Entre Céu & Mar

17 Um quente presente de boas-vindas


Notas iniciais
Como sempre, sou muito grata àqueles que estão lendo! Espero que vocês gostem deste capítulo! Acho que o título já dá uma boa dica do quem vem por aí. E acho que quem shippa Hankellyn (Hank +Evellyn) irá gostar!

Enfim... Boa leitura! E comentem, sempre deixando suas opiniões e críticas. Muito obrigada pela atenção! kisses

Depois daquele dia com Erick, Evellyn não “saiu da realidade”. Pelo contrário, ela queria enfrentá-la. Não havia sido fácil dar aquela notícia à mãe de Madison; e não queria que um dia alguém fosse obrigado a dar a mesma notícia à Kate. Depois daquele acontecimento os dias se passaram enfadonhos, e parecia que lhe eram acrescentados mais uma hora à medida que passavam. Havia recebido a notícia de que Trina agora era um dos suspeitos, e apesar de não confiar nas pessoas, algo dizia a ela que Trina não tinha culpa nisso. Na verdade, ela não podia pensar que nenhuma pessoa teria feito aquilo, pois não era um ato humano. Ela só não gostava de lembrar.

Mas, uma notícia inesperada veio na hora certa para agitar os seus dias melancólicos:

-Estou de volta neste fim de semana. –Hank anunciou assim que ela atendeu ao telefone. Evellyn não pôde evitar sentir satisfação, mas antes, queria saber o que aconteceu.

-Finalmente!Mas, o que aconteceu?

-Não foi nada. Os campeonatos terminaram antes para mim. –Ele disse, sua voz denunciando que havia algo escondido.

-Hank... Você vai me explicar isso melhor. Mas, deixa pra lá. O importante é que você vai voltar.

-Sim, para você.

-Eu vou desligar agora. Não vejo a hora para você voltar logo. Um beijão.

-Idem.

Evellyn desligou o celular com um enorme sorriso no rosto. Havia sentido muito a falta de Hank, e gostaria de fazer algo para quando ele voltar. A melhor parte da saudade é o reencontro.

-Humm... Posso saber o motivo desse sorriso bobo aí? –Kate perguntou assim que a viu.

-Hank vai voltar. –Ela anunciou.

-Que bom! Será que finalmente iremos conhecê-lo então?

-Provavelmente. –Ela disse.

Ágata ouvia sem nem ao menos se importar; achava que Hank era apenas mais um dos amigos errados da irmã errada, que só incentivava Evellyn a errar ainda mais do que errava. Resumindo, um equívoco. Era engraçado como ela podia chegar a essa conclusão sem nem ao menos conhecê-lo. Mas ela não dizia nada; sabia muito bem que a irmã não dava a mínima para o que ela pensava. Antônimo a ela, Erick achava que Evellyn era muito mais do que falavam, mas como de costume não disse nada. Ele e Ágata andavam discutindo e ele não queria piorar.

-Parece que minha irmã está tomando jeito. Ultimamente não tenho escutado nada de ruim vindo dela. Você está fazendo milagres, Erick. –Ela comentou com Erick.

Eles estavam na sala, distante de todo mundo, onde podiam conversar particularmente.

-Não estou fazendo nada demais, apenas não a julgo e lhe dou conselhos. É isso que os amigos fazem. –Ele disse. Nas últimas semanas, eles haviam se tornado grandes amigos, uma amizade que Evellyn não tinha desde Madison. E aquilo lhe fazia bem.

-Entendo. É você tem razão. E a banda, como vai indo?

-Caminhando. Por quê? Decidiu nos ouvir?-Erick disse, embora se mostrasse incrédulo a isso.

-Erick, meu amor... Você sabe, agora com o trabalho voluntário no hospital fica mais apertado... –Ela disse, e acredite: Ágata queria muito ver a banda de Erick. Ela o apoiava sim, mas ainda não era o bastante.

-Entendo. Eu já devia estar acostumado. –Ele disse, enquanto fitava o nada, pensativo. Ágata quase perdia o fôlego quando ele ficava assim, taciturno. Parecia ficar ainda mais belo do que já era.

-Ei... –Ela chamou a sua atenção, virando o seu rosto para fitar o seu. Ágata lhe deu um beijo longo e delicioso, que no momento o fez esquecer o que estava refletindo. Beijos inesperados como aquele tinham um sabor especial, um sabor de surpresa.

-Eu vou sim. Quero que saiba que eu apoio tudo o que você faz. É que às vezes parece que o destino nunca está ao meu favor.

-Está tudo bem. Quando você quiser... –Ele disse, beijando-a outra vez. Foi quando se lembrou do que ele tinha para falar.

-Olha... Eu tenho um amigo que está vendo um show para The Traverlers na Carolina do Norte. É onde ele mora e...

-Carolina do Norte? Não é onde o seu pai mora? –Ela disse quase que automaticamente.

-Como você sabe disso? –Ele pergunto surpreso.

Ágata estava naquela encruzilhada onde geralmente ficamos quando soltamos algo totalmente desnecessário.

-Você me contou.

-Não, não contei não. Eu nunca comento nada sobre o meu pai com você. Como você sabe onde ele mora?

-Pauline me contou. Eu não pude não ouvir o que você e sua mãe falavam naquele dia. Desculpe. Mas nós três achamos que você deveria falar com ele. Por que não aproveita essa chance?

-Por quê? Talvez seja porque meu pai foi embora quando eu tinha cinco anos, e eu ficava esperando feito um idiota uma ligação dele nos natais, nos aniversários; porque eu passei todos os dias dos pais sozinho me perguntando onde ele havia se metido e quando voltaria; porque eu descobri que o meu pai gastava o dinheiro todo com bebida e não estava nem aí para a minha família; porque eu cansei de esperar ele voltar e eu cresci sem ele, e não preciso dele agora. E o mais importante, porque eu não suporto quando a minha família fala sobre ele como se nada tivesse acontecido. E agora você também. Pensei que fosse a única que não me julgaria, pois sabe muito bem como faz falta um pai. –Erick soltou o verbo, e realmente parecia magoado. Ele estava irritado com o pai, e mais irritado ainda com Ágata, por ter entrado no mesmo complô da família dele.

-Mas é por isso que eu quero que vá falar com ele. Diferente do meu, seu pai ainda está vivo, e quer ficar ao seu lado. Você não sabe a sorte que tem! –Agora quem estava magoada era Ágata.

-Mas para mim é como se estivesse morto.

-Para de drama, Erick. Você não entende. Quando o seu pai morrer você vai ficar se culpando e perguntando por que não o procurou quando ele apareceu. E aí, vai ser tarde demais. –Ágata disse, lembrando-se do drama que sua irmã enfrentou e ainda enfrenta. Não queria aquilo para Erick. Não mesmo.

-Não, quem não entende é você, Ágata. O mundo não é um conto de fadas onde tudo termina com “felizes para sempre”. Eu sei que ele vai acabar indo embora de qualquer jeito e não quero passar por isso novamente. Assim como não quero mais falar sobre isso, então é melhor eu ir embora.

Ele deu sua cartada final, saindo porta afora batendo com tal força que Ágata sentiu abalar todo o seu interior. Se bem que ele já estava abalado bem antes disso. Ela tentou chamá-lo de volta, mas Erick já havia entrado dentro do carro, ligado o som e saído, despejando sua fúria toda no acelerador. E ela ainda pensou que poderia lhe ajudar desse jeito. Isso sim era um equívoco!

*****

Uma tarde refrescante, uma sorveteria e Charlie. Era a combinação perfeita para tirar todas as preocupações da cabeça de Anna, mas mesmo assim, ela continuava distante e irritadiça com tudo ao seu redor. Mesmo descontando tudo em Charlie, ela sentia pena dele, por ter que aguentar seus ataques.

-O que está acontecendo afinal, Anna?Você está naqueles dias? –Charlie já não aguentava mais os chiliques da namorada.

-Sim, estou! E daí?!

-Daí que eu não fiz nada para você descontar em mim!

-Desculpe por ferir seus sentimentos, minha flor! –Ela disse, sem controlar o deboche.

-Por que eu acho que tem mais coisa aí, e que você não quer me contar?

Anna não respondeu.

-Vamos... Me conta o que está acontecendo. Talvez eu possa ajudar.

-Duvido muito. –Ela respondeu.

-Tenta. –Ele disse.

-Sofia está começando a desconfiar sobre nós. –Ela soltou.

-E daí? Okay, eu não gosto nem um pouco dela, mas ela é sua amiga, não é?

-Depende da sua definição de “amiga”.

-Qual o problema dela saber? Você está com vergonha de mim?

-Não! Não é isso... É que. Eu tenho medo. Eu não tenho sorte nessas coisas. E se ela souber, vai fazer de tudo para estragar o nosso namoro. E, eu não quero isso. Sabe, quando menos souberem, melhor. –Ela disse com a insegurança estampada em seu rosto.

Charlie lhe fez um cafuné no cabelo, e a trouxe para mais perto de si. Anna aninhou-se a ele como se aquela fosse sua zona de conforto. De certo modo era, afinal.

-Nada que eles tentarem fazer vai me separar de você. Sou vacinado contra as críticas alheias, lembra? –Ele disse, sorrindo para ela de uma forma que dizia que tudo ficaria bem. Como ela queria acreditar no seu sorriso. Ela apenas assentiu com a cabeça.

-Agora tome o seu milk-shake. –Ele disse, levando o canudinho à sua boca. Ela recuou o canudinho e puxou o seu rosto contra o seu, beijando-o. Um beijo calmo, mas que se tornava cada vez mais intenso. E, enquanto ele beijava o seu pescoço, ela se perguntava quanto tempo aquilo iria durar. Charlie fora o único que ultrapassou sua barreira de proteção, a qual ela usava para espantar todas as pessoas que poderiam gostar dela. Agora já era, já havia se envolvido e não podia voltar atrás. E algo lhe dizia (talvez o pessimismo) que ela iria passar outra vez pela dor da decepção. E não, ela não queria sofrer isso novamente.

*****

Um verdadeiro furacão havia passado na vida de Trina, naquele momento. A polícia continuava fazendo perguntas e tratando-a como o maior suspeito depois de Connor. E a cada descoberta que eles faziam, sempre apontavam para ela. O “cabeça” de toda essa história era mesmo um gênio doentio. Ele ou ela provavelmente faria de tudo para culpar Trina, e ela precisava tomar uma providência, e rápido. Mas, como ela iria lutar pela sua inocência se ninguém acreditava nela? Nem mesmo Evellyn e Ágata acreditavam nela. Mas ela não as culpava. Em seu lugar faria a mesma coisa. Ela gostaria de ir à polícia e contar tudo que sabia, mas eles a tratariam como louca. Como iriam acreditar nela sem provas? Nem mesmo você, caro leitor, iria acreditar nela sem provas. Ou talvez sim, pois há muitas pessoas ingênuas nesse mundo.

Ela precisa descobrir onde Connor está. Isso ajudaria muito. Se a polícia o encontrasse ele não teria escapatória. Teria de confessar. Ele sabia disso, Trina sabia disso e “o cabeça” também sabia disso. Ela poderia ir atrás dele se a polícia não tivesse dado ordens para permanecer na cidade. Mas ela não iria desistir. Faria de tudo para mostrar que mais uma vez as pessoas estavam enganadas a seu respeito.

-Será difícil sozinha, -ela murmurou- mas isso nunca foi problema para mim.

Ela disse, olhando para a mesa cheia de todas as informações que conseguira sobre Connor. Aquilo agora era a sua obsessão, e ela não iria descansar até encontrá-lo.

*****

-Que tal um luau? –Evellyn sugeriu a Solange, enquanto tentavam decidir o que fazer quando Hank voltasse. Não podiam deixar de comemorar.

-Que tal uma roda de violão? É mais fácil de organizar, em vista do pouco tempo que temos. A gente acende uma fogueira, faz um churrasco, bebe, e canta algumas músicas.

-É a cara dele. –Evellyn disse. Solange concordou. –Acho uma boa ideia. –Evellyn concluiu.

-Sim, é sim. Pode deixar que eu cuido de tudo. Você fica responsável por ele.

-Okay. –Ela disse super animada, ansiando que os dias passassem logo e chegasse o tão desejado sábado.

*****

Os relógios finalmente resolveram ajudar Evellyn, e os minutos passavam correndo, enfim. Tudo uma questão de ponto de vista, pois eram os mesmos 60 segundos de outrora, mas a sensação de enfado havia desaparecido, o que lhe causava a ilusão de um tempo mais rápido. Solange já havia preparado tudo, e sábado havia chegado. Motivos para se comemorar, enfim!

Por outro lado, Ágata não usufruía da mesma alegria. Não havia falado com Erick desde então. Não sabia se ele iria mesmo à Carolina do Norte. Ela achou que seria algo bom ele voltar a falar com o pai. Mas agora, além de não falar com o pai, também não falava com ela. Uma parte dela queria ligar, pedir desculpas, e dizer que tudo se ele ignorar o pai, a menos que parasse de ignorá-la. O silêncio dele era a pior das torturas. Mas o orgulho a impedia de fazer isso.

O que ela não sabia era que havia plantado verde na mente de Erick. Mesmo sentindo raiva de Ágata, ele não parava de pensar na ideia. Fazia onze anos que não via o seu pai. Não sabia como ele estava. Se estava saudável. Nem sequer se lembrava do seu rosto direito. Onze anos são muitíssimo tempo. Onze anos não se podem resumir em onze dias. E ao pensar assim, ele se virava na cama, e fechava os olhos, convicto de que não precisava do seu pai naquele momento, e pouco lhe importava se ele estava bem ou não. Mais uma vez, essa barreira chamada orgulho que vem separando pessoas desde que o mundo conheceu as coisas más.

-Ligue para ele. –Kate jogou o celular de Ágata na sua cara, acordando-a do transe em que estava, jogada no sofá.

-Ai! Isso dói, sabia?

-Era para doer mesmo. Vê se acorda!

-Eu estou acordada. Eu estou lendo. –Ágata se defendeu. Ela tinha um exemplar de Orgulho e Preconceito sobre o peito.

-Então quer dizer que você tem olhos ao invés de mamilos?

Kate realmente não podia passar sem uma de suas piadinhas.

-Kate! Você está difamando os meus mamilos! –Ágata gritou rubra de vergonha.

-Perdoe-me, mamilos. Agora, ligue para ele. Ou então, fale pessoalmente. O orgulho separa muitas pessoas, e realmente não quero que isso aconteça com vocês. Você parece feliz ao lado dele.

Ágata sorriu e agradeceu Kate. Ela parecia sempre saber o que dizer. Olhou para o telefone, sentindo o impulso de ligar, mas não obedeceu aos seus instintos.

A campainha soou tirando a atenção dela.

-Eu atendo, eu atendo, eu atendo, eu atendo! –Evellyn desceu a escadaria de supetão.

-À vontade. –Kate disse, associando sua alegria a apenas alguma coisa.

Hank estava parado à porta, lindo como sempre. Os cabelos louro-escuros molhados. Seu perfume inundou de imediato a varanda. Como Evellyn amava aquele perfume! Como ela sentia falta daquele perfume!

Sem esperar mais, ela se lançou para os seus braços, que a agarraram de tal maneira, que pareciam que nunca mais iriam soltá-la. Era como se a sua cintura fosse um ímã para suas mãos. Eles dispensaram qualquer palavra e partiram logo para um beijo longo, intenso. Eles teriam muito tempo para por o assunto em dia. Depois. Eles continuariam ali se não fosse por Kate.

-Evellyn, dá para deixar a boca do rapaz livre por um momento? Eu quero conhecê-lo. –Ela disse, trazendo os dois para a realidade. Evellyn estava tão vermelha quanto a blusa que usava.

-Aah sim... Hank, essa é Kate. Minha tia que sabe como ninguém como constranger uma sobrinha, e que odeia ser chamada de “tia”. Kate, este é Hank.

-Muito prazer, Hank. Já ouvi o bastante sobre você para conhecê-lo um pouco.

-Não acredite em nada que lhe disserem. –Ele brincou.

-Ah que isso. Você é bem mais gatinho de perto.

-Obrigada. –Ele disse, seguido de um riso constrangido. Evellyn olhava para Kate, incrédula.

-Vocês não querem entrar um pouco?

-Não, não! Estamos com pressa! –Evellyn disse, puxando o braço de Hank para a direção contrária.

-Estamos? –Hank perguntou sem entender nada.

-Esperem! Antes de irem, Ágata! Venha conhecer o seu cunhado! –Kate chamou Ágata, que se aproximou da porta.

Hank reconheceu de imediato o rosto idêntico ao de Evellyn. Mas a impressão que tinha era que haviam dado outra personalidade à sua namorada. O que as tornava pessoas totalmente diferentes.

-Prazer. –Ágata disse, estendendo-lhe a mão.

-Prazer. –Ele retribuiu o aperto de mão.

-Okay, apresentações feitas, agora vamos. –Evellyn disse, puxando o braço de Hank.

-Ok... Já estou indo. Foi um prazer conhecê-las. –Ele disse, sendo puxado por Evellyn.

-Igualmente! –Kate gritou, antes que o perdesse de vista.

-Aonde nós vamos? –Hank puxou as chaves do seu carro assim que teve seus braços livres.

-É uma surpresa. –Ela disse. –E eu vou dirigir.

*****

Mesmo sem entender nada, Hank não insistiu. No caminho até a praia, eles foram conversando, explicando coisas que não haviam sido explicadas. Evellyn lhe contou o que havia acontecido no dia em que Madison fora embora. Como era de se esperar, Hank ficou enfurecido, mas desta vez parecia preocupado.

-Eu entendo sua preocupação com Madison. Mas não podemos fazer nada. –Ele disse o que era verdade. Evellyn não tocou mais no assunto. Aquela era uma noite especial, e ela não queria estragar a comemoração com aquele assunto.

E como era de se esperar, Hank lhe contou como haviam sido os últimos dias. Ele estava indo muito bem, vencendo vários campeonatos, e ganhando certa reputação. Mas, um dia ele se drogou muito e não compareceu a um campeonato. Quando ficou sabendo, o patrocinador enfureceu-se. Disse que Hank era um ótimo surfista e que tinha futuro, e que o procurasse quando adquirisse responsabilidade e saísse daquele mundo. Hank contou aquilo demonstrando vergonha, e na verdade, ele tinha vergonha sim.

-Queria a menos uma vez provar ao meu pai que eu não sou o que ele diz que eu sou, mas eu fracassei. Mais uma vez. –Ele disse, olhando para o vazio.

-Eu sinto muito. –Foi só o que ela disse. Ela não estava chateada, e nem desapontada com ele. Apenas preocupada.

-A culpa foi minha, Eve.

-Isso é fato. Mas, e se você tentasse parar? –Ela sugeriu.

Hank olhou para ela incrédulo.

-Eve. Eu não sou um viciado. Eu posso parar a hora que eu quiser. –Defendeu-se ele.

-Se você está dizendo.

E eles não disseram mais nada até chegar à praia. Seguiu-se pelo resto do caminho um silêncio constrangedor, que só não se tornava completo graças ao ronronar do carro. Quando enfim chegaram, Hank estranhou.

-O que vamos fazer aqui nessa praia agora?

-Siga-me. –Foi só o que ela disse. Hank a obedeceu.

Não demoraram até encontrar uma turma reunida ao redor de uma fogueira, e o som do violão de longe. Hank olhou para aquilo e de imediato pressentiu.

-Sério isso? –Ele disse, apontando para aquela direção. Evellyn apenas assentiu.

Assim que perceberam a chegada do casal, todos se viraram e gritaram bem alto, como fazem aquelas turmas de jardim de infância:

-BEM-VINDO DE VOLTA, HANK! –E correram para abraçá-lo. Todos os seus amigos mais próximos estavam lá.

-Valeu gente, valeu mesmo! Eu não merecia. –Ele disse com um largo sorriso no rosto. E Evellyn ficou feliz ao ver que ela estava melhor. Às vezes Hank não fazia ideia do quanto é importante. Principalmente para ela.

-Ei? E eu vou sobrar? –Disse Solange que se aproximava.

-Claro que não! –Ele disse, abraçando-a.

-Onde está o seu pai? –Hank quis saber.

-Bom... é que ele não está muito bem, desde... você sabe. –Ela disse com um sorriso constrangido no rosto.

-Entendo.. Eu sinto muito. –Ele disse.

-Tudo bem. Mas então, agora que Hank chegou, vamos começar logo? –Solange disse, aumentando o tom de voz na segunda frase.

Todos voltaram aos seus lugares em volta da fogueira. Solange pegou de volta o seu violão e começou a cantar canções conhecidas e animadas. Outra pessoa trouxe a carne, e todos se serviram com fartura. Principalmente Hank, que estava morto de fome. Outra pessoa trouxe as bebidas, e todos se serviram com igual fartura. Pareciam estar num deserto e aquelas latinhas eram o único líquido que teriam visto há meses. Depois de algumas, Evellyn até arriscou tocar algo no violão. E embora todos dissessem que ela tocava bem, ela sempre discordava.

Algo totalmente simples, mas com as devidas companhias se torna inesquecível. E uma noite animada daquelas era tudo que Hank precisava.

Depois de algum tempo, Hank tirou um baseado do bolso, num movimento quase que automático. Ele estava quase acendendo quando Evellyn o impediu. Hank a olhou com cara de poucos amigos, como que a perguntar o que diabos ela estava fazendo?

-Por favor. Eu quero que você fique sóbrio e limpo, só por hoje. Não quero que esqueça tudo isso depois. Você disse que consegue. Só por hoje. –Ela disse num sussurro. Hank hesitou por um momento, mas aceitou.

A certa altura da noite, a maioria já estava consideravelmente ‘alto’. A ironia era que Evellyn fazia parte da minoria sóbria. Ela e Hank. Mais ironia ainda.

-Kate vai ficar feliz ao ver você chegar sóbria em casa. E num fim de semana ainda! –Hank comentou.

-Com certeza. Mas ela não será a única feliz. Vamos caminhar um pouco? –Evellyn sugeriu.

-Vamos. –Hank disse, se levantando. –Ah... Gente, nós vamos caminhar um pouco...

-Hank. Esquece. Eles nem devem se lembrar do próprio nome agora. –Evellyn disse puxando ele.

-Tem razão. –Ele concordou, seguindo-a.

*****

O caminho dos dois fora iluminado pelo intenso brilho da Lua cheia, com sua luz ao mesmo tempo pálida e brilhante. Tão brilhante que nem parecia noite. Um brilho que combinava tanto com a Lua, que nem parecia ser apenas reflexo da luz do Sol. Era realmente uma noite muito bela.

-Vou te levar a um lugar muito legal. –Hank quebrou o silêncio, se lembrando das vezes em que vinha àquela praia para ficar sozinho e pensar.

-Que lugar?

-Ah, quer dizer que só você tem o direito de fazer surpresas, é? Relaxa, logo você vai ver.

Hank a levou até o antigo observatório de salva-vidas. Era uma pequena casinha branca feita de madeira. Havia uma pequena escada, e um bote salva-vidas ainda permanecia ali, mesmo que sua única função agora fosse de item decorativo.

-Quantas você já trouxe aqui? –Evellyn brincou.

-Muito engraçada você. –Ele disse, revirando os olhos. –Na verdade, você é a primeira pessoa que eu trago aqui. Esse foi sempre o meu “lugar para ficar sozinho”. Ou melhor, era. –Ele disse, estendendo a mão para Evellyn.

Eles subiram a pequena escada e sentaram-se ali. E foi quando Evellyn percebeu porque Hank gostava tanto de lá. Olhar toda aquela imensidão realmente era bem reflexivo. Ela até gostaria de fazer alguma poesia sobre aquilo, se levasse jeito.

Nessa hora sentiu falta do seu caderno, pois pintura era a sua forma de fazer poesia.

-É lindo. –Foi só o que ela disse, enquanto degustava a brisa envolvente e fria que vinha do mar. Ela até podia sentir o cheiro da água salgada. Ela amava aquele cheiro. Porque lembrava Hank. E, dentro do seu coração orgulhoso, ela sabia que o amava, mas infelizmente o cérebro ainda não tinha certeza.

-Essa cidade tem sua beleza, apesar de tudo. –Hank disse, olhando para a paisagem que ele nunca se cansava de olhar, e que agora compartilhava com Evellyn.

-Claro que sim. Aliás, essa é uma cidade boa. O ruim são as pessoas. –Ela concluiu.

-E nós também, porque temos mania de pensar grande, para bem longe de O.C.

Então Evellyn desviou o olhar para Hank. Seus olhos verde-oceano tinham um olhar meio sem destino. E ela sabia que ele estava pensando. Pensando no que havia acontecido. Pensando e se sentindo um nada. Pensando se algum dia iria sair dali. Pensando se algum dia ele conseguiria se tornar um grande surfista. Mas aquele sonho lhe parecia tão ridículo! E aquilo instantaneamente tomou conta dela.

-Acho que sou um fracasso, Eve. –Ele assumiu cabisbaixo.

Evellyn pegou o seu rosto com as duas mãos , de modo que ele não tivesse outra opção senão a de olhar para ela.

-Nunca, e eu disse, nunca mais repita isso novamente, Okay? Hank? Okay?

Ele apenas assentiu que sim, e voltou a fitar o vazio.

Ela poderia dizer o quanto ele era especial, o quanto ele era importante, e o quanto doía quando ela o via daquele jeito. Mas ao invés disso, ela apenas o beijou com fervor, e o abraçou forte. Um beijo longo que logo iniciava o outro, numa intensidade inédita para os dois. Hank tinha suas mãos em volta da sua cintura, e num movimento leve tirou a sua blusa. Evellyn não sentia medo, mas uma sensação similar a um frenesi. Ela agora desabotoava a sua camisa, enquanto ele dava leves mordidinhas no seu pescoço. Aquela era um sensação jamais sentida por ela, mas Evellyn não tinha dúvidas como da última vez. Agora ela sorria, sorria como se sentisse uma felicidade jamais sentida.

Em certo momento os dois se encararam. Os olhos de Hank, ainda hesitantes, e os olhos de Evellyn como que a permitir que avançasse. E não precisaria dizer mais nada sobre o que aconteceu após toda essa comunicação visual. Eles ficaram por lá por um bom tempo, enquanto Evellyn se dava conta de que o seu lugar era entre os braços de Hank. Longe de todos os olhares curiosos, a Lua era a única testemunha do ato daqueles amantes enamorados.

Notas finais
Então... O que acharam deste quente presente de boas-vindas? Vem mais por aí... Mas Hankellyn não permanecerá neste bem bom por muito tempo não...

Até o próximo!