Entre Céu & Mar

28 Don't forget me


Notas iniciais
Olá! Vou logo dizendo que este é o antepenúltimo capítulo. Sim, o ano está começando e eu estou na reta final! Estou feliz por estar chegando na parte mais tensa da história, que ainda não é nesse capítulo. Espero que tenham gostado desse ar de "felizes para sempre", porque ele não vai durar por muito tempo. Boa leitura, e por favor, lembrem-se. Não se deixem levar pelas aparentemente dicas que darei nesse capítulo. Pode não ser o que vocês estão pensando. Ou talvez seja. Descobriremos a verdade no próximo. Aproveite o capítulo, e tire suas próprias conclusões!

Pela primeira vez, desde que conhecera Hank, Evellyn aceitou acordar na madrugada para vê-lo surfar. E como sempre, perto dele ela enxergava a beleza das coisas de um jeito diferente, assim como o nascer do Sol. Ela assistia extasiada ao show na natureza, inédito para ela daquele jeito, gravando-a em forma de arte, como sempre.

Hank aproximou-se dela balançando a cabeça feito um cachorro, molhando-a.

–Foi mal. — Ele disse, sem demonstrar nenhum arrependimento no rosto.

Hank estava bem diferente do que há alguns dias. Seu sorriso costumeiro voltara para o seu rosto, e ele parecia mais vivo, embora algumas vezes aparentasse cansaço.

É bom ser realista e aceitar o fato de que nenhuma garota pode curar um viciado. Senão não existiriam clínicas de reabilitação.

Hank jogou a sua prancha para dentro da picape e sentou-se ao lado de Evellyn.

–Viu? Eu não disse que valia a pena acordar a essa hora? –Ele disse, contemplando o belo desenho de Evellyn.

–Vocês surfistas são loucos. Ninguém normal acorda a essa hora. –Ela disse sonolenta, mas não estava arrependida de ter vindo.

–Eu tive uma conversa séria com o meu pai sobre a... clínica. –Hank disse.

Evellyn ficou séria de repente. Hank conversando com o pai sobre uma clínica parecia coisa de universo paralelo.

–E aí? –Ela quis saber como aquilo havia terminado.

–Como sempre, ele não demonstrou muita vontade em gastar dinheiro comigo. Ele tem agido assim desde que eu desisti da faculdade para virar um surfista profissional e acabei estragando tudo... –Hank disse sentindo vergonha de si mesmo.

–Mas aí seu pai foi tomado por um espírito de pai bonzinho que se arrepende como vimos nos filmes, e aceitou, te abraçou e disse que te ama. –Evellyn disse em tom de gozação. Era evidente que ela não acreditava nisso.

–Eu ameacei vender todos os móveis da casa e ter uma crise na frente dos clientes dele. Aí ele aceitou. –Disse Hank, com um sorriso triunfante no rosto.

–Agora sim parece o seu pai. –Evellyn comentou, mas sua risada se foi.

Hank iria para uma clínica, e isso era ótimo porque ele realmente precisava daquilo. Mas isso significava ficar longe dela também, por um bom tempo. Justo quando finalmente as coisas pareciam ir bem.

Evellyn havia adquirido uma repulsa tão grande ao assunto drogas, que quase vomitava ao lembrar que um dia usou aquilo.

–Vou sentir sua falta. –Ela admitiu enfim.

Hank a fitou com seus expressivos olhos verde-mar, e a enlaçou em seus braços. Em algum momento Evellyn havia ligado o rádio e agora tocava “Don’t Forget Me”, de Red Hot Chili Peppers. Uma daquelas músicas com letras que parecem terem sido feitas para a pessoa que a escuta.

–Eu também vou sentir sua falta. Mas eu vou voltar. Nem pense em se livrar de mim. –Hank disse em um tom desanimado e brincalhão ao mesmo tempo.

–Claro que vai voltar. Você ainda tem que me ensinar a surfar. –Ela disse, fazendo-o rir.

–E como você pretende pagar essas aulas?

–Eu não tenho dinheiro, — Ela mentiu. –Vou ter que pagar com favores sexuais. –Ela disse galhofeira.

–Boa ideia. Mas, eu só aceito com um adiantamento. –Ele disse malicioso.

Evellyn puxou-o imediatamente para beijá-lo, intensamente e cada vez mais necessitado. Ela o flagrou com um semblante sereno, distante. Ela quase podia adivinhar seus pensamentos, mas perguntou mesmo assim.

–Está pensando em quê?

–No futuro. –Ele respondeu imediatamente.

–Em qual futuro, exatamente?

–No meu, no seu. O nosso. –Ele disse, empurrando-a para debaixo dele enquanto distribuía uma carreira de beijos no seu pescoço.

–Fazendo planos, não é? Posso saber quais? –Ela disse inteiramente arrepiada.

– Bom, eu vou para a clínica agora. Vou fazer de tudo para me recuperar, e depois, recomeçar do zero. Vencendo campeonatos, arrumando algum patrocinador. Espero fazer tudo isso com você do meu lado.

–Será uma honra. –Ela disse, lisonjeada. –Seus planos são difíceis, mas não impossíveis.

–É verdade. E você tem algum plano?

Evellyn meditou um pouco. Nos últimos anos, principalmente neste, sua mente esteve virada para outras coisas. Sempre relembrando o passado e nunca pensando no futuro. Mas havia uma única coisa, que sempre esteve presente na sua vida e com certeza sempre estará.

–Eu nunca pensei muito a respeito, mas talvez eu opte mesmo por algo a ver com Artes. Também quero fazer fotografia, graças ao incentivo de Kate. Viajar pelo mundo sempre foi nosso sonho, lembra?

–Claro que lembro. Você já é uma ótima artista, Eve. Mas, seus planos também não são tão fáceis e bem procurados.

–Sim. Mas então eu me lembro daquele poema de Robert Frost: “Cheguei a este ponto do caminho onde precisava escolher entre duas estradas E entre as duas, escolhi a menos viajada E isto fez toda a diferença."

–Esse cara tem toda a razão. –Hank afirmou, lembrando do poema inteiro.

Mas algo naquele momento preocupava Evellyn muito mais que futuro, faculdade, surfe, caminhos e Robert Frost.

–Quando você vai partir? –Ela perguntou com a voz triste.

–Talvez hoje mesmo. –Ele disse.

Tão pouco tempo, assim Evellyn pensou. Hank mal tinha voltado para sua vida e agora teria que ir novamente.

–Então é melhor nos despedirmos agora, não é? –Ela disse olhando para ele maliciosamente.

Hank assentiu, olhando-a com um semblante até certo ponto triste. Ambos tinham medo que os caminhos que tivessem que seguir lhes afastassem, mas, naquele momento, sozinhos e despidos, não era necessário pensar, e as coisas logo se resolveriam.

*****

Evellyn voltou para casa contente e triste ao mesmo tempo. Contente por tudo ter voltado ao normal entre ela e Hank, coisa que jamais pensou que poderia acontecer. E triste por vê-lo partir mais uma vez. Mesmo não sendo para sempre.

Ela fechou a porta com os olhos fechados e um sorriso bobo no rosto, relembrando todos os momentos daquela manhã. Mas, ela sentia falta de outra pessoa. Alguém igualmente especial para ela, com a qual adoraria compartilhar aquela alegria. Onde andaria sua melhor amiga? O que ela pensaria de toda aquela situação?

–Eve?

Primeiramente ao ouvir aquela voz irritantemente conhecível, ela pensou se tratar de uma ilusão de sua mente perturbada. Mas ao abrir os olhos, ela se deparou com a presença de sua amiga, e de outro cara que não lhe era estranho. Mal podia acreditar no que via. Ela parecia outra pessoa. Seus cabelos não estavam tão desgrenhados, seu rosto estava limpo, perfeitamente enfeitado com um lindo sorriso ardente. Já não se vestia como uma vadia, e o mais importante de tudo: nada de hematomas.

–Madison! –Ela gritou surpresa, indo até o encontro da até então tão distante amiga.

As duas se uniram num abraço incrivelmente apertado, mas não o suficiente para tanto tempo de separação. Foi então que começou a conversa desenfreada:

–Você não estava em casa, mas Kate nos atendeu...

–Ah Mad, sua louca!

–Desculpe ter ido eu fui uma idiota...

–Ágata me contou o que você fez...

–Foi o pior erro da minha vida...

–O que aconteceu com você?

–Alex está preso, mas eu consegui me libertar...

–Eu senti sua falta. –As duas disseram ao mesmo tempo, lutando para não derramar as lágrimas de alegria, abraçando-se mais uma vez.

Gean manteve-se um pouco afastado, envergonhado por penetrar num momento de amizade a qual ele não fazia parte. Madison percebeu o seu desconforto.

–Eve, quero te apresentar uma pessoa. Este aqui é o Gean. –Ela disse, levando-a até ele.

Os dois se cumprimentaram.

–Acho que te conheço... –Disse Evellyn desconfiada. Ela não confiava no gosto de Madison, que sempre pendia para caras errados, mas Gean parecia diferente.

–Eu... sou amigo do Erick. Seu cunhado. –Ele disse envergonhado.

–Humm... Deve ser por isso. Então senhor Gean, posso saber quais são suas intenções com Madison? –Ela disse em tom de gozação, mas o pavor no rosto de Gean deixava à mostra que ele levara a sério.

–Não deixe ela te assustar, Gean. Ela só está brincando. –Disse Madison, pegando a sua mão e dando-lhe um beijo de leve no rosto.

–Ela tem razão, eu estou brincando sim. Mas eu fico preocupada com ela, e você deve saber por quê. –Ela disse séria, e tinha razão. Nenhum dos três ali queria que o problema Alex acontecesse de novo.

O gato parecia ter comido a língua de Gean, então ele apenas assentiu com a cabeça. Evellyn era bastante fraca, mas mesmo assim intimidadora. Talvez fosse algo com o olhar que assustava as pessoas.

–Então, você veio para ficar? –Perguntou Evellyn.

–Bem que eu queria ficar, mas prometi aos meus pais procurar uma clínica de reabilitação. –Ela anunciou triste. Gean não parecia gostar da ideia de se separar dela também, mas não havia alternativa. Nenhum garoto tinha o poder de curar uma menina drogada. Senão não existiriam clínicas de reabilitação.

Mais outra pessoa querida que partia para se recuperar. Cada vez mais Evellyn sentia repulsa pela droga.

–Ah... –Essa foi sua resposta genial. –Hank também vai para uma.

–Hank? Clínica de reabilitação? –Madison parecia surpresa.

–Sim. E nós acabamos de voltar.

–Acabaram de voltar? E quando terminaram? –Madison não entendia nada.

–Eu acho que vou deixar vocês duas colocarem suas vidas em dia. –Gean disse, deixando-as sozinhas na sala.

–Mad, eu tenho muita coisa para te contar e com certeza você também.

Madison assentiu, afinal os últimos vezes haviam sido bem marcantes, e sofridos também. Para ambas, os últimos meses tinham história, e era história que ambas iriam contar, em riqueza de detalhes, como nos velhos tempos de outrora.

*****

Um reencontro também acontecia na casa de Jared, o irmão de Connor. Mas não era nada emocional, e Connor já arrumava as malas com uma velocidade monstruosa. Organização não existia em seu vocabulário.

–Connor, você tem ideia do perigo que está correndo aqui? –Jared roia as unhas de nervosismo,louco para se ver livre do irmão.

–Eu sei, mas eu precisava entrar em contato com você sabe quem. –Connor disse, enquanto socava algumas peças de roupa na mala.

–Não, eu não sei quem, e isso é injusto. Estou correndo risco ajudando os dois, e nem ao menos sei quem é o responsável por tudo isso. –Ele disse, segurando grandes bolos de nota nas mãos.

–Quanto menos você souber é melhor. –Foi só o que disse.

Connor estava preocupado com os últimos acontecimentos. Trina enviou um detetive atrás dele, e não sabia por que ela ainda continuava viva. Afinal de contas, o responsável era movido à vingança, e Trina estava na sua lista negra, assim como toda a família Baker.

E se ele esperasse por isso? E se quisesse ser descoberto?

Connor lembrou-se de suas palavras que o aterrorizavam por dentro.

–Connor, se por acaso te pegarem, conte tudo. Entendeu? Isso é uma ordem. Conte tudo.

Essa era a frase que sempre repetia com seus intimidadores olhos frios e sem sentimento algum, que já presenciaram alguns assassinatos com prazer, e não faria questão em lhe deixar vivo caso não cumprisse suas regras.

Mas o que planejava a sua mente doentia, obrigando-o a contar tudo? Era um mistério que até agora ele não sabia resolver. E talvez nunca saberia o que se passa na mente de um psicopata.

–Connor? Por que diabos está parado com essa expressão de paisagem? Anda logo! Há essa hora a polícia já deve estar atrás de você!

Mas era tarde demais para ambos.

–Aqui é a polícia! –Ouviu-se um grito policial, logo depois uma porta arrombada.

Os dois se entreolharam com o pavor. Era o fim da linha para todos.

–Levantem as mãos! Vocês estão presos! –O policial gritou com a arma apontada para Connor. O outro policial apontava a arma para seu irmão, que parecia estar chorando.

Ambos foram algemados e levados para a viatura que os esperava. Os policiais liam o direito de cada um, mas a mente de Connor estava longe naquele momento. Ele era um misto de desapontamento, raiva e medo. No fundo ele sabia que esse era o seu plano desde cedo. Ele apenas serviu como brinquedo. Para uma alma incapaz de amar, carregada de vingança, não há limites para arquitetar seus planos. Não há lei, não há medo. Apenas vingança.

*****

Depois de vários meses, Connor estava de volta à mesma sala fria e fantasmagórica, com um policial irritado querendo respostas que ele logo daria sem pestanejar.

–Connor, sua situação está bem complicada e você sabe disso. Você pode facilitar para nós, contando a sua história que nós já sabemos, e respondendo a maior pergunta: Para quem você trabalha?

Connor continuou calado.

–Você sabe que terá muitos benefícios se colaborar conosco, como...

–Eu sei o que eu vou ganhar se contar! –Ele latiu. –E eu vou contar.

–Ótimo, vejo que não é tão estúpido assim.

Connor respirou fundo antes de começar o seu relato. Era sua última missão, e mais uma vez, ele estava apenas cumprindo ordens. Mas o que aquele monstro pretendia com aquilo? Obrigar alguém a confessar tudo que fez, é praticamente suicídio.

Talvez o suicídio também esteja nos seus planos.

A julgar pela situação de Connor naquele momento, suicídio não era uma ideia ruim.

–Vocês já sabem essa parte, mas eu vou começar do início. Andrew confiava em mim, e eu abusei dessa confiança. Admito. Eu desviei uma grande quantia na empresa para mim mesmo. Então, não sei como, a pessoa que vocês estão procurando descobriu isso. Eu não tinha alternativa. Ou ia preso, e perdia tudo que havia conquistado ali, ou me aliava a pessoa. Então a pessoa me usou para fazer Andrew planejar sua última viagem. Os equipamentos foram adquiridos por essa pessoa. Ela fez a bomba. Eu coloquei. Ela acionou.

Ele começou a sua confissão, cuidando para deixar a identidade da pessoa ainda desconhecida, pois gostava da cara de insatisfação do policial.

–Sim, isso nós já sabemos. Mas quem é essa pessoa? Onde ela está nesse momento? Precisamos de nomes, de endereços! –O policial gritava, impaciente.

–Nomes vocês precisam sim, endereços nem tanto. A não ser por esse aqui. –Ele entregou uma chave que trazia consigo o endereço de um apartamento na cidade.

–Neste apartamento estão todas as provas que vocês precisam para acreditar no que eu vou contar agora.

–Quem é essa pessoa, Connor? –O policial repetiu mais uma vez, pegando as chaves.

Connor respirou fundo e pronunciou o nome da pessoa, cabisbaixo. Um grande silêncio se seguiu antes de ele olhar novamente o policial à sua frente. Ele tinha uma expressão de terror no rosto, e estava incrédulo.

–Mas isso não é possível... –Ele disse, aterrorizado.

–Ah, é muito possível sim. Vocês não conhecem essa pessoa. Pensam conhecer, mas não. Trata-se de um psicopata que matou a própria mãe sem pestanejar, e agora, nesse momento, deve estar planejando suas quatro últimas mortes. –Connor disse arquejando, nervoso.

–Você entende o quão grave é a sua confissão? –O policial lhe indagou, sério, segurando firme a chave na sua mão.

–Sei. A verdade é bem grave mesmo. –Foi a última palavra de sua confissão.

–Está bem, Connor. Gostaria que estivesse errado, mas não podemos deixar essa pessoa mais um minuto livre. Chamem as viaturas. Temos um assassino à solta.

Notas finais
Então... O que estão pensando? Já tem alguma ideia de quem é o assassino? Cuidado com as "dicas" dadas até aqui. Estou ansiosa para escrever o próximo e bem tenso capítulo. Espero que continuem lendo. Quero lhes surpreender. Até o próxima! E muito obrigada por ler! Não esqueçam de comentar! ;)