Entre Casos e Cafés
6 05 – Ciúmes?
O ano tinha começado muito bem para Antônia. No primeiro dia de trabalho chegou cedo à delegacia e isso era um milagre. A falta de trânsito a ajudou bastante, já que as pessoas ainda estavam na folia do réveillon. Ela olhava para o monitor a sua frente, porém seus pensamentos estavam longe. Na noite da virada que tinha passado se divertindo com Julio, ele tinha sido uma grata surpresa para um novo começo.
Domênico passou na padaria em frente à delegacia e pediu os dois expressos de sempre. Desejou um feliz ano novo para os atendentes e seguiu para a sala de investigação. Entrou pela porta que dava na mesa de Antônia. Ela já estava lá sentada encarando a tela do computador, distraída. Ele sentiu o coração dar uma batida mais forte. Quando aquilo iria passar?
Tirou os óculos escuros do rosto e o pendurou na camisa preta. Aproximou da mesa da colega por trás dela e colocou o café sobre o tampo, fazendo a policial dar um pulo na cadeira. Ele abaixou o rosto para ficar na altura do dela e deu um sorriso maroto.
— Primeiro café do ano!
Antônia colocou a mão sobre o peito, seu coração ainda disparado pelo susto que Domênico lhe deu. Ela se virou e acabou rindo de nervoso com o rosto dele tão próximo do dela.
— Feliz ano novo, Domênico.
Ele se endireitou e abriu os braços. Só estavam os dois na sala e Antônia só o observou.
— Ah, qual é, Antônia? Eu mereço um abraço de ano novo, né?
A inspetora revirou os olhos com o seu jeito brincalhão e se levantou. Domênico a enlaçou em um abraço terno. Ela sentiu o perfume dele e não pode evitar fechar os olhos. Estavam sozinhos e ninguém iria reparar naquele momento de fraqueza. Quase se esqueceu de que estava puta da vida com ele e com o beijo.
Já Domênico a abraçou com delicadeza, quando na verdade queria envolver sua cintura com força e nunca mais soltá-la. Ele inspirou o cheiro dos cabelos dela.
— Feliz ano novo, Antônia. Que você seja muito feliz... – desejou de coração.
Ele se afastou para olhar no rosto dela, mas a expressão dela era indecifrável. Antônia deu um sorriso sem graça e se sentou na cadeira. Voltando o corpo para o computador e ignorando o copo de café ao seu lado.
Domênico sabia que aqueles momentos carinhosos eram feito cometas, eram raríssimos de acontecer. Ele se sentou em sua cadeira de frente para ela e a deixou quieta. As horas se passaram tudo que se podia ouvir eram os dedos dos dois batendo no teclado, os dela, às vezes, batiam furiosos. Ela tinha a mania de resmungar baixinho quando pensava em algo, mas ele não entendia nada. Tudo era silêncio já que os demais inspetores estavam de folga.
Ele observou que Antônia mal tocou no café e quando estava folheando um caso sentiu os dois olhos castanhos dela cravados nele. Ela parecia estar chateada com ele. Talvez não devesse ter forçado aquele abraço. Então, decidiu levantar o olhar, e quando o fez a parceira voltou seu olhar para o monitor.
— Que foi, Antônia? Aconteceu alguma coisa?
— Não... – ela deu de ombros. – E aí, aconteceu alguma coisa?
Ele estranhou a pergunta, mas mesmo assim, respondeu:
— Não.
O silêncio ficou ainda mais constrangedor e Domênico começou a ficar desconfortável. Antônia se levantou de súbito e caminhou até a sala de investigação continuada. Ele pode ouvir a porta se fechando com uma força desnecessária.
Pela primeira vez sentiu falta de Expedito que saberia te aconselhar naquele momento. Ao pensar no amigo, se lembrou de que ele tinha tido que os dois tinham ido embora juntos do bar na noite do happy hour. E logo em seguida, se lembrou de seu sonho e daquele beijo maravilhoso, da sensação de ter ela nos braços.
Era só um sonho, não era?
Não tinha acontecido de verdade ou tinha?
Não era possível!
Mas então, por que Antônia estava o ignorando agora?
Será?
Não...
Antônia encarava o painel com as fotos de suspeitosdos casos que trabalhava, mas na verdade, não enxergava nem um palmo a sua frente. Sua mente ainda tentava entender as atitudes de Domênico. Nada se encaixava. Ele estava fingindo que nada tinha acontecido entre os dois. Tudo bem que estava bêbado... Ou será que ele estava fingindo que estava bêbado para se aproveitar da boa vontade dela? Beijá-lo tinha sido um ato de caridade ou carência?
“Eu amo você, Antônia. Tô apaixonado. Nunca amei ninguém assim.”
As palavras dele ecoavam em sua mente, logo depois, a lembrança do beijo que ela se atreveu a dar nele. A força que usou para se afastar, os braços dele a puxando de volta para perto. As línguas dele se encontrando, os corpos juntos...
— Antônia?
A voz de Domênico a despertou de suas lembranças. Ela não se virou para a porta, de qualquer forma, sabia que ele iria entrar. Ouviu a porta encostar e fingiu que olhava as fotos do painel. Ela passou a mão na nuca sentindo que o rosto estava corando só de estar pensando no que ocorreu.
— Aconteceu alguma coisa?
Ele sabia ser insistente quando queria e aquilo era irritante.
— Nada.
Se ele iria fingir, ela também poderia.
— Olha... O Expedito me disse que você me ajudou a chegar ao meu apartamento no dia do bar. Queria te agradecer. Não me lembro de nada, então, se eu te fiz passar alguma vergonha ou fiz algo que você não gostou, me desculpa... – ele disparou a falar.
Antônia sentia a presença dele pairando em suas costas. Agora fazia sentido. Ele não se lembrava de nada (ou estaria mentindo?). Ela se virou e o encarou para notar se tinha algum resquício de mentira em seus olhos.
— Eu já sou chato, né? Devo ficar um pé no saco quando tô bêbado.
Ele parecia sem graça e deu de ombros.
— Você não se lembra de nada? – os olhos dela formaram uma fenda, desconfiando dele.
— Não. Por quê? Vomitei em você? – seu tom era de alguém envergonhado e surpreso, e ela acabou rindo.
— Não. Fica tranquilo.
Domênico não queria perguntar daquele beijo e piorar a situação. Ele tinha muito medo que ela se afastasse dele. Era mais do que óbvio que tinha sido coisa da cabeça dele.
— Juro que não fico mais bêbado assim perto de você. Devo ter feito o maior vexame.
— Nada aconteceu. Você só dormiu no banco do táxi e depois o porteiro deve ter te ajudado a chegar à sua cama.
Não era tudo mentira, não é mesmo? Era só omissão. Era melhor para os dois que aqueles beijos não tivessem acontecido.
— Ufa! – ele deu um suspiro de alívio. – Obrigado mesmo, de verdade. Tô te devendo uma, hein?
— Ah, com certeza!
— Você vai querer almoçar aqui mesmo ou lá na padaria?
— Pega um lanche lá pra gente. Eu quero um...
— X-salada sem cebola com fritas e um suco de limão sem açúcar. Acertei? – ele a interrompeu e a fez rir.
— Isso aí.
— É pra já! – ele deu uma piscadela e saiu da sala.
Antônia esperou que ele saísse e sentou na cadeira mais próxima. Era melhor assim, repetia em sua mente.
Era engraçado como ele já a conhecia tão bem em pouco tempo. Ás vezes, um terminava o raciocínio do outro com facilidade e talvez toda aquela atenção, dinâmica e amizade a fizeram fraquejar. Ela não era apaixonada por Domênico, foi só um momento que nunca deveria ter acontecido, mas não poderia negar que tinha sido bom.
Semanas se passaram, com muito trabalho. Enquanto Domênico ainda sentia as dores de sua paixão por Antônia, ela já estava em outra. A morena se aproximou do rapaz da vila, garçom do hotel que o irmão trabalhava e estava começando a gostar dele. O parceiro de trabalho nem imaginava o que se passava no coração dela, apesar de ter percebido algumas mudanças em seu jeito, mas Antônia era muito discreta.
Já ele, tentava seguir os conselhos de Expedito e dos amigos. Ainda estava saindo com Aline. Na verdade, estava com medo do caso deles virar algo sério, pois sabia que não poderia se envolver em um compromisso com os seus pensamentos e coração totalmente nas mãos de Antônia. Porém, estava tentando lutar contra aquele sentimento e a loira era uma perfeita distração.
O celular de Antônia começou a tocar na mesa e ela sorriu ao ver o nome do contato na tela. Ele nunca tinha a visto sorrindo assim e estranhou. Esperou ela sair da sala para atender a ligação.
— Ô, Expedito... – o colega de corporação se aproximou da mesa dele. – A Antônia tá estranha, não tá?
— Ela anda bem felizinha, né? Será que tá de namorado novo?
Domênico adorava Expedito, mas ele era um fofoqueiro de mão cheia.
— Qual é? Acho que não...
— Para, né, Domênico. Mulher só sorri assim quando tá apaixonada e você sabe...
Os dois pararam de falar quando ela retornou.
— Que foi? – ela notou que os dois a observavam.
— Nada. – eles responderam juntos.
Domênico ficou com a pulga atrás da orelha. Será que tinha perdido Antônia de vez? Sua mente ficou martelando o dia todo, quando quase no final do expediente sentiu o celular vibrando no bolso. Era Aline.
“Oi, gato.” Uma mensagem do aplicativo.
“Oi, linda. Td bem?” Digitou de volta.
“Bem e vc? A gente pode se encontrar hj?”
Ele sorriu maroto pra tela do celular. Aline realmente aparecia nas horas que ele mais precisava, e mais do que nunca, precisava tirar Antônia da cabeça por algumas horas.
“Claro.”
“Eu passo aí.”
“Ok :D”
“:*”
— Domênico? – Antônia chamou sua atenção.
— Oi?
— Tá tudo bem?
— Sim. Você vai precisar de mim até tarde hoje?
— Não... – Antônia o olhava desconfiada. – Tem algum compromisso?
— Tenho.
— Eu também. – respondeu secamente.
— Então, vamos todos sair no horário hoje. – Expedito comemorou.
Era inicio de noite quando o trio deixou a 197ª DP juntos. Antônia e Expedito estranharam a presença de um carro preto sedan em frente da delegacia, uma mulher loira de cabelos ondulados que batiam nos ombros esperava encostada na lateral do mesmo.
— Quem...?
— Minha carona chegou. – Domênico interrompeu a pergunta de Expedito. – Até amanhã! – ele acenou para os dois.
Expedito estava chocado. A mulher era linda e Domênico nunca tinha citado que estava saindo com alguém. Pensava que ele ainda estava de quatro por Antônia.
— Quem é ela? – Antônia perguntou com certa grosseria. Os braços cruzados em frente ao corpo. Expedito balançou a cabeça com um sorriso descrente no rosto.
Domênico se aproximou de Aline, seu braço envolveu sua cintura e a cumprimentou com um beijo leve, enquanto a loira se pendurava em seu pescoço.
— Eu não faço ideia... – Expedito respondeu.
— Ah, Expedito, para de mentir! É a namorada dele?
— Eu juro, Antônia. Ele nunca me falou nada sobre ela.
Domênico podia sentir o gosto amargo da vingança ao entrar no carro de Aline e enquanto esperava a loira entrar no carro novamente, observou pelo vidro escuro a expressão de Antônia. Ela parecia estar surpresa e, talvez, nervosa com aquilo. Sentiu-se vitorioso por alguns segundos, mas sabia melhor que ninguém que não era certo usar os sentimentos de outra pessoa.
O amor que sentia por Antônia era maior do qualquer caso, qualquer encontro casual.
— Você tá com ciúmes, é? – Expedito provocou e levou um tapa forte no braço.
— Tá maluco? Só achei estranho que ele nunca comentou nada. O Domênico merece ser feliz!
Nem ela acreditou na firmeza de suas palavras.
— Tô indo, se não me atraso.
Antônia ainda iria encontrar com Julio no cinema. Se Domênico estava seguindo em frente, sentia-se melhor com todo o segredo que carregou naqueles dias. Mas por que ainda sentia o coração pesado? Por que sentiu raiva daquela mulher bonita? Sentia ciúmes dele? Ela era tão mais bonita e feminina do que ela... Por que estava tão confusa?
Julio era bom e seria um ótimo namorado e aquela era a única certeza que tinha no momento.
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