Sociedade Hípica Paulista – São Paulo

Após o campeonato na Suíça, os atletas brasileiros disputaram algumas competições no início da temporada e focaram na preparação para as Olimpíadas Rio 2016. A decisão sobre a composição das equipes ficaria a cargo de Mariette Whitages, Mark Todd e George Morris (técnicos do Adestramento, Concurso Completo de Equitação e Saltos, respectivamente) e seria feito com base nos resultados de cada conjunto ao longo do ciclo olímpico.

No dia 18 de Julho a Confederação Brasileira de Hipismo reuniu os atletas na Sociedade Hípica Paulista para anunciar os cavaleiros e amazonas convocados para os Jogos Olímpicos Rio 2016. Mariette Whitages foi a primeira a se pronunciar e selecionou os conjuntos Giovana Pass – Zyngaro de Lyw, João Victor Marcari Oliva – Xamã dos Pinhais, Luiza Tavares de Almeida – Vendaval 04, Pedro Tavares de Almeida – Xaparro do Vouga e Manuel Tavares de Almeida Neto – Vinheste para as provas de adestramento. Em seguida foi a vez de Mark Todd e sua equipe foi composta pelos conjuntos Carlos Parro – Summon Up The Blood, Márcio Appel – Iberon Jmen, Márcio Carvalho Jorge – Lissy Mac Wayer, Ruy Fonseca F° — Tom Bombadill e Nelson Moreira – Muggie. Por fim, George Morris selecionou os conjuntos Doda Miranda – AD Cornetto K, Eduardo Menezes – Quintol, Pedro Veniss – Quabri de L'Isle, Stephan Barcha – Landpeter do Feroleto e Rodrigo Pessoa – Citizenguard Cadjanine Z para as provas de salto.

Após a reunião com os atletas, o presidente da Confederação, Luiz Roberto Giugni, reuniu os jornalistas para uma coletiva de imprensa e anunciou os nomes. Os jornalistas presentes, inclusive, tiveram a oportunidade de entrevistar os cavaleiros e amazonas convocados e tirar fotos.

Ao saber que não foi escalada para essa competição tão importante, Annabelle se sentiu frustrada. Havia feito um ciclo olímpico excelente, conquistou pódios importantes e ela e Giroud estavam se entendendo como nunca. Seus resultados, inclusive, foram melhores que os de Rodrigo Pessoa, selecionado como reserva da equipe de saltos. Não conseguia entender porque se dedicou tanto, deu o seu melhor, conseguiu resultados expressivos e no fim das contas não alcançou o seu objetivo. Tudo indicava que seria uma das escolhidas, as principais mídias do esporte especulavam a sua convocação e ela estava confiante. Pensou em ligar para o pai e dar a notícia. Francisco Marcondes era seu maior incentivador, foi graças a ele que aprendeu a gostar de cavalos e merecia ser o primeiro a saber do seu fracasso. Pegou o celular e esperou que o pai a atendesse, o que não demorou muito a acontecer.

"Oi filha."

"Oi pai."

"E aí, como estão as coisas? Já anunciaram os nomes da equipe?"

"Já."

"Meus parabéns!" — Francisco disse, confiante.

"Eu não fui convocada, pai."— contou a mais nova, visivelmente decepcionada.

"Como não foi, Annabelle? Eu falei com o Caio Carvalho na semana passada e ele confirmou que o seu nome era um dos primeiros da lista."

"Ele tava enganado. O George convocou o Doda, o Eduardo, o Pedro e o Stephan na equipe principal e o Rodrigo como reserva."

"Não é possível! Você fez uma temporada excelente, está a um passo de garantir a vaga na Copa Sul Americana em Outubro e ainda foi segundo lugar no Mundial na Suíça."

"Sim, mas não aconteceu. Me perdoa, pai. Juro que dei o meu melhor em cada prova, fiz o que pude pra ser uma das melhores deste país, mas infelizmente não deu."

"Não se lamenta, filha. Deve ter uma explicação pra isso. O George não ia te tirar assim, do nada, sabendo do seu potencial. Vou ligar pro Caio e saber o que aconteceu."

"Não faz isso não, por favor. Vai ficar parecendo que eu sou a filhinha do papai que não aceita perder e manda o papai resolver os próprios problemas. Deixa que eu mesma vou conversar com o Caio e saber de tudo."

"Tudo bem, não vou me meter. Só quero que saiba que, não importa o que aconteça, eu sempre vou me orgulhar de você!"

"Obrigada por tudo, pai. Te amo."

"Também te amo, Jolly Jumper.*"

Assim que encerrou a ligação com o pai, Annabelle foi procurar o chefe da equipe de salto. O encontrou conversando com Doda Miranda.

— Caio, será que podemos conversar um minuto? — perguntou, em tom preocupado. Percebendo que a conversa era séria, Doda se despediu de Caio e se afastou.

— Claro. Tá tudo bem?

—Tá. Eu só queria saber o porquê de não ter sido convocada. Não me leve a mal. Sei que o George sabe melhor do que ninguém quem tá apto pra ocupar as vagas da equipe, mas é que eu fui tão bem durante o ciclo olímpico e acabei não conseguindo.

— Tudo bem, eu te entendo. É normal nessas horas querer uma explicação, então vamos lá. Você provavelmente já falou com o seu pai e ele deve ter dito que o seu nome era um dos mais cotados pra essa Olimpíada, certo?

—Sim, liguei pra ele agora a pouco.

—Então, eu não sei se já te falaram, mas o Giroud sofreu uma lesão e rompeu os ligamentos da pata direita dianteira.

— Ninguém me disse. — afirmou, sentindo o coração apertado. — Quando foi que isso aconteceu?

—Na segunda-feira passada, dia 11. Os donos ligaram pro nosso veterinário e parece que foi grave. Ele vai ter que ficar pelo menos seis meses sem competir, fazendo fisioterapia pra tentar se recuperar. Foi por isso que você não foi convocada. Seu nome era um dos primeiros e tanto eu quanto o George sabemos do seu potencial, sabemos o quanto batalhou pra estar aqui, mas diante dessa lesão, não tinha como. Nós avaliamos vocês pelo ciclo olímpico, pela performance em todas as provas. Seria injusto com os outros atletas substituir o Giroud por qualquer outro animal só porque você é uma excelente amazona. Além do mais, mesmo que você encontre outro animal pra competir enquanto o seu cavalo se recupera, vai precisar de um tempo de adaptação e tempo é tudo o que nós não temos agora.

—Entendo. De qualquer forma, muito obrigada por tudo. Sei que não devia ter questionado a decisão de vocês, mas eu precisava saber se foi falha minha não estar na Olimpíada.

—Não se preocupe, tá tudo bem. Aproveita esses dias de "folga" e vai ficar um pouco com a família, distrair a cabeça. Vai te fazer bem e te ajudar a se preparar melhor pro que está por vir.

—Obrigada mais uma vez, Caio. Boa sorte com a equipe. Tenho certeza de que vocês vão se sair vitoriosos nesses Jogos Olímpicos, vou estar na torcida.

—Conto com isso. Só não deixa de procurar outro cavalo enquanto o Giroud ta se recuperando. Precisamos de você no campeonato Sul-americano.

—Pode deixar, vou resolver essa situação assim que possível. Fica com Deus. — Annabelle apertou a mão direita de Caio Carvalho, que retribuiu o gesto, e os dois se afastaram.

Na volta para o hotel em que estava hospedada, a amazona pensou bem nas palavras do chefe de equipe e decidiu que ele estava certo. Passar uns dias em casa, com a família e os amigos, em contato com a natureza, era o que ela precisava pra recarregar as energias e voltar com o ânimo renovado para as competições pós olimpíadas. Sendo assim, arrumou as malas e partiu em direção a Ipiabas, seu reduto de paz e tranquilidade.

*Jolly Jumper, o inteligente — Cavalo do cowboy Lucky Luke, Jolly Jumper é conhecido pela habilidade de falar. Ele foi retratado de duas maneiras nos cinemas. Na primeira, nos dois filmes estrelados por Terence Hill nos anos 1990 ("Lucky Luke" e "Lucky Luke 2"), seus pensamentos são revelados à plateia enquanto ele auxilia o herói. Em sua última versão, do filme francês "Lucky Luke", de 2009, Jolly conversa com o herói, provando ser por vezes mais esperto que o dono.