Entre Casos e Cafés
7 06 - Dupla dinâmica
Junho de 2017
As três viaturas se moviam rápido pelas ruas cariocas e a sirene espantava o costumeiro trânsito. Expedito dirigia o segundo carro do comboio com cautela e agilidade, enquanto Domênico observava alguma movimentação estranha. Mesmo com a escolta, nunca se sentia bem no transporte de presos. Ele suava com o calor do colete a prova de balas e a mão esquerda não soltava a arma que já estava em posição.
Seu coração batia rápido com a adrenalina do momento. Não era fácil ser parte da polícia, mesmo com todo treinamento, era complicado estar preparado para as situações de afronte. Os bandidos estavam sempre um passo a frente deles e vinham para matar. E particularmente naquele dia, tinha acordado com um pressentimento ruim.
Faltava pouco para chegar à CDP e ele orava em silêncio para que tudo desse certo.
Os dois presos que estavam no banco de trás da viatura eram dois grandes do tráfico do Rio e suas prisões tinham sido resultado de um grande esquema de investigação. Expedito também estava tenso, mas alguém tinha que fazer o trabalho e não podiam fugir do compromisso agora.
— 5 minutos, CDP. – a voz de uma mulher invadiu o rádio da viatura.
Expedito mal respirava, quando o copiloto notou pelo retrovisor algo estranho na viatura que os acompanhava atrás.
— Expedito! Fuga! – alertou, mas já era tarde.
Seis motos se aproximaram rápido, duas para cada viatura bloqueando a passagem dos veículos. Uma parou do lado de Expedito e outra a frente do carro. Ele tinha reduzido, mas ainda não parado totalmente. Domênico já estava com a arma em punho, quando um dos homens apontou a arma para o seu colega pedindo para parar.
— Parou, mermão! Parou! – o meliante gritou.
O carro foi freado bruscamente e quase passou em cima da moto, Expedito estava rendido. O individuo apontava a arma pra ele e Domênico para o ladrão, deixando o motorista no fogo cruzado.
— Abaixa a arma! – Domênico gritou.
— ‘Cê quer morrer, mermão?
Domênico não sabia como a arma estava tão fixa, suas mãos suavam e seus nervos tremiam. Expedito levantou as mãos, enquanto outro homem surgia na janela do copiloto. Ele sentiu o cano de uma arma sendo pressionada contra sua cabeça.
— Abaixa a arma, Domênico! – o amigo implorou.
Ele detestava ser rendido daquela forma, mas tinham muitos bandidos armados para poucos policiais. Não tinha mais jeito. Abaixou a arma e a jogou no chão do veículo erguendo as mãos em seguida.
A arma do bandido ainda estava em sua cabeça, os indivíduos gritavam uns para outros, enquanto abriam a porta traseira da viatura e libertavam os dois traficantes.
Domênico viu duas motos com cada um fugindo no banco do carona. Sentiu-se fracassado. Foi tudo muito rápido, ele esperou uma coronhada ou que uma bala atravessasse sua cabeça. Fechou os olhos e várias imagens passaram por sua mente: seus pais, sua irmã, sua sobrinha, Antônia.
Não tinha medo de morrer, sabia que era um risco que corria sendo da corporação, mas nunca se está preparado pra isso.
No fim, os homens deram fuga. Quando Domênico abriu os olhos, Expedito já começava a dar ré com a viatura, ele se abaixou para pegar a arma com medo de alguma represália. Suas mãos tremiam mais. Foi o tempo de ele erguer o rosto e ver a última moto passando por eles e uma arma apontada na direção da viatura.
— Abaixa, Expedito! – ele gritou.
O tiro estourou o vidro da frente do carro espalhando cacos de vidro nos dois policiais abaixados. Ouviu os policiais atirando de volta, até que os estampidos cessaram. Seus dedos tensos ainda seguravam a arma com tanta força que ficou com medo que ela disparasse.
— Você tá bem, Expedito? – ele se levantou com cuidado. Os cacos de vidro temperado cortando levemente sua nuca e braços.
— Tô. – o colega respondeu também se levantando. – E você?
— Graças a Deus, sim.
Os outros policiais vieram dar auxilio para os dois, os ajudando a descer do carro. A bala tinha passado exatamente no encosto da cabeça do banco que Domênico estava.
Ele começou a sentir a ficha caindo. Nunca gostou de segurar a arma e de disparar, jamais conseguiu atirar contra alguém e ficar com a cabeça em paz. Não tinha uma morte em suas mãos e queria que fosse assim até o fim. Porém, saber que sua vida não valia nada nas mãos daqueles homens foi duro.
Observava o buraco no banco, quando Expedito se aproximou dele e lhe deu um abraço.
— Valeu, amigo! Agora tá tudo bem.
— Tá sim. – retribuiu o abraço do colega.
— A delegacia e o CDP já foi avisado. – um dos colegas policiais se aproximou dos dois. – Vocês voltam com a gente. Vamos retirar a viatura atingida daqui
Eles assentiram e seguiram até o carro indicado.
Antônia andava de um lado para o outro na porta da 197ª DP. Nina tentava acalmá-la, mas seus esforços eram em vão. Depois que o delegado contou sobre a fuga dos bandidos e o possível tiroteio, nada acalmava o coração dela.
— Eles já estão chegando, Antônia. Fica calma...
— Não dá, Nina! Era pra eu ter ido nessa operação! Não... – falava rapidamente, com seus nervos à flor da pele. – Domênico foi teimoso! Ele não devia...
Sua fala foi interrompida pelo barulho da sirene de uma viatura. Ela desceu os poucos degraus que davam acesso à rua e aguardou ansiosa.
Expedito foi o primeiro a descer do carro, foi pego de surpresa e recebeu um abraço caloroso da colega. Domênico desceu em seguida, abalado, ainda chocado com a imagem do furo da bala passando em sua mente. Ele não viu o abraço dos colegas, nem aguardou o seu, seguiu direito para dentro da delegacia.
Antônia observou Domênico entrar com seus passos largos e o acompanhou, quase correndo atrás dele.
— Domênico? Domênico!
Ele entrou na sala de investigação continuada, que estava sempre vazia, largou a arma em uma mesa próxima. Seus dedos tremiam ao tirar o colete, seus olhos estavam embaçados, não sabia se eram lágrimas ou apenas o nervoso tomando conta dele.
Antônia invadiu a sala, assustada com o jeito dele. Fechou a porta para terem privacidade. Seu nervosismo foi ficando pequeno perto do dele.
Alguns pedaços do vidro caíram no chão quando Domênico conseguiu finalmente tirar o colete. Ele sentiu os pequenos cortes queimando em sua nuca, seu pescoço e seus braços.
— Domênico? – ela o chamou com mais calma agora.
Antônia era a última pessoa que queria ver agora.
Ela não sabia o que dizer, perguntar se ele estava bem era bobagem, pois era claro que não estava. Ficou em silêncio, observou os pedaços de vidro no chão e se aproximou mais. Ele respirava e inspirava fundo, segurando uma emoção que ela não compreendia.
— Parceiro, eu... – começou de novo, sua mão tocando um dos ombros dele.
Finalmente, Domênico se virou e Antônia o abraçou. Ele deu um suspiro longo e a abraçou de volta. Não precisava de palavras para demonstrar que se importava verdadeiramente com ele e tinha ficado com medo de perdê-lo daquele jeito.
Ela se afastou, seu coração estava batendo forte e descompassado com tudo.
— Eu vou pegar um café pra gente...
Quando Antônia saiu da sala, Domênico já sentia o mundo aos seus pés de novo. O choque dando lugar à realidade. Ele olhou para seus braços e tirou uma pequena lasca que tinha grudado em sua pele. Aqueles pequenos cortes eram o menor dos males. Deus o tinha protegido.
Antes de ir até a cafeteira, Antônia foi até a sala do delegado e ouviu Expedito relatar o acontecido.
— Que bom que vocês estão bem, mas cadê o inspetor Domênico? – Siqueira questionou.
— Na sala de investigação continuada, delegado. Ele tá um pouco nervoso ainda...
— Ele tá muito abalado. – Expedito respondeu, Nina o confortou segurando em seu braço. – A bala que atingiu o carro atravessou o encosto do banco que ele estava. Se não tivesse abaixado a tempo, agora ele estava morto com um tiro na cabeça.
— Antônia, conversa com ele. – o delegado disse com solidariedade. – Ele é a sua dupla. Se for necessário, está dispensado, mas antes peça para ele vir falar comigo.
Antônia assentiu e foi buscar o café. Percebeu que também tremia quando os copos térmicos não estavam firmes em suas mãos. Era inevitável pensar na imagem de seu parceiro morto com um tiro na cabeça e agora entendia porque ele estava tão fora de órbita. Domênico poderia ter morrido naquela tarde.
Quando retornou à sala, Domênico estava sentado encarando o chão, perdido em pensamentos.
— Seu café. – deixou o copo sobre a mesa e puxou uma cadeira para sentar a frente dele.
— Obrigado, Antônia. – disse ainda distraído.
Eles ficaram em silêncio e ela começou a tomar o café, tentando incentivá-lo a fazer o mesmo.
— Eu nunca atirei em ninguém. – confessou de súbito. – Sabia?
— Nosso trabalho na investigação não envolve muito o uso das armas... Mas, não, eu não sabia.
— Eu não consigo entender como a vida de alguém não vale nada. Não sei nem se ia conseguir atirar para matar um daqueles bandidos.
— Você é um cara bom, Domênico, mas nem todo mundo é assim.
— É... –pegou o copo dele na mesa. – Eu percebi.
Estava visivelmente mais calmo e Antônia sentiu seu coração se aquietar também.
— Quer ir ao hospital ou algo assim?
— Não. Isso aqui é só superficial...
Ao tomar um gole do café, ele fez uma careta que a fez rir.
— Pelo amor de Deus, Antônia! Da próxima vez deixa que eu pego...
Ela gargalhou e ele sorriu com o som da risada dela.
— Você é besta, Domênico. – deu um chute de leve na perna dele.
— Sou, mas eu sei que você ia sentir minha falta... – zombou no seu habitual tom de brincadeira, mas Antônia perdeu o riso e ele também.
— Sim. – concordou seriamente. – Eu ia.
Domênico olhou no fundo dos olhos castanhos da mulher que amava. Se ela ao menos soubesse que seu rosto era o último que tinha pensado enquanto sua vida passava a frente dos seus olhos. Se ela soubesse que aquele tom de voz o iludia, o fazia acreditar que poderia ter qualquer chance.
Antônia sustentou o olhar dele. Ainda estava amedrontada com a ideia de que ele poderia estar morto. Seu coração estaria em pedaços. Apesar do pouco tempo de amizade e convivência, Domênico era parte da sua rotina. Os dois eram uma dupla dinâmica como Siqueira os nomeou. Não conseguia mais ver seu trabalho dando certo sem ele por perto.
Ela tinha sido nomeada para aquela missão e ele se voluntariou para substituí-la.
— Antes eu do que você.
A intensidade do olhar e palavras dele a fez desviar o olhar para o café. Lembrou-se da noite do bar, era o mesmo tom de voz daquela declaração.
— Um brinde a nossa vida, então... – ela quebrou o clima e sorriu sem graça pra ele.
Eles ergueram os copos e brindaram em um silêncio cheio de palavras não ditas.
Alguns dias se passaram e Domênico finalmente estava mais relaxado, os cortes já estavam sumindo e quase não tinha mais pesadelos com o seu corpo sendo alvejado com tiros.
Era um pouco mais de dez da noite e a dupla dinâmica estava tentando resolver um caso quando Inácio, um dos policiais de plantão, bateu na porta e entrou.
— Desculpa interromper... O delegado pediu para acionar vocês, dupla. Recebemos uma ligação denunciando uma invasão em uma joalheria em Copacabana*.
— Vamos. – Antônia decidiu e ele nem questionou, apenas seguiu a parceira porta a fora.
Os dois vestiram os coletes, ajeitaram as armas, checaram as munições e partiram. Nenhuma noite era igual naquela delegacia.
Fale com o autor