Meses antes

Antônia discutia mais um caso com Expedito quando o delegado Siqueira a chamou em sua sala.

— Investigadora Antônia, você é ótima! Mas acredito que você está sobrecarregada. Estou errado? – questionou em seu habitual tom jocoso.

Ela era a melhor profissional daquela incorporação, estava dando seu suor e sangue em todos os seus casos. Estava fazendo o impossível para dar conta de tudo, era o emprego dos seus sonhos, não queria perdê-lo de jeito algum.

— Eu estou dando conta, delegado. Não tem que se preocupar. Você acha que...

— Eu não estou questionando a sua capacidade. – Siqueira a interrompeu. – Só que os caras lá em cima, querem mais agilidade, sabe como é?

Ela ficou calada digerindo as palavras de seu superior, o detestava, mas estava aturando para permanecer em sua posição.

— Por isso, estamos transferindo um inspetor para trabalhar em conjunto com você. Dividir as tarefas, pensar em conjunto. Duas cabeças resolvem melhor que uma, sabe?

Não que ela duvidasse do outro policial, porém não queria mais um babaca machista no seu pé o dia todo. Sempre tinha um querendo se aparecer, querendo crescer em cima dela, já bastava o delegado em si. Sabia que se recusasse seria pior, então só assentiu.

— Claro. O que for melhor para a incorporação.

Siqueira tinha um sorriso maldoso nos lábios. Ele estava doido para derrubar a competente Antônia, pois sabia que era questão de tempo para ser derrubado por ela.

— Ele começa amanhã.

Antônia não quis saber mais detalhes. Sabia que logo teria a ficha do indivíduo nas mãos. Homens assim adoravam se gabar com seus feitos, e com esse, não seria diferente. Ela se arrastou possessa até sua cadeira, a mesa a sua frente estava vazia há meses e logo seria ocupada por mais um idiota. Esperava estar errada.

Como sempre nos últimos dias, Antônia trabalhou até muito tarde, dormiu pouco e acordou atrasada. Ela xingava o trânsito carioca dentro do carro, seu estômago sentindo falta do café. Já pressentia que o delegado iria comer seu fígado.

Domênico chegou cedo na 197ª delegacia, estava ansioso com a nova experiência. Foi pego de surpresa com a transferência, mas gostava de novos ares. Acostumado com a cidade pequena, se apaixonou pela cidade do Rio assim que botou os pés em suas ruas. Apesar do perigo constante, amava ser policial e defender aquele povo. Era sua vocação e a investigação era sua paixão. Ele sempre foi muito comunicativo e já batia papo com os colegas da sala, que já tinham informado que sua parceira era linha dura. Já até imaginava o tipo de mulher que ficaria na sua cola, mas o desafio era o que o movia e dava emoção em sua vida profissional.

Ele contou sobre sua carreira na polícia e o rapaz da mesa ao lado que se apresentou como Expedito estava falando da sua, quando um silêncio esquisito tomou a sala. Os demais tinham visto a tal carrasca chegar pelo vidro do corredor, Domênico estava pronto para enfrentá-la quando uma linda morena invadiu a sala. Ele deu um sorriso aliviado, aquela não era a sargento que os outros falavam. Ou era?

Ele agradeceu por estar sentado, pois a atração que sentiu por ela foi imediata e fatal. Ela era a mulher mais linda que tinha encontrado por aí e com aquela jaqueta de couro só o fez ficar ainda mais inquieto. Os cabelos pretos soltos em seus ombros, a franja caiu em seus olhos castanhos e ele perdeu as palavras. Ela era uma visão, a paisagem mais linda que tinha visto (mais bonita do que a do Cristo Redentor).

O impacto durou apenas alguns segundos, pois logo a voz dela, autoritária e firme, preencheu o silêncio disparando ordens para todos os lados. Ela prendeu os cabelos em um rabo de cavalo e tirou a arma do coldre colocando-a na mesa a frente dele. Ainda não acreditava que iria trabalhar com aquela mulher. Ele ainda a encarava quando foi pego, ela interrompeu suas ordens e o encarou de volta estranhando a sua presença ali.

— E você é... ?

— Domênico. – ele não soube como sua voz saiu tão firme. – Fui transferido para...

Ele não conseguiu terminar. Ela estendeu a mão para cumprimentá-lo e ele pegou naquela mão pequena sentindo o seu aperto firme.

— Antônia. Inspetora. Bem-vindo.

— Obrigado, inspetora.

Antônia terminou de delegar algumas tarefas e se sentou, Domênico ainda a encarava impressionado. Seu coração bateu em um ritmo estranho quando os olhos dela encararam os seus.

— Domênico, nós estamos estudando o caso Marca d'Água, se você quiser começar a ler... – ela ofereceu uma pasta, ele pegou e assentiu.

— Claro, vou ler.

O inspetor deixou a pasta sobre a mesa e se levantou. Antônia e os demais acompanharam os passos dele achando esquisita a sua atitude. Alguns deram uns risinhos, pois já haviam apostado quanto tempo demoraria em ele se assustar com a inspetora e abandonar o cargo e tinha sido mais rápido do que tinham imaginado. Alguns dos policiais começaram a tirar grana da carteira, quando Domênico retornou com dois copos térmicos cheios de café preto e forte.

Café? – ele parou ao lado de Antônia e ofereceu um dos copos. – Você parece estar precisando. – ofereceu de forma solícita.

— Obrigada.

Antônia estava impressionada com o jeito prestativo do novo colega e não era só isso. Tinha algo diferente nele. Ela tratou de afastar qualquer pensamento pecaminoso, afinal sempre foi muito correta e ética no trabalho. O porte físico, a barba, o perfume forte, tudo era muito convidativo, porém ela conhecia muito bem homens do tipo dele.

Ele se acomodou na cadeira e soprou o café quente, mas mesmo assim, queimou a língua fazendo uma careta que fez Antônia gargalhar. Domênico ficou sem graça, mas logo se recompôs ao ouvir e ver a risada dela. A inspetora abaixou os olhos para ler outro caso ainda com um sorriso nos lábios e foi naquele momento que ele decidiu que faria o que fosse necessário para ouvir aquela risada novamente.

Ás vezes, ela desviava o olhar dos papéis e o observava trabalhando, lendo concentrado e fazendo suas anotações. Reparou em suas feições e em seus olhos castanhos esverdeados. Porém, resolveu não mais trocar olhares com ele, afinal o inspetor poderia pensar que tinha qualquer chance com ela.

Nada poderia preparar Domênico para aquele primeiro dia naquela DP, seu coração ainda batia forte ao olhar Antônia a sua frente. Era automático encará-la, estava fascinado por sua beleza. O dia passou voando diante de seus olhos e, quando percebeu, já era noite lá fora e tinham restado somente eles e os funcionários em plantão.

Os casos sem resolução eram muitos e ficou imaginando a sobrecarga que a inspetora tinha antes de sua chegada. As costas dele doíam da posição que ficou quase o dia todo e quando Antônia disse que poderiam ir embora, agradeceu.

Os dois deixaram a delegacia juntos, o ar quente da noite de Copacabana os atingindo. As ruas estavam cheias, os barzinhos lotados com as mesas dispostas nas calçadas. Eles andavam em direção à orla, enquanto Antônia explicava que a região não era nada tranquila, até que ela parou em frente ao Carioca Palace Hotel, um dos mais sofisticados do Rio, ficando atrás somente do Copacabana Palace.

— E aí, o que achou do primeiro dia? – ela perguntou séria e ele sorriu discretamente.

— Muitos casos, né? Mas, vamos dar conta. Cheguei pra somar, você vai ver. – piscou de um jeito brincalhão e Antônia riu balançando a cabeça em seguida.

— Eu espero. Você mora muito longe?

— Não muito.

— Ah, eu moro na Tijuca, vou só esperar meu irmão sair para irmos juntos. – ela apontou para a fachada do hotel cinco estrelas e um tom de orgulho surgiu em suas palavras. – Ele é o mordomo do dono do hotel. Um dos melhores garçons daqui.

— Claro, imagino que seja. – ele olhou para o prédio. – Parece ser imenso aí dentro, né?

Enquanto Domenico falava distraído, duas mulheres que andavam pela calçada o encaram de cima a baixo. Talvez fosse a arma no coldre e o distintivo na cintura que não deixava um homem com o seu porte passar despercebido. Ele nem notou, pois só tinha olhos para a morena baixinha à sua frente. A expressão de Antônia fechou na mesma hora.

— Domênico, toma cuidado. Não fica andando com essa arma exposta por aqui, os meliantes não podem ver um policial que...

— Perdão, Antônia, você tem razão. Esqueci totalmente.

Sem jeito, Domênico tirou a arma do coldre e a escondeu nas costas por baixo da camisa preta e enfiou o distintivo no bolso.

— Você quer tomar um sorvete enquanto espera seu irmão? – ofereceu cheio de charme e Antônia se armou na mesma hora.

— Não. Ele já tá saindo, nem vai dar tempo. Vai descansar, o dia foi longo.

— Uau. – ergueu as mãos em sinal de redenção e sorriu. – Não precisa me expulsar, chefe. Já entendi que não me quer aqui.

— Não é bem assim que...

Domênico se aproximou repentinamente e antes que pudesse beijá-la no rosto, Antônia ofereceu sua mão e ele a segurou com firmeza. Ela odiou a aproximação, ficou totalmente sem graça. Ele, que sempre foi carinhoso com todos, já percebeu que não poderia agir assim com ela. Antônia não disse nada, mas seus olhos indicavam que tinha um muro entre os dois que não seria facilmente quebrado.

Mulher difícil, ele pensou.

O inspetor se afastou e para quebrar o clima acenou com a mão.

— Boa noite, Antônia. Até amanhã.

— Boa noite, Domênico.

Ela ficou parada o olhando partir, o perfume dele ainda estava no ar e o toque dele em seus dedos a tinha deixado elétrica.

Se a transferência daquele inspetor era um plano de Siqueira para distraí-la e tentar derrubá-la de seu cargo, isso não iria acontecer. Antônia era focada e não seria Domênico que iria atrapalhar seu objetivo de, um dia, ser a delegada daquela DP.