Entre Céu & Mar
18 Um beijo proibido
Notas iniciais
Enfim, brincadeiras à parte, boa leitura! xD
Evellyn voltou para casa de um jeito diferente. Não estava bêbada nem chapada, mas ainda sim, fora de si. Quando enfim desceu do carro, pensava que teria que fazer alguma plástica para tirar aquele sorriso bobo de seu rosto. E embora todos os detalhes daquela noite lhe viessem à mente o tempo inteiro, ela simplesmente não podia acreditar no que havia acontecido. E quando chegou ao quarto, se jogou na cama, sentindo como se seu peito pudesse explodir de alegria. E que nada, nem ninguém poderia estragar isso. Ah Evellyn! Um pouco de pessimismo até que às vezes faz bem, pois a decepção é mil vezes pior quando não se espera por ela.
De resto, tudo continuava normal. Evellyn tomou cuidado em esconder sua alegria, pois não queria um interrogatório vindo da tia. Ela pensou no que Madison teria dito, nas perguntas que teria feito. Quase a imaginou à sua frente com o queixo caído. A lembrança da amiga a fez se sentir um pouco triste. Mas não, ela não deixaria que as memórias mais uma vez estragassem sua felicidade.
*****
–Ágata, querida. Por que não aparece mais aqui?
Pauline havia ligado logo pela manhã para saber notícias da cunhada. Ágata não sabia direito como responder, pois, apesar de ser sua amiga, Pauline era também a irmã de Erick.
–Bem... é que eu e Erick não estamos muito bem.
–Não? Como assim? O que aconteceu?
–É complicado.
–Sei... Erick é mesmo muito complicado. Digo isto porque convivo com aquela criaturinha há dezesseis anos. Mas espero que vocês resolvam logo. E, só porque você não está bem com o meu irmão não justifica o seu sumiço. Que tal sairmos hoje? Aí você me explica isso direitinho. E quem sabe eu não te dou alguns conselhos?
–Acho ótimo. Estou mesmo precisando conversar com alguém. Que horas?
–Bom, hoje eu irei rever uma pessoa que não vejo já faz um tempo, e talvez por alguns pingos nos “is”. Que tal 16h00s, no shopping?
–Okay. –Disse Ágata, sem entender direito o que Pauline queria dizer.
–Okay, a gente se vê lá então. Até daqui a pouco.
Pauline desligou o telefone enquanto repassava o plano todo arquitetado na cabeça. Iria pegar Hank de surpresa, e torcia para que Evellyn os flagrasse. Ela não iria descansar até estragar o namoro deles.
*****
A situação só piorava para Trina. Se já não bastasse estar sendo acusada por algo que segundo ela não cometeu, estava presa àquela cidade, e, sem explicação alguma, as pessoas já suspeitavam dela também. Por onde andava ela via olhos semicerrados, observando-a, cochichos, e línguas grandes à espera de qualquer deslize dela para sair espalhando. Sem ninguém do seu lado, e com a polícia sempre na sua cola, ela se viu obrigada a procurar um advogado.
E não poderia ser qualquer advogado, mas sim o melhor da cidade. Aquele tipo de pessoa cuja vida consiste em trabalhar, trabalhar e trabalhar, e não há úlcera nervosa que a faça parar. E, principalmente, que tenha sangue frio, e não pense que é uma louca ao contar o que sabe. Pois com toda a certeza do mundo eles estavam lidando com um psicopata.
E foi assim que ela chegou ao escritório de Frank Collins.
Seu escritório era tão frio quanto ele. Trina sentou em uma das poltronas de couro e ficou esperando para ser atendida. E depois de um bom tempo, um homem que aparentava ter uns quarenta e tantos anos, cabelos finos, daquele louro que parece cor de rato, e muito bem vestido apareceu para atendê-la. Frank a olhou dos pés a cabeça, o que a irritou um pouco. Ela odiava quando os homens olhavam para qualquer parte do corpo dela, menos para os olhos.
–Em que posso ajudá-la? –Disse ele, enfim.
–Bom, eu me chamo Trina Cooper, e eu realmente preciso que o senhor me ajude.
–Espero que esteja ao meu alcance. Explique melhor. –Ele disse, enquanto entravam na sala dele.
–O senhor é o pai do Hank, não é?
–Ah droga, o que foi que ele fez desta vez? –Ele disse, seu rosto rapidamente mudando de expressão.
–Não, não. Ele não fez nada. Não que eu saiba. É que eu o conheço. Ele é o namorado da minha prima.
Frank a olhou surpreso, nem ao menos sabia que Hank estava namorando. E que diferença isso faria. Ele é um garoto, e é isso que os garotos fazem.
–Quem é a sua prima? –Ele perguntou, sem demonstrar algum interesse.
–Evellyn Baker. –Ela respondeu, rapidamente atraindo a atenção dele.
“Finalmente aquele garoto fez alguma coisa que presta”, ele pensou. “Uma Baker”, ele continuou a meditar, pensando na grande empresa.
–Bom, então o meu filho tem bom gosto. Eu não sabia que a senhorita era parente da família Baker. Será um prazer ajudá-la. É alguma coisa relacionada à herança? Fiquei sabendo das novas investigações.
Trina podia ver a ganância brilhar nos olhos dele. Mas não ligou. Seria bem mais fácil assim. É incrível como dinheiro pode mudar o humor das pessoas.
–Não. Tem mais a ver com a minha inocência. –Ela disse. Frank a olhou pensando que a única coisa que aquela mulher não tinha era inocência, mas reprimiu o comentário. E Trina continuou:
–Como deve saber, estão tentando solucionar o assassinato. Connor é o principal suspeito, e está foragido. Eles encontraram uma gravação numa câmera de segurança do aeroporto, onde eu e Connor estamos discutindo. Isso foi um dia antes do acidente. E agora, tudo aponta para mim, e eu sou a principal suspeita depois de Connor. Antes dele fugir, o escritório de Kate pegou fogo, com ela dentro. Muitos acharam que fui eu, mas no fim, eles não conseguiram explicar. Mas eu ainda acho que foi ele.
Ela explicou, esperando que Frank a repreendesse, como muitos faziam. Mas ele continuava sereno.
–E eu posso saber o que a senhorita e o Sr. Connor discutiam naquele dia? E qual era a sua relação com ele?
–Bom, eu e Connor temos um passado. Mas ele se envolveu em alguns problemas na empresa, e depois, virou fantoche de.. uma certa pessoa. Ele era como uma peça de xadrez, e fazia tudo que essa pessoa mandava, porque ela o tinha em suas mãos. Eu estava dizendo a ele para abandonar... essa pessoa. Mas ele disse que havia entrado num caminho sem volta, e que se voltasse, estaria acabado. Ele realmente não tinha vontade própria. E depois disso, eu não o vi mais, e aconteceu aquilo. Eu mantive distância da família, mas fiquei sabendo de tudo que acontecia.
–E isso foi antes do acidente?
–Sim. Não mantive contato com ele depois. Então ele continuou o plano, que era se aproximar da família.
–A senhorita Kate não sabe o risco que correu. O risco que fez as suas sobrinhas correrem. Kate era apenas uma peça de xadrez para Connor. Não me surpreenderia se ele tentasse se livrar dela depois. Só precisava enganá-la. –Ele meditava nas suas teorias.
Frank ouvia tudo um pouco incrédulo. Ele tinha certeza de que Trina estava envolvida o bastante para ser uma suspeita e tanto, mas não era todo dia que aparecia uma mulher tão atraente e rica em seu escritório. E ele era experiente, podia muito bem ganhar essa.
–E essa pessoa de quem você tanto fala. Essa, que controlava Connor. A senhorita sabe quem é? É o assassino?
–Sim, eu sei quem é. E com toda a certeza, foi essa pessoa que arquitetou todo este plano diabólico. Mas eu não tenho provas, apenas teorias, e se eu contar a minha, provavelmente o senhor achará que eu sou maluca.
–Tente. Eu sou advogado, e moro em O.C. Tenha certeza de que já ouvi muita coisa inacreditável. –Ele disse, dando um meio sorriso. Trina se surpreendeu com o ato, pois não achava que ele conseguisse sorrir.
Então, respirou fundo, e lhe contou quem ela achava que era o assassino, e de suas teorias, contou-lhe tudo, sem esconder nenhum detalhe sequer. Frank ouviu aquilo com a mente perturbada.
–Você tem plena convicção do quão grave é essa acusação, sabe? –Ele perguntou enfim, depois de ouvir toda aquela história absurda. Ela apenas assentiu com a cabeça.
– Senhorita Trina. Eu tenho de ser sincero, e, sem nenhuma prova, e com todas essas acusações sobre você, vai ser complicado. Mas eu vou ajudá-la.
Trina deu um pulo de êxtase da cadeira.
–Muito obrigada, Sr. Collins! É bom ter alguém que acredita em mim! Muito obrigada mesmo!
–Estou apenas fazendo o meu trabalho. Agora, temos que descobrir como provar o que a senhorita afirma.
–Sim, sim. Mas lembre-se: o principal objetivo agora é encontrar Connor.
*****
Hank esperava Evellyn no porto, como sempre. Ainda recordando das lembranças da noite anterior, e se sentia o cara mais sortudo do mundo por tê-la como namorada. Estava feliz como nunca, e agora, todas as suas outras aventuras amorosas pareciam nada ao que ele sentia agora. Hank estava acostumado à zona de conforto, sem nem ao menos pensar que algum dia, alguma coisa voltaria do passado e estragaria tudo aquilo.
Evellyn estava a caminho também, assim como outra pessoa. Mas essa pessoa era mais rápida, e chegou a tempo de ver Hank sozinho, devaneando-se em suas próprias memórias. Pauline chegou bem devagar, para que ele não notasse sua presença. Hank estava de costas para ela, e isso era bom. Pauline o interceptou, tapando-lhe os olhos com a mão. Era tão bom revê-lo!
–Pode parar Eve, eu sei que é você! –Ele disse, tirando as mãos de seus olhos, e virando-se pronto para beijá-la. Foi quando se deparou com aqueles cabelos morenos que não via há muito tempo (graças a Deus), e aqueles olhos famintos cor de avelã. O pânico tomou conta dele naturalmente.
–Hank, meu amor! Quanto tempo! Como está pálido! Tem que tomar um sol.
Hank estava boquiaberto.
–Pa...Pa.... Pauline! Pauline! O... O que diabos você está fazendo aqui, sua peste!
–Minha família mora aqui, esqueceu? E nossa! Você devia ser menos rude com visitas!
–Você é doente, garota? Na moral, o que você quer Pauline?
–Ora, eu vim ver você. É proibido agora? Fiquei sabendo que você estava se envolvendo com uma qualquer, e não pude ficar sem fazer nada.
“Ah claro, que ótimos amigos eu tenho”, ele pensou.
–Pauline, enquanto eu estava com você, sempre desconfiei que você tinha um parafuso solto. Agora eu tenho certeza absoluta! Nós terminamos, esqueceu?
–Não, não terminamos. Tivemos uma briga feia e resolvemos dar um tempo. É diferente. Agora eu estou de volta, e podemos voltar a ser o que éramos antes!
Hank deu um grito de espanto.
–A última coisa que eu quero é isso! Não quero mais aguentar suas neuroses! Você quase acabou comigo, acabou com a minha paciência! Agora eu estou muito bem, e espero que você me esqueça! –Ele foi curto e grosso.
Pauline avistou Evellyn se aproximando, e não perdeu tempo. Agarrou Hank como se fosse super Bond, e disse em voz alta:
–Tudo bem, Hank. Nós vamos superar isso. Agora que eu estou de volta podemos ser o que éramos antes. Sem ninguém para atrapalhar.
Evellyn olhou aquela cena incrédula, arrasada. Tinha vontade de gritar, de bater em Hank com toda a sua força (mas mesmo assim só lhe faria um arranhão). Mas não o fez. Apenas ficou ali, parada, sentindo o rosto ficar rubro de raiva e desapontamento.
–Eu devia mesmo saber que era bom demais para ser verdade. –Foi só o que ela disse, enquanto saía correndo, pressentindo as lágrimas. “Não, Evellyn. Você não pode chorar por aquele cretino. Você é orgulhosa demais para isso”, ela pensou.
–EVELLYN! Me larga, sua maluca! –Hank finalmente conseguiu se livrar dos braços de Pauline e correr atrás de Evellyn. Mas ela não lhe dava ouvidos, apenas corria. E Pauline observava os dois, gargalhando, um sorriso de como quem diz: missão cumprida.
Eles estavam no meio do píer quando enfim Hank conseguiu agarrar o braço de Evellyn.
–Evellyn, eu posso explicar...
–Eu acho que sei o que eu vi, Hank. Não preciso de um relatório.
–Pauline apareceu de repente, e...
–Pauline? Então ela é a Pauline? Que ótimo! Quer saber? Que se danem vocês. Agora por favor, me deixe em paz!
–Evellyn, por favor!
–“Por favor” digo eu! Poupe-me de mais sofrimento. Eu não acredito que eu... você...Droga! Apenas suma Hank! Suma! –Ela gritou de raiva, empurrando-lhe com toda a força, mas Hank permaneceu no mesmo lugar. Ele observava Evellyn se distanciar, desolado. Olhou para trás e viu seu fardo chamado Pauline se aproximar lentamente. Era como se o paraíso se distanciasse dele, e o inferno se aproximasse na velocidade da luz.
–Acho que você levou um fora. –Ela disse, toda sorridente. Hank a olhou com tamanho desprezo que até uma barata se sentiria mais importante que ela naquele momento.
–Você tem ideia do quanto eu te odeio?
–Ah Hank! Você foi sempre do tipo morde e assopra. Amor e ódio. Você vai ver! Se livrar dela é a melhor coisa para você agora.
–O inferno mandou você diretamente para mim, não é? Maldito carma! Eu te odeio Pauline! Vê se me esquece! –Ele disse, correndo para o mar, a fim de esfriar a cabeça. E Pauline não se magoava com suas palavras duras.
–Pode dizer o que quiser, querido. Você vai acabar voltando para mim.
Hank seguiu para o mar, a fim de afogar toda aquela tensão. Queria dizer que tudo não passou de um mal entendido, mas ela não iria acreditar em uma palavra sua sequer. Mas mesmo assim tentou, e tentou, repetidas vezes. Uma hora ela teria de ouvi-lo. E a pergunta que insistia em permanecer na sua mente era o que de tão ruim ele fez para que a vida trouxesse aquele demônio do seu passado de volta para o presente. Um pretérito totalmente imperfeito.
*****
A sensação que tomava conta de Evellyn naquele momento era a mesma de estar sem chão. Ela tentava esfriar a cabeça, descontando toda a sua raiva no volante, indo até onde o seu carro aguentava, sem rumo algum, apenas seguindo seus instintos, ao som de um solo bem pesado de alguma música que ela adorava, mas que estava com raiva demais para se lembrar do nome. Concentrou-se na música, concentrou-se no volante, concentrou-se em qualquer coisa que não fosse Hank. Mas era impossível. Ela sabia que ele não merecia suas lágrimas, mas infelizmente, elas próprias não sabiam o valor que tinham. No fundo ela sabia que algum dia isso iria acontecer. Nunca acreditou em felizes para sempre. Agora só lamentava ter sido tão idiota a ponto de se entregar a ele.
–Idiota!Idiota!Idiota! –Evellyn gritava batendo no volante, num ritmo sincronizado com a bateria da música. E quando dizia “idiota” não se referia a Hank.
As imagens daquela noite voltaram à tona, sem pedir permissão. Apenas para fazê-la se sentir ainda mais idiota. Nunca havia estado tão próxima de alguém daquele jeito, e quando enfim acontece, vem aquela decepção.
E ela continuou a seguir sem rumo, até encontrar algum lugar distante de todo mundo onde pudesse gritar xingar e chorar sem que ninguém percebesse. E ficou lá até o Sol dar adeus ao horizonte, abrindo espaço para as estrelas darem as caras.
*****
Pauline seguiu naturalmente para o Shopping, ainda saboreando o gostinho amargo da vitória. Agora iria encontrar Ágata, sua querida cunhada, que talvez pudesse ser de grande serventia. Ágata era a irmã gêmea de Evellyn, e quanto mais próxima dela ela ficasse, mais fácil seria espalhar o seu veneno.
Ágata já a esperava, e assim que avistou Pauline, correu ao seu encontro.
–Desculpe a demora, Ágata. Eu tive que revolver coisas pendentes.
–É sobre aquele seu velho amigo?
–Sim. Mas foi bom rever alguém tão querido. Saudade é algo terrível, não acha?
–Com certeza. Olha, trouxe um Milk-shake para você. –Ágata disse.
–Ah, muito obrigada! Você é um anjinho mesmo. Para tornar este dia ainda melhor só isso mesmo! –Pauline disse, com um largo sorriso no rosto. Ágata também gostaria de estar feliz daquele jeito.
–Mas agora conta aí: o que aconteceu entre você e meu irmão? –Pauline foi direta. Queria saber todos os detalhes.
Ágata lhe contou sobre todas as discussões, e também sobre a última. Contou que se sentia culpada por não incentivar tanto a carreira musical de Erick, e também por quase o obrigar a dar uma chance ao pai. Aquele com certeza foi o ápice para a briga dos dois.
–Eu não devia ter tocado num assunto tão emocional para ele. Acredite, eu sei quanto dói ser magoada pelo pai. –Ela disse cabisbaixa.
–Não, não. Nada disso. Quem deve se sentir culpado é ele. E eu te garanto, ultimamente ele tem estado numa fossa. Você só tentou ajudá-lo porque se importa com ele. Mas o meu irmão é muito complicado mesmo. –Pauline disse o que já não era novidade para Ágata.
–E o que você acha que eu devo fazer, então?
–Bom, às vezes você tem que ser direta. Diga por que realmente tocou no assunto do pai dele. Erick é assim com a gente também. Acha que estamos sendo hipócritas e que estamos traindo, ou sei lá o que. Como eu já disse, eu não entendo esse garoto. E sobre as outras questões, acho que pode ser que ele não saiba o quanto é importante para você. Acho que você tem que fazer algo para ele, para provar isso. Entende o que eu quero dizer, Ágata?
Ágata poderia ser bastante ingênua, mas sabia exatamente do que Pauline falava assim que ela abriu aquele sorriso malicioso. Automaticamente ela enrubesceu.
–Entendo.
–Mas lembre-se, não estou te pressionando a nada. Faça aquilo que você acha que deve fazer. E principalmente, apenas quando estiver pronta. Se tiver qualquer dúvida pode me procurar.
Ágata apenas concordava com a cabeça. Era um pouco estranho falar aquilo com Pauline, mesmo ela sendo sua amiga. Afinal de contas, ela era irmã de Erick.
–Obrigada, Pauline. Você é como uma irmã mais velha para mim. –Ágata disse, abraçando-a.
–De nada, irmãzinha. Estou aqui para isso.
Naquele momento Evellyn voltava para casa, ainda irritada, mas com a expressão mais serena. Porém, ao ver aquela cena nojenta rapidamente o seu ódio veio à tona. Ver Ágata abraçada àquela cobra, mesmo que as duas fossem tão distantes, não podia não parecer uma traição para ela.
–Mas o que essa vadia quer de mim, afinal? Roubar tudo que é meu? Primeiro meu namorado, agora a minha irmã? –Ela murmurou, enquanto observava aquela cena, enojada.
Pauline notou logo a presença de Evellyn. Sabia de longe identificar o carro de Evellyn. E não seria surpresa alguma se ela soubesse de cor a numeração da placa. E como resposta à pergunta retórica de Evellyn, ela apenas sorriu. Aquele sorriso maligno que só ela (e Cheshire) sabe sorrir.
–Agora eu tenho que ir ao treino de balé. Você quer me acompanhar?
–Claro! –Pauline disse, e as duas seguiram juntas, como duas irmãs inseparáveis.
–Que.Nojo. –Ela murmurou mais uma vez, ao ver as duas seguindo juntas. Ciúmes? Talvez? Claro? Ou Com certeza?
*****
Evellyn chegou a casa soltando fogo pelas narinas, como um dragão enfurecido. Seus olhos estavam vermelhos de ódio. Tinha ódio dela mesma, porque ter sido tão idiota. Sentia ódio de Hank, por ser um idiota. Sentia ódio por sentir tanto ódio de Hank, pois ele não merecia nada mais que a sua ignorância. Sentia ódio de Pauline, por ser uma vadia invejosa, sentia ódio por Ágata considerar Pauline sua irmã e ela própria não (mesmo sabendo que parte era por sua culpa). Nunca, em toda a sua vida, havia se sentida tão traída como naquele momento.
Tudo que ela queria era ficar sozinha, e pelo menos dessa vez teve sorte. Kate ficaria até tarde no trabalho, e Ágata estava ocupada demais com o seu balé e a cascavel da Pauline. Foi para a geladeira e pegou uma garrafa de vodka, e subiu para o quarto. Pegou o pouco que ainda sobrava da droga que começara a abandonar.
–Desculpe Erick, mas eu não sou tão forte quanto você. –Ela murmurou consigo mesma, enquanto acendia o baseado.
Assim que ficou dopada o bastante para esquecer quem era, ela cambaleou para o banheiro. Como estava fora de si, acabou indo para o quarto de Ágata, e tomou banho no banheiro dela. Ignorando todas as regras de privacidade daquela casa. Não sabia se estava chovendo ou se era coisa da sua cabeça mesmo. Ligou o chuveiro forte, enquanto deixava a água gelada tomar conta do seu corpo, ansiando que aquele banho lavasse também a sua alma, e que todas as memórias daquele dia perturbador fossem embora pelo ralo.
*****
–Erick! Comece a fazer suas malas! Falei com o povo do colégio e vocês tocarão aqui em cinco dias! –Gean anunciou ao telefone para Erick, que foi pego de surpresa.
–Cinco dias?Isso é ótimo!Valeu mesmo, cara! –Ele disse, desligando o seu celular em completo êxtase. Avisou para todos os membros da banda. Agora era começar a planejar a viagem.
Mas de repente se lembrou do que Ágata havia dito. Não falou com ela desde aquela briga, e ele sabia que tinha culpa. Ágata só queria lhe ajudar, e apesar de tudo, ela tinha razão. Não podia negar que tinha a curiosidade de saber como o seu pai estava. E agora ele tinha a chance. Tinha o endereço, tinha uma desculpa. Mas o orgulho era o que lhe impedia. Ele teria tempo para pensar nisso durante a viagem, e até lá tomaria sua decisão. O que ele precisava agora era falar com Ágata, e não poderia ser por telefone, e nem poderia esperar mais. Só não poderia partir estando brigado com ela. Isso não.
Pegou o casaco e saiu de casa, no meio de uma grande chuva, mas ele não se importava. Só sairia de lá depois de fazer às pazes com Ágata.
*****
Evellyn saiu do chuveiro e ficou a observar-se no grande espelho do banheiro de Ágata. Um banheiro tão branco que chegava a lhe dar dor de cabeça. No espelho, a imagem refletida era totalmente diferente da Evellyn que conhecem. A maquiagem toda fora embora, deixando o rosto alvo e limpo, tão angelical quanto o da irmã. As mechas vermelhas também estavam desbotadas, e agora não passava de um tom laranja quase imperceptível. O cabelo molhado totalmente colado nas costas escondia a fúria do dragão vermelho. E a toalha cor de rosa e bordada à mão também era algo incomum para ela.
–Querendo ou não, sempre serei igual a ela. –Evellyn murmurou para o espelho, ainda com a mente perturbada.
Saiu do banheiro lentamente, ainda a refletir sobre coisas sem sentido. E a sensação que tinha era de que ela não era ela própria. Ela não sabia quem era.
–Eu não deveria ter fumado tanto. –Ela murmurou outra vez.
E de repente, sem saber se era alguma ilusão ou realidade, Evellyn escutou passos apressados na escada. Alguém gritava por alguém. O dono da voz gritava por Ágata. Evellyn congelou. Seria um bandido? E como ele sabia o nome de Ágata? De repente pensou em Connor, ou no assassino. Será que ele tinha voltado para terminar o serviço? Será que a levaria de volta para os pais? Evellyn estava tão assustada que poderia jurar ter sentido o gosto do seu coração na boca.
E de repente uma figura de cabelos castanhos, toda molhada, apareceu na porta. Apesar do susto repentino, a figura conhecida trouxe-lhe um pouco de paz.
–Erick! Que susto você me deu! –Disse Evellyn, finalmente respirando aliviada.
Mas Erick não respondeu. Apenas uma ideia lhe ocorria à mente. Ele estava no quarto de Ágata. Não havia ninguém em casa. Estava escuro. E ele acreditava ser Ágata naquela toalha. Convenhamos, ele é um homem, um ser humano, e tem suas fraquezas. Evellyn estava tão grogue que nem percebeu que estava só de toalha na frente de Erick. Ele se aproximou dela, um pouco ressentindo, pois não esqueçam o fato de que ela estava só de toalha.
–Desculpe aparecer assim, de repente. Mas eu não podia esperar. Não podia continuar brigado com você. Vim agradecer por tentar me ajudar. Eu fui um idiota, perdoe-me. Eu... vou fazer aquele show, e acho que vou seguir o seu conselho. Irei procurar o meu pai. Ver se consigo perdoá-lo. Mas eu não posso partir sem saber se estamos bem ou não. –Erick disse, acreditando que aquela à sua frente era Ágata.
Evellyn não conseguia entender nada, não conseguia controlar nada, e quando se deu conta, estava jogada aos braços de Erick, beijando-o. Um beijo com aquele sabor tentador de proibido. Aquela mesma sensação estranha que cercava os dois quando estavam juntos. Erick podia perceber que eram lábios estranhos, inéditos. Era um beijo diferente. Algo dentro dele gritava “É Evellyn, é Evellyn!”, mas ele não parou. Nem mesmo quando a toalha caiu, e ele lhe afagou o cabelo, revelando a tatuagem, ele parou. Até que, de algum jeito eles perceberam o que de fato estava acontecendo.
–Erick, é melhor parar. Isso é errado. Eu não sou quem você pensa que eu sou. –Evellyn enfim disse, com a voz embolada pela embriaguez.
–Evellyn? –Erick sussurrou o que já sabia, ainda com ela em seus braços. Evellyn concordou.
–Ai, meu Deus. Eu... Eu sinto muito, eu... Eu preciso ir... –Erick saiu abismado do quarto, deixando Evellyn desolada consigo mesma. E, se parecia impossível, depois daquilo Evellyn se odiou ainda mais.
Erick saiu na chuva com a mente confusa. Ele tinha feito algo muito sério. Se Evellyn não tivesse parado, sabe-se lá como aquilo terminaria. Incrível como as coisas não saem do jeito que imaginamos. Ele fora até lá para fazer às pazes e voltou com mais uma culpa para a carga de sua consciência.
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