando.

—...Eles são confiáveis?- indagou Victor.

— Os conheço a muito tempo...- confirmou. -...Meu amigo Íon odeia o meu pai.- sorriu de canto.

—Bom, já é um começo...- refletiu Victor.

—Então começaremos pelo sul. -afirmou Carlisle. -Descanse Beatrice, partiremos ao amanhecer.

Um pouco antes do nascer do sol, iniciamos a nossa caminhada rumo ao sul da Floresta Hoia-Baciu. Já era inicio da tarde quando paramos para eu descansar um pouco.

Ter que parar. Isso me deixava um pouco estressada. Nessas horas, eu começava a odiar o meu lado meio-humano. Dentre nós quatro, eu era a única que precisava realmente parar. Parar para respirar, parar para dormir, parar por que acabei tropeçando em alguma maldita raiz de árvore. Isso era insuportável e irritantemente...Humano.

—Eu conheço essa cara...- disse Victor sentando ao meu lado em um tronco de árvore caído. -O que houve?

Respirei fundo.

—...Vocês não precisariam ficar parando se eu não estivesse aqui. Na verdade, com uma corridinha, vocês já estariam lá...Eu só atrapalho.

—Brie, você não atrapalha.

—Claro que atrapalho... Eu ouvi o Adrien comentar que, na minha velocidade, só chegaríamos em dois dias... Mais tempo perdido.

—Ele é um idiota. Não dê ouvidos ao que ele fala.

—Eu ouvi isso.- respondeu Adrien que estava há uns 10 metros à frente lançando pedrinhas em um pequeno lago.

— Eu odeio ser limitada, odeio ser meio-humana.

—Não deveria...Você pertence aos dois mundos, isso faz parte do que você é...

—Mas ser quem sou, não tem ajudado ninguém ultimamente.

—Você vai encontrar uma maneira de mudar isso, eu sei.- sua mão pousou em meu ombro. Sorriu.

Suspirei.

— Vamos começar seguindo em frente.- disse levantando do tronco.

Seguimos viagem até o anoitecer. Acampamos à céu aberto. Comparada as últimas noites passadas, essa em especial, estava bem iluminada. Era possível ver as frestas de luz da lua ultrapassarem os galhos das árvores. Decidi me recostar no tronco de uma árvore. A grande lua prateada refletia belamente no riacho que estava à poucos metros dos meus pés.

A noite estava realmente muito bonita. mas o reflexo do satélite era apenas um pretexto para explicar o motivo sobre a verdadeira coisa que mantinha minha atenção.

A figura de feição pálida envolto pela negritude de seus cabelos roupas estava de pé à margem do riacho. Adrien observava a leve correnteza das águas. Não fazia ideia sobre quanto tempo ele estivera absolutamente petrificado naquela posição, sem um mínimo movimento. Uma perfeita estátua.

Sou pega de surpresa quando, finalmente, ele produz um gesto e pressiona os dentes perfeitos contra o lábio inferior. Automaticamente, reproduzo o mesmo movimento e levantando a cabeça, ele a direciona para mim. Meu coração acelera. Nos entreolhamos por alguns instantes até que ele desaparece diante dos meus olhos.

—O que está fazendo?- a grave voz soltou em meus ouvidos. Olhei para o lado oposto do tronco da árvore, onde encontrei um par de pernas deitadas sobre o cascalho e botas pesadas. Não precisei ver o rosto para identificar à quem pertenciam aquela voz. Adrien estava encostado na outra extremidade da árvore onde me apoiava.

—Nada de mais...- a voz sai baixa e rouca. Sinto minhas bochechas queimarem. Um silêncio se perdura até que minha barriga ronca alto. Envergonhada, abaixo a cabeça deixando meu cabelos cobrirem meu rosto.

—Espere aqui.- disse Adrien. Entre as mechas do meu cabelo vejo o desparecer novamente e ressurgindo logo em seguida.

—Tome — ele me entrega uma perfeitamente vermelha maça.

—Obrigada- respondo encabulada. Estendendo minha mão, sinto um arrepio ao encosta na pele fria de Adrien.

—Desculpe. — ele disse retornando sua mão para perto do seu corpo.

— Tudo bem. — sorri sem graça. Mordi a fruta que estava deliciosa. Enquanto comia, percebi que Adrien mantinha os olhos fixos em cada um dos meus movimento. -Algo errado?

—Você é fascinante- ele diz com um pequeno sorriso no canto da boca.

Por um momento, paraliso com o comentário.

—Como assim? -solto o único questionamento que vem em minha cabeça.

— Nunca vi nada parecido. -Ele fecha os olhos. — Posso ouvir o movimento das células em seu corpo. O sangue correndo por suas veias, a pulsação de cada artéria... Coisas tão comuns em humanos, mas ainda assim, em você é diferente.

—Diferente?

—A velocidade como seu organismo funciona é impressionantemente rápido, até para mim. Victor nunca mencionou isso?

Instintivamente, desvio meu olhar às costas de Adrien, em direção à Victor que junto com Carlisle, não estava muito longe de nós. Victor e eu nos entreolhamos. Ele estava acompanhando a conversa, claro. Sério, ele também esperava minha resposta.

Adrien fez um pequeno movimento para o lado, cobrindo minha visão sobre Victor. Ele arqueia uma das sobrancelhas.

—Não. — é minha única resposta.

— Entendo porquê. — murmura, mas não continua. Um novo silêncio se instaura.

***

—Sobre o meu comentário... -disse Adrien, recostado na árvore à minha esquerda.

—Não se preocupe, você está certo. Eu sou um fiasco. -suspirei fundo.

—Nem tanto, bom, até que seu plano deu certo...- ele soltou um pequeno riso. — Você me ajudou a controlar a sede.

Notei uma coisa que eu não tinha reparado até então. Os olhos do Adrien estavam ’’normais’’, não havia nenhum vestígio de vermelhidão.

—Seus olhos... Não estão vermelhos.-disse surpresa.- Mas você caçou ontem. — lembrei que antes de sairmos do acampamento de Carlisle, ele e Adrien haviam saído para caçar.

—Carlisle me convenceu a tentar me adaptar ao sangue animal. Seu tio é bastante persuasivo, mas nossa última conversa me ajudou a tomar a decisão. Eu quero tentar ser ’’ mais humano’’...-sorriu de canto.

Retribui o sorriso.

—Fico feliz por sua decisão, e também por ter podido contribuir com isso.

Nossa, a vida é realmente cheia de surpresas. Dá para acreditar que há uma semana, o rapaz que hoje está sentado ao meu lado tentou me matar? Aquela noite, realmente, sei que jamais vou esquecer. Nunca havia sentido tanto medo em toda a minha vida. E olha só! Descobrir que existe algo de bom em Adrien. Por algum motivo, sinto que posso confiar nele, mas ao mesmo tempo, eu sei que ele guarda algum segredo. Não sei. Como alguém poderia chamar de ’’pai” aquele que um dia destruiu sua família? Ou melhor, como de um dia para o outro decide se voltar contra essa mesma pessoa?

Ultimamente tudo está sendo tão rápido e inesperado. As vezes sindo que estou vivendo um longo e complicado sonho. Voltei meus olhos as águas do riacho.

—...A noite está linda...-sussurrei para mim mesma.

—Noite de lua cheia...-comentou.- É quando os lobisomens saem para caçar...

—...Ouviram isso?- atentou Carlisle.

Os meninos congelaram em seus lugares estudando os sons ao nosso redor. Procurei me manter o mais quieta possível.

—Eu e minha boca. -resmungou Adrien.

Notas finais
Continua...