Entre Céu & Mar

27 Está resolvido


Notas iniciais
Prontos para saber o que vai acontecer com Hank? Espero de verdade que o capítulo seja do seu agrado. Boa leitura, e por favor, não esqueçam de comentar.

Hank pode estar morto agora.

Não, de jeito nenhum Hank pode estar morto agora.

Esse pensamento ocupava por inteiro a mente de Evellyn, sem deixar espaço para a noção de dirigir com precaução ou qualquer coisa que tenham lhe dito quando aprendeu a dirigir.

Concentre-se, Evellyn. Isso aqui não é GTA. Ela repetiu para si mesma em vão, pois só podia pensar em encontrar Hank e ele não poderia estar morto.

O que ela faria se ele morresse? Não, ele não poderia partir sem saber de coisas que ela guardava há bastante tempo. Evellyn não iria ver outra vez uma pessoa querida partir a odiando. Hank não podia ir embora de um jeito tão terrível. Ele tinha apenas vinte e um anos, uma vida inteira pela frente, e um talento nato que ela nunca vira. Ele precisava provar a todos que estavam errados a seu respeito. E de maneira nenhuma iria morrer agora, numa cama fria de hospital, sozinho.

Não tão sozinho como Evellyn ficaria se ele partisse.

Enquanto ela quase chegava ao hospital dito por Solange, Evellyn tentava reunir todos os seus conhecimentos sobre overdose, aprendidos com os exemplos de grandes ídolos da música que ela tanto venerava.

1º Era a principal causa de morte entre dependentes químicos, o que é bastante óbvio.

2º A maioria dos seus ídolos havia morrido desse jeito, ou similar a isso.

4º Já havia lido em diversas biografias de astros do rock como é uma overdose. Os principais sintomas de uma overdose de cocaína são: agitação, sudorese, delírios, taquicardia hipertensão arterial, arritmia cardíaca, febre extrema, convulsões, dor no peito e infarto do miocárdio.

3ºA maioria dos casos termina em morte, que pode ser evitada se o socorro for imediato.

Esse último fato era o que mais a assombrava. E se chegaram tarde demais? E se ele estiver morrendo por que o socorro não foi imediato? As chances de ter acontecido isso era grandes, e por mais que ela tentasse pensar na melhor das hipóteses, seu lado pessimista sempre a levava a pensar o pior. Como uma forma de não criar falsas expectativas e se preparar para uma tragédia.

Se ele necessita tanto de um socorro imediato, Hank estaria com muitos problemas se vivesse no Brasil.

Quando ela chegou ao hospital, algumas lágrimas de desespero já corriam em seu rosto. Evellyn correu para a recepção, como se pudesse mudar a situação. Ela bem sabia que não.

Outro pensamento negativo: a culpa, mais uma vez, poderia ser dela.

Afastou-se aquela ideia já conhecida de sua mente, pois ela não traria Hank de volta, e se virou para a recepção arfando e inquieta.

–Eu preciso ver uma pessoa. –Ela disse, sem um pingo de paciência.

–O nome, por favor.

–É Hank Collins, ele deu entrada há pouco tempo. Por favor, eu preciso vê-lo. –Ela suplicava, sem saber o que fazer.

–Ah, o jovem que sofreu uma overdose. –Uma médica apareceu para acalmar a situação.

Evellyn virou-se para vê-la e ela parecia incrivelmente com a cobra da Pauline. No seu jaleco branco estava escrito “Stella McJohnson”. Maravilha! Era a mãe de Pauline e Erick.

Será que ela sabe que a filha é uma baita de uma covarde?

–Sim, é ele mesmo. Eu posso vê-lo? –Evellyn disse.

–Finalmente alguém apareceu à procura dele. Alguns salva-vidas o encontraram apresentando convulsões, e o trouxeram para cá. Tentamos falar com os pais dele, mesmo ele sendo maior de idade, mas não consegui contato com nenhum dos dois.

Claro. Os pais de Hank. Frank, que deve estar em alguma ‘viagem a negócios’, e a mãe, que algum dia já deve ter sorrido, mas agora assiste a vida passar como se fosse uma estátua. Não era de se admirar que ela não tenha escutado o telefone tocar. Patético.

–Ele está bem? Está vivo? –Evellyn implorou pela resposta.

Stella demorou a responder, deixando o coração de Evellyn ainda mais aflito. Ele estava realmente morto ou Stella gostava de fazer mistério para ver as pessoas sofrerem?

Ela pôs a mão fria nas costas descobertas de Evellyn, e a obrigou a caminhar lentamente pelo corredor do hospital, acompanhando o seu ritmo. Evellyn sempre achou o ambiente dos hospitais horripilante. Como Ágata conseguia amar aquilo?

–Bom, senhorita...

–Evellyn. Evellyn Baker.

–Evellyn. Hank consumiu uma quantidade exorbitante de cocaína, de modo que ele chegou bem perto da morte. Por sorte, o socorro foi imediato, e nós conseguimos salvá-lo.

Uma paz tomou conta do coração apavorado de Evellyn naquele instante. Ele estava vivo! Estava bem! Um grande sorriso de alívio pegou o lugar do semblante desesperado. Lágrimas de felicidade e alívio escorriam felizes pelo rosto alvo. Evellyn levou as mãos ao rosto para secar as lágrimas, e percebeu que elas tremiam. Os efeitos do grande susto que Hank lhe deu ainda não se foram totalmente.

E com certeza nunca iriam.

–Mas ele chegou bem perto de morrer. Isso é muito sério. Não sabe quantas vezes já vi jovens morrerem do mesmo jeito que ele quase morreu. O lema “Live fast, die Young”, é algo que explica esse comportamento. O que eles querem? Viver intensamente, e morrer eternizados pela sua audácia? –Stella desabafou.

–Eu entendo a seriedade disso. E pode deixar que ele nunca mais vai chegar perto de cocaína. Nem que eu tenha que amarrá-lo. –Evellyn disse, e naquele momento ela pareceu exatamente a sua mãe.

–Espero que sim. Espero que você ajude-o a colocar um pouco de juízo na cabeça. –Stella disse, parando em frente a um quarto. Evellyn viu pela janela de vidro Hank descansando serenamente. Como se estivesse dormindo esse tempo todo e nada tivesse passado de um pesadelo.

–Ele está descansando agora. Você quer vê-lo mesmo assim?

–Claro! –Ela não queria perder mais tempo.

Evellyn entrou no quarto lentamente, sem fazer barulho. Aproximou-se e sentou-se ao lado dele. Aquele não era o seu Hank. Ele parecia apagado. Sua pele tinha uma tonalidade pálida doentia, muito diferente do seu bronzeado permanente. Ele parecia abatido naquela cama de hospital. Ele recebia uma substância por via venosa, que ela imaginou ser o tratamento contra as convulsões. Parecia ter dado certo. Hank estava sob uma tranquilidade mortífera. Evellyn congelou-se de medo só ao pensar que ele poderia ter morrido agora.

Ela pegou a sua mão. Seu toque não era mais quente, como sempre fora. Seus dedos eram frios, e se não fosse pela pulsação, ela quase acreditaria na sua morte. Ela deslizou seus dedos pelo cabelo desgrenhado dele, que parecia mais escuro ali.

–Hank, você deve estar dormindo mesmo, ou não quer olhar para mim. E provavelmente sou a última pessoa que você quer ver agora. –Ela deslizou os dedos mais uma vez até os seus lábios, que estavam pálidos e abatidos como todo o resto.

–Mesmo assim, eu precisava vê-lo. Eu... Eu entrei em pânico quando a Sol me ligou. Eu sempre fiquei horrorizada pelas coisas que eu lia daqueles músicos que nós dois amamos, mas nada é comparado a viver isso.

Ela fez uma pequena pausa para engolir o choro que estava para vir. Ela precisava ser forte para continuar ali. Hank precisava dela.

–Hank, por que você fez isso? Você nunca se descontrolou desse jeito. Você tem ideia do que poderia ter acontecido? Você tem uma vida inteira para viver e fazer o seu pai e vários iguais a ele engolirem todas as críticas que te fizeram. Mas antes, precisa acreditar em si mesmo como eu acredito em você. E se afundar em drogas não vai adiantar porcaria nenhuma!

Evellyn já havia desistido de segurar as lágrimas.

–E não adianta falar que você não faria falta, como costumava dizer. Não importa se seus amigos não são tão amigos como deveriam ser, ou se seus pais não dão a mínima. Você não pode se destruir, Hank! Você vai acabar comigo desse jeito! Não faz ideia da falta que você me faria! Você tem ideia do susto que me deu Hank?! Faz alguma ideia?!

Evellyn repetia para si mesma manter o controle, pois estava num hospital e seu tom de voz descontrolado não era conveniente, mas suas emoções estavam abaladas demais, e agora pressionava a mão de Hank cada vez mais forte. Com certeza ele não estava dormindo.

–Por favor, Hank! Eu sei que você deve me odiar, mas não faça isso comigo. Não faça isso consigo mesmo! Eu não consegui dizer adeus aos meus pais, e eles ainda estão comigo com suas expressões de reprovação.

De repente, uma sensação de dejavú a inundou ali mesmo. Parecia estar vivendo a mesma coisa depois de três anos tentando se recuperar.

–Hank, eu cometi um erro enorme há três anos. Meus pais partiram, e a última coisa que lhes disse foi que adoraria que eles explodissem. Eu os desapontei, e eles foram embora para sempre sem saber que eu os amava, apesar de tudo. E eu quase cometi esse erro novamente. Você iria partir para sempre e nossa última lembrança seria uma traição.

Pensar na traição parecia tão irrelevante naquele momento, mas Hank estava acordado, paciente e de olhos fechados, finalmente a escutando. Era o momento certo para esclarecer as coisas.

–Eu sei que você não quer lembrar-se disso, Hank. Mas eu sei que te magoei bastante. Parte disso pode ter sido minha culpa. Eu não queria que as coisas terminassem assim. Naquele dia, antes de você receber as fotos, eu ia te contar. Eu sei, é difícil de acreditar, mas minha consciência já me assombra demais e eu não queria esse peso. E fútil lembrar isso, mas o que aconteceu entre eu e Erick foi apenas quando estávamos brigados. Foi um erro horrível. Eu sou uma humana; mais que isso: eu sou a Evellyn. Ser errada já foi planejado desde o útero da minha mãe. Eu queria dizer que eu sinto muitíssimo. Em nenhum momento eu pensei em te magoar.

Evellyn fazia pequenos círculos invisíveis na mão de Hank. Onde havia tirado tanta coragem para dizer tudo aquilo? Talvez fosse o medo de perdê-lo, que era maior que tudo.

–Eu sei que isso não importa mais. Eu tive minha chance, e entendo se você nunca mais querer olhar na minha cara. Mas mesmo assim, eu preciso te dizer só mais uma coisa.

Evellyn hesitou por um instante. Estava prestes a declarar algo que nunca dissera a ninguém. Nem para seus pais, nem Kate, nem Madison, e muito menos Ágata.

–Eu realmente espero não passar por isso de novo, mas nesse caso, é difícil saber. Por isso, preciso confessar uma coisa. A minha vida toda, eu nunca disse que amava meus pais, e eles se foram sem saber disso. Não vou cometer o mesmo erro com você.

As lágrimas se misturavam a gemidos que alteravam a sua voz, tornando-a ridícula. Mas ela não podia evitar. Instantaneamente, Evellyn se atirou cuidadosamente no peito de Hank, desesperada, molhando o lençol do hospital com suas lágrimas desenfreadas.

–Eu te amo, Hank! Eu te amo muito! Então por favor, não faça isso comigo, porque eu não vou suportar ver uma tragédia levar mais uma pessoa que eu amo!

Evellyn finalmente conseguiu. Finalmente declarou-se. Era a primeira vez que dizia aquilo, e saíra abafado pelo choro e pelo peito de Hank. Ela não via mais nada. E tudo que fazia era abraçá-lo fortemente, desejando nunca soltá-lo, enquanto chovia-lhe com suas lágrimas.

Enquanto soluçava jogada em cima dele, Hank finalmente abriu os olhos e viu o tão conhecido dragão vermelho gravado naquelas costas que tantas vezes acariciou. Instantaneamente, ele deslizou seus dedos, contornando o desenho do dragão. Evellyn reconheceu de imediato o carinho conhecido, e arrepiou-se com o toque de Hank.

Evellyn imediatamente elevou seus olhos vermelhos para vê-lo. Hank estava sorrindo, um sorriso fraco, mas ainda sim ele estava sorrindo, e o melhor era que Evellyn era o motivo. Ela viu pequenas gotas brilhantes em seu rosto. Hank também estava chorando.

–Eu também te amo, Eve. –Ele disse com a voz rouca e fraca.

–Ah, Hank... Hank... –Ela segurou seu rosto com as mãos enquanto alcançava seus lábios sedentos, beijando-o incessantemente.

–Hank, jure, jure por tudo que é mais sagrado que você nunca mais vai fazer isso! Por favor, jure! –Evellyn implorava entre soluços.

–Eu juro pelo nosso amor que eu nunca mais vou fazer isso. Por você.

Uma carga de lágrimas desceu mais uma vez dos olhos de Hank. Ele beijou a testa de Evellyn, enquanto enlaçava-a em seus braços fracos. Mas mesmo assim, Evellyn se sentia protegida entre eles. A ideia de que nada daquilo poderia ter acontecido lhe sondava a mente. Naquele momento, ela ouvia os batimentos do coração de Hank e aquele era o som mais importante para ela agora. Evellyn beijou o seu peito, agora parcialmente despido.

–Eu pensei que você nunca iria me perdoar. –Ela sussurrou em seu ouvido.

–Te perdoar? Evellyn olhe ao seu redor. Eu estaria sozinho se não fosse por você. Meus pais não estão nem aí para mim. Pauline se assustou a me ver ter convulsões e sangrar pelo nariz, e fugiu. Meus amigos sabem-se lá onde devem estar agora. Você é o meu anjo, Eve. –Ele disse fazendo um singelo carinho no cabelo confuso de Evellyn, dando-lhe um leve beijo outra vez.

–E Eve, não fique triste pelo que aconteceu para com seus pais. Não foi sua culpa. No fundo eles sabiam que você os amava. E na certa a amava também, só não souberam demonstrar. Eles é que devem se arrepender, pois perderam a chance de conhecer a filha incrível que tinham.

Evellyn sorriu para Hank outra vez. E não havia nenhuma palavra que pudesse dizer naquele momento, de modo que voltou para os seus braços. Hank continuou alisando as mechas de seu cabelo, enquanto cantarolava baixinho Under the Bridge, de Red Hot Chili Peppers.

Hank e Evellyn estavam finalmente juntos, como deveriam estar. Seus corações estavam literalmente colados um com o outro, batendo no mesmo ritmo de uma paz que finalmente encontraram.

*****

As coisas haviam se acertado entre Hank e Evellyn finalmente, porém, ainda faltavam coisas para resolver. A identidade do verdadeiro assassino continuava desconhecida, e ele poderia estar ao redor de todos. Connor ainda continuava fugitivo, mas graças aos esforços de Jeferson e Trina, não seria por muito tempo.

Geralmente os dois parceiros se encontravam em um restaurante italiano, mas as últimas informações que Jeferson obteve não poderiam esperar. Desse modo, ele foi obrigado a quebrar o protocolo e bater a porta de Trina imediatamente.

–Jeferson! O que você faz aqui? –Trina o recebeu com uma alegria imensa no rosto.

–Tome. –Ele disse, entregando um pequeno envelope.

–O que é isso?

–Tudo que você precisa para denunciar Connor. Eu sugiro que vá imediatamente á polícia. Connor estava mesmo numa propriedade da família na Escócia, mas ele descobriu (não me pergunte como) que estamos seguindo-o. Ele cometeu a estupidez de visitar o irmão. E você precisa se aproveitar disso.

Trina conhecia o irmão de Connor. Sabia de cor o seu endereço. Connor estava no país. Como ele pôde ser tão estúpido?

–Você me dá uma carona? –Ela disse extasiada, mas Jeferson estava adiantado, balançando as chaves do carro.

Trina correu frenética para a delegacia, e se apresentou ao policial, que outrora a intimidara, com um semblante de alívio.

Finalmente isso vai terminar.

–Senhorita, o que posso fazer para ajudá-la? –Ele disse, desconfiado.

–Nada, mas eu posso ajudá-los. Eu sei onde Connor está. –Ela anunciou, toda orgulhosa.

O interesse no rosto do policial foi imediato.

–Siga-me. –Ele disse, indo para sua mesa.

–Onde ele está? –Ele perguntou enfim. A única coisa que os dois tinham em comum era o desejo de capturar Connor.

–Está na casa do irmão. Aqui, no país. Antes ele estava na Escócia, mas isso não vem ao caso. Aqui está o endereço dele. –Ela pegou um pequeno bloco de papel e escreveu o endereço graciosamente.

–Permita-me perguntar: como conseguiu isso?

–Simples. Como eu vi que vocês não estavam fazendo devidamente o seu trabalho, culpando gente inocente enquanto o verdadeiro assassino deve estar agora nesse momento tomando o seu café enquanto lê as notícias, despreocupado, decidi contratar um detetive particular. Muito eficiente, diga-se por sinal. –Ela disse em tom malicioso.

–E por que fez isso?

–E não é óbvio?Quero provar que sou inocente. E, pegando Connor, ele vai dedurar o verdadeiro assassino. É a profecia. –Ela brincou.

–Senhorita, a polícia tem uma dívida com você.

–Então paguem indo atrás dele agora. Por que o senhor continua aqui perdendo tempo com perguntas desnecessárias quando ele pode estar saindo do país a qualquer momento? –Trina quase ordenou, fazendo o policial finalmente se mexer.

–Estou mandando todas as viaturas atrás dele agora, senhorita Trina. Fique tranquila.

–Finalmente eu estou tranquila. Passar bem, senhor.

Trina deixou a delegacia com um sorriso triunfante no rosto. Uma grande parte do seu trabalho foi concluída. A pior parte seria pegar o assassino. Um grande enganador, mentiroso, e com uma grande habilidade de armas. Alguém haveria de pagar o preço. E Trina não iria permitir que ferissem Ágata ou Evellyn mais uma vez.

Notas finais
Pois é... O capítulo ficou um pouco curto mas espero que tenham gostado. Eu falei para não me odiarem. Eu realmente não conseguiria matar o Hank! Embora que no caso dele, a maioria morre. Pois é, estamos chegando na reta final, o mistério está quase resolvido. O capítulo da revelação (ainda não é o próximo) será bastante tenso e surpreendente. Espero que vocês gostem. Até a próxima, e não deixem de acompanhar!