Meses depois

Domênico estava apaixonado. Estava ali sentado na cadeira daquele barzinho em Copa com os pensamentos lá na Tijuca. O samba tocava alto e nem o copo de chope à sua frente o ajudava a esquecer da inspetora Antônia. Os amigos de longa data zombavam de seu estado de paixão.

Logo ele que era tão conquistador e galanteador, sempre era o que mais ficava com mulheres nas saídas que davam, estava lá sentindo as dores de um amor não correspondido. Nunca tinha reparado nas letras das músicas dos sambas e pagodes que curtia, até então, pois agora todas pareciam descrever seu estado emocional.

— Qual é, Domênico. Sai dessa fossa, cara!

Ele tomou um gole da bebida em seu copo, estava distraído. Seus amigos estavam rindo, contando causos de sua rotina enquanto ele nem prestava atenção em suas palavras.

— Que fossa, cara? Tá maluco?

— Esquece essa mulher, cara. Ela não quer nada com você. – um dos amigos aconselhou.

— Olha o tanto de mulher bonita nesse bar. Tem uma loira ali te encarando há um tempão. O Domênico de meses atrás não ia deixar passar.

Ele olhou a mulher que estava duas mesas ao seu lado direito. A loira de decote e saia curta realmente flertava com ele, mas algo no seu estômago o incomodava. A mulher era extremamente atraente, mas tinha algo faltando que ele não sabia explicar.

Seu grupo de colegas eram todos da polícia, e sem exceção, adoravam se vangloriar do status da profissão para conquistar mulheres. Domênico tinha ficado com muitas só dizendo que era policial, era incrível a quantidade de mulheres que têm esse fetiche com algemas e armas.

Naquela noite tinha prometido a si mesmo que iria esquecer Antônia e se divertir, já que ela o ignorava e recusava qualquer convite seu para algo fora do horário do expediente. É inegável que tinha um amor platônico por ela e com o passar do tempo, eles ficaram cada vez mais próximos. O delegado estava muito contente com os casos que conseguiam concluir juntos, e já comentavam por lá que os dois eram uma dupla, porém só de conviver ao lado dela o deixava ansioso. Ele se perdia nas palavras, era desajeitado com ela. Queria conquistá-la, mas estava sendo impossível.

Seus amigos estavam se aproveitando de seu estado de embriaguez para tentar fazê-lo se distrair dos problemas. Era uma sexta feira e mesmo que fosse fazer um plantão no sábado, tinha o direito de se divertir depois de semanas exaustivas no novo cargo. Depois de muita insistência dos parceiros ele largou o copo na mesa e chamou a loira para dançar, ela aceitou prontamente. Ele se apresentou, ela também, e honestamente tinha gostado dela. Não demorou muito para que se tivessem se beijando em um canto do estabelecimento.

Os amigos dele comemoravam a vitória na mesa, queriam que Domênico desencalhasse de vez, já que o inspetor tinha desistido da vida de galinhagem. Porém, ficar sofrendo por uma mulher que não o correspondia não fazia parte dos planos. Achavam que já estava na hora dele sossegar, casar, criar uma família assim como eles. No entanto, aquela paixão pela colega de trabalho estava sendo uma pedra no sapato.

Domênico acordou com o alarme do celular disparando em algum lugar distante. Ele resmungou nos lençóis, e quando abriu os olhos a dor da enxaqueca o atingiu em cheio. Praguejou o colega Eduardo que tinha lhe dado umas doses de tequila para beber. Não se lembrava de como tinha chegado no apartamento. Fazia tempo que não dava um PT daquele.

O celular insistia no irritante alarme, ele só notou que estava nú quando tirou os lençóis e sentiu o clima fresco da manhã. Olhou para o seu lado na cama e encontrou o que temia. Aline, a loira gostosa do bar, estava dormindo nua ao seu lado.

— Merda. – resmungou baixo.

Ele procurou as calças no chão junto com o resto das roupas deles e encontrou o celular no bolso. Desligou o alarme e tentava enxergar a tela mesmo com a cabeça estourando, diversas mensagens de Expedito apareciam. Estava atrasado e Antônia o torturaria de forma medieval, de acordo com as palavras do colega da delegacia.

Domênico tomou uma ducha gelada, enquanto o café passava na cafeteira. Ele se trocou o mais rápido que pode, montou a pistola e a colocou no coldre e o distintivo no bolso. Procurava as algemas quando se lembrou de Aline na cama.

— Droga, droga... – foi repetindo até chegar no quarto. Ela ainda dormia feito uma pedra apesar de todo o barulho que ele tinha feito.

O policial balançou a cabeça e riu quando viu suas algemas em um dos punhos da garota, que a prendia na cabeceira da cama. A chave estava no chão.

— Aline? Aline? – ele se aproximou e tentou acordá-la. – Aline?

A verdade é que ele queria passar o sábado de ressaca na cama. Mesmo sem conhecer aquela mulher direito, pois era bem melhor passar com ela do que com a realidade dolorida da delegacia e seu amor não correspondido pela inspetora Antônia. Pensar nela só o deixou mais ansioso, até que a loira abriu os olhos.

— Bom dia, linda. – ele a beijou levemente nos lábios e ela sorriu preguiçosamente.

— Bom dia, lindo. Nossa, como você tá gostoso. – ele sorriu e soltou o braço dela da algema, ainda sem entender como ela conseguiu dormir por tanto tempo daquele jeito. O álcool tinha seus feitos.

— Eu preciso ir trabalhar. Tô atrasado.

Aline era uma mulher compreensiva e divertida. Ela se vestiu rapidamente e enquanto terminava de se arrumar, Domênico se serviu de um copo imenso de café e duas aspirinas. Agradeceu por não sentir enjoos na ressaca e ofereceu um café para a mulher também. Os dois saíram e ele deu uma carona para ela até um ponto no caminho da delegacia.

Expedito observou Domênico entrar na sala dos inspetores, óculos escuros na cara, expressão de torpor e um copo cheio de café na mão. Balançou a cabeça com um sorriso divertido ao notar a ressaca do colega.

— Ela já chegou? – Domênico quis saber e depois se jogou na cadeira.

— Tá na sala do Siqueira. Bom dia pra você também.

Ele tirou os óculos e aproveitou a ausência de Antônia para debruçar os braços na mesa e apoiar a cabeça que latejava em seguida. O analgésico ainda não tinha dado o efeito esperado.

— Tava na farra, é? – Expedito perguntou curioso e Domenico não respondeu. O outro viu Antônia voltando no corredor. – Ela tá voltando!

Domênico levantou a cabeça devagar e observou Antônia entrar na sala.

Cada dia era diferente, cada vez que a via seu coração batia mais forte e mais forte, quase o sufocando. O perfume dela sempre o deixava sem ar por uns segundos, era o melhor cheiro que poderia sentir. Tinha transado com Aline naquela noite e tinha sido ótimo, no entanto, queria estar com Antônia e não seria só sexo. Ele a amaria com devoção, desejo e todo carinho que poderia oferecer a uma mulher.

— Bom dia? – a voz dela o despertou de seus pensamentos devassos.

— Bom dia. – respondeu sério.

— Já que você se atrasou, o Siqueira passou pra um caso.

Ela ofereceu o arquivo para Domênico ler e ele o pegou. Abriu e notou que Antônia se arrumava para sair da delegacia, inclusive tinha colocado o colete à prova de balas.

— Denuncia de tráfico. – ela adiantou. — Vamos?

Domênico passou os olhos rapidamente pela ficha do caso, Nina se aproximou dele lhe dando um colete também. Ele vestiu e terminou de tomar o café do copo. Esperava que a enxaqueca o deixasse logo, pois tudo que não precisava era ouvir sirenes e tiros naquela ressaca. Antônia tinha observado o colega e notou que não estava bem, poderia pedir para que ele ficasse, mas Siqueira tinha designado os dois e Nina para o caso.

Ele entrou na viatura pela porta do motorista, Antônia no passageiro e Nina no banco de trás.

— Domênico, a próxima vez que você vier de ressaca... – ela começou.

— Relaxa, Antônia. Eu tô bem e sóbrio.

Ele ligou a viatura e partiu, cortando o papo e sermão. Antônia não esperava aquele corte dele e resolveu não falar mais nada. E Nina só observava o clima tenso na dupla, aquela tensão no dicionário dela tinha outro nome.