Entre Dois Mundos
7 A visita: Uma nova habilidade
Notas iniciais
Já era dia quando despertei. Os raios de sol passeavam por todo o cômodo. Me espreguicei algumas vezes antes de finalmente levantar. Calçei as botas, lavei o rosto. Ouvi batidas na porta. Era Milla, queria estocar a despensa. Me ofereci para acompanha-lá. Estavámos caminhando pelas ruas. Em uma feira livre, Milla escolhia algumas frutas em um dos estandes.
—A quanto tempo vive aqui?
—Desde que o Rei Vlaus realocou os vilarejos.
—Você viveu na época em que aconteceu a maldição?
—Eu tinha onze anos quando aconteceu...
Milla tinha 112 anos. Milla pode viver por muito tempo, e é uma híbrida, assim como eu. Quer dizer, mais ou menos. Ela já havia nascido quando tudo aconteceu. Ela e sua família foram transformados junto com os antigos aldeãos. Eu já nasci com as sequelas deixadas pela magia.
—Ei! Eu ainda sou jovem!- Milla me olhava ofendida.
—Oh! Desculpe. Eu esqueci.
Ela suspirou.
—Nem todos são como eu, as duas partes da minha espécie, tanto vampira quanto metamorfo podem viver a imortalidade. Mas por exemplo, o Nicu é um transmorfo, ele não tem a infelicidade de viver eternamente.- ela disse pagando por algumas maçãs ao vendedor.
Ela olhou em nossa volta. A rua estava bastante movimentada.
’’ Você tem uma parte imortal e a outra humana, não é algo comum. Eu não sei como funciona com você’’ a voz de Milla ecoou em minha mente.
Sorri.
Eu sei que a imortalidade traz um preço muito alto. Mas eu tenho meus motivos para querer tê-la.
’’Sei que é por causa do Victor. Ele já sofreu muito por sua condição e acredito que ele não deseje isso para você.”
E é por isso que não quero que algum dia eu venha ser motivo de mais um sofrimento para ele... Não posso imaginar ele viver o resto da eternidade sozinho... Aliás essa conversa está sendo estranho, não? Sinto que estou conversando comigo mesma.
—Oh, desculpe, eu estou sendo muito invasiva?
—Não, é que é estranho saber que seus pensamentos não são somente seus...
—Eu vou tentar me controlar...Prometo.
—Tudo bem.
—No começo era insuportável. Era quase impossível ouvir a mim mesma, quando existia milhares de vozes dentro da minha cabeça. Mas com um tempo eu aprendi a canalizar meu dom em pontos específicos.
—Você consegue não conseguir ouvir?
—Sim, mas requer muito esforço. E depois, se a pessoa volta a pensar naquilo que deixei de ouvir, quando eu não estou tentando não fazê-lo, eu acabo descobrindo da mesma forma. Então, é quase impossível esconder algo de mim.
—Conheço algumas... "Humanas"... — sussurrei a última palavra. -...que dariam qualquer coisa para saber o que se passa na cabeça de seus namorados
—Se eu as conhecesse diria que não seria nada agradável, para nenhuma das pastes.- ela suspirou. — Eu gosto de um rapaz, mas eu sei que ele não gosta de mim da mesma maneira... É horrível saber que não tem chance, mesmo que você tente.
—Sinto muito.
—Sabe, é bom ter mais uma garota no grupo. — sorriu. — Os rapazes às vezes são tão...- ela segurou a fala. — Eles.- bufou.
Gargalhamos. Caminhamos por mais alguns minutos.
Voltamos para casa com a cesta cheia de produtos. No final da tarde, ajudei Milla a preparar o jantar. Um jantar bem farto diga-se de passagem- tínhamos feito várias receitas, como polenta, ciorba de almôndegas, cogumelos assados- havia comida para alimentar pelo menos quinze pessoas. Ao cair da noite Nicu chegou e se juntou comigo e Milla para o banquete. Para a minha surpresa, logo já não se tinha grandes vestígios daquela refeição. Nicu e Milla haviam comido toda aquela comida praticamente sozinhos. Naquela noite eu havia aprendido mais uma coisa, metamorfos e transmorfos comem muito, muito bem.
***
Após o jantar nos reunimos com os vampiros para rever nosso plano de ’’visita” ao Castelo dos Dalca. Era quase meia noite quando saímos em direção ao oeste da floresta. Nicu era um guepardo, e eu fui ’’acomodada” nas costas de Victor. Em poucos minutos de corrida já podíamos ver a grande construção de pedra logo à frente.
Cercado por árvores centenárias, o Castelo era realmente grande, tanto em altura quando em comprimento, possuía várias torres- em formato retangular- por toda a sua estrutura típica do século XV.
Cautelosamente nos aproximamos. Adrien nos guiou até uma das laterais da fortaleza. O caminho era rodeado por pequenas flores em tons de azul- o cheiro era doce, suave e familiar. Entre vários arbustos, encontramos uma grade fincada nas paredes da fortificação. Facilmente Adrien arrancou a porta de ferro das paredes de pedra. Era a entrada de um túnel. Seguimos pelo corredor escuro- pelo menos para mim- procurei me manter o mais próximo possível de Adrien que estava logo à minha frente, atrás de mim estava Victor e depois Nicu. Passamos por alguns túneis que as vezes se cruzavam com outros. Nos mantínhamos seguindo à leste. Algum tempo depois, pudi perceber, finalmente, ’’uma luz no fim do túnel’’-literalmente. Encontramos o nosso destino, as masmorras.
Eu tive a certeza que havíamos chegado quando encontramos no fim de um dos corredores duas figuras de pele esverdeada conversando. Elas eram bem altas- um pouco mais de dois metros e meio de altura- possuíam orelhas pontudas, eram carecas, com os troncos nus, vestiam apenas uma espécie de ’’kilt” de couro envelhecido, seus pés estavam descalços, mas em suas mãos carregavam bastões com bolas de ferros penduradas em uma das superfícies. Eram ogros.
Nos mantivemos em silêncio, escondidos atrás de uma das paredes. Nicu se transformou em um rato marrom e seguiu pelo corredor em direção aos guardas. Assim que o Nicu passou pelos pés dos ogros, eles o seguiram com o olhar. Estavam distraídos. Adrien e Victor, com uma velocidade sobre-humana atacaram os vigias pelas costas, quebrando o pescoço dos ogros, que nem perceberam por quem foram mortos. Os vampiros arrastaram os grandes corpos até uma cela vazia próxima.
Seguimos pelo corredor que felizmente estava mais vazio que o esperado. Mas a visão não era a mesma quando se observava as celas. Elas possuíam portas de aço totalmente fechadas- com apenas uma pequena abertura no centro superior delas que permitiam uma estreita visão do interior- e estavam totalmente cheias, dava para perceber pelo barulho que os prisioneiros faziam de dentro delas. Os pedidos de socorro eram insuportavelmente angustiante.
—Não podemos deixar essas pessoas aqui.
— Você quer libertar todos?- questionou Victor.
—Assim como o Íon, eles estão aqui porquê lutaram pelo o que era certo.
—Precisamos seguir com o plano.- disse Adrien.
—Mas temos que ajudá-los. – implorei.
Eles me secaram por alguns instantes, exitantes.
Finalmente Victor concordou. Ele encostou a mão em uma das portas de aço. Mas abruptamente se distanciou da cela.- Erva D’ente. -disse com um rosnado baixo.
—Ah! -bufou Adrien. -Não temos tempo para isso.
Realmente, não tínhamos muito tempo. Nicu já estava em outro corredor, procurando o amigo Íon. E com o alarde dos outros prisioneiros logo teríamos companhia. Mas eu não poderia ir sem ajudar aquelas pessoas. Não podia.
—Não, espera! Você não podem, mas eu sim. — me aproximei da cela. Ao tocar a estrutura de aço, senti um ardor formigar as pontas dos meus dedos. A dor era constante, mas suportável. – Eu consigo. -afirmei.
Claus mantinha muitas pessoas inocentes encarcerados. Haviam várias espécies diferentes. Eu abri todas as celas ocupadas o mais rápido que pudi, todos corriam em direção à saída. Minhas mãos estavam vermelhas e dormentes quando abri a última cela.
—Precisamos ir. -disse Victor.
Seguimos à frente, procurando Nicu. Ele estava em sua forma humana, parado no final do último corredor.
—Onde vocês estavam?- indagou.
—Tivemos um contratempo. -afirmou Adrien. -Íon você está bem?
—Estou, mas agradeceria se me tirassem logo daqui!- gritou uma voz de dentro da cela.
—Eu tentei tira-lo, mas a porta está regada com Erva D’ente. -afirmou Nicu.
—Tudo bem, eu aguento mais uma.- destranquei a porta.
—Como você não sente dor?- questionou Nicu intrigado.
—Eu sinto, mas para mim é mais suportável.- afirmei abrindo a porta.
—Finalmente!- exclamou o Íon, saindo da cela.- É bom vê-los novamente.
—Digo o mesmo, meu amigo. -cumprimentou Nicu.
—Os ogros estão vindo. – disse Adrien e Victor em coro.
Corremos de volta a caminho dos túneis, mas antes mesmos de chegarmos até lá, os vampiros pararam em minha frente.
—Que merda! — rosnou Adrien. -Temos companhia.
Segundos depois, havia um pequeno exército de ogros à poucos metros a nossa frente. Os vampiros rosnaram em posição de ataque. À minha esquerda havia um tigre de bengala, era o Nicu. À minha direita um animal gigante de pelagem cinza, Íon estava em sua forma de lobo.
Éramos cinco contra pelo menos trinta ogros. Não seria nada fácil. Principalmente por que eu sabia que não poderia fazer muita coisa. Naquela altura, com a adrenalina em meu corpo, quase não sentia minhas mãos latejarem com a dor. Mas não era a dor que me impedia de fazer algo, eu realmente não poderia fazer nada para ajudar.
Victor me fez um sinal, eu sabia o que ele queria dizer. Dei alguns passos para trás. Precisava estar em uma distância segura.
Os ogros aceleraram os passos em nossa direção. Os meus amigos avançaram contra eles. O meu grupo iniciou a luta com vantagem. Rapidamente já haviam eliminado os sete primeiros ogros. Eles já estavam no meio dos que ainda restavam. Ouve um uivo. Íon havia sido atingido por uma das bolas de aço utilizada pelos guardas. Mas o lobo se recuperou do golpe arrancando com uma bocada o braço do ogro que o atingiu. Victor lançou um dos abatidos contra outros dois que com o impacto foram lançados fortemente contra a parede. Nicu por um momento estava cercado e estava prestes a ser ferido por um golpe.
—Cuidado!- gritei instintivamente.
Adrien rapidamente impediu o golpe, decepando a cabeça do atacante.
A luta aparentemente estava sendo favorável para nós. Os rapazes estavam concentrados e já haviam acabado com mais da metade dos guardas. Por um instante olhei minhas mãos, já estavam começando a sarar e quase não sentia mais incômodo.
De repente, sinto um bafo quente e um forte respirar nas minhas costas. Meu coração congelou por alguns instantes. Tremendo um pouco, lentamente viro. Um enorme e verde ogro. Seu olhar era intenso e vestia um amarelado sorriso de satisfação na face.
Ele se aproxima. Mal podia respirar, meu coração disparava descontroladamente.
Devagar, dou pequenos passos para trás. Ele me surpreende com uma ’’encenação de ataque”. E de novo. E mais uma vez. Ele estava brincando comigo, com o meu medo. Isso estava me irritando. Tento ficar mais atenta. E na quarta vez ele realmente me ataca, mas inacreditavelmente eu consigo antecipar o movimento e desvio. Uma, e outra vez. Ele se irrita.
Sento uma enorme confiança se apoderar do meu corpo. Me sinto forte. O ogro cerra os olhos e rosna. E vem em minha direção. Dessa vez, o meu desvio foi rápido, muito rápido. Mais rápido do que eu podia imaginar que fosse possível. O que surpreende meu adversário.
Ok, isso é novidade para mim também...
O seu olhar estava ainda mais enfurecido. Tudo estranhamente, estava acontecendo rápido- meus movimentos estavam sendo inimaginavelmente ligeiros- e devagar ao mesmo tempo- eu conseguia prever as ações do meu adversário. Mais uma vez ele vem de encontro a mim. E mais uma vez eu me esquivo velozmente. O ogro se desequilibra e cai pesadamente, batendo a cabeça no chão, e desmaia.
Volto o meu olhar para a briga que acontecia à alguns metros. Não estava acontecendo. O lobo e o tigre estavam desmembrando o último ogro e Adrien e Victor estavam com os olhos fixados em mim -provavelmente haviam testemunhado a minha ’’grande escapada”. Eu dei um passo na direção deles, mas o impulso foi mais forte do que eu imaginava que seria. Para minha surpresa, sobre-humanamente eu havia percorrido os dez metros de distância que nos separavam em milésimos de segundos.
—Desde quando você faz isso?- indagou Adrien surpreso.
—Desde agora, eu acho...- eu olhei para trás. O ogro que me atacou estava caído à metros de distância. Eu realmente havia feito aquilo.
—Emil.- soltou Adrien. Ele olhava fixamente para o horizonte. Eu virei acompanhando o olhar dele.
No fim do corredor havia mais um ogro. Mas esse era diferente dos outros. Era um pouco mais alto e largo, vestia uma armadura de cobre e em seu rosto haviam uma aparente cicatriz que marcava parte do seu olho direito. O ogro nos olhava fixamente. Seu olhar era amedrontador. Mas permaneceu parado, em silêncio. Ele nos secava intensamente e parecia tentar compreender o que estava acontecendo.
—Vamos.- ordenou Victor.
Obedecemos, correndo os cinco para fora do Castelo. Atravessamos o jardim e adentramos novamente na floresta. Voltamos por um caminho alternativo mais longo, para que não atraíssemos ninguém diretamente para o vilarejo- caso estivéssemos sendo seguidos .
Voltamos para a casa dos Covaci. Carlisle e Milla estavam nos aguardando na sala de estar. Assim que entramos na casa, Íon foi recebido com um grande abraço de sua irmã caçula. Eu podia sentir a felicidade deles. Não havia nada melhor do que estar em casa, perto de quem se ama. Logo após o fim dos cumprimentos e agradecimentos. Milla fez questão de que Adrien contasse como havia sido nossa aventura.
—Vocês libertaram todos? -Milla disse empolgada.
—A Alice libertou. -Adrien corrigiu.
—Era o que precisava ser feito. Mesmo que isso tenha acabado prejudicando nossa fuga.
—Quando se trata de fazer a coisa certa, tudo vale a pena.- afirmou Carlisle.
—Bom, e no final deu tudo certo!-disse Milla.
—Nem tudo.- afirmou Victor.
Milla paralisou. Claramente ela já sabia o que Victor queria dizer com aquela afirmação. E a cara que ela fez, não era nada boa.
—Emil estava lá.- Victor disse diretamente para Carlisle.
Pela sua expressão, Carlisle sabia exatamente o que aquilo queria dizer.
—É verdade, ele estava. Mas não acredito que ele ter me visto trará muitos problemas. O trabalho de me capturar foi dado aos metamorfos de Claus. Emil não se envolveria nisTo. -disse Adrien.
—Não se trata de você, ou da sua intriga estúpida com o seu pai.-bufou Victor.
—Emil é um ogro diferente dos outros, é o líder, e também um rastreador. -alertou Carlisle.
—Ele me reconheceu e a você também.- Victor disse olhando diretamente para mim.
Droga... Seu olhar me dizia tudo. Um calafrio percorreu a minha espinha.
—Temos problemas, não é?
—Provavelmente, a essa hora Claus já deve saber que estamos vivos e que estamos aqui.- assegurou Victor.
***
Victor estava certo. Assim que os invasores fugiram, Emil se dirigiu para a sala do trono. Ele deu a notícia que o Rei menos esperava receber naquela noite. A princesa Beatrice estava viva. Estava no reino. Esteve no Castelo e libertou todos os rebeldes que se encontravam encarcerados na ala leste do palácio.
—Como isso é impossível?!– rosnou o Rei.- Tragam o Vacile!
Vacile havia voltado de sua missão fracassada há poucas horas. O Rei já estava bastante irritado com a notícia de que o seu filho Adrien havia conseguido sair vitorioso em sua fuga. O líder dos metamorfos sabia que a emergente convocação de sua presença na sala do Rei não seria para parabeniza-lo.
O Rei ordenou que todos os presentes na sala saíssem. No cômodo, só permaneceram Claus, Emil e o metamorfo.
—Meu Rei.- anuncio Vacile ao adentrar na grande sala. Curvou-se na presença do soberano.
—Vacille, você se lembra da noite em que me tornei Rei de Piatră?
—Claro soberano, foi um dia memorável para todos do reino.
—Eu tomei a coroa de meu pai. Você e seu bando ficaram responsáveis em matar meus irmãos e sua família... E você me confirmou que assim foi feito.
—Sim senhor.
—E o que você me diz sobre a filha de Caleb ter estado em meu castelo essa noite?!- Claus levantou bruscamente de seu trono.
Um tenebroso silêncio ecoou no ambiente.
—Não tem nada a dizer?- o Rei disparou em um tom cínico. -... Primeiro, você não é capaz de capturar meu filho. E agora descubro que minha sobrinha está VIVA!- bravou o Rei.
Os olhos do metamorfo saltaram em espanto. Mas sua surpresa não era em relação a sobrevivência da menina, mas com a descoberta do Rei.
—Perdão majestade. Naquela noite, matamos os príncipes e a duquesa Cecília. Eu e minha matilha fomos atrás da princesa perdida, mas acabamos sendo atrasados por alguns aldeões rebeldes. E perdemos o rastro da criança.
— Você é um completo inútil! E mentiu para o seu Rei...- rosnou o monarca. — ...Vacile, o que eu faço com você?- soltou sátiro.
—Perdão senhor, misericórdia! Me permita concertar meu erro.- implorou.
—Você cometeu muitos erros Vacile.
—Perdão, perdão senhor!
—Eu não te matarei. Te darei essa oportunidade.
—Obrigado, obrigado meu Rei.
—...Mas eu quero a cabeça de três dos seus homens. -um sorriso brotou em sua face.
—Majestade... — Vacile soltou pavoroso.
—Agora serão cinco! Será você ou eles. E acredite que terei o prazer em lhe arrancar a cabeça eu mesmo. A escolha é sua.
Vacile assentiu em acordo.
O Rei sentou-se novamente em seu trono.-Emil...
Com o chamado, o ogro aprumou-se em alerta. -Sim soberano.
—Preparem os guardas. A partir de agora você será o encarregado dessa missão. Encontre a meia-humana!
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