Semanas depois

Era 30 de dezembro de 2016. Antônia terminava de organizar as coisas da mesa, não gostava de passar o ano na bagunça. Mais um ano se passou e ela nem percebeu, sempre na correria e atrasada, quase nunca percebia o tempo correndo em seus dedos. Já que ela e a equipe de investigação tinham passado o Natal trabalhando, nada mais justo do que ter uma folga do réveillon. Domênico e Expedito já estavam na calçada esperando ela e Nina para curtirem um happy hour.

— Vamos, Antônia. Deixa essa mesa aí, ano que vem tem mais. – Nina pediu ao notar a colega ainda sentada.

— Eu sei. Só tô organizando tudo. Não gosto de passar o ano com sujeira e bagunça. É mania.

Nina riu e balançou a cabeça, até que Antônia se levantou e as duas deixaram a sala pra trás.

Todos os barzinhos de Copa estavam lotados, cheios de turistas que se hospedaram no Rio para a famosa queima de fogos da virada. Antônia já estava perdendo a paciência quando Nina disse que tinha reservado uma mesa no estabelecimento de um amigo.

Domênico trocava mensagens com Aline, tinham mantido o contato para encontros casuais. Ela não era bitolada com um relacionamento sério, às vezes se encontravam e ficavam juntos, outras vezes só conversavam. A loira já sabia que tinha outra mulher que não saia dos pensamentos dele.

— Não vai largar esse celular não, Domênico? Sua namorada pode esperar. – Antônia zombou dele, fazendo Expedito e Nina rirem.

Ele ficou sem graça, se despediu de Aline e guardou o celular no bolso.

— Namorada? Eu não tenho namorada. Sou todo seu. – sorriu com a própria provocação e Antônia ficou envergonhada, enquanto os outros dois riram ainda mais dele.

— Nina, vamos lá ver se nossa mesa vai demorar muito. – a inspetora durona cortou o assunto, já se arrependendo de ter provocado Domênico e as duas foram juntas pra dentro do barzinho.

Ele a observou ir. Estava linda, como sempre, calça jeans, camiseta preta e os cabelos soltos. Amava quando ela soltava os cabelos.

— Você não desiste mesmo, né? – Expedito riu do colega.

— Jamais. Nunca.

Minutos depois, o quarteto conseguiu finalmente entrar no bar. Nina e Antônia entraram no bar e se sentaram de um lado da mesa, enquanto os homens sentaram do outro. Eles pediram cerveja e começaram a happy hour com um brinde.

— À todos os casos resolvidos nesse ano. – Nina começou.

— À entrada do Domenico que ajudou a gente pra caramba. – Expedito também falou.

— Aos meus novos amigos. – Domênico acrescentou.

— À melhor equipe que eu já tive nessa delegacia. – Antônia finalizou, realmente estava muito grata.

Com a transferência de Domênico, o trabalho ficou menos pesado. A dupla tinha conseguido concluir diversos casos, e sabia que sozinha não teria finalizado nem a metade e teria ainda mais alguns no próximo ano. Acreditava que, pela primeira vez, Siqueira tinha acertado na escolha.

O bar estava incrivelmente lotado e quente, pouco depois, uma banda começou a tocar alto ficando quase impossível trocar ideias. A noite começou a esquentar quando Nina começou a pedir drinks fortes. Antônia recusou, pois era fraca para o álcool, já estava ficando alta só com as cervejas. Ela ficou observando os três bebendo e ficando cada vez mais animados, estava divertido.

Nina se levantou e começou a dançar sertanejo com Expedito, Antônia ria dos colegas até perceber que Domênico a encarava à sua frente na mesa. Ele já estava bêbado, seu corpo encostado largado na cadeira, seus olhos a observavam tão intensamente que ela perdeu o riso. Não estava acostumada com aquilo. Seu rosto ficou quente e ela tomou um gole da cerveja. Ele sorriu pra ela, seus olhos ficando pequenos somando o cansaço e o álcool.

Nina retornou à mesa tentando puxar Domênico pra dançar também, já que Expedito estava dançando com uma morena agora. Ele recusou aos risos, e ela saiu gritando que os dois eram chatos. Antônia estava rindo da amiga quando o seu campo de visão foi preenchido pelo corpo do inspetor à sua frente. Ele estava de pé e oferecia sua mão pra ela para dançarem juntos.

Antônia recusou prontamente, agitando as mãos e gritando não na música alta. Ele se fingiu de surdo e ela riu. A mão dele segurou a dela com força e a tirou da cadeira. Quando Antônia percebeu estava no meio dos amigos que dançavam, sendo levada e conduzida por eles. Ela não sabia dançar direito, mas ficou imitando Nina e rindo de Domênico e Expedito que tinha aparecido para dançar com eles.

Eles passaram várias músicas assim, dançando descoordenados e cantarolando errado as músicas. Antônia já sentia a pele grudar de suor, estava se divertindo de verdade. A música acabou mudando para uma balada sertaneja romântica, Expedito já tinha um par, Nina foi dançar com um loiro lindo e ela se viu sem opção, pois sair correndo seria má criação. Domênico se aproximou dela, ofereceu a mão de novo com um sorriso maroto, ela aceitou rindo até que ele a puxou pra perto e o outro braço dele envolveu a cintura dela.

O inspetor sabia dançar e ela tentava acompanhá-lo desajeitadamente. A camisa dele já estava grudada de suor, mas o perfume estava ali, fazendo Antônia respirar fundo. Ele era mais alto que ela, então encarava o seu peito, pois estava com medo de olhar nos olhos dele naquele momento.

Domênico tinha certeza que estava no paraíso, a mulher que ele amava estava ali em seus braços, sua mão na sua, seu corpo tão próximo. Ele sentia o cheiro dela, o deixando ainda mais bêbado do que o álcool que tinha consumido. Antônia era desastrada e não demorou muito para que ela pisasse em seu pé.

— Desculpa...

A música estava alta, mas ele ouviu.

— Não foi nada. – disse no ouvido dela e pode jurar que ela estremeceu, mas poderia estar imaginando coisas.

Antônia criou coragem para olhá-lo nos olhos, eles dançavam, mas ela não escutava a música. Ela sentiu o coração bater mais forte no peito, aquela sensação esquisita no estômago, o frio na espinha. Domênico a olhava com tanto desejo que suas pernas vacilaram. Não poderia fazer isso.

Ela parou de dançar se afastando dele bruscamente. Domênico ficou confuso sem saber o que tinha feito de errado. Ele iria atrás dela, mas Expedito se aproximou com um copo de vodca com enérgico. Aquele tinha sido o fora que precisava para acordar, Antônia nunca iria querer ele, como ele a queria.

Antônia voltou a mesa e pediu uma garrafa d'água. Seu corpo ainda estava sofrendo as consequências da aproximação de Domênico. Ela se sentou, e momentos depois, Nina se jogou na cadeira ao seu lado. Suada, alegre e bêbada. Antônia acabou rindo dela e esquecendo a tensão.

— Menina! Eu tô amando estar aqui, juro! E tô feliz que você tá aqui também, Antônia. – ela falou alto próximo dela.

— Obrigada por ter me chamado.

— Você ficou com o Domênico, é?

— Eu? Não! Lógico que não!

— Ah, Antônia... – ela fez uma careta triste e depois riu. – Ele é um gato e doido por você!

— Doido por mim?

— Todo mundo sabe que ele arrasta um caminhão por você!

— Que nada!

— Ah, lá! – ela apontou pra pista de dança, onde Domênico dançava com outra mulher. – Você vai acabar perdendo a chance.

Nina mal conseguiu terminar de falar, o loiro que estava com ela retornou e a puxou de volta pra dança. Antônia ficou observando Domênico dançando com outra. Ele parecia estar se divertindo, e pela primeira vez, ela sentiu vontade de ir embora.

Um lindo rapaz negro tentou se aproximar de Antônia, e mesmo sendo simpático, ela se sentiu sufocada com seus galanteios. Ele tentou agarrá-la, e ela usou toda sua força para empurrá-lo pra longe. Quando ia começar a gritar, Domênico tinha empurrado o rapaz ainda mais forte em uma atitude protetora (e ciumenta?).

A noite divertida acabou para os dois. A discussão chamou atenção dos demais, Nina e Expedito se aproximaram e Antônia pegou a bolsa indo direto pra porta do estabelecimento sem nem olhar pra trás. Domênico colocou grana nas mãos de Expedito, se despediu dos colegas e seguiu atrás da morena.

— Antônia? Antônia!

Ele estava bêbado, mas uma sobriedade te atingiu ao sair da rua. Ela estava na ponta da calçada, procurava um táxi com o olhar. Ele se aproximou dela.

— Calma, Antônia. Fica mais um pouco.

— Avisa a Nina que eu pago ela depois, tá? – ela estava nervosa.

— Relaxa.

— Não dá pra relaxar.

— Tá, eu... Desculpa. – o inspetor se enrolou nas palavras, bêbado e cansado. Ela acabou rindo do jeito dele e ele riu também quebrando o nervosismo.

— Como você vai embora?

— Sei lá. – ele deu de ombros.

— Você não vai conseguir chegar em casa sozinho desse jeito.

— Tá duvidando da minha capacidade?

— Nem um pouco, só acho que não vai conseguir.

— Tô conseguindo fazer o quatro... – Domênico tentou cruzar as pernas e quase desequilibrou fazendo Antônia segurar no braço dele e ele começou a rir. – Talvez não.

Um táxi encostou para pegar Antônia e ela ficou com pena de deixar Domênico daquele jeito. Expedito ainda iria demorar uma eternidade no barzinho, então ela se viu responsável por aquele bêbado. Ela o orientou, enquanto ele ria alto até o carro. O motorista fazendo careta ao ver o bêbado.

— Onde você mora? – perguntou para o colega e ele balbuciou o endereço, e ela pediu para o motorista seguir.

Domênico bêbado era engraçado. Ele ficou cantarolando as músicas do radio em um tom alto e enrolado, no meio do caminho, ele apagou. O corpo tombando em cima do corpo de Antônia. Ela se ajeitou até que a cabeça dele repousasse no seu colo.

— Namorado bêbado é complicado, né, moça? – o motorista tentou puxar assunto.

— Ele não é meu namorado, só meu amigo.

— Ah, sim. Mas tá fazendo bem de levar ele pra casa. A cidade tá perigosa demais, ainda mais nesse horário.

— Eu sei. – ela cortou o papo.

Domênico ressonava em seu colo. Ela olhou para o rosto dele dormindo e se lembrou da dança. Ele ainda estava meio suado, o cabelo bagunçado, e seus traços eram realmente bonitos fazendo o seu estômago dar uma cambalhota. Lembrou-se do que Nina disse e dos olhares que ele te dava. Era um filme em sua cabeça.

O motorista encostou o carro e avisou que o endereço era aquele. Antônia acordou Domênico, ele levantou assustado.

— Chegamos na sua casa.

— Caramba. – ele nem percebeu que estava no colo dela.

— Peraí, moço. Eu já venho, tá? Vou levar ele ali na portaria.

Ela abriu a porta e ajudou Domênico a descer do carro, apoiando o corpo dele enquanto ele ainda ria da situação que passava.

— Qual é o seu apartamento?

Ele parou de andar, ficando ereto com um sorriso maroto no rosto. Antônia estava perdendo a paciência.

— Domênico, é sério...

— Você é tão linda. – ele falou sério. – É a mulher mais incrível que eu já conheci na minha vida.

O olhar de Domênico tinha ficado intenso, Antônia ficou sem graça, seu rosto adquirindo um tom de rubor.

— Para com isso.

— Sério. Você é maravilhosa. Não paro de pensar em você. – ele se aproximou dela, sua mão tocando o rosto dela com delicadeza.

Ela começou a ficar com medo daquela seriedade de Domênico. Não parecia uma brincadeira. O coração dela disparou no peito com o toque carinhoso dele em seu rosto. Nunca tinha recebido uma declaração dessas.

— Eu amo você, Antônia. Tô apaixonado. Nunca amei ninguém assim...

Domênico não conseguiu terminar, Antônia se aproximou dele colando suas bocas. Ele sentiu o corpo vibrar com aquele ato inesperado, uma onda elétrica e quente tomando conta dele. Aquilo só poderia ser um sonho. Ele não soube como reagir, ficou parado sentindo os lábios dela tocarem os seus, seu coração dando um solavanco no peito.

Antônia se afastou dele devagar, suas bocas se soltando lentamente. Tinha sido um beijo sem língua, só uma constatação que ela precisava pra seguir em frente. Domênico abriu os olhos e ela se viu perdia naquele tom esverdeado. Ele respirava entre cortado, surpreso com tudo.

— Boa noite. – ela tentou se afastar dele, mas o braço de Domênico enlaçou sua cintura e grudou seu corpo no dela em uma pegada forte.

Ela sentiu as pernas amolecerem e seu peito subir e descer em uma respiração rápida quando a outra mão dele foi parar em sua nuca. Ele a beijou dessa vez, as mãos dela o agarraram pelos ombros, tentando se apoiar em algo para não cair no chão. As línguas deles se tocaram com intensidade, era um beijo quente e voraz com gosto de álcool. Os dedos dele entrelaçados nos cabelos dela e as unhas dela cravadas no tecido da camisa dele, marcando sua pele branca.

O mundo pareceu girar devagar naqueles minutos. Antônia nunca tinha sido beijada dessa forma, ela só conseguiu respirar direito quando ele se afastou sem fôlego, seus lábios indo para o pescoço dela. A barba raspando na pele dela arrepiando sua espinha.

Foi preciso muita força de vontade para se afastar dele. Ela deu dois passos para trás depois de se desvencilhar de seus braços. Domênico parecia desnorteado, os lábios inchados e um olhar cheio de desejo e faminto por ela.

Antes que ele tentasse beijá-la novamente, ela foi até o portão do prédio e pediu ajuda do porteiro, que despertou do cochilo com os gritos dela.

O porteiro reconheceu Domênico e disse que iria levá-lo até o apartamento. Antônia passou por ele novamente, o policial segurou na mão dela. A eletricidade passou por ela de novo, agora a expressão no rosto dele era de alguém desolado e abandonado.

— Boa noite, Domênico.

A inspetora soltou as mãos deles e quase correu até o taxi. O coração batendo forte e descompassado, a respiração tão falha quanto se ela estivesse feito uma maratona. Suas pernas e mãos tremiam, e ela chegou a ver quando o porteiro se aproximou dele e o ajudou a levá-lo pra dentro.

Domênico voltou a rir, totalmente bêbado e Antônia começou a agradecer por aquela bebedeira toda. Sabia que se ele estivesse são, não teria conseguido se livrar dele tão fácil.

Ela passou seu endereço para o taxista e fechou os olhos. O corpo ainda reagindo ao beijo deles. Ela tocou seus próprios lábios ainda sem acreditar que tinha acontecido.

Antônia quase podia ouvir o pensamento do taxista: "Só amigo, né?".