Entre Dois Mundos
6 Companhia
Notas iniciais
—O que está acontecendo? -olhei ao meu redor, mas não via nada.
—Lobisomem. -anunciou Victor, pondo-se de pé.
Quase que ao mesmo tempo que Victor terminou sua fala, ouvimos um estridente uivo. Era muito alto e perceptivelmente perto.
—O que fazemos? Fugimos? -levantei-me, minhas mãos e pernas estavam trêmulas.
Carlisle balançou a cabeça negativamente. -...Não dá tempo.
—Por favor, é só uma bola de pelos...- bufou Adrien.
—Brie, fique perto de mim.- pediu Victor. Rapidamente o obedeci.
Ouvi um barulho de galhos se partindo, seguido de um grave rosnado. Definitivamente, era assustador. Principalmente porque só conseguia ouvir a criatura se aproximar cada vez mais, mas não conseguia vê-la. Tentei permanecer quieta, tentando identificar o que existia no meio da negritude que os rapazes tanto fitavam.
Mais um estralo de graveto se partindo.
Da escuridão- em um canto da floresta- surgiu uma alta silhueta, revelando uma figura bípede de dois metros de altura. A criatura era coberta por pelos negros, suas patas possuam cumpridas e afiadas garras, sua face era similar a de um cão feroz com enormes presas.
A cada gesto de aproximação, a criatura demostrava cada vez mais irritação- seu rosnado a cada minuto se tornava mais alto. Soando em concordância com o meu coração- que pulsava freneticamente em meu peito.
Instintivamente agarrei-me ao rígido braço direito do meu guardião, observando à cena a nossa frente.
Carlisle e Adrien cautelosamente se aproximavam da besta- se colocaram em posição de ataque, mas a criatura não parecia intimidada- a criatura rosnou mais uma vez e os rapazes rosnaram em resposta.
Todos se mantinham atentos aos movimentos uns dos outros- até que abruptamente a criatura se lançou em direção a Carlisle que desviou instantaneamente para à esquerda. Com a perda do alvo, o lobisomem se desequilibrou e milésimos de segundos após a ação, Adrien -com uma rapidez ainda maior que a dada por Carlisle- chuta as costas da fera que, com a força, é lançada a pelo menos 7 metros contra uma árvore -que com o choque, cai no chão, se tornando largas lascas de madeira.
Um pouco desnorteada com a queda, a fera se levanta- seus intensos olhos completamente negros transmitiam uma grande raiva. A criatura rosnou novamente- eu me arrepiei- seus olhos, que até então estavam fixados na dupla que o enfrentava, inesperadamente, se voltaram em minha direção.
Meu coração congelou. Tudo foi muito rápido, meus olhos quase não conseguiam acompanhar o que acontecia ao meu redor.
O lobisomem disparou em minha direção.
Subitamente sinto minha cintura ser laçada e sou arremessada à alguns metros de distância contra o chão forrado por pequenas pedras.
Um pouco tonta- percebo que três vultos vão de encontro a fera, que é projetada- novamente- contra as árvores. Rapidamente, Carlisle e Victor seguram o lobisomem pelas patas dianteiras, permitindo com que Adrien -com uma dentada- rasgue o pescoço do animal, o matando.
Segundos depois, a criatura fora perdendo altura e seu corpo peludo se tornou calvo, revelando uma outra criatura. O animal abatido havia se transformado em um homem.
—Brie. -Victor surgiu diante de mim. – Você está machucada.- afirmou.
Um pouco desorientada, ainda no lugar que havia caído, me esforço para sentar. — Droga... -gemi, percebendo que a jaqueta que eu vestia estava com o lado do braço direito rasgado e o tecido de couro estava manchado com sangue. Tentei me mover para verificar o estrago.- Ai! — o ferimento ardia muito.-...Péssima ideia.- completei deitando no chão.
—Que merda Brie, me desculpe.- disse Victor sentando ao meu lado.- Por favor, me desculpe.
—Está tudo bem, eu vou ficar bem.- resmunguei tentando administrar a dor.
***
Permaneci deitada no chão. Victor permaneceu ao meu lado. Alguns minutos depois, a ferida começou a se fechar. Após a passagem do ardor, me senti totalmente curada.
—Você está melhor? -perguntou Victor me ajudando a ficar sentada.
—Estou, a ferida já se fechou.- sorri.- Não dói mais.
—Já nos livramos da besta. -disse Carlisle que se aproximava, acompanhado de Adrien.-O que aconteceu?
—A Beatrice acabou se machucando quando eu a empurrei para livra-la do ataque...- disse Victor.
—Eu estou bem. — me pus de pé.
Adrien observava paralisado a mancha de sangue em minha roupa. Os músculos do seu rosto estavam totalmente contraídos. Instintivamente, coloquei minha mão sobre o braço e ele desviou o olhar.
—Ãn...A ferida já cicatrizou.- me direcionei até a beira do riacho para limpar os vestígios de sangue no meu braço e jaqueta. Embora já tivéssemos passado por algo parecido, Adrien era novo no assunto de ’’dominar os instintos”, mesmo que eu confiasse nele, eu sabia que seus esforços para se manter sob controle, nem sempre poderiam ser suficientes contra a sua sede. Sei que devo manter cuidado. Para o bem dele.
—Parece que sim. –comentou Carlisle.
Voltei meu olhar para o Victor. -...Mas você me deve uma jaqueta nova.
A manhã chegou e seguimos viagem. Quanto mais adentrávamos a floresta mais a mata ficava cada vez mais densa. Ela parecia não ter fim. Meu corpo estava exausto, dormir no chão de uma floresta não é nada agradável. A cada passo que dava, meu corpo ia desanimando a caminhar.
—Estamos perto. –Carlisle me entregou uma botija d’água.
—Obrigada. –sorri e bebi o líquido do recipiente.
—Estou orgulhoso de você.
—De mim?- continuamos a caminhar.
Ele assentiu. – Você se manteve forte por todos esses anos...
—Forte, não é assim que me vejo.- desviei de uma raiz.
—Eu percebi o que fez pelo Adrien ontem à noite.
—...Eu sei que não é fácil para ele. –sorri. Era notoriamente difícil, eu podia sentir o quanto ele se esforçava para manter o controle e o quanto era insuportável está tão perto de algo que desejava e não pudesse ter.
—Você parece muito com seu pai. Está sempre disposta a ajudar e nunca se importa com o que isso possa lhe causar.
—... Eu queria poder ter mais lembranças dele... Eu era pequena, é tão frustante não conseguir lembrar de muita coisa...
—Caleb era um bom homem... Me lembro de uma vez, antes da maldição, em que um dos vilarejos havia perdido grande parte das plantações e ele ofereceu os suprimentos do palácio para as famílias que necessitaram, até os camponeses conseguirem colher novamente. Ele teria sido um grande monarca, assim como nosso pai foi.
Carlisle pôs sua mão fria, mas muito leve, sobre minhas costas. -Seu pais tinham algo que nem Claus pode tirar deles, eles tinham amor, amor pela família, amor pelo nosso povo... E querida, você pode não tido muito tempo com eles, mas saiba de uma coisa, eles estão aqui. Eu os vejo em você.
Sorri.
—Eles estão aqui. -meus olhos derramaram algumas lágrimas.
***
Ainda em nossa caminhada, Carlisle me contava algumas histórias de nossa família ocorridas há muito tempo trás.
—...Eu não entendo como alguém pode odiar tanto sua própria família. Como Claus pode se tornar tão... Frio?
—...Meu irmão sempre foi muito influenciado por sua mãe. A Primeira-Rainha não suportava dividir o trono com Caterine e minha mãe Serena. Amélia sempre odiou o fato de Caterine ser a preferida do Rei e acabou transmitindo toda essa ira para o filho, Claus acabou crescendo com um grande rancor no coração. Quando nosso pai demostrou a vontade de tornar Caleb rei, para Claus foi uma grande afronta.
—Parece que não temos apenas um vilão nessa história...- refleti. -E o senhor concordou com a decisão de Vlaus?
—A notícia causou espanto a todos, é verdade, mas como eu não possuía o desejo de reinar e a instabilidade de Claus sempre foi algo que causava preocupação para nosso pai... A sua vinda abriu um novo horizonte para o nosso reino.-sorriu gentilmente.
— A esperança de uma futura descendência...
—A esperança de um futuro melhor.- corrigiu.
Horas mais tarde avistamos uma estreita trilha e alguns minutos depois –finalmente- a estrada se alargou revelando a entrada de um vilarejo.
O sorriso era visível em minha face. Depois de exaustivos dias caminhando em uma floresta fechada, finalmente pudi sentir o calor do sol em minha pálida pele. Enfim pudia ver o céu, mais claro e azul como nunca, sobre minha cabeça.
—Tentem não chamar atenção...-alertou Carlisle.
—Com essas roupas?Acho meio difícil...-disse Victor.
—Venham, por aqui. – sinalizou Adrien.
Nos aproximamos da pequena cidade, Adrien nos guiou pelas vielas do vilarejo dos Híbridos do Sul. O ambiente parecia ter parado no tempo. A vila era um típico vilarejo do século XIX, cercada por antigas árvores, possuía um aspecto rústico com ruas de paralelepípedos e antigas casas construídas com pedras.
Tudo parecia relativamente comum- pelo menos comum como as fotografias dos livros de histórias ou nos filmes de época. Porém duas coisas me chamaram a atenção: a primeira, havia resquícios de destruição em toda a parte, algumas casas com muros destruídos, carcaças de objetos e carroças queimadas. Eram provas de que aquele povo teria passado por maus bocados à pouco tempo. A segunda é que embora tudo fosse muito antiquado, as vestimentas das pessoas me lembravam muito as roupas estilo ’’steampunk’’- couro, fivela, botas- e eram habitualmente atuais- para uma festa à fantasia- o que por um instante me fez sentir em um ’’mundo de humanos no Halloween”- Mas esse sentimento rapidamente desapareceu quando os meus olhos testemunharam um jovem rapaz se transformar em um tigre. Um transmorfo — deduzi quando avistei o animal entrar na floresta. Com certeza não estávamos mais em um mundo de humanos.
Adrien parecia conhecer muito bem o vilarejo, passamos pelos caminhos mais desertos para não chamarmos a atenção das pessoas que andavam de um lado para outro nas ruas principais.
—Chegamos.- disse Adrien, se direcionando nos fundos de uma das muitas casas daquela rua.
—Onde estamos?- perguntou Victor.
Adrien não respondeu e deu três batidas na porta de madeira da casa. Não demorou muito e a porta foi aberta.
—Adrien. -uma doce voz saiu de dentro do casa, revelado uma jovem de cumpridos cabelos negros que abraçou o rapaz assim que o viu.-...Quem são eles? -a jovem fixou seu olhar esverdeado nos desconhecidos, secando um por um, por alguns instantes. Seus olhos me encontraram, e arregalaram-se surpresos.
—Precisamos de ajuda.-disse Adrien interrompendo a observação da moça.
—C-Claro, entrem. -ela nos permitiu passagem para a área interna da casa.
Assim que entramos percebi que tudo ao meu redor era de pedra ou madeira escura maciça, assim como na casa de Aada, mas menos florido. Parecia que que havia entrado na cena de um filme.
Todos nos acomodamos na sala de estar do imóvel. As paredes eram um bela construção de pedras empilhadas, igualmente como no lado externo da casa, o chão era de madeira rústica, assim como os móveis estilo vitoriano em tons pastéis, e nas paredes haviam quadros com imagens visivelmente antigas. Uma grande fotografia – acima da grande lareira -me chamou atenção, uma imagem com um tom amarelado, nela havia um casal de adultos sorridentes companhados de um casal de jovens. A semelhança da garota da foto era notória àquela que se encontrava sentada em uma das poltronas a minha frente. Com certeza era ela.
—O Rei Claus ficou muito irritado com a sua fuga.- comentou a moça. -E você atravessou a floresta! -a garota soltou um riso.
—E isso não o impediu de fazer o que queria.- disse Adrien.- Soube do ataque, que bom que você está bem.
O comentário a deixou cabisbaixa, seus olhos ficaram levemente cheios d´água. -...Algumas pessoas morreram, mas estamos tentando nos recuperar o mais rápido possível...
—Onde estão os outros?
—Estão bem... Mas o Íon foi levado pela guarda do Rei...-a voz da moça parecia muito aflita.
—Que merda!- bravou Adrien. -... Eu sinto muito Milla. Para onde ele foi levado?
—... Soubemos que ele está aprisionado no Castelo. O Nicu está planejando resgata-lo...-os dois se entreolharam por alguns instantes, eles realmente pareciam ter uma séria conversa, mas nenhum emitia qualquer som nos lábios. Em silêncio, Adrien assentiu para a jovem.
—Bom...- ele interrompeu o silêncio que já estava me deixando inquieta. -Pessoal essa é uma velha amiga, Milla Covaci. -finalmente nos apresentou.
—É um prazer conhecê-la Milla, sou ...- a jovem rapidamente cortou a fala de Carlisle.
—Eu sei quem são. -ela sorriu gentilmente para nós.
Sabe...? Como ela pode saber? Não demos uma palavra até agora...
Milla riu baixo e sorriu para mim. Espera, eu falei isso alto?
—Milla tem um dom especial, ela consegue ler pensamentos e se comunicar através deles. -disse Adrien.
A moça curvou sua cabeça. ’’É uma grande honra conhecê-la princesa’’ pudi ouvir uma voz em minha cabeça. Era ela! Mas seus lábios não moveram um só centímetro. Logo em seguida, a moça se curvou em direção a Carlisle.
—Fascinante. -disse Carlisle maravilhado. Provavelmente ele havia passado pela mesma experiência que eu.
Milla podia realmente se comunicar em silêncio. Sua doce voz era encantadora e ecoava claramente em nossos pensamentos. Foi uma das coisas mais incríveis que eu já havia vivido.
Milla nos contou um pouco de sua história. Ela era orfã- assim como muitos do reino- devido aos massacres causados pelo Rei Claus II. A jovem vivia com seu irmão mais velho, e melhor amigo de Adrien, o Íon – que foi levado como prisioneiro pelos metamorfos, devido a sua resistência durante o ataque que o vilarejo sofreu à algumas semanas. Milla e Íon são híbridos de pai vampiro e mãe metamorfo -foi graças a sua metade lobo que os metamorfos apenas aprisionaram o Íon — os metamorfos não matavam aqueles que possuíam o mesmo sangue que eles.
Milla nos ofereceu abrigo em sua casa. A casa era relativamente grande, acomodaria a todos. E a sensação de dormir em um lugar quentinho não era nada ruim para mim.
Milla estava comigo em seu quarto- que também não possuía uma decoração muito diferente do resto da residência. Ela havia me ajudado a me limpar e me emprestou roupas novas.
—Obrigada por tudo. -sorri em agradecimento. — Eu precisava mesmo de um bom banho.
—É um prazer servi-la. -a jovem curvou-se. -Princesa Beatrice.
— Por favor, não precisa se curvar, eu realmente não estou acostumada com isso...- sorri. – E pode me chamar de Alice, talvez seja melhor manter nossa identidade em segredo.
—Tudo bem, Alice. – sorriu.
—Serviu muito bem. – disse analisando minha nova vestimenta. Milla havia me entregado uma camisa branca com um corpete de couro preto – com amarraduras na frente, que moldava toda a minha cintura desde a altura abaixo dos meus seios, o que valorizava bastante a região,-uma calça skinny preta e uma bota de cano alto- estilo montaria- da mesma cor.
—Com essas roupas, vai chamar menos atenção... – ela disse observando minhas antigas roupas que estavam jogadas em um canto do cômodo.
—...Temos conceitos muito diferentes do que é ’’chamar a atenção”. – disse observando o traje de Milla, ela vestia um vestido branco com mangas compridas, a saia possuía varias camadas de babado que iam até seus joelhos, sua cintura era marcada com um corset marrom- parecido com o que eu usava- ainda, vestia grossas meias brancas que chegavam a altura das panturrilhas e uma bota coturno de cano curto marrom com salto tratorado e vários cadarços.
— Eu tenho muito estilo, eu sei...- ela sorriu simpaticamente.
—Sinto que nos daremos muito bem.- retribui o sorriso.
Ouvimos batidas vindas da porta principal. Acompanhei a anfitriã até a sala de estar. Encontramos os rapazes. Eles já haviam se trocado também Carlisle vestia um alinhado terno de lã azul escuro com uma pomposa gravata cor de vinho tinto. Victor usava uma camisa de linho clara embaixo de um colete cor de cobre envelhecido de alfaiataria acompanhado de uma calça de corte reto do mesmo tecido. Adrien usava um conjunto preto com jaqueta e calça com detalhes em couro envernizado.
Quando Milla e eu nos aproximamos, Adrien cumprimentava alguém na porta. Mas não esperou muito para permitir a entrada do convidado.
—Achei que havia fugido.- disse o visitante.
—Fugi, mas voltei.- disse Adrien dando um forte abraço no rapaz.- E trouxe amigos, esses são Derick, Vincent e Alice. –Adrien nos apresentou ao rapaz. Como antes combinado, a partir de agora, novamente utilizaríamos nossos nomes falsos. Derick foi o nome escolhido para Carlisle. –Pessoal, esse é o Nicu.
—Prazer em conhecê-lo Nicu. – cumprimentou Carlisle. Seguido de Victor e eu.
Nicu possuía uma presença marcante. Tinha uma estrutura alta e seu tronco era largo e era bastante forte. Nicu fazia parte do grupo de amigos do Adrien, assim como os irmãos: Milla e Íon.
Nicu era um transformo. Sua natureza o possibilitava se transformar em qualquer espécie de animal sempre que quisesse. Embora possuísse uma raça pura, Nicu há alguns anos mora no Vilarejo dos Híbridos do Sul, e foi aqui que ele conheceu os irmãos Covaci e logo depois Adrien Kreta.
—Milla me disse que Íon foi capturado e que você planeja resgatá-lo.-disse Adrien.- O que tem em mente?
—Tive contato com alguns colegas que trabalham no castelo. Tenho algumas informações, ele está encarcerado na masmorra da ala leste e está sendo vigiado pelos Ogros.
— Eles costumam vigiar essa área. –confirmou Adrien.
Vai ser fácil, quando podemos ir? –perguntou Adrien.
—O quê? Você pretende entrar no Castelo dos Dalca? –indagou Milla. -Você esqueceu de como terminou sua última conversa com Claus?
—Relaxa. Eu sou rápido, entro e saiu, ninguém vai perceber. –bufou Adrien.
—Ninguém vai perceber?! Eu consigo sentir seu cheio à quilômetros de distância.- irronizou Milla. O que fez Nicu rir baixo.
—Não exagera Milla. É você quem fede a cachorro. –Adrien revirou os olhos. Com o comentário, Milla soltou um rosnado baixo. — E então? – Adrien perguntou à Nicu.
—Ainda não sei como conseguiremos entrar lá.- respondeu o rapaz.
—Existem túneis subterrâneos que dão acesso por todo o castelo. Alguns levam às masmorras.- disse Carlisle.
—Como você tem essa informação? –indagou Nicu.
—...Eu trabalhei no castelo, à algum tempo... –disfarçou Carlisle.
—Eu conheço esses túneis.- afirmou Adrien. –Eu usava eles quando queria dar uma ’’escapada”.
—Então, acho que temos tudo. Invadiremos amanhã à noite.-concordou Nicu.
—Ãn, Eu posso ir com vocês? –perguntei. Bom, talvez seja divertido.
’’Não, não é divertido...” Ouvi a voz de Milla em minha mente. Balancei a cabeça algumas vezes, tentando dissolver o comentário dos meus pensamentos .
—Você não está falando sério, né? –questionou Victor.
—Eu estou. –assegurei.
Adrien soltou um riso -Vai ser engraçado. – assentiu, sorrindo de canto.
Victor voltou seu olhar para o príncipe -Você não está ajudando. –confrontou secamente.
—Nicu, você se opõe?- perguntei.
—Eu não vou ser babá de ninguém.- afirmou.
Arqueei uma das sobrancelhas. -Não se preocupe, eu sei me cuidar.- sorri fracamente.
—Se você diz.- deu de ombros.
— Eu vou com você.- assegurou Victor.
—Eu já imaginava que viria.- sorri. -Vai ser ótimo.
Tudo já estava planejado. Nicu, Adrien, Victor e eu, invadiríamos o castelo na noite seguinte. Seríamos rápidos e silenciosos. Não seria nada agradável chamarmos a atenção. Entraríamos pelos túneis em direção ao leste, encontrando a ala das masmorras, driblaríamos os guardas e libertaríamos o Íon.
Era tarde da noite quando finalizamos os últimos detalhes. Milla me ofereceu o quarto de seu irmão raptado para passar a noite. Nesses dias senti na pele a frase ’’ só se dá valor quando se perde’’. Depois de muitas noites dormindo no chão de uma caverna ou ao relento da floresta, enfim, pudi descansar meu corpo em algo quente e macio.
Naquela noite sonhei mais uma vez. Era um sonho estranho, mas incrível ao mesmo tempo. Eu estava sozinha na Hoia- Baciu. Era noite e eu estava correndo, pudia sentir a força do vento se encontrando com a minha pele e cabelos. Tudo ao meu redor parecia passar muito rápido e ao mesmo tempo tão lentamente que podia identificar cada lugar por onde eu passava. Me sentia totalmente livre, e um doce e suave aroma tomava todo o ambiente, eram flores, eu acho, mas não conseguia ver onde elas estavam.
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