Entre Céu & Mar
2 Mudanças
Talvez tenha sido obra do acaso, ou não, mas ambas ficaram surpresas por se reencontrarem ali. Madison aproximava-se num passo apressado até a amiga, sem se importar por quem estava no seu caminho. Ao ver que a amiga se aproximava, Evellyn rapidamente secou os vestígios do pranto, que teimavam em permanecer no seu rosto, as fortes lágrimas que antes transbordavam, esqueceram-se no vento e deram lugar a um sorriso proveniente do reencontro.
Aparentava ser a mesma Madison de sempre. O enorme sorriso que esbanjava no rosto deixava à mostra a alegria de sempre. A pele parecia ainda mais bronzeada, quase chegando a um tom alaranjado, vestia trajes de praia, e os cabelos, levemente desgrenhados como sempre, caíam sobre os ombros, ondulados ao vento.
Evellyn ergueu os braços para receber a amiga com um abraço que parecia ter durado uma eternidade:
-Eve! Não sabia que estava na cidade! Há quanto tempo voltou de viagem? E por que não me disse que havia voltado?! Hein? Perguntou Madison, eufórica como sempre, sem pausas, recebendo a amiga com o que parecia um interrogatório de um crime.
-Madison! Calma, uma pergunta de cada vez! Disse ela, dando uma pausa para respirar. –Eu cheguei há poucos dias, e foram um pouco corridos, desculpe por não ter te avisado... Disse ela, tentando reverter a situação.
-Tudo bem então, só não se esqueça dos amigos! Parece que quando saiu perdeu contato com o mundo, mas tudo bem! Eu senti sua falta, aconteceram tantas coisas! Disse Madison, aparentando estar realmente feliz. Evellyn a respondeu com um sorriso, mas não queria imaginar o que ela teria feito dessa vez.
- Mas mudando o assunto, o que faz aqui, sozinha, parada em frente ao cemitério? Perguntou Madison, um sorriso irônico brotou em seu rosto.
-Não, não estou sozinha. Vim com Kate e Ágata, elas estão lá dentro... Disse ela, apontando para o cemitério bem atrás. Madison a olhou receosa, mas logo se lembrou da ‘tradição’ que eles mantinham.
-Ah, sim! Eu me esqueci! Hoje é mais um daqueles dias de visita, não é? Perguntou Madison, piedosa até certo ponto. Evellyn assentiu. Madison a fitava, curiosa, mas não preocupada.
-Você está bem? Perguntou. Evellyn pensou por um segundo em responder a verdade, mesmo a resposta sendo óbvia, estava estampada em seu rosto, mas sabia que ela não queria realmente saber a resposta.
-Estou bem, por qual razão não estaria? Respondeu Evellyn, não tão sincera. Há alguns momentos atrás se desmanchava em lágrimas, e agora mantinha um sorriso tímido no rosto. Madison por sua vez parecia não ter notado nada, e agora olhava fixamente para uma direção. Evellyn rapidamente notou que alguém se aproximava, e seguiu o olhar da amiga para descobrir de quem se tratava. Quase não o reconheceu e Surpreendeu-se ao ver quem era.
Era Alex, a quem Evellyn não via há bastante tempo. Estava quase irreconhecível, ainda maior e mais forte, e uma expressão dura no rosto. Ambas nunca foram muito próximas dele, então o que ele queria?
Enquanto se aproximava, um sorriso malicioso brotou em seu rosto. Evellyn continuava sem entender, olhou novamente para Madison, na esperança de que a amiga estaria tão surpresa quanto ela. Mas, diferente do pensara, ela sorria radiante e seus olhos castanhos brilhavam à medida que ele se aproximava.
Alex não disse um olá, e não parecia nada amistoso, nunca fora na verdade. Madison fez algo um tanto inesperado, jogando-se nos braços de Alex e lhe recebendo com um longo beijo. Evellyn estava boquiaberta, aquilo era um tanto inesperado, e tão sem sentido que a deixou sem fala. Mas os dois aparentavam nem sequer ter notado a reação de Evellyn. Para seu alívio, o beijo parecia estar no fim, mas continuavam grudados. Evellyn fitava a amiga, afim de receber uma explicação. Madison percebeu sua reação, e notou que era hora de lhes apresentar. O sorriso que ela tinha no rosto era o mesmo de uma criança que acaba de ganhar o brinquedo dos seus sonhos.
-Ah! Esqueci de lhes apresentar! Eve esse é o Alex, lembra dele? Lógico que sim! E Alex, essa é a Eve, a garota de quem lhe falei! Disse Madison, apontando para Evellyn.
-Eve! Finalmente nos conhecemos, a Madison me falou muito de você. Você mudou bastante!Disse Alex, estendendo a mão para cumprimentá-la. Olhava-a dos pés a cabeça. Não obteve resposta por alguns segundos, até Evellyn cair totalmente em si.
-Olá Alex... Disse, cumprimentando-o. Tentava ser mais amistosa o possível. Alex apertou sua mão com muita força, e rapidamente ela se afastou. Fitava-o com olhar de reprovação. Ainda sem entender o que acontecia ali, voltou-se para a amiga:
-Madison, posso falar com você um minuto? Perguntou, com uma expressão de deixava muito bem à mostra de que a conversa não poderia ser ouvida por Alex. Mas Madison parecia não perceber mais nada.
-Pode falar aqui mesmo, Alex sabe guardar segredos! Disse Madison. Evellyn a olhou, incrédula, e não acreditava que poderia ser tão ingênua assim. Alex parecia ter entendido, e não se mostrava nada satisfeito, mas mesmo assim a compreendeu.
-Já entendi... Bom, vou deixá-las a sós, para conversarem melhor, só não demore muito. Disse. Evellyn esperou que o rapaz tomasse distância o suficiente até ter certeza de que não poderia ouvi-las.
O grande sorriso que antes brilhava no rosto de Madison se desfez, e seu rosto adquiriu uma expressão nada satisfeita.
-Qual é o seu problema?! Soltou Madison, contrariando a atitude da amiga.
-Qual é o seu problema me diga você! Redarguiu Evellyn. –Madison, o que você estava pensando? Por que está andando com Alex? Ou não conhece a reputação dele? Perguntou, e estava realmente preocupada com ela. Madison em resposta pôs-se em defesa de Alex.
-As pessoas dizem mais do que sabem Evellyn, e você como ninguém deveria saber disso! Respondeu Madison, trazendo à tona uma lembrança não muito boa. Ela realmente não sabia medir suas palavras. Evellyn a ignorou, um pouco ofendida, seu caso era diferente, e as duas sabiam muito bem do que Alex era capaz.
-Tudo bem, eu concordo que Alex pode ser rude e um pouco violento às vezes, mas ele não é só isso, não é esse monstro que todos dizem, ele esteve fora por muito tempo, está diferente, mais maduro, garanto que quando o conhecer você também irá mudar de ideia! Disse Madison, tentando reverter a situação. Evellyn achava impossível ter outra impressão sobre Alex.
-Acho que já vi o bastante, ele não me parece nem um pouco confiável. Disse ela, deixando à mostra sua opinião. Madison nunca desistia.
-Você sempre diz que não se deve julgar pelo exterior não é? Veja só, ao julgar pela sua aparência, não é a das mais confiáveis, mas, nem tudo que parece é. Disse ela, parecendo estar disposta pelo que fosse para defendê-lo. Evellyn permanecia descrente à tudo que a amiga lhe dizia. Não queria ser controladora, e nem podia, mas algo lhe dizia que isso não cheirava muito bem. Poderia ser só paranoia, mas era bem mais que isso. Infelizmente não poderia fazer nada a respeito.
-Bom, nada vai mudar minha opinião, e eu não posso decidir nada por você, afinal a vida é sua. Mas por favor, tome cuidado. Disse ela, mesmo sabendo que a amiga nunca lhe ouvia.
-Não há com o que se preocupar Eve, já tenho tudo sob controle. Respondeu Madison. Evellyn não entendia muito bem o sentido do que ela acabara de dizer, mas deu-se por vencida. Nada a faria mudar de ideia. Só pensava no que os pais de Madison pensavam sobre isso. Provavelmente nem deviam ter conhecimento. Os pais de Madison eram ótimas pessoas, só ela não havia percebido isso, não eram nem um pouco severos, mas ela tinha como objetivo fazer de tudo para deixá-los de cabelo em pé, por puro capricho.
Evellyn não havia notado, mas Alex já se aproximava. Algo em seu rosto dizia ter escutado parte da conversa, porque sua expressão não era nem um pouco agradável. Tinha a face fechada como um tempo ruim, uma contínua tempestade com pausas curtas.
-Madison, vamos logo. Estamos atrasados. Disse Alex, puxando-a pelo braço. Ato inesperado por ambas. Alex tinha muita força, e parecia até cruel em comparação ao frágil braço de Madison. A primeira reação de Evellyn foi o impedir, mas hesitou. Só iria piorar as coisas, e vendo por outro modo, não parecia um ato de agressão.
-Acalme-se Alex! Eles nem devem ter chegado ainda, por que tanta pressa? Disse Madison, reprimindo um grito. Evellyn estava surpresa, aquela atitude não contribuiu em nada para uma boa impressão de Alex. Perguntou a si mesma se não era sua culpa, e tentou reverter a situação, não queria mais confusões.
-Atrasados para o que? Perguntou, curiosa. Alex respirou fundo, e por um momento a tempestade parecia ter ido embora. Ele soltou o braço de Madison, deixando-a mais confortável para responder.
-Vamos nos encontrar na praia, todo mundo vai estar lá, será como uma última festa nas férias. Alguns surfistas da cidade irão competir, vai ser a atração do dia, como não sabe? Disse Madison, agora aparentando estar mais entusiasmada.
-Não, eu não sabia, como eu disse, cheguei há poucos dias. Respondeu ela, feliz em ver que a conversa tomara outro rumo. –Então é essa a causa da euforia? Perguntou ela, apontando para a multidão que parecia não ter fim, bem atrás deles.
-É sim, você vai? Perguntou Madison.
-Talvez sim. Respondeu Evellyn, considerando o convite. Madison não se deu por satisfeita.
-Não faça isso! Vá sim, você vai adorar, vai ser muito divertido, e vai melhorar um pouco seu humor! Não aceito não como resposta! Disse Madison, voltando ao humor alegre de sempre. “Talvez seja uma boa ideia, por que não?”, pensou Evellyn. Realmente ela precisava esquecer algumas coisas e relaxar um pouco, e aquela seria a ocasião perfeita. Olhou para Alex, agora tentando parecer mais amigável. Não por ele, e sim por Madison.
-Ainda surfa Alex? Perguntou Evellyn, lembrando que há alguns tempos atrás, o surfe parecia ser o único objetivo de vida para Alex. No entanto, não parecia ser mais, respondeu-a sem algum entusiasmo.
-Não mais. Não surfo já faz alguns anos, quando fiquei longe da praia, e agora estou um pouco enferrujado, então larguei, minha praia é outra agora... Disse Alex, Evellyn mais uma vez foi pega de surpresa. Aquilo tinha um ar suspeito. É incrível como pessoas mudam tão rapidamente.
-Entendo... Foi só o que respondeu.
-Você ainda não respondeu a minha pergunta Eve! Disse Madison, impaciente, com os braços cruzados e batendo com força o pé no chão. Evellyn já havia decidido, não era uma má ideia, e tinha tudo para ser divertido.
-Tudo bem, eu irei sim. Encontro vocês na praia, daqui a alguns minutos. Disse Evellyn. Madison não hesitou em mostrar sua alegria, e Evellyn se sentiu melhor ao vê-la assim. Alex, no entanto não parecia nem um pouco feliz em saber que Evellyn também iria. Na verdade, ele parecia imune a qualquer tipo de emoção que não fosse ira. “Ele deve ter me odiado, mas tudo bem, se soubesse o que penso dele, odiaria mais ainda”, pensou.
-Ótimo! Então... Até logo! Foi bom te rever Eve! Disse Madison, puxando a amiga para mais um abraço, despedindo-se. Mas havia algo diferente dessa vez. Evellyn não ainda não havia percebido, mas, sob a pele super bronzeada de Madison, destacavam-se pequenas manchas roxas, que sugeriam hematomas antigos. Era difícil perceber numa pele tão bronzeada, mas eles estavam ali, e agora pareciam gritar.
-Madison, o que é isso? Sem hesitar, perguntou Evellyn, preocupada. De início Madison parecia não ter entendido até Evellyn lhe mostrar as marcas. Rapidamente uma expressão de constrangimento tomou conta de seu rosto, sentiu-se enrubescer e pela primeira vez não sabia o que dizer. Não era uma atitude de Madison. A expressão de Alex poderia dizer tudo, menos importância, não parecia estar nem um pouco preocupado. Evellyn ainda aguardava pela resposta, mas Madison revirava os olhos, na tentativa de achar uma explicação convincente. Quem respondeu em seu lugar foi Alex:
-O que? Isso? Não é nada! Ela se machucou andando de bicicleta, estavam bem pior!Disse. Evellyn, por sua vez, não aparentava estar convencida com a desculpa de Alex, queria ouvir de Madison, para ter certeza, pois saberia se estivesse mentindo.
-Madison, isso que ele disse, é verdade? Tornou a interrogá-la, olhando em seus olhos para ter certeza de que diria a verdade. Madison assentiu, mas não fora nem um pouco convincente, ambos os três sabia que ela mentia.
Ela não fez mais perguntas, agora sabia muito bem que não obteria respostas satisfatórias. As duas amigas se despediram mais uma vez, Alex andava de um lado para o outro impaciente, apressando Madison. Evellyn os observou enquanto se distanciavam e sumiam no meio de todos. Ainda permanecia com a pulga atrás da orelha. Parecia ter reencontrado outra pessoa, pois aquela não era Madison. Ela nunca ficava sem saber o que dizer, e em hipótese alguma permitiria que alguém respondesse por ela. Madison nunca havia mentido para Evellyn, até aquele momento. Estava enganada, Madison havia mudado muito, mas por dentro. E não era para melhor.
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A caminho de casa, não trocavam sequer uma palavra. Curtos comentários entre Ágata e Kate sobre o tempo o algo do tipo, nada mais. Ágata refletia em silêncio, e parecia ter a mente distante. Olhava para a janela e observava o trânsito calmo, sem demonstrar nenhum interesse. Parecia querer achar uma resposta sobre tudo.
Evellyn pelo contrário procurava uma saída para os seus problemas. Decidiu que não iria quebrar a cabeça pensando sobre o que sua amiga Madison queria fazer com sua vida, e agora só pensava em chegar logo à praia e se distrair um pouco.
Kate, no entanto, parecia ser a única que tentava lidar bem com essa situação. Não foram poucas as tentativas de animá-las, mas todas fracassavam, fazia tudo com a melhor das intenções, mas não adiantaria. A monotonia já havia tomado conta.
Alguns minutos depois, já estavam em casa. O dia não poderia estar mais perfeito, a leve brisa quente ganhara força e agora se transformara em ventos fortes, não havia uma nuvem no céu, e o sol brilhava com toda a sua energia. Duas irmãs que moravam à casa ao lado, corriam pela calçada com seus sorvetes e seus patins, e gargalhavam com toda a inocência da tenra infância. Pareciam ser realmente unidas, Ágata as observava e pensava no que havia perdido, pois não se lembrava de ter um momento assim com a irmã. Suspirou com a lembrança, mas não deixou transparecer a tristeza que sentia.
Evellyn mantinha a mente livre de toda a preocupação, e evitaria qualquer tipo de aborrecimento naquele dia. Correu diretamente para o quarto, deixando a irmã e a tia a sós.
-Eve! Aonde vai com tanta pressa? Gritou Kate, mas a sobrinha já estava longe o bastante para ouvi-la.
-Deve estar indo à praia, ela estava comentando com Madison sobre isso. Adivinhou Ágata, agora debruçada sobre o muro, expondo-se ao sol. A pele clara levemente rosada denunciava que aquele não era um hábito de rotina. Tinha o olhar distante, a contemplar a paisagem à sua frente. De longe enchergava-se o oceano. Kate aproximou-se da sobrinha, com o sorriso mais acolhedor que podia oferecer.
-Com esse tempo maravilhoso, até que não me parece uma má ideia... Disse Kate, em resposta. –Por que não vai também? Poderiam servir de companhia uma à outra. Disse Kate, na tentativa de aproximá-las outra vez. Ágata a olhou surpresa, e soltou uma riso fraco.
-Só pode está brincando! Isso seria praticamente impossível! Respondeu ela.
-Imaginei de diria isso, disse Kate, mas não custaria tentar, afinal, olhe quanto tempo nem se falam direito! Além disso, hoje é o último dia de férias Ágata, não custa nada dar uma folga a si mesma, não é? Disse ela, mantendo-se esperançosa. Ágata tinha um olhar frio e meditativo, parecia procurar a melhor resposta.
-Kate, você já teve bastante tempo para perceber que eu e a Evellyn nunca fomos muito próximas. Ela tem seus amigos, e eu tenho os meus. Frequentamos ambientes diferentes, praticamente vivemos em mundos diferentes. Só o que nos une é o fato de sermos irmãs, é triste, e não pense que gosto disso. Disse ela, num tom triste, a situação entre as duas só piorou depois da morte de seus pais.
-Eu entendo... Parece que aquela história de irmãos gêmeos serem eternamente ligados e unidos não é tão verdadeira... Disse Kate, olhando para os lados, como se estivesse procurando uma solução.
-Sim, mas não deixa de ser verdade, apenas varia de um caso para o outro. Respondeu Ágata.
-Mas isso não quer dizer que não deva se divertir hoje! Não se sinta assim pelo dia de hoje, tem o direito de aproveitá-lo ao máximo! Disse Kate, tentando alegrá-la, esqueceu-se que geralmente esse era o papel de Ágata: fazer com que todo mundo se sinta bem.
-Talvez não seja uma boa ideia tia... Disse ela, mas foi interrompida novamente.
-Não, por favor não me chame de “tia”! Disse ela, aos risos. Kate odiava que a chamassem de tia, pois acreditava fazer parecer que era mais velha, meio impossível, pois nem havia completado trinta anos, ainda transmitia juventude.
-Desculpe Kate... Disse Ágata, sobressaindo ao dizer o nome da tia.
-Tudo bem, mas eu ficaria melhor se você seguisse o meu conselho. Vá, saia um pouco, fale com seus amigos, vai distrair-la, e vai se sentir melhor do que quando está em casa. Disse Kate, ainda não se dando por vencida. Ágata a olhou com os olhos semicerrados, Kate era uma ótima pessoa, e sempre fazia o que era melhor para ela e sua irmã. Não é que ela não queria se divertir, mas não se sentia muito bem, principalmente naquele dia. Mas acabou cedendo, como sempre fazia, só para vê-la feliz. Faria um esforço para se divertir hoje. Rapidamente lembrou-se de Anna e Sofia, eram amigas que ela sabia que sempre estariam disponíveis, para qualquer coisa.
-Tudo bem então Kate, vou chamar a Anna e a Sofia, talvez ir a pizzaria, me distrair um pouco, se é assim que deseja... Disse por fim, tentando demonstrar entusiasmo.
Kate suspirou, ainda não estava satisfeita, mas se deu por vencida, não conseguiria mais nada da sobrinha, e viu que já tinha meio caminho andado. O que a desapontava era o tom de submissão na voz de Ágata, como se devesse obedecer a todos.
-Tudo bem querida, eu queria que fizesse isso por você e não por mim, mas como sei que você é assim, não tentarei mudá-la. Tenho certeza de que irá se divertir, ou ao menos tentar. Disse ela, por fim abraçando-a. Ao abraçá-la, Ágata sentiu um conforto maternal que não sentia há anos, até aquele momento não enxergava Kate como uma mãe, e sim como uma amiga, talvez por ela ser tão jovial às vezes.
-Eu vou entrar agora, o sol está escaldante, preciso urgentemente de água. Disse Kate, dando-lhe um beijo na testa.
-Ok, eu já estou indo. Disse ela, sorrindo.
Kate afastou-se e deixou-a finalmente sozinha. Ágata tornou a contemplar a visão do oceano distante, meditando em silêncio. O vento havia desmanchado seu penteado, e as longas madeixas louras eram jogadas violentamente contra o seu rosto alvo, mas parecia não se importar. Ela não estava totalmente triste, nem totalmente feliz. Era uma sensação incômoda, que se tornara sua pior inimiga, sentia que sua vida estava incompleta, sem sentido. Como se não vivesse, mas assistisse a sua vida, e parecia que não iria mudar, seria sempre assim. Ela precisava de algo que ainda lhe era desconhecido, algo que um simples desabafo com um amigo não resolveria. Ela sentia um vazio, um lugar em sua vida que precisava ser urgentemente preenchido.
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