Entre Céu & Mar
3 Explosões de paixão
Notas iniciais
Não esqueçam de comentar, críticas e elogios são sempre bem vindos, pois procuro a cada capítulo melhorar..
Boa leitura!
Evellyn vestiu-se o mais rápido possível, pôs o único biquíni que ainda lhe servia, e por cima um short. Levou algum tempo para achar algo no meio de tanta bagunça, causando a impaciência de Madison, que ligava a cada cinco minutos.
-Já estou chegando... Repetia Evellyn pela décima vez. Era possível ouvir Alex bufando do outro lado da linha, ouvido colado ao celular de Madison. Evellyn sentiu-se realizada ao constatar que sua presença o incomodava.
-Então vem logo! Disse Madison, desligando o celular antes que Evellyn pudesse responder.
Seu quarto permanecia do jeito que ela deixara antes da viagem. A cama ainda estava desarrumada, e assim ficaria por enquanto. Potes vazios de tinta, pincéis, cadernos, CDs, roupas e pequenos artesanatos feitos por ela mesma, estavam espalhados por todo o canto. A parede continuava repleta de pôsteres e desenhos. Bem ao canto, uma Les Paul Gibson preta mofava durantes anos, como lembrança de uma época que ela preferia não esquecer.
Juntou todas as coisas de que iria precisar, sem esquecer seu inseparável caderno de desenho, pois nunca se sabe quando algo poderia lhe surpreender, e correu apressada em direção à porta.
Ao chegar à sala, pôde ver sua tia Kate, ao chão, organizando as fotos da viagem. Kate era uma ótima fotógrafa, amava sua antiga profissão, principalmente por viver viajando por todo o mundo. Mas abrira mão de sua maior paixão em compromisso as sobrinhas, e a empresa. Mesmo assim, seu talento nato não diminuíra na perfeição, e agora se limitava apenas para fotos caseiras, pois tinha outras obrigações a cumprir. Evellyn a fitava, olhando para as fotos, e com uma expressão um tanto melancólica, obrigando-a a pensar se a tia era infeliz presa a elas.
-Evellyn, aonde vai com tanta pressa? Disse Kate, levantando-se e espalhando várias fotos pelo chão.
-O que parece? Vou à praia! Disse Evellyn, fazendo referência aos trajes praianos que vestia. Kate a olhou de cima a baixo, constatando-se do óbvio.
-Claro que vai. Bom, divirta-se e, por favor, Eve, não exagere, você tem aula amanhã. Disse Kate, tentando ao máximo aparentar a mesma preocupação materna.
-Vou tentar. Disse Evellyn, sorrindo ao tentar ser divertida. Ágata estava ao lado de Kate, ajudando a organizar as fotos, com tamanha precisão que somente uma perfeccionista como ela poderia fazer. Olhava para a irmã, com o mesmo ar de preocupação, embora parecesse exatamente o contrário. Mesmo sem perceber, Ágata sempre lançava um ar de superioridade para a irmã, que era o que mais a irritava.
A campainha tocou no mesmo segundo que Evellyn abria a porta. Era Anna e Sofia que já chegavam, como previsto. Surpreenderam-se com a rapidez, e por ver novamente Evellyn, depois de um tempo. Ela estava diferente, até demais para elas. Assim como a maioria das pessoas da cidade, também a achavam um pouco perturbada. Em resposta as garotas, Evellyn forçou um sorriso irônico, limitando-se em não saudá-las nem com um “oi”, dirigindo-se apressadamente até o seu destino, que não ficava muito longe dali.
xxx
Ágata recebeu as amigas cordialmente, enquanto compartilhavam entre si muitos abraços. Ambas estavam radiantes, ainda mais alegres desde a última vez que se viram, e Ágata se perguntava de onde se originava toda aquela agitação. Não demorou muito para descobrir que toda aquela alegria provinha dos novos romances de suas amigas. Ágata não hesitava em gozar dos corações volúveis de Anna e Sofia, e muitas vezes tinha que mudar o assunto, pois só sabiam falar disso. Elas, pelo contrário, sentiam-se mal compreendidas, mas não levavam tão a sério, imaginando ser este o jeito de Ágata.
-Quando você se apaixonar, vai entender porque ficamos assim. Elas sempre diziam, e de tanto responder, Ágata já até havia decorado a resposta.
-Quando isto acontecer, espero que seja verdadeiro, e duradouro. Dizia, enfatizando ao dizer duradouro, algo que aparentemente era desconhecido por elas.
-Talvez esteja bem próximo de isso acontecer Ágata. Disse Anna, Seu olhar parecia estar escondendo algo.
-O que você quis dizer com isso Anna? Perguntou Ágata, sem entender muito bem o duplo sentido da frase.
-Nada demais! É só que, nunca se sabe quando o coração pode bater mais forte por alguém. Respondeu Anna, fazendo um pouco de mistério. Pelo ar da conversa, ela estava tramando algo.
XXX
Não muito longe dali, Evellyn já se encontrava na praia. A quantidade de pessoas naquela tarde era maior do que na maioria dos dias, como era de se esperar. No meio de tanta gente ela procurava em vão por Madison, tarefa essa quase impossível. As pessoas pareciam estar ainda mais agitadas, talvez proveniente da competição que por sinal já havia começado. O sol brilhava escaldante no meio daquela tórrida tarde, acompanhada de ventos muito fortes, sem uma nuvem no céu.
Enfim, logo após uma busca incessante, logo avistou novamente a amiga, não muito longe de onde se encontrava. Madison estava de pé, parecia estar de mal com todo o universo, enquanto tentava em vão fincar seu guarda-sol na areia branquinha, pois todas as vezes que enfim conseguia, o traiçoeiro vento desmanchava todo o seu trabalho. Vendo aquela cena cômica de uma Madison desastrada, era quase impossível para Evellyn não rir. Para seu azar Madison havia reconhecido a risada familiar, e a fitava com cara de poucos amigos, demonstrando graça alguma.
-Pensei que não vinha mais! Onde você se meteu, hein? Disse Madison, batendo o pé na areia, um tanto raivosa.
-Estava te procurando! Respondeu Evellyn, sem parar de rir, aumentando ainda mais a sua irritação.
-Acho que precisa de uma ajuda aí! Disse Evellyn, gozando-a. Madison era uma pilha de nervos. –Onde está o Alex afinal? Bem que ele poderia lhe ajudar... Disse Evellyn, sem reprimir a risada ao ver que Madison conseguira o feitio de ficar presa dentro do guarda-sol. A sugestão de Evellyn, aparentemente inocente foi o suficiente para acender a ira de Madison.
-Onde ele está? Bem ali, com os amigos! Mas não! Ele não pode vir aqui me ajudar, porque está ocupado demais comparando o tamanho dos biquínis! Madison estava tão enfurecida que nem havia percebido que berrava sem parar, de modo que Alex e seus amigos puderam ouvir seu desabafo na hora errada, e cerca de um segundo depois Alex já se aproximava, expressão fechada como se tivesse levado um soco. Prevendo a discussão que estava prestes a acontecer, Evellyn optou por se afastar, desapontada. Ainda podia ouvir Madison a chamar de volta, mas a ignorava. Não importa o que tentassem fazer, nada mais era como antes.
XXX
A maioria das pessoas agora estava bem mais à frente, perto do mar, a fim de acompanhar melhor a competição. Torciam agitados, todos tinham o seu favorito. Um animador, em especial, narrada toda a competição.
Imaginando o calor que deveria estar fazendo no meio de toda aquela aglomeração, Evellyn preferiu ficar num canto mais afastado, posicionando-se onde poderia acompanhar a competição perfeitamente. As únicas pessoas à sua volta agora eram algumas crianças e suas mães, preocupadas demais para desgrudar de seus filhos.
Todos os surfistas eram igualmente bons, embora seja claro que alguns não conseguissem ir até o final, levando um caldo, e outros se saíssem melhor que os demais. Mas um, em especial, destacou-se entre os outros, chamando a atenção de Evellyn.
Era o último a competir, como anunciavam, e sem sombra de dúvida iria ganhar. Não havia prestado atenção quando anunciavam seu nome, mas isto pouco importava; Evellyn não conseguia tirar os olhos de suas manobras. Eram, em poucas palavras, simplesmente maravilhosas, ele deixava bem à mostra que amava o surfe, que realmente gostava de estar em contato com toda aquela adrenalina, fazendo parecer uma brincadeira, tamanha era a sua facilidade e seu equilíbrio. Acabava de completar um tubo, feito perfeitamente. Aquela era o tipo de cena que Evellyn adorava capturar. Sem hesitar, roubou o binóculo de um garotinho bem ao seu lado, para ter uma visão mais privilegiada.
Observando-o o mais detalhadamente, percebeu alguns detalhes anteriormente despercebidos, como sua bela feição, que não poderia ser ignorada. Tendo tudo que precisava, devolveu o binóculo ao garotinho que berrava sem parar, e rapidamente tirou de sua bolsa seu inseparável caderno, e pôs-se a desenhá-lo. Evellyn era uma ótima desenhista, tão ótima quanto sua tia Kate com fotos. Em um pequeno espaço de tempo, desenhava com toda a rapidez, sem deixar um detalhe de fora, com tamanha precisão que só poderia vir de alguém com talento nato para a arte. Desenhar era sua maior paixão, até aquele momento.
Hank Collins. Era esse o seu nome, que fora anunciado com bastante ênfase ao final da competição, fechando-a com chave de ouro. A essa altura, o desenho estava quase pronto, mesmo em tão pouco tempo, e já era o favorito de Evellyn. Como era esperado, Hank foi o destaque do dia, e estava cercado pelos amigos. Ela corria os olhos entre todos, à procura de Hank. Precisava de mais detalhes que só conseguiria se o observasse de perto.
Enquanto continuava a sua busca, Evellyn foi surpreendida por Madison, chegando de repente. Ao contrário do que estava antes, agora ria sem parar, falando pelos cotovelos e estava encharcada.
-E aí? Gostou de ter vindo? Disse Madison, sem parar de rir.
-Com certeza... Disse Evellyn. –Posso saber o porquê de tantos risos? Perguntou, estranhando o comportamento exagerado de Madison.
-Só estou alegre! Por que, agora é proibido? Disse Madison, em defesa. Ela não conseguia ficar um minuto sem falar, e nada do que ela dizia fazia sentido na cabeça de Evellyn. Sua voz ficava cada vez mais distante, pois toda a concentração de Evellyn estava voltada novamente a ele.
Seu coração acelerou de repente, sem razão convincente alguma, pelo menos assim ela pensava. Por um momento tudo ao seu redor parecia não importar, e ela estava tentada a olhar somente para a sua direção. Ele era sem dúvida, de uma beleza encantadora. Seus cabelos eram de um dourado escurecido, e caíam sobre o rosto molhado. A pele era bronzeada pelo sol, como era de se esperar de um surfista, e possuía duas tatuagens em ambos os braços, cujo desenho não foi capaz de identificar à distância. Seu rosto parecia estar paralisado naquele sorriso extrovertido que lançava para cada pessoa que se aproximava, a fim de cumprimentá-lo, e logo se distanciavam, e ele sempre acabava sozinho.
Por alguns instantes, Evellyn hesitou em ir até lá, se apresentar e o elogiar, como muitos fizeram, mas logo tirou essa ideia de cogitação. Na certa iria se atrapalhar, e logo lembrou de que nunca mantinha contato com as pessoas que desenhava, nem mesmo se elas percebessem que estavam sendo desenhadas. Porém, nunca havia se sentido assim em relação a qualquer outra pessoa que desenhara.
Enquanto isso Madison prosseguia em seu discurso sem lógica por alguns minutos a mais, até perceber que estava sendo completamente ignorada.
-Eve! Por Deus! Você não ouviu nada do que eu disse, não é?
Disse Madison, trazendo Evellyn de volta a realidade, esta que, no entanto dava ao seu desenho os últimos detalhes, permanecendo calada.
-Beleza! Sou trocada por um caderno estúpido! Disse Madison, bufando desapontada.
-Afinal de contas, o que você tanto rabisca aí? Disse Madison, sem hesitar, arrancando-lhe o caderno de surpresa.
-Madison!Não! Reagiu Evellyn, na tentativa sem sucesso de recuperar seu desenho. Madison ficou por um tempo analisando a pequena folha de papel, até dar-se por conta de que, ou melhor, de quem se tratava o desenho em suas mãos. Tão surpresa quanto Evellyn, Madison anunciou em voz alta, sem conter os risos:
-Oh meu Deus! É o Hank! Gritou ela, tão alto que a praia toda poderia ter escutado. Evellyn a encarou, totalmente desconcertada, e em questão de segundos o nervosismo tomou conta de seu corpo. Tornou a olhá-lo, na esperança de que não tivesse escutado o grito de Madison, ou se ao menos não ligasse, caso tivesse ouvido. Mas, para o seu azar, ele corria os olhos atrás de quem havia pronunciado seu nome em voz alta, contemplando todos os lados, até seus olhos e os de Evellyn se encontrarem pela primeira vez.
Por trás daquela franja, escondiam-se seus lindos olhos verdes, agora vidrados com os de Evellyn. E assim permaneceram por um longo tempo, até caírem totalmente em si. Hank lançou-lhe um sorriso que fora rapidamente correspondido por ela, voltando à conversa anterior com o amigo ao seu lado. Enquanto isso, Madison ria como uma hiena, quase perdendo o fôlego, quebrando o encanto que Evellyn permanecia.
-O que é que deu em você?! Soltou Evellyn, dando um fim a risada de Madison, que doía os ouvidos.
-“O que é que deu em você?!” E ainda me pergunta? Ai Eve, você devia ter visto a sua cara enquanto olhava para ele! Disse Madison, sem parar de rir, enquanto a imitava, um tanto exagerada. Evellyn deu-lhe um tabefe nas costas, contendo a risada.
-Eu devia te lançar aos tubarões sabia? Disse Evellyn.
-Veja pelo lado bom, pelo menos agora ele sabe que você existe. Disse Madison, numa tentativa frustrada de animá-la.
-Ah sim... Que ótimo... Acho que deveria te agradecer por isso. Disse Evellyn, exagerando no tom triste.
-Pois deveria mesmo, veja quem se aproxima...! Disse Madison, apontando mais uma vez para Hank. Ele cochichava ao ouvido do amigo, e apontava para Evellyn, sorrindo. E lentamente, chegava mais perto. Mais uma vez Evellyn sentiu seu rosto enrubescer, e pela primeira vez desviou o olhar de Hank, tomada pela vergonha, dessa vez notando que o amigo ao seu lado não era ninguém mais ninguém menos que Alex.
-Esse mundo é pequeno demais... Murmurou Evellyn, um tanto desapontada.
Madison levantou-se num salto, sorrindo exageradamente e acenando sem parar, ao mesmo tempo olhando para Evellyn de forma gozada. Por um momento pensou que fosse Alex que se aproximava, mas logo reconheceu sua silhueta que ela jurava que reconheceria em qualquer lugar. A proximidade fez Evellyn corar, e às vezes ela se odiava por corar tão facilmente. Podia sentir Hank a fuzilar com os olhos, mas para seu azar, ela não conseguia retribuir o olhar.
-Olá Hank. Disse Madison, um tanto formal até demais.
-Oi... Hã... Disse ele finalmente, esforçando-se para lembrar seu nome.
-Madison. Corrigiu ela.
-Ah é! É esse mesmo! Acho que me lembro de você...
-Eu sou a namorada do Alex! Disse Madison, mostrando certo orgulho que chegava a ser irritante. Hank a olhou, curioso, e depois soltou algo que parecia o princípio de uma risada.
-Azar o seu. Disse ele, irônico. Madison calou-se e tornou-se séria. Evellyn não pode reprimir o riso, contente ao saber que não era a única a ter uma opinião negativa sobre Alex. “Cuidado com ela Hank, mexeu com o seu ponto fraco.” Pensou. Tão de repente Madison se recuperou e pôs de volta o sorriso de sempre, agora lançando aos dois. Era óbvio que já havia percebido que estava sobrando ali.
-Bem... Alex está me chamando. Vou deixá-los a sós, tenho certeza de que vão se dar muito bem. Disse ela, indo em direção a Alex, aos pulos.
O coração de Evellyn batia tão forte que ela se perguntava se Hank poderia ouvi-lo, pois afinal, só estavam a alguns centímetros de distância um do outro. Sem a presença extrovertida de Madison entre eles, um silêncio desconfortável reinou por alguns segundos. Antes que ela pudesse pensar em dizer algo, Hank tomou a iniciativa, sentando-se bem ao seu lado.
-Oi! Muito prazer! Sou o Hank! Deve ser a Evellyn não é?
-Sou sim. Muito prazer Hank! Disse ela, estendendo a mão para cumprimentá-lo, ato este em vão, pois não mais que de repente, enlaçou num abraço forte e inesperado. Sua reação normal seria se esquivar, afastando-se, mas não o fez. Pelo contrário, retribuiu ao abraço. Não era de sua atitude ter níveis carinhosos desse tipo com alguém que acabara de conhecer, mas Hank era diferente. Ele conseguia fazê-la se sentir constrangida e confortável ao mesmo tempo.
-Ouvi falar bastante sobre você. Disse ele, separando-se do abraço. Evellyn logo se lembrou da certa “fama” que ela e a irmã adquiriram na cidade ao passar dos anos.
-Imagino que sim. Disse ela, um tanto melancólica. –Mas, como sabe o meu nome? Perguntou ela, curiosa.
-Alex me disse... Um pouco depois do grito de Madison. Disse, apontando para Alex. Evellyn deixou transparecer a vergonha que sentira desde o episódio anterior. Um dia acertaria as contas com Madison.
-Não que eu seja fofoqueiro, longe disso, mas Alex disse coisas nada agradáveis a seu respeito. Disse Hank, diminuindo o tom de voz, aproximando a um sussurro. Evellyn podia imaginar as palavras impublicáveis que Alex usou para descrevê-la.
-Era de se esperar, sabe não nos damos muito bem. Mas, e você? Acredita no que ele pensa? Perguntou ela, demonstrando curiosidade até demais.
-Alex é um idiota. Posso ter certeza ainda mais agora. Ele não pode me enganar contando uma mentira, se vejo em você algo completamente diferente. Respondeu ele, tão de imediato que só poderia ter certeza absoluta do que acabara de afirmar. Evellyn não lhe negou um sorriso, pois pela primeira vez a olhavam com um olhar positivo.
-E o que você vê em mim? Perguntou ela, tão curiosa quanto antes. Hank a fitava pensativo, como se buscasse a resposta em seus olhos.
-Você tem algo de especial. Disse ele, enfim. –Ainda não consigo saber o que, mais adoraria descobrir mais.
Evellyn se impressionava cada vez mais, e todas as vezes que ele lhe dirigia a palavra, arrancava-lhe um sorriso, muito mais do que qualquer pessoa em sua vida havia conseguido.
***
Passaram o resto do dia juntos, enquanto aproveitavam tudo que a praia poderia os oferecer. Nesse meio espaço de tempo foram se conhecendo cada vez mais. Evellyn sentia uma alegria especial ao lado de Hank, algum tempo depois ela descobriria que aquela era mais uma de suas habilidades. O que o tornava tão especial era que ele parecia não ligar para o seu passado. Era como se ao lado dele ela fosse realmente a Evellyn, e não a gêmea órfã, que todos olhavam com pena. Era óbvio que Hank conhecia a história, mas optou por não tocar no assunto, já prevendo a reação de Evellyn. E isso pouco importava agora, portanto, ambos fingiam que aquilo nunca havia acontecido.
***
É incrível como o tempo passa tão rápido quando estamos fazendo algo que nos alegre, como se o tempo sentisse inveja da alegria. Nem haviam percebido o desenrolar da tarde, o sol já se fora, e o céu tingira-se num tom azul escuro, e as primeiras estrelas começavam a aparecer. Embora a noite que já surgia, a praia continuava lotada, agora toda montada para uma festa.
-Então... Parece que a festa vai rolar mesmo... Disse Hank, olhando ao redor. Evellyn assentiu.
-Você vai ficar não é? Perguntou ele. Antes que Evellyn pudesse ter a chance de responder, são surpreendidos por Madison e Alex.
-Procuramos vocês por toda a praia! Onde se meteram? Disse Madison, lançando um olhar malicioso para Evellyn e depois para Hank.
-Por aí. Respondeu Hank, deixando bem a mostra que não estava disposto a continuar a conversa.
-Bem, tanto faz. Estamos fazendo um convite, logo depois da festa vamos nos reunir para “comemorar” de verdade, me entende não é Hank? Relaxa, é tudo por minha conta dessa vez... Disse Alex. Hank o olhou estranho, pois não esperava tanta simpatia vinda de Alex. Então olhou de volta para Evellyn, lembrou da conversa que tiveram alguns momentos atrás, e sobre o que ambos achavam sobre Alex. Ele sabia que, mesmo sendo amiga de Madison, sem sombra de dúvida ela não estaria incluída no grupo. Então, naquele momento acompanhar Alex parecia ser a coisa mais errada a se fazer, e logo tirou de cogitação.
-Desculpa Alex, dessa vez eu não vou, mas, divirtam-se. Respondeu ele, enquanto enlaçava Evellyn pelo braço esquerdo. Sua atitude tomou Evellyn de surpresa, fazendo-a sentir especial por estar em primeiro lugar. Alex estava ainda mais surpreso.
-Tudo bem então... Se assim que você quer... Vamos Madison. Disse Alex, um tanto decepcionado.
-Vamos. Disse Madison, enquanto seguia Alex, resmungando algo sobre como Evellyn tinha sorte por não acompanhá-los.
XXX
A festa já havia começado, e as pessoas dançavam todas em sincronia com a música alta. Aquela altura, Madison e Alex já haviam sumido, e não havia ninguém para incomodá-los agora. Como de costume, Hank arriscava passes mais “ousados” de dança, a fim de impressioná-la. Evellyn fingiu estar encantada, e soltou uma risada sarcástica, fitando-o sugerindo um desafio. Logo se pôs a dançar, tão bem quanto ele, ou talvez até melhor, seus passos era alucinantes. Hank a observava, surpreso, como sempre ficava ao descobrir algo ao seu respeito.
-Quem diria hein, até que você é bem soltinha... Disse Hank, impressionado, vislumbrando-a como se fosse uma obra de arte. Evellyn lançou-lhe um olhar malicioso.
-Você ainda não viu nada... Respondeu.
Alguns minutos se passaram, enquanto dançavam sem parar.
-Minha garganta está seca! Está com sede? Perguntou Hank, depois de uma longa sequencia de passos.
-Estou morrendo de sede. Disse Evellyn, ofegante.
-Imaginei que sim, então vamos lá. Disse Hank, puxando-a, dirigindo-se até as bebidas.
-O que você vai querer? Perguntou ele, parecendo um garçom.
-Me traga um desses coquetéis. Respondeu ela.
-Ok então... Disse ele. Evellyn manteve-se distante enquanto Hank comprava as bebidas, este não tardou em voltar, compartilhando as bebidas. Sem perder tempo, Evellyn pegou seu primeiro coquetel da noite, bebericando com um longo gole, enquanto o forte sabor do álcool tomava conta de sua boca.
-Eve... Vai com calma, essa coisa aí é meio forte! Disse Hank, gozando a careta que Evellyn fez ao beber.
-Eu sei que é Hank e eu ficaria feliz se parasse de me controlar tanto! Disse ela. Hank soltou uma sonora gargalhada.
-Eu? Controlando você? Não brinca! Disse ele, sem parar de rir.
-Anda, vamos sair daqui. Disse ela, puxando-o de volta para dançar.
xxx
A festa estava no auge, embora não parecesse. A música continuava agitando, tornando quase impossível parar de dançar. Todos estavam suados e exaustos, abusando de energéticos para vencer o cansaço. Evellyn se soltava mais a cada copo que tomava. A mesma coisa com Hank, embora que ele tivesse muito mais controle que Evellyn. Dançavam em perfeita sincronia, embora que suas mentes estivessem completamente confusas. A essa altura Evellyn já havia esquecido todos os seus problemas, e sua única preocupação agora era se divertir. Hank, pelo contrário, parecia totalmente concentrado em Evellyn. A cada minuto que passavam juntos ele se sentia cada vez mais atraído por ela.
Algumas horas se passaram, e a festa já chegava ao fim. E como em todas as festas, sempre tinham aqueles que no fim não se aguentavam em pé. Evellyn não poderia estar diferente, a essa altura estava completamente fora de si. Por sorte, Hank havia se controlado, embora não conseguisse parar de rir com a situação em que Evellyn se encontrava. A explosão de fogos aconteceria dentro de alguns instantes, e todos estavam amontoados, de tal maneira que era quase impossível se mover. Evellyn via tudo rodar em sua cabeça, e sentia que não agüentaria mais um minuto em pé.
-Eve? Eve? Você está bem? Perguntou Hank, segurando-a para não despencar não chão.
-É claro que não está. Disse ele, levando para bem longe da multidão. Enquanto Evellyn repetia incessantemente que estava bem. Hank a arrastou até as rochas, onde as ondas batiam violentamente, e era possível contemplar o espetáculo das explosões.
-Eve, é melhor você ficar aqui, sentada um pouco, até se sentir melhor... Disse Hank, com a absoluta certeza de que Evellyn não iria se recuperar tão facilmente. Posicionou-a na maior rocha, enquanto ela tentava em vão manter o equilíbrio. Menos de um segundo depois, seu corpo curvou-se, ameaçando desmaiar. Rapidamente Hank a segurou firme pela cintura, impedindo que se esborrachasse no meio de todas aquelas pedras. Levantou seu rosto para se certificar de que Evellyn continuava consciente.
Eve! Você está me ouvindo?Eve! Por favor, responde! Disse Hank, olhando bem para os seus olhos. Evellyn parecia estar totalmente dopada, fazendo Hank se perguntar o que haviam misturado em sua bebida, ou se ela não era acostumada a fazer isso. A ideia de que poderia ter a feito passar mal lhe revirou o estômago. Enquanto isso, na confusa mente de Evellyn só havia espaço para uma coisa, a voz de Hank parecia-lhe distante, enquanto ela se perdia em seus olhos verdes, tão preocupados. Naquele momento as explosões se intensificaram, tingindo o céu de vermelho, e iluminando os seus rostos. Seus rostos estavam bem próximos, quase colados, o coração batia no mesmo ritmo acelerado, enquanto compartilhavam um olhar apaixonado, tão hipnotizados que nem sequer perceberam quando seus lábios rompiam os poucos centímetros de distância, selando aquele momento com um beijo.
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