Entre Céu & Mar
26 Perdoe-me
Notas iniciais
Madison acordou sentindo um pouco de dor nas costas após passar a noite inteira no sofá de Gean. Ela conseguira contar toda a sua aventura para ele naquela madrugada. Gean é bem falante, assim como ela, mas também sabe ouvir.
Ela se dirigiu para a cozinha bocejando de sono, e encontrou-o já acordado preparando o café.
–Dormiu bem?-Ele perguntou, notando a sua presença.
–Acho que sim.
–O sofá não é muito confortável, não é?
Ela concordou com a cabeça.
–É verdade. Mas hoje você volta para sua casa. Pode ficar tranquila. –Ele disse, colocando diante dela torradas e uma xícara de café.
–Você vai comigo? –Ela perguntou, surpreendendo-o.
–Se você quiser, eu vou sim. –Ele respondeu sorridente.
Os dois terminaram o seu café sem parar de conversar. E com o passar dos minutos, Madison o fitava cada vez mais interessada.
–Você está pronta? –Ele perguntou enfim.
–Estou. –Madison disse sem ter muita certeza.
Ela pegou a pequena mochila com todas as coisas que ainda restavam. Havia deixado muita coisa em sua antiga casa e na última, se é que podemos chamar aquilo de casa. Não eram muitos metros que a separavam de seu antigo lar, de modo que em poucos segundos chegaram à calçada onde haviam se conhecido.
–Vamos? –Gean disse assim que notou sua hesitação.
–Vamos. –Ela concordou.
Mas antes mesmo que ele se pusesse a andar, Madison o surpreendeu segurando seu rosto com as mãos e dando-lhe um beijo que só podia vir mesmo dos lábios dela. Gean ficara sem reação no primeiro segundo, mas logo depois se entregou àquele beijo. Quando ela enfim se separou dos seus lábios, percebeu que ele tinha a cara abobada mais adorável que já vira.
–Você é mesmo imprevisível... –Ele murmurou abobalhado.
–Desculpe, eu sou um pouco intensa às vezes. –Ela disse.
–Não... Problema nenhum. –Ele disse surpreso com o progresso de seu relacionamento com Madison. Ontem mesmo ela se esquivara quando ele tentou beijar sua testa, e hoje isso.
Agora mal podia esperar por amanhã.
–Agora vamos mesmo? –Ela disse, pegando a sua mão.
–Sim, vamos. –Ele disse, seguindo-a para a casa de seus pais, onde uma vida melhor a esperava.
*****
As pessoas ainda não haviam esquecido o escândalo de Anna e Charlie. Era uma questão de tempo até todos se cansarem e escolherem outra pessoa para humilhar. Mas aquele vídeo continuaria a circular, e sempre teria algum pervertido pronto para humilhá-los.
A pior parte de ficar obrigatoriamente com raiva de Charlie era aceitar o fato de que o seu pai sempre conseguia o que quisesse. O escândalo estava abaixando porque ninguém mais os via perambulando os corredores de mãos dadas. Anna sentia falta disso.
Pensando em todos esses infortúnios, Anna resolveu atirar-se na banheira. Um bom banho quente parece ser a terapia perfeita para momentos como aquele. Porém, seu momento de calma e tranquilidade não durou muito. As escadas daquela casa fizeram um eco terrível de passos desesperados e o latido insuportável de seu cachorro peralta. Anna levantou-se imediatamente assustada. Enrolou-se numa toalha branca e saiu apressada do banheiro de seu quarto.
–Quem está aí? –Ela gritou.
Ela se aproximou da porta no exato momento que Charlie entrou afobado, fazendo-a gritar de susto.
–Charlie! O que você faz aqui? Quase me matou de susto! –Ela disse, segurando a toalha que quase despencou com os seus movimentos bruscos.
–Desculpe. Me deixaram entrar, só que a peste do seu cachorro veio me perseguindo até aqui. –Ele disse enquanto fazia força para respirar.
–Ralf, suma daqui! –Ela gritou para a grande coisa preta e peluda que corria de um lado para o outro. –Pronto. Agora a única criatura a quem você deve temer sou eu. O que você quer, Charlie? Se o meu pai te pega aqui...
–Calma Anna. Eu só queria conversar.
–Bom, já estamos conversando. Já disse o suficiente?
–Anna, sobre a Ágata. Não acha que está exagerando?
Anna virou-se para ele como se tivesse ouvido a pior calúnia.
–Exagerando? –Ela repetiu incrédula.
–Sim. Exagerando mesmo. Lembre-se que foi ela que me beijou. –Charlie disse em tom de defesa.
Anna soltou uma gargalhada debochadamente.
–Ah, então quer dizer que você é o inocente da história?
–Não, não sou inocente. Está certo que eu fiquei confuso por um tempo, mas o que eu disse a você sobre a Ágata não mudou. Acho que você pegou essa história e transformou num pretexto para se afastar de mim.
Anna mudou seu semblante imediatamente, vendo que Charlie só poderia ter chegado àquela conclusão graças a seu pai.
–Você sabe. –Ela disse séria, lembrando das chantagens.
–Claro. Ele fez questão de que eu soubesse por ele mesmo. –Charlie disse, cabisbaixo.
–Está vendo, Charlie? Não vai dar certo. Por mais que eu queira sempre vai ter o meu pai, ou a Sofia...
Um pequeno sorriso brotou em seu rosto que indicava boas novas.
–Humm, sinto dizer que Sofia não é mais um problema. Meus pais ficaram sabendo das aspirações à diretora dela, e não ficaram nada contentes. Ameaçaram processá-la. E pelo que eu fiquei sabendo, os pais dela ficaram tão aborrecidos com o seu comportamento que resolveram tomar medidas drásticas. No fim do ano ela vai morar com a tia numa cidade tremendamente pequena e que chove 90% do ano. Isso até eles encontrarem um colégio interno bem rigoroso. Longe daqui, é claro. Acho que a Califórnia tornou-a uma perdida na vida. –Charlie anunciou, com um sorriso assustadoramente alegre no rosto. Anna mal podia crer em suas palavras.Mas estava contentíssima com a novidade.
–Engraçado. Nós éramos tão amigas. Eu sempre fiz tudo que Sofia me manda. Agora sinto um alívio tão grande ao vê-la partir. Acho que Ágata também não vai sentir sua falta. Como as coisas mudaram. Ela escolheu o pior destino. Não ter amigos. Eu sei bem do que estou falando... –Anna se pegou refletindo em voz alta enquanto fitava o nada. Charlie aproveitou-se de seus devaneios e pegou em sua mão.
–Viu só? Sofia mandava em você do mesmo jeito que o seu pai. Se você conseguiu se libertar dela, vai conseguir com o seu pai. Acho que não tem obstáculo nenhum que eu não possa te ajudar. A vida é como um videogame, Anna. Fica mais difícil a cada fase.
–Isso parece frase de facebook. –Anna brincou.
–Pois é, foi lá mesmo que eu vi. Mas ela se encaixa perfeitamente a essa situação. Então, o que me diz?
Anna hesitou um pouco, mas não estava indecisa. Gostava de ver o rosto de Charlie quando ele fica impaciente por uma resposta. Mas tão logo o surpreendeu com um beijo longo, instantaneamente correspondido. Ela escorreu os dedos para a gola da camisa de Charlie, puxando-o vagarosamente para o banheiro.
–Tem uma banheira bem grande ali dentro, quer experimentar? –Ela disse com os olhos brilhando de malícia.
Charlie a respondeu levando-a direto para a banheira, transbordando de espuma, enquanto ali no chão jazia a toalha que a cobria.
*****
As pessoas pareciam ter acordado naquele dia com um forte desejo de se desculpar e começar de novo. Seria ótimo se todos os dias isso acontecesse. Para Erick, as coisas ainda eram incertas, mas ele teria de tentar hoje. Talvez Ágata também tivesse sido contaminada pelo vírus.
E foi assim que ele se apresentou na sua casa, vestido de esperança, pensando ser aquele seu último esforço. Torceu para que Ágata viesse lhe atender, mas quem apareceu foi Evellyn.
Era estranho tanto para os dois se verem depois de tudo que havia acontecido. Ambos permaneceram alguns minutos fitando um ao outro, à espera de alguma saudação que não soasse estranha.
Porém, o mais estranho era o fato de aquele sentimento proibido que reinava em seus corações não se acendeu. Aquele sentimento que sempre os fazia sentir mal por senti-lo havia desaparecido. Era um ótimo sinal, se não fosse tarde demais.
–Olá, Eve. Quanto tempo. –Erick finalmente se manifestou, um pouco sem graça.
–Olá, Erick. É verdade. –Ela disse, estendendo-lhe a mão para um cumprimento.
–Sua irmã está em casa? Eu... realmente preciso conversar com ela. –Disse Erick.
Evellyn olhou de soslaio pela fresta da porta para ver se ninguém os observava. Dando-se conta do óbvio, ela fechou a porta e puxou-o para uma cadeira de balanço que mais parecia uma rede a fim de enfiar um pouco de juízo em sua cabeça.
–Erick, eu sei que suas intenções são as melhores, mas não acho que Ágata quer vê-lo.
–Bom, eu preciso tentar, Evellyn. Nós erramos, eu sei. Mas... eu não posso aceitar sem lutar. –Ele disse, incluindo Evellyn no ‘nós’.
–O que você vai dizer a ela?
–Eu... ainda não sei. Mas vou saber, se me deixar falar com ela. –Ele disse convicto.
Evellyn respirou fundo. Sua irmã parecia estar mais calma agora. Talvez ele tivesse alguma chance. Eles mereciam isso. Sem a sua interferência.
Ela havia mudado bastante, afinal. Antes não suportava vê-los juntos, e agora torcia pela sua felicidade.
–Está bem, Erick. Vai lá, e boa sorte. –Ela disse, batendo em seu ombro.
Um sorriso brotou no rosto de Erick e seus olhos se encheram de esperança. Imediatamente abraçou-a, agradecido. E nada de mais aconteceu. Não havia nada estranho, ou constrangedor naquele abraço. Era inocente.
–Obrigada Eve. –Ele disse indo em direção à porta enquanto ela se afastava lentamente.
–Ah, Eve? –Ele hesitou pela última vez, atraindo sua atenção.
–O que foi?
–Você acha que poderia dar certo?Nós dois. Sabe, se por acaso eu tivesse te conhecido antes...
Evellyn refletiu antes de lhe responder. Já se pegou pensando várias vezes na mesma pergunta, e somente naquele dia soube respondê-la.
–Pra ser sincera, acho que não. Erick, você é um ótimo amigo, e o que aconteceu entre nós foi um engano. Nós dois nos parecemos muito, mas eu não espero nada de você que não seja amizade. Apenas bons amigos. –Ela disse, e Erick parecia concordar.
–Você tem razão. Apenas bons amigos. –Ele aceitou o fato, e correu para encontrar a irmã Baker que realmente fazia seu coração bater mais forte.
–Ela está no jardim! –Evellyn gritou para ele, enquanto aproximava-se lentamente para ‘assistir’ a conversa dos dois.
Erick encontrou Ágata na parte da varanda feita de madeira, coberta de flores, enquanto lia serenamente. Concentrar-se na vida das personagens a fazia esquecer um pouco a sua.
–Ágata? –Erick disse, aproximando-se lentamente.
Ágata deixou o livro cair ao ouvir uma voz cortando o silêncio que antes ali reinava.
–Erick? Você voltou... –Ela disse séria, fitando-o.
–Posso tentar falar com você novamente? –Ele disse, sentando-se do seu lado.
–Claro.
–Eu pensei muito nas suas palavras naquele dia. Você disse que talvez houvesse alguma esperança para mim. Então eu resolvi tentar, pela última vez.
Pela última vez? –Ela se pegou pensando.
–Eu até pensei em aparecer com flores, ou fazer alguma serenata, mesmo não fazendo nem um pouco parte de mim esse lado... ridículo. –Ele disse rindo.
–E não seria preciso. Eu não quero flores, porque elas estragam facilmente. Uma serenata até seria bom, mas não quero ninguém participando ou rindo desse momento. Na verdade, o que eu preciso é mais que palavras. –Ela o interrompeu.
–Eu sei, eu sei. E fico grato que pense assim. –Ele olhava intensamente os seus olhos, quase a fazendo perder o esforço para parecer dura. –Você quer atitudes, eu sei. Eu vou tentar, eu juro. O que você quiser eu estou disposto. Eu nunca mais falo com Evellyn se for preciso. Não sinto nada por ela que não seja amizade. Mas se você quiser, nem mesmo isso. Porque o que eu sinto por você é bem mais importante.
As palavras de Erick eram sinceras, mas como Ágata havia dito, eram apenas palavras. Ela precisava ter certeza de que seria diferente agora.
–Você realmente faria isso por mim?
Ele assentiu imediatamente. Um sorriso tímido, que de início sentia-se incomodado de aparecer, aos poucos foi dando o ar de sua graça na face de Ágata.
–Erick, você me magoou muito. Você sabe muito bem. Tanto você quanto Evellyn. Eu confiei em você, e olha o que aconteceu. Nada será como antes, e você terá que recuperar minha confiança. E vou logo dizendo que não será fácil.
–Não importa. Eu sei que vai ser difícil. E eu estou disposto a recuperar sua confiança. E você? Vai me perdoar?
–Eu perdoo. –Ela disse sorrindo, enquanto o puxava para um beijo, pois já não aguentava sentir a falta daqueles lábios.
Um pouco mais distante, Evellyn observava aquela cena, contente com a felicidade alheia. Evellyn era julgada por muitos, e realmente era errada, mas tinha em si algo que falta em muitas pessoas. Ela ficava feliz com a felicidade alheia, mesmo que estivesse triste.
A ver que as coisas começavam a esquentar entre Erick e sua irmã, ela saiu a fim de lhes dar privacidade. Evellyn sentou-se na varanda, olhando o céu, onde as primeiras estrelas finalmente apareciam. Seus pensamentos logo se viraram para Hank. Ela gostaria de ter a esperança de Erick, mas seu caso era diferente. Porém, ela não podia evitar pensar nele. Se ele estava bem. Se estava se afundando nas drogas.
E como se adivinhasse as suas perguntas, seu celular começou a vibrar freneticamente, tirando-a de seus devaneios. A surpresa em ver o número veio imediatamente.
–Sol?
–Ah, Evellyn, graças a Deus. Eu tentei falar com todo mundo mas ninguém me respondeu. Eu sei que é estranho eu estar te ligando pra isso, mas é uma urgência e você precisa saber! –Solange estava nervosa de um jeito que Evellyn só vira uma vez, e foi quando o seu irmão foi encontrado morto. Estava na cara que era uma tragédia.
–Sol, o que aconteceu?
–Hank e Pauline brigaram, como sempre. Ela sumiu para Deus-sabe-onde e Hank exagerou nas drogas. Ele sofreu uma overdose! Encontraram-no no antigo observatório de salva-vidas.
–Oh, meu Deus, Solange! Onde ele está agora?
–Eles o levaram para o hospital. Eu queria muito ter ido para ajudar, mas infelizmente eu tenho que cuidar da lanchonete.
–Solange, eu vou, é claro que vou. Mas, ele está bem?
Um pequeno silêncio reinou do outro lado. Solange hesitava antes de lhe dar a notícia, e Evellyn já não aguentava mais esperar.
–Solange? Tá me ouvindo? Hank está bem?
–Evellyn, Hank pode estar morto agora.
Fale com o autor