Duas semanas após o dia em que João e Daniel tiveram aquela conversa, o mais velho entrou em contato com o amigo para enviar o primeiro esboço do projeto. Teodoro sentou com Chang e Francisco para analisá-lo e depois de muita conversa, solicitou algumas alterações em relação ao centro de treinamento. No projeto inicial, haveria uma única pista e os obstáculos seriam colocados de acordo com a necessidade do dia. Entretanto, Francisco achou melhor que as aulas de salto fossem feitas em uma pista separada, de modo que a filha pudesse treinar quando viesse pra casa. Sendo assim, o projeto retornou para as mãos do arquiteto e as alterações foram feitas.

Nos meses seguintes, enquanto os trâmites para liberação da reforma no Recanto das Orquídeas seguiam na prefeitura de Barra do Piraí, as obras do Residencial Jasmine chegaram ao fim. Como previsto, os apartamentos foram entregues dentro do prazo e mais uma vez a Dantas Engenharia foi elogiada por sua excelência e rapidez. Com o fim deste trabalho e prevendo que o próximo não seria tão fácil, João e Narcisa chegaram à conclusão de que Daniel precisava de uns dias de descanso.

Estavam os dois no Boteco Belmonte, na Gávea, tomando uma cerveja depois do expediente, quando Narcisa teve esse pensamento.

—Ei, amor, você não acha que o Daniel precisa de férias? — questionou, de repente.

—Por que tá dizendo isso?

—Desde que o nosso filho se formou, há cinco anos, ele vem trabalhando sem parar. No início eu até entendia, já que ele era recém formado e queria aprender tudo com o seu Sílvio, o engenheiro mais antigo da construtora. Agora eu não vejo por que ele se matar de trabalhar e não tirar férias, sendo que é direito dele.

—Concordo contigo. Só que infelizmente agora não é o momento certo pra isso.

—E eu posso saber o motivo?

—A prefeitura já deu o alvará de reforma e eu avisei ao Teodoro que a equipe chegaria em, no máximo, um mês. Daniel tem muito a decidir ainda antes de ir com o pessoal pra Ipiabas.

—Você podia pegar essas coisas pra resolver e deixar o nosso filho descansar. Até a gente tirou férias no ano passado e ele nada.

—Eu não sei. Na verdade, já que você tocou no assunto "Ipiabas", será que é realmente uma boa ideia ele ir pra lá? Tava tão empolgado em ajudar o Teodoro que nem pensei no quanto poderia ser difícil pro Daniel voltar a essa cidade. — disse, preocupado.

—Por que tá dizendo isso? — perguntou.

—Já parou pra pensar que desde que tudo aconteceu ele nunca mais voltou lá? Essa vai ser a primeira vez e eu não sei como ele vai reagir. Tenho medo de estar forçando uma situação que só vai machucar o Dan e isso é tudo que eu não quero. Ele já sofreu demais, não precisa passar por isso de novo.

—Pra ser bem honesta, esse assunto não sai da minha cabeça nos últimos meses. Desde que você falou com o Teodoro, a reação do Daniel é o que mais tá me tirando o sono. Já pensei, pensei, pensei e cheguei à conclusão de que nós não temos como saber como vai ser. Nosso filho é muito fechado, não se abre por nada nesse mundo. A única pessoa em quem ele realmente confia é a Cecília, mas eu não sei se ela vai querer nos contar alguma coisa. — disse, apreensiva.

—Vou tentar falar com ela mais tarde. Dependendo de como for a conversa, digo a ele que eu vou pra Ipiabas e ele fica com o projeto da reforma do Shopping Pirata's em Angra.

—Ok, e sobre as férias?

—Eu não sei se consigo um mês de férias, mas vou fazer de tudo pra que ele fique pelo menos uma semana em casa. — disse, após algum tempo. — Daniel trabalhou tanto no Residencial Jasmine, se dedicou tanto, que merece um descanso. O negócio vai ser ele aceitar ficar parado durante cinco dias tendo tanta coisa pra resolver.

—Quanto a isso, não se preocupe. Meu poder de convencimento é muito alto.

—Até parece que eu não sei. — os dois riram, enquanto a porção de bolinho de aipim com camarão e catupiry era servida.

Naquela mesma noite, João ligou para a sobrinha, filha de sua irmã mais nova, e perguntou sobre o filho. Imaginava que seria uma conversa produtiva e que conseguiria entender um pouco mais o que se passava na cabeça dele. Para sua decepção, Cecília não soube dizer a ele como Daniel encarava esse retorno à cidade que marcara sua vida. Entretanto, prometeu ajudar e assim que tivesse uma resposta, entraria em contato.

No dia seguinte, de volta ao escritório da construtora depois de ter passado o dia anterior resolvendo alguns assuntos pendentes ao seu próximo trabalho, Daniel foi informado de que estaria de férias na próxima semana. É claro que não concordou de imediato, visto que tinha muito material a ser comprado e alguns fornecedores estavam irredutíveis quanto ao preço cobrado. Mesmo com João insistindo que resolveria tudo, ele não aceitou.

Pra não causar atrito entre pai e filho, Narcisa sugeriu que o mais novo adiantasse tudo o que pudesse nas próximas semanas e o que ficasse pra última semana do mês, o marido se encarregaria de comprar. Diante do argumento da mãe, mas com o pé atrás por deixar trabalho nas costas do pai, Daniel não teve escolha. Vinha num ritmo de trabalho muito acelerado e sentia que precisava mesmo recarregar as baterias, tomar um gás pro trabalho que se iniciaria em breve.

Durante duas semanas, a família trabalhou com afinco para fechar o mês sem nenhuma pendência. Aos finais de semana, aproveitaram para ficar um tempo juntos. Em um fim de semana foram ao Cristo Redentor e ao Museu do Amanhã, onde se encantaram com a exposição principal. A forma como foi tratado o tema da sustentabilidade e a maneira com que estamos cuidando do meio ambiente os levou a questionar e repensar seu modo de trabalho.

No fim de semana seguinte, acordaram cedo e se dirigiram à Pedra Bonita. João contratou um guia para auxiliá-los a fazer a trilha e depois de cerca de uma hora, chegaram ao topo. O dia estava relativamente quente, o sol deu as caras, mas bem pouco, então a caminhada foi tranquila. Passaram um tempo no ponto mais alto da pedra, observando a belíssima vista que tinham da Pedra da Gávea, do Morro Dois Irmãos, Floresta da Tijuca e praia de São Conrado, além de outras praias da região. Na volta, pararam na rampa de voo livre, onde tinham agendado um voo de asa delta. Narcisa morria de medo de altura, mas foi tão incentivada pelo marido e pelo filho, que decidiu arriscar e no final do passeio carregava um sorriso no rosto. A sensação de dever cumprido, de ter vencido mais um medo era tão grande que ela teve a certeza de que esse era um dos dias mais felizes de sua vida.

Na segunda-feira da última semana do mês, conforme combinado, Daniel não foi à construtora. Aproveitou que teria a semana de folga e foi pra Cabo Frio, seu verdadeiro refúgio. Não queria ficar longe dos pais, mas precisava de um tempo sozinho, pra se preparar para o retorno a Ipiabas. Por mais que não quisesse demonstrar, no fundo sabia o quanto estava mexido com isso. Voltar à cidade onde tudo aconteceu era como enfiar as mãos em um buraco cheio de cobras venenosas. Era certo que sairia machucado, mas não tinha noção da proporção que tomaria esse machucado.

Nos dias que se seguiram, o engenheiro procurou ocupar a cabeça com outras coisas, a fim de evitar pensar no que o aguardava. De manhã corria pelo calçadão da praia do Forte, depois dava um mergulho e voltava para o apartamento dos pais. Na hora do almoço, escolhia um restaurante aleatoriamente e ia a alguma sorveteria na orla. À noite, gostava de assistir aos noticiários e saía pra comer em algum fast food. Sabia que talvez ganhasse alguns quilinhos durante essa semana de descanso, mas não se importava. Também aproveitou a folga pra ir até Arraial do Cabo, mais especificamente na praia Grande. Como o próprio nome diz, a praia tem 40 km de extensão e é bem propícia ao surf, devido ao mar agitado. Passava horas e horas surfando e retornava a Cabo Frio. Dessa forma, a semana passou e ele voltou pra casa.

No sábado anterior à sua ida, Daniel recebeu uma visita inesperada. Sua prima Cecília, que ele não via há algum tempo, chegou de repente com o marido, trazendo pizzas e dizendo que tinham uma novidade pra contar. Enquanto ela e Narcisa iam até a cozinha colocar as pizzas no forno, os rapazes conversavam na sala, assistindo a uma partida do campeonato brasileiro. Quando as pizzas assaram e os cinco se reuniram em volta da mesa de jantar, Cecília pediu a atenção de todos.

—Bem, meus amores, vocês sabem que nós não viemos aqui à toa, né? — disse, sorrindo.

—Não? Achei que essa visita era só pra matar a saudade. — Narcisa disse, estranhando.

—Não, tia. Eu e o George temos uma novidade pra contar.

—Novidade? Não vai me dizer que...

—Sim, nós vamos ter um bebê!!! — afirmou, segurando firme a mão do marido, que a olhou sorrindo.

—Eu não acredito!!! Isso é sério?

—É sim, tia. Descobrimos durante a semana, mas como o Dan tava viajando, achamos melhor deixar pra contar hoje.

—Que boa notícia! Fico muito feliz por vocês!

—Eu também, meus queridos. Que venha com saúde e traga muitas alegrias pra nossa família. — foi a vez de João se pronunciar.

—Obrigada, tio. — George agradeceu.

—Parabéns, primos! Tenho certeza de que vocês serão excelentes pais pra essa criança. — Daniel disse, realmente feliz pela gravidez da prima.

—E nós temos certeza de que você vai ser um ótimo padrinho do nosso bebê. Isso se você concordar, é claro. —Cecília falou, emocionada. Ela e George conversaram e decidiram que não havia pessoa melhor pra cuidar do filho ou filha deles que não Daniel, caso faltassem um dia.

—É claro que eu aceito! Meu Deus, que honra! Juro que vou tentar ser o melhor padrinho do mundo pro neném de vocês.

—Nós sabemos disso, cara. É por isso que te escolhemos. — George disse, e Daniel levantou para abraçar o casal.

Depois que a novidade foi contada e o convite feito, os cinco puderam saborear as pizzas enquanto conversavam. É claro que o assunto predominante foi a gravidez de Cecília e eles até fizeram uma aposta sobre o sexo do bebê. Mais tarde, enquanto João, Narcisa e George jogavam uma partida de Buraco, Daniel foi até o quarto com Cecília, com a intenção de dar a ela um presente que trouxe de Búzios. Os dois se sentaram na cama do mais velho e ele entregou a ela um embrulho pesado. O mesmo continha uma estátua de São Francisco de Assis junto com os animais, feita em cerâmica. A garota adorou o presente e agradeceu ao primo por ter lembrado dela com tanto carinho.

— Não foi nada, prima. Passei em frente a uma loja de artigos religiosos e essa estátua tava lá. Na mesma hora eu pensei que você ia gostar e decidi trazer. Sei que você é devota dele, vai proteger você e a sua família.

—Muito obrigada mesmo, Dan. E como você tá? — perguntou, como quem não quer nada.

—Bem. Por que a pergunta? — se fez de desentendido.

—Não sei, achei você meio quieto desde que voltou de Cabo Frio.

—Mas eu voltei ontem e você só me viu hoje. Como pode saber que tem algo errado comigo?

—Pelo seu tom de voz e pelo seu silêncio. Você pensa que não, mas eu te conheço como a palma da minha mão e sei quando tem algo te incomodando. O que tá acontecendo? É a sua ida pra Ipiabas que tá te tirando o sono?

—Não consigo te esconder nada mesmo, né? — perguntou, respirando fundo.

—De jeito nenhum.

—Você tá certa. Até um tempo atrás eu tava muito bem com essa situação, com esse retorno, mas de uns dias pra cá, confesso que tô com muito medo. — disse, angustiado.

—Medo de que? — perguntou.

—De encarar o passado e tudo que ele traz.

—Se você tem tanto medo de voltar, então por que aceitou esse trabalho, Dan? Tu não é o único engenheiro civil na Dantas Engenharia e essa não é a única obra a começar nos próximos meses. Se você sabe o peso que essa cidade carrega, por que concordou em supervisionar essa obra?

—Não sei. Meu pai tava tão empolgado em ajudar o tio Teodoro que não tive como dizer não.

—Mesmo sabendo que isso podia te ferir?

—Pode parecer meio idiota, mas sim. Até semana passada eu tava muito bem. Lotado de trabalho, com um monte de problemas pra resolver, cheio de pendências com fornecedor, essas coisas. Só que essa semana que eu passei lá em Cabo Frio sozinho me fez pensar no que significava essa minha volta a Ipiabas. E aí a ficha caiu, sabe? De que agora eu não tenho mais como fugir, que agora é a hora do meu acerto de contas com o passado.

—Pois eu acho que tu tá com medo à toa.

—Por que?

—Você mesmo disse que é hora de acertar as contas com o passado. Tá aí a resposta, cara. Essa é a oportunidade que tu precisava pra superar o teu trauma e seguir em frente. No fundo, bem no fundo, você sabe que enquanto não reviver essa história e deixar pra trás todo o sofrimento que ela te causa, não vai conseguir se libertar e seguir com a tua vida.

—Do jeito que você fala, até parece fácil. — reclamou.

—Não é, Dan. Eu sei exatamente o que você passou porque o tio João e a tia Narcisa contaram o que aconteceu e eu acompanhei o teu sofrimento desde o início. Só que eu também não posso deixar de pensar que vai ser bom pra você finalmente tomar as rédeas da tua vida. Às vezes é preciso dar dois passos pra trás e pegar impulso pra ir muito mais longe. É assim que eu vejo o seu retorno a Ipiabas. Tenta encarar como um desafio que vai te levar onde você nem imagina.

—Mas e se eu me sentir mal? Se eu me ferir no meio do caminho? — perguntou, receoso.

—Machucados fazem parte da vida, meu querido. São eles que nos ajudam a ser pessoas melhores.

—Você tem toda a razão.

—Claro que eu tenho. Quem sabe você não arruma uma namorada por lá? — perguntou, cutucando o primo na barriga e sorrindo, com a intenção de mudar um pouco o foco da conversa.

—Ai Ceci, fala sério. Você sabe que eu não sou bom nessas coisas.

—Mas é lindo, inteligente e tem um sorriso encantador. Só sendo muito trouxa pra não perceber o cara incrível que você é.

—Você é suspeita pra falar, é minha prima irmã e vai puxar a sardinha pro meu lado sempre. — pela primeira vez na noite, Daniel riu verdadeiramente.

—Até parece. Se tu fosse feio, o máximo que eu te chamaria é de bonitinho. Isso sendo muito legal.

—Nossa, muito obrigado pela consideração.

—Vai dar tudo certo, primo. Não sofre antes do tempo. Às vezes você tá achando que esse retorno vai ser uma bosta, e no fim das contas pode trazer coisas muito boas pra sua vida.

—Você tá certa mais uma vez. Obrigada por tudo, Ceci. Não sei o que seria de mim sem você. — os dois se abraçaram longamente e Daniel finalmente se sentiu em paz com tudo o que tava acontecendo. Como não tinham nada pra fazer, decidiram se juntar aos três na sala e iniciaram uma nova partida de Buraco. Dessa forma, o sábado passou.

No domingo de manhã, Daniel arrumou a mala com tudo que precisaria durante a semana e se preparou psicologicamente para a viagem. Teria que sair da cidade do Rio de Janeiro depois do almoço — a van que levaria os funcionários da construtora à cidadezinha sairia por volta de 15:00 e passaria em vários bairros para pegar os funcionários ao longo do caminho. Daniel ia no furgão branco levando os equipamentos e ferramentas de trabalho. Como precisavam receber o material comprado previamente e organizá-lo no galpão, o engenheiro achou melhor partirem no domingo à tarde e se acomodarem com calma na casa alugada para o tempo em que durasse a obra. Com isso, ganhariam em tempo e produtividade, já que os funcionários não precisariam acordar de madrugada e também não perderiam tempo arrumando suas coisas na casa.

A chegada a Ipiabas foi tranquila. Chegaram à cidade por volta de 18:30 e foram direto para a casa que a secretária de João alugou para eles. O imóvel de dois quartos, um banheiro, sala, cozinha e uma pequena área de serviço ficava próximo à fazenda e possuía em cada quarto duas beliches, para acomodar os oito membros da equipe, incluindo Daniel. Mais tarde, depois de acomodados, foram a uma pensão e jantaram.

Na segunda-feira, conforme previsto, acordaram por volta de 06:00, tomaram café e se dirigiram ao hotel fazenda, onde foram recebidos por Teodoro e Francisco. Daniel apresentou a equipe aos irmãos e todos foram encaminhados ao galpão onde os materiais e ferramentas seriam guardados. O dia foi de trabalho intenso, mas com a colaboração de todos, foi possível organizar o local e deixar tudo preparado para o dia seguinte.

Na terça-feira, o trabalho de reforma começou. Andaimes foram montados, paredes começaram a ser descascadas, bem como algumas janelas, a fim de remover a tinta desbotada pelo tempo. Apesar de não ser uma construção tombada pelo Patrimônio Histórico e Cultural, a sede da fazenda era muito antiga e o piso de madeira precisaria ser todo reparado, devido ao seu estado de conservação. O engenheiro também observou que algumas partes da estrutura do telhado estavam muito desgastadas e o mesmo deveria ser trocado assim que possível. Dessa forma, um trabalho que deveria ser simples e rápido, acabou por se tornar um pouco mais complicado e demorado.

O primeiro mês de obra foi tranquilo. As paredes internas e externas foram lixadas, a fim de receber uma nova tinta; a fiação começou a ser trocada; os problemas no encanamento foram resolvidos e as janelas danificadas foram substituídas. O trabalho era tão intenso que Daniel não teve tempo de pensar em mais nada a não ser a reforma no Recanto das Orquídeas. Aos fins de semana, quando ia pra casa, tudo o que queria era descansar. Quando dava, pegava onda em alguma praia perto de casa ou ia visitar a prima, mas na maior parte do tempo só ficava em casa com os pais ou saia com eles pra algum lugar. Com isso, o medo que sentia ao retornar a Ipiabas ficou esquecido, pelo menos por um tempo.