Entre Céu & Mar
19 All Apologies
Notas iniciais
Espero que gostem deste capítulo. Boa leitura! :))
Evellyn estava fazendo o que mais gostava de fazer: pintar. Mas de uma forma nova para ela. Ela observava a tela nua à sua frente, esperando ansiosamente pelas primeiras pinceladas. Ela estava despenteada, e com a roupa coberta de tinta (e talvez o cabelo também). Porém ela não ligava. Muito pelo contrário, as manchas de tinta davam um ar mais personalizado ao seu estilo.
O que ela queria era descobrir o que pintar naquela tela que a esperava. O mais difícil é que a tela já era uma obra de arte por efeito da natureza. A tela nada mais era que Hank.
-Já sabe o que vai pintar? –Ele perguntou. Hank parecia estar relaxado. Evellyn negou.
-Posso dar uma dica?
Ela concordou.
-O que eu lembro a você? Ou, o que você sente quando está comigo?
Evellyn ficou a refletir por um tempo. O que lhe vinha à mente era o oceano. Era o que Hank a lembrava. Foi assim que se conheceram. E ele era mesmo como um oceano. Dias de calmaria, dias de ressaca. E quando estava com ele, era como uma onda forte, que a puxava cada vez mais, longe de todos os problemas que a esperavam na areia. E, ela poderia até tentar lutar contra a onda, mas não teria força suficiente.
-Já sei o que vou pintar. –Ela disse, preparando o pincel e a tinta.
Assim que tinha tudo pronto, começou a pintar. Calmamente, com a paciência de um monge. Aos poucos, as pinceladas foram formando ondas verdes como os olhos de Hank, que cercavam seu corpo inteiro.
Hank a tocou, automaticamente fazendo-a enrubescer.
-Não se mecha. –Ela o advertiu, mas Hank não lhe ouviu. –Eu ainda não terminei. –Ela sussurrou, sem autoridade alguma na voz.
-Shh... –Ele colou o dedo entre os seus lábios. Hank se levantou para recostar-se a ela, enquanto espiava o seu trabalho.
-Você é incrível. –Ele sussurrou em seu ouvido, cobrindo-a de carícias.
“Aja como uma profissional, Evellyn. Aja como uma profissional”, ela repetia para si mesma em pensamento, mas não deu ouvidos ao seu cérebro. Virou-se e pôs-se a beijá-lo com vigor, enquanto ele esquecia suas mãos agarradas a sua cintura. Ele já desabotoava sua roupa, quando ela percebeu algo diferente. Passou a mão na sua nuca, e seu cabelo estava mais comprido. Como o cabelo dele poderia ter crescido tão depressa? Abriu os olhos e viu que além de comprido, o seu cabelo passara do louro escuro para um castanho escuro. Foi quando resolveu fitar o seu rosto. E de repente, sem entender como, mas assustadoramente não era Hank, mas Erick. Ela gritou apavorada e perplexa, mas Erick não parecia assustado.
-Continue. –Foi só o que ele disse.
Evellyn acordou daquele sonho confuso arfando e suando frio. Geralmente ela ficava assim quando acordava de repente depois de um sonho sem sentido algum. Mas aquele tinha sentido sim.
No primeiro segundo, Evellyn pensou (ou melhor, iludiu-se) que as lembranças daquela noite chuvosa fossem parte daquele sonho estranho. Mas aos poucos foi caindo a ficha, junto com a ressaca (ela havia bebido muito mais depois que Erick fora embora) que não esperava para dar o ar da graça. E com tudo isso veio a culpa, e o arrependimento. Ela se sentia um lixo agora. Que tipo de irmã ela era? Provavelmente não conseguiria encarar Ágata depois disso. E como ficaria Erick agora? Ele havia se tornado seu melhor amigo, e agora nada mais seria como antes. E o pior de tudo: Hank. Agora não se sentia no direito de ter raiva dele. Nem sabia se ele havia a traído mesmo. Tudo que sabia sobre essa Pauline é que era uma louca. Um enjôo nervoso lhe subiu ao estômago ao se constatar que poderia ter incriminado Hank injustamente. Ele não merecia ter sido julgado daquele jeito. Ele não merecia o que ela fez ontem à noite.
Mas havia sido só um beijo, certo? Ela sabia muito bem que não. Mais uma vez se lembrou do que quase acontecera. E sentiu ainda mais nojo de si mesma. Que pessoa horrível ela era. Como poderia sentir aquilo pelo namorado da sua irmã?As duas tinham sim suas diferenças, mas de uma coisa ela tinha certeza: sua irmã nunca faria aquilo com ela.
E foi por pensar tanto naquilo que seu enjoo foi se propagando cada vez mais, e ela não viu outra alternativa senão correr para o banheiro e por tudo aquilo para fora.
*****
Kate acordou desanimada por se tratar de uma segunda-feira. Um fim de semana era pouco para descansar todo o cansaço adquirido durante aqueles cinco dias. Mas ela iria tomar o seu banho relaxante, e seguir para mais uma rotina.
Porém uma porta trancada iria lhe atrasar um pouco.
-Quem está aí? Evellyn? É você? –Ela bateu na porta do banheiro, mas ninguém atendeu. Com certeza era Evellyn.
-Evellyn. Eu sei que você está aí. Vai demorar?
Mais uma vez apenas silêncio.
-Evellyn? Está morta? Ou sem voz como a Britney Spears? –Nunca era cedo demais para piadinhas.
Finalmente ela obteve resposta, e o que Evellyn murmurou era algo parecido com um gemido.
-Eve, outra vez? Vamos, deixe-me entrar para te ajudar. –Disse Kate, que já se acostumara com isso.
-... Não.... –Evellyn disse entre um gemido.
-Você não tem escolha. –Disse Kate, pegando a chave mestra. Ela tinha uma cópia da chave de cada cômodo daquela casa.
-E a privacidade? Onde fica? –Evellyn disse assim que sua tia entrou no banheiro. Estava com a cara inchada de sono, e aparentava estar um pouco verde.
-Não sei. Talvez você tenha vomitado ela também. –Disse Kate, que se aproximou. Puxou seu cabelo para trás, afagando-lhes num gesto maternal.
-Já faz um tempo que isso não acontece. O que houve?
Evellyn não respondeu. Apenas olhou para a tia, sentindo-se culpada.
-Não sei como você consegue ver isso e não ficar enojada. –Evellyn disse.
-Eu tenho estômago forte. –Disse Kate, que parecia nunca se abalar. –Você ainda não me respondeu. O que está acontecendo?
-Kate. Alguma vez na sua vida você já se arrependeu por algo que fez? –Evellyn perguntou.
Kate estranhou a pergunta, imaginando algo de errado que fez com Evellyn, mas que sua memória não se recordava.
-Não. Eu nunca me arrependi de nada que fiz. Há males que vem para o bem. E você aprende a cada estupidez cometida. Isso é adquirir experiência. Tirar lições das coisas que fazemos ou passamos. Então, não me arrependo de nada que fiz. Se eu pudesse voltar atrás, teria feito tudo do mesmo jeito. Se eu não tivesse feito algumas coisas, talvez eu não fosse quem eu sou hoje, e não estaria aqui. –Kate disse, tentando animá-la. Podia sentir que Evellyn havia feito alguma traquinagem típica dela, mas não ligou. Ela parecia estar realmente mal.
-Mas por que você me perguntou isso? –Ela quis saber.
-Nada. Eu só queria saber se alguém já passou pela mesma coisa.
-Com certeza sim. As pessoas vivem cometendo burrices e se arrependendo depois. Mas não pense nisso. O que está feito não pode ser desfeito. Esqueça o passado e se esforce para não cometer o mesmo erro no futuro. Seja lá o que você fez, eu não vou te julgar. Sei que isso não funciona com você, então, apenas siga o meu conselho. Não precisa estudar hoje, se não quiser. Você não está muito legal e eu não gostaria de saber que você vomitou na bolsa de alguma patricinha daquele colégio. Descanse um pouco, e pense no que eu disse. –Kate disse, dando-lhe um beijo na testa. Evellyn se sentia tão bem com as palavras reconfortantes da tia!
-Obrigada, mãe. –Evellyn disse, rapidamente percebendo o equívoco que cometera. Kate a olhou surpresa, mas parecia feliz, pois seus olhos brilhavam como nunca.
-Perdão. –Evellyn disse.
-Não, não precisa pedir desculpas, minha filha. Estava apenas fazendo o meu papel. Tome um remédio e desça para tomar café assim que melhorar. –Kate disse, saindo do banheiro sem acreditar no que ouvira. Nunca pensou que se sentiria tão feliz por ouvir aquela palavra dirigida a ela.
Evellyn realmente deveria ficar em casa. Ela não estava normal. Havia chamado Kate de mãe. Dizer aquela palavra novamente era tão... surreal. A última vez que havia dito aquilo fazia tanto tempo. Mas não era tanto equívoco assim. Kate havia sido para ela naqueles três anos o que sua mãe de verdade nunca fora. Ela amava Kate como uma mãe, e só porque a amava, isso se tornava verdade.
*****
-Kate mandou perguntar se você não vai tomar café. –Ágata apareceu no quarto de Evellyn. Esta, que já voltara a dormir.
-Não. Meu estômago não está legal. –Ela respondeu, sem olhar para a irmã.
-Melhoras. –Ágata disse quase se retirando do quarto. Ela recuou de volta.
-Evellyn, posso te pedir um conselho?
Evellyn virou-se surpresa com o que acabara de ouvir. Era isso mesmo? Ágata estava lhe pedindo um conselho? A mesma Ágata que sempre sabia o que fazer?
-É sobre o Erick. –Ela foi mais detalhista. Evellyn começou a se sentir mal. Era culpa voltando à tona. Droga, por que mais essa agora?
-Acho que não sou a pessoa certa para te ajudar. –Foi só o que ela respondeu.
-Por favor, Evellyn. Você tem mais experiência nisso do que eu. E você e Hank parecem se dar tão bem. Eu quero concertar as coisas com Erick.
Evellyn se lembrou do que Erick havia lhe dito quando pensou que fosse Ágata. Os dois queriam concertar as coisas, e ela havia estragado tudo.
-Ágata, eu não sou boa em dar conselhos. Não sigo os meus próprios. Se quiser resolver qualquer coisa com Erick, fale com ele. Não comigo.
-Por que você é assim, Evellyn? Eu nunca pedi nada a você. Só queria um conselho porque ultimamente vocês têm passado bastante tempo juntos. Mas acho que isso não é possível. Você conversa com todos aqueles seus amigos drogados, mas não pode conversar com a sua irmã! Aliás, nem sei por que eu resolvi falar isso com você.
Ágata saiu dali bufando já aceitando o fato de que nunca conseguiria ter uma conversa franca com a irmã. Isso era fato. Evellyn não se deu ao trabalho de ficar com raiva de Ágata. Ela tinha todos os motivos para sentir raiva e nem sabia o principal.
*****
Agora que tinha alguém ao seu lado, Trina se sentia mais confiante. Claro, seu advogado não acreditava totalmente nela. Se alguém lhe contasse a mesma história, ela também não acreditaria. E o seu objetivo naquele momento era encontrar Connor, antes que o assassino resolvesse se manifestar, e sabe-se lá o que poderia acometer à sua família. Ver o perigo lado a lado delas, aumentando a cada dia, e saber que não pode fazer nada por enquanto a consumia, muito mais do que a sensação de ser culpada por algo que nunca poderia cometer. Mas esse era o objetivo do assassino, colocar toda a culpa em cima dela.
-Eu estou fazendo a minha própria investigação, Sr. Collins. –Trina anunciou para o seu advogado.
-Você está mexendo com fogo, Trina. Tenho certeza de que os policiais estão fazendo o que podem.
-Mas eles não conhecem o Connor como eu! Eu sei que ele tem família em outro país; sei também os lugares que ele sempre quis visitar...
-Trina, eu sei que você quer ajudar, mas o que você pode fazer? Ir a todos esses países batendo de porta em porta se o viram? Não é tão simples assim.
-Eu sei que não é. Mas conheço alguns amigos, familiares, eles devem ter alguma ideia de onde ele pode estar.
-Connor é um homem esperto. Ele não deixaria nada óbvio. Talvez a família nem saiba que ele saiu do país como foragido.
-E tem também as propriedades que ele comprou com o dinheiro roubado da empresa. Em vários lugares.
-Como assim dinheiro roubado? –Aquilo havia lhe chamado a atenção.
-Oh, eu não lhe contei? Como Connor era a mão direita de Andrew e Scarlet na empresa, ele praticamente comandava tudo, principalmente a parte financeira. Aquele desgraçado era um gênio. Conseguiu desviar quantias altíssimas da empresa para sua conta, sem despertar nenhuma suspeita. Até um pouco antes do acidente. Eu lembro porque ainda estava com ele nessa época. De alguma forma, o “cabeça” de tudo acabou descobrindo, e foi isso que ele usou contra Connor para manipulá-lo.
-Trina, por que você não contou isso à polícia?
-Porque eles não iriam acreditar em mim. Como eu iria provar? O único que tem as provas disso é o “cabeça”.
Trina parecia frustrada. Até aquela altura do campeonato não sabia se iria vencer aquela guerra. Seu inimigo tinha uma mente diabolicamente genial. Tudo parecia premeditado. E na verdade foi.
-É por isso que precisamos encontrar Connor. E eu vou seguir minha investigação. Com ou sem sua ajuda. Se bem que, com sua ajuda seria bem mais fácil. –Disse Trina, e Frank teve a ligeira impressão de que ela flertava com ele.
-Eu não tenho certeza se conseguiremos ou não, mas fazer o quê?Não consigo te negar nada. –Ele disse risonho.
-Ai, muito obrigada, Frank! Nós vamos conseguir, tenho certeza! –Ela disse, abraçando-o.
-Agora eu vou para casa, ver se me lembro de mais algumas informações sobre Connor. –Ela disse, saindo do escritório dele.
Enquanto atravessava a faixa, Trina se sentia melhor. Algo lhe dizia que estava perto de encontrá-lo, e então todo este pesadelo teria fim. Magoava-lhe o fato de as meninas não falarem mais com ela. Ela também não falaria com a suspeita do assassinato de seus pais. Mas, se elas soubessem o que ela estava fazendo por elas, e o perigo que corriam não a tratariam assim.
Seu telefone tocou, tirando-a de seus devaneios de liberdade. Não tinha número, mas ela atendeu mesmo assim.
-Alô.
-Furacão Katrina!
Somente uma pessoa a chamava assim. Trina congelou.
-Connor! É você! Não acredito! Como você tem a cara de pau de me ligar depois de tudo?!
-Não posso matar a saudade?-Ele disse zombeteiro.
-Onde você está Connor?
-Acha mesmo que eu vou falar?
-A polícia agora está atrás de mim. Era isso que vocês queriam?
-Você sabe muito bem que não é isso que eu queria. Poderia muito bem ter se juntado a nós quando surgiu a oportunidade.
-Você sabe que eu nunca faria isso. E, de uma forma ou de outra, iriam acabar me matando também. Você sabe que é vingança, e que só está livre porque não pertence à família.
-O Mestre não está nada contente com você. Fiquei sabendo que está tentando solucionar este caso, detetive. Quer me encontrar, é?
-Sim, estou mesmo! –Ela afirmou com a voz cheia de autoridade e as mãos trêmulas de medo.
-Trina, por que você faz isso? Saiba que sou eu que estou implorando para que não incriminem você. E é assim que você me retribui?
-Você é doente. Não preciso da sua ajuda, e eu vou te encontrar, Connor. Cedo ou tarde; vivo ou morto. Eu vou te encontrar.
-Então nos vemos no inferno. –Ele desligou.
Trina guardou o telefone, assustada. Ela tinha certeza que encontraria Connor, mas não tinha certeza se viveria para isso. Toda aquela história era mais perigosa do que ela pensava.
*****
Evellyn tirou o dia para ficar em casa e refletir. Tentava dormir, mas, embora o silêncio reinasse naquela casa, sua mente não se calava, gritando os mesmos pensamentos que sempre a impedia de fechar os olhos e mergulhar no conforto da inconsciência. Pensou em se drogar outra vez, mas resistiu. Havia prometido para ela mesma que não faria aquilo, por mais que as coisas ficassem ruins, e o seu deslize de ontem contribuiu e muito para o que havia ocorrido. Não queria nunca mais que aquilo se repetisse.
Então, como sua mente não a deixava dormir, pôs-se a pintar. E pintou vários quadros. Passou a tarde toda pintando, transformando tudo o que lhe fazia mal em arte, e a cada pincelada ela ia ficando mais leve, até que o cansaço a deteve por completo e acabou por cochilar ali mesmo.
-Agora eu sei por que ninguém me atende nessa casa. –Hank gritou em voz alta, tirando Evellyn da paz de seu cochilo.
-Hank? O que você está fazendo aqui? Como entrou? –Ela parecia assustada, e desconcertada.
-Você não me atende, e eu precisava, ou melhor, preciso falar com você. Então resolvi aparecer aqui. E é até melhor, porque prefiro ter uma conversa franca pessoalmente. Eu não poderia deixar você acreditar numa mentira daquelas.
Os olhos sonolentos de Evellyn custaram a crer. Hank estava lá, pedindo desculpas por algo que ele não cometeu, sem saber que ela também lhe devia desculpas. Não conseguia olhar nos seus olhos. Ele chegou mais perto e pegou na sua mão, deixando-a rubra. Ela realmente merecia aquilo?
-Olha Eve. Você não conhece a Pauline. Ela é louca. Ficar com ela foi a maior burrice que eu já cometi, e olha que eu já fiz muita besteira. Ela apareceu do nada na praia. Você acha que eu seria estúpido o bastante para marcar com ela e você ao mesmo tempo? Quando eu e ela estávamos juntos, brigávamos muito, e certa vez, tivemos uma briga séria, e depois não nos falamos mais. Para mim, havia terminado ali, mas na cabeça doente dela, nós só demos um tempo.
Ele fez uma pequena pausa, esperando que Evellyn dissesse alguma coisa, mas ela manteve-se calada. Hank continuou.
-Eve, não sei se você se sente pressionada pela presença dela aqui. Mas eu quero que saiba que, seja lá o que aconteceu entre eu e ela, não chega perto do que somos agora. E, eu não sou bom com palavras, para eu queria te explicar isso, e pedir desculpas se te magoei. A última coisa que quero fazer nesse mundo é te magoar.
Evellyn finalmente olhou em seus olhos. Hank tinha a expressão mais sincera do mundo. E tudo que ela pensava é que ela não merecia aquilo.
-Hank, eu não estou com raiva de você. Estou com raiva de mim, por não ter acreditado em você e ter feito o que eu fiz. Desculpe-me. –Ela disse, cheia de remorso.
-Você não fez nada demais, Eve. –Hank disse.
Evellyn pôs-se a pensar por um momento. Toda aquela história era bastante confusa, mas como Kate havia dito: “O que está feito não pode ser desfeito. Esqueça o passado e se esforce para não cometer o mesmo erro no futuro.” O que havia acontecido na noite passada parecia nada ao que acontecia ali, agora. Não passara de um erro, um equívoco que nunca mais aconteceria. Porque a pessoa que lhe importava estava ali, à sua frente, e tudo ficaria bem. Sem perceber ela sorriu. Um sorriso esbanjado que somente Hank conseguia fazer.
-Então estamos bem? –Ele perguntou, preocupado. Evellyn lhe respondeu com um beijo.
-Vou considerar isso como um sim. –Ele disse, todo sorridente.
-Agora me acompanhe: ainda não lhe apresentei minha casa. –Ela disse, puxando a sua mão.
Hank tinha a palavra “preguiça” praticamente estampada na testa.
-Ande logo! Esta casa é bem grande, sabia? Por qual cômodo quer começar?
-Seu quarto. –Ele respondeu quase que imediatamente, olhando-a maliciosamente.
-Por que eu não estou surpresa? –Ela disse com o mesmo olhar malicioso.
-Vem, é por aqui. –Ela disse, subindo as escadas, sem acreditar que tudo voltara ao normal.
-Sabe qual é a melhor parte de uma briga? –Hank disse, enquanto os dois subiam a escada. Evellyn não sabia responder, porque não conhecia nenhum lado bom de uma briga.
-Não faço ideia. Qual é?
-Fazer às pazes. –Ele respondeu, e ela tinha que concordar.
*****
Ágata se mostrou despercebida durante todo dia. Já fazia dois dias que Erick não aparecia no colégio, e ela estava preocupada, mas mesmo assim, não iria ligar. A última coisa que queria ser é uma daquelas namoradas fúteis que ligam para o namorado de hora em hora, numa marcação cerrada, que uma hora se torna completamente insuportável. Mas aquele silêncio estava a perturbando. No trabalho no hospital não fora diferente. Ela fez as mesmas atividades, leu algumas histórias, mas as próprias crianças perceberam que a “tia loira” estava estranha.
-Sabe, é muito bom tem alguém que leia para essas crianças, mas você está precisando descansar, querida. Só tem dezesseis anos, não fique tão estressada. Você tem décadas para isso. –Uma das enfermeiras disse.
Mas ela estava enganada. Ágata não precisava descansar. Ela sabia exatamente o que deveria fazer.
-Acho que meu trabalho por aqui acabou. –Ela disse, pegando sua bolsa e dando um beijo em cada criança.
-Vai seguir meu conselho? –A enfermeira lhe indagou.
-Vou fazer uma coisa que já devia ter feito há muito tempo. –Ela disse, tirando as chaves de dentro da bolsa.
*****
Ágata dirigiu até a casa de Erick, sem fazer ideia do que falar. Nem sabia se ele estava em casa, mas precisava saber o que de fato estava acontecendo. Ela parou em frente à fachada da casa. Estava escuro e silencioso. A casa parecia vazia, e ela pensou várias vezes em voltar para a casa. Mas enfim tomou impulso e apertou a campainha.
Quem atendeu foi Estella, e ela parecia bastante apressada.
-Ah, olá Ágata! Que surpresa boa! –Ela disse.
-Ola, Estella. O Erick está aí?
-Sim, ele está.
-Eu posso falar com ele? –Ela pediu. Estella parecia não gostar muito da ideia.
-Olha, Ágata, eu vou sair agora para um plantão médico. Pauline saiu com uma amiga, e vocês dois sozinhos aqui... Mas, você é uma boa garota, e eu vi como meu filho tem agido ultimamente. Vocês realmente precisam conversar. –Ela decidiu, enfim.
-Obrigada, Estella. De verdade.
-Por nada. Boa sorte, ele é um menino complicado. E juízo, hein. –Ela disse, em tom de brincadeira, dando-lhe um beijo na testa e fechando a porta.
Ágata subiu até o quarto de Erick. Mesmo que nunca tenha estado em seu quarto, não fora difícil de achar. O som do violão a guiou até uma porta escura. Por passar tanto tempo com Erick acabou ouvindo as mesmas músicas que ele ouvia, e logo identificou qual música ele tocava: “All apologies”, do Nirvana. Ela bateu na porta, mas na primeira vez ele não disse nada. Bateu novamente.
-O que você quer, mãe? Eu tenho que ensaiar! –Ele disse, e parecia muito nervoso.
-Aqui não é a sua mãe. Posso entrar?
Ele reconheceria aquela voz de longe. Erick correu para porta sem acreditar. Ao ouvir a fechadura se destrancando Ágata se sentiu aliviada.
-Ágata? –Ele disse, observando-a surpreso.
Erick usava uma camisa preta e shorts xadrex, junto com um par de meias. Seus olhos estavam pequenos de sono, e o cabelo todo desarrumado. Ágata não disse nada, mas nunca o viu tão adorável como naquela hora.
-Sua mãe me deixou entrar. Podemos conversar?
-Sim, sim. Entre. –Ele disse, fechando a porta.
Ágata sentou em sua cama, e os dois ficaram observando-se, num silêncio bem constrangedor. É engraçado como em algumas situações há tanto a se falar, mas parece que as palavras desaparecem. No caso de Ágata, ela não sabia por onde começar. No caso de Erick, era a culpa que o mantinha calado.
-Você sumiu. –Ela começou, pondo um fim naquele silêncio.
Erick se aproximou e sentou na cama, para ficar face a face com Ágata.
-Eu tive que resolver algumas coisas. Foi mal não ter falado com você.
-Está tudo bem. Quer dizer, nós não nos falamos desde aquele dia na minha casa, quando eu toquei no assunto do seu pai. Eu vi que você ficou chateado. Eu entendo, também ficaria chateada. Então, desculpe-me pelo que eu disse. Eu não devia ter metido o nariz em um assunto tão complicado. Eu só queria ajudar.
-Você não me deve desculpas, Ágata. Eu sou o único errado aqui. Desculpe-me. –Ele disse totalmente desconcertado. Ágata ali do seu lado, pedindo desculpas tão ingenuamente parecia uma tortura do destino.
Ágata desviou o olhar um instante para um volume no canto do quarto. Algumas malas.
-Vai viajar? –Ela perguntou, apontando para as malas.
-Ah, sim. Eu me esqueci de te contar. Meu amigo conseguiu aquele show para a banda.
-Isso é ótimo! Boa sorte! –Ela disse realmente alegre. Após ouvir a notícia, lembrou-se de mais uma coisa.
-Opa. Acho que devo mais alguns pedidos de desculpa. Perdão por não ter apoiado a sua banda. Eu não sabia que ela era tão importante para você. Mas saiba que eu o apoio. Você tem muitíssimo talento, Erick. –Ela disse, pegando na sua mão.
-Muito obrigado, de verdade. Você não faz ideia do quanto é importante para mim, ouvir isso de você. Ah, tenho mais uma novidade que eu acho que você vai gostar de ouvir. Decidi seguir o seu conselho. Vou encontrar com o meu pai.
Ágata não podia acreditar no que acabara de ouvir.
-Erick, meu amor. Isso é maravilhoso! Estou tão feliz! Garanto que você não vai se decepcionar! –Ela disse, dando-lhe um abraço apertado.
-Mas calma isso não quer dizer que eu começar a chamá-lo de papai e passar todos os fins de semana na casa dele. É só que... tenho algumas perguntas a fazer.
-Eu sei, eu sei. Mas já é um começo. –Ela disse, ainda com os braços envoltos no seu pescoço. Erick pegou uma mecha do seu cabelo e colocou atrás das orelhas, acariciando o seu rosto. Ágata tinha o olhar mais meigo que já vira.
-Não acredito que quase perdi você. –Ele disse, mas Ágata não entendera muito bem.
-Você nunca me perdeu, Erick. –Ela disse, dando-lhe um beijo tímido.
-Você vai quando? –Agora ela sussurrava.
-Amanhã. –Ele respondeu.
-Quanto tempo?
-Depende. Talvez uma semana.
Ágata ficou a refletir por um instante. Lembrou-se do que Pauline lhe dissera. Mesmo depois de tudo que havia dito a ele, talvez ele não tivesse certeza do que ela realmente sentia. E já era hora de falar.
-Erick, tem mais uma coisa que eu não falei. Eu não sei se você sabe, talvez deva suspeitar, porque qualquer um pode observar isso em mim. Porém, quero que você escute de mim o que já está mais do que óbvio, e o real motivo para eu ter feito tudo o que eu fiz.
Erick ficou curioso, ainda mais quando ela hesitou alguns instantes antes de se aproximar do seu ouvido e sussurrar apaixonadamente:
-Eu amo você.
Ele olhou para ela surpreso. Rapidamente um largo sorriso brotou no seu rosto, e Ágata poderia jurar que nem a joia mais preciosa brilhou tanto quanto os olhos cor de avelã de Erick naquela hora.
-Eu também te amo, meu amor. Muito, muito mesmo! –Ele respondeu quase que imediatamente, cobrindo-a de beijos e carícias.
E o que disse era sincero, de coração. O que acontecera na noite passada não importava mais. Não iria se repetir. Ele estava ali, com a pessoa que realmente amava, e era isso que importava.
-Tive uma ideia. –Erick disse, pegando o violão.
Ele se recostou na cama, e chamou Ágata para os seus braços. Ela não entendia o que ele planejava fazer.
-Quero te ensinar a tocar violão. –Ele disse, enfim. Rapidamente ela voou para os seus braços, pois adoraria aprender a tocar violão. Ainda mais com aquele professor.
Erick enlaçou-a em seus braços, e pegou em suas mãos. Eram mãos tão delicadas e magras, que ele tinha medo de que pudesse quebrá-las. Colocou o violão na posição certa, e com seus dedos comandando os dela, começou a tocar, retomando a música de início. “All Apologies”.
-Eu estou tocando violão! Nem acredito! –Ágata se vangloriava, extasiada com o próprio feitio, mesmo sabendo que era Erick quem tocava, na verdade.
Erick continuou tocando, porém, agora distribuía beijos demorados em seu pescoço, que a arrepiava por completo.
-Erick... como você quer que eu fique concentrada desse jeito?
-Acho que chega de aulas de violão por hoje. –Ele disse, sorrindo.
-Mande lembranças para o seu pai. Um dia ainda quero conhecê-lo. –Ela disse, bagunçando ainda mais o cabelo dele.
-Mas é claro. Direi a ele que um anjo caiu na minha vida e me convenceu a fazer o que era certo. –Ele disse, puxando-a para outro beijo.
E de repente, como aquelas situações em que não se tem controle de nada, o beijo se tornou mais intenso. Os dois ali, naquele quarto, sozinhos, nada mais parecia importar. As mãos de Erick, sem ele mesmo perceber, desamarravam o laço da blusa de Ágata. As mãos dela, calmamente puxavam a blusa dele para fora do seu corpo. Percebendo o que estava prestes a acontecer, Erick hesitou por um instante.
-Você tem certeza? –Ele sussurrou em seu ouvido.
Ele pôde notar que sua face estava mais rosada que o normal. Obviamente ela estava nervosa. Mas Erick era especial para ela, e ela o amava tanto. Tudo daria certo. Enfim, ela apenas assentiu, e o puxou de volta para si.
E o que resta dizer sobre aquela noite é que foi mágica. Apenas. Era o melhor termo para defini-la.
Erick estava ciente do que havia feito. Sentia-se culpado sim. Mas não iria ficar preocupado com algo insignificante. O que importava era que eles se amavam. Ágata o fazia feliz. E apesar de tudo, todos têm o direito de ser feliz. Não sabia o que viria depois, não sabia como iria ficar a amizade com Evellyn, não sabia como reagiria ao encontrar o seu pai. E quem disse que ele deveria saber todas as respostas? Uma boa parte ele descobriria logo depois, às vezes cometendo alguns erros. Mas repetindo, nada daquilo importava agora. Porque naquele momento os dois não pensaram em mais nada.
Notas finais
Até a próxima! ;)
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