Entre Céu & Mar

7 Contagem Regressiva


Notas iniciais
IMPORTANTE, LEIAM ISSO! Antes de começarem a ler esse capítulo, alguns leitores que não participam do grupo do facebook não sabem que esse capítulo é diferente. Um capítulo bônus, um flash back. Voltamos três anos atrás, no ano em que seus pais morreram. Bem, é so isso que eu queria falar! Espero que gostem! Comentários podem ser feitos no grupo do facebook:http://www.facebook.com/groups/539622919387064/ boa leitura! ;)

Três anos atrás, Newport, Califórnia

Aquela talvez tenha sido a semana mais caótica daquele ano. O calor fora de época contribuía para que os nervos ficassem à flor da pele. Ágata nunca se imaginaria tão tensa. Numa mesma semana provas, trabalhos, e ainda horas e horas de treinos cansativos de balé. Estavam ensaiando para a próxima apresentação, onde representariam “Giselle”, uma das mais conhecidas. Ela precisava se destacar, afinal, o que o seu pai diria se a visse em segundo lugar? Já as provas, não eram um problema até as brigas entrarem para a “rotina familiar”. Seus pais discutiam com sua irmã sempre, e na maioria das vezes, por motivos insignificantes. Sempre sobrava para ela, quando implorava, aos prantos, que deixassem sua irmã em paz. Com isso, era quase impossível se concentrar na matéria, e ela revirava noites, tentando estudar em paz.

–Ágata Baker, é sua vez agora. ­­­­- O professor anunciou, tirando Ágata de suas reflexões. Ela caminhou até o centro da sala, todos olhavam para ela, esperando o melhor. Estava nervosa, tentou sem sucesso concentrar-se ao máximo para fazer o melhor. E quando a música começou a tocar, fez os passos com absoluta precisão, perfeitamente corretos. Esse foi o problema, parecia ser automático. Faltava algo, e ela sabia disso. A tensão havia atrapalhado, pois lhe faltou a magia.

–Ok Ágata, isso é tudo. Pode voltar para o seu assento.- O professor disse. Ágata seguiu para o seu assento, desapontada consigo mesma. Sabia que poderia ter feito melhor. O professor chamou a última garota. Era Valentina. Quando a música começou a tocar, ela realmente deu o seu show. Quando Valentina dançava, as pessoas podiam enxergar a sua áurea. Ágata já previa o resultado, Valentina seria a escolhida. E para confirmar, o professor anunciou, com toda a pompa, que a que mais havia se destacado era Valentina, enquanto todos aplaudiam.

No caminho de casa, como sempre Sofia e Ágata caminhavam juntas. Sofia não parava de se opor contra a escolha do professor, como se tomasse as dores de Ágata para si:

–Não acredito naquele palerma do profº Edmund! Qualquer um com o mínimo de bom senso poderia ver que você é bem melhor que ela!

–A questão não é quem é melhor do que quem. Eu não fui bem hoje, só isso!

–Que nada! Foi trapaça mesmo! Todo mundo conhece a mãe da Valentina! Uma dançarina e tanto, deu importância ao nome da escola, porque também começou lá. É só por isso que ela tem o seu crédito. Pra falar a verdade, acho que o professor anda envolvido com a mãe dela.. — Sofia jogou o seu veneno.

–Pare de inventar coisas que não existe, Sofia! Ela foi bem, e mereceu.

–Ai ai... Ágata... Sempre vendo o lado bom das pessoas. Mas se eles trapacearam, nada impede de fazermos o mesmo.

–Sofia! O que você tem na cabeça? Ninguém trapaceou e ninguém vai trapacear, entendeu?

–Não é nada demais, Ágata! Tudo que precisamos fazer é sabotar as sapatilhas da princesinha, assim ela vai errar todos os passos e pronto! Você nem precisa fazer o trabalho sujo! — Sofia sussurrava agora.

–Não, nada disso Sofia! Não é justo com ela! Eu nunca faria isso!

–O mundo não é justo, Ágata. Pense bem. O que o seu pai vai pensar de você? — Sofia tocou no ponto fraco. Ágata ficou em dúvida de qual resposta dar.

–Ele vai ficar decepcionado, eu sei. Mas isso não é culpa de Valentina!

–Você que sabe. Bem, se mudar de ideia é só me ligar.-Sofia disse, por fim, seguindo o caminho para a sua casa.

Ágata chegou a casa desanimada. A proposta de Sofia ainda lhe parecia absurda. Era verdade que ela e Valentina não se davam bem, e que ela não suportava a ideia de ser a segunda melhor, mesmo assim, não seria justo e iria contra os seus princípios.

Uma espécie de discussão vinda da cozinha lhe chamou a atenção, era sua mãe ao telefone:

–Como assim? Ela pichou o muro da escola?! Não acredito que ela fez isso! E a segurança desse colégio, onde fica hein?

–Tudo bem, diretora Susan, a suspensão é justa sim. E pode ter certeza de que teremos uma conversa severa com ela. Tenha um bom dia. –Scarlet desligou o telefone fervilhando de raiva.

–Mãe, está tudo bem?-Ágata demonstrou preocupação, mas sua mãe ignorou-a completamente.

–Evellyn!! Desça imediatamente!!-Ela disse. A figura de Evellyn apareceu segundos depois.

–O que foi? -A expressão de inocência no rosto de Evellyn quase fez sua mãe vomitar.

–"O que foi?!" Olha como ela fala!A diretora acabou de ligar. Flagrada pichando o muro da escola! Evellyn, pelo amor de Deus, o que você tem nessa sua cabeça?!

–Não mãe, não é verdade! Eu estava lá, mas não pichei muro nenhum! Eu juro! Eu estava tentando impedi-los de pichar!

–Ah, me poupe Evellyn! Você é muito sonsa! Acha mesmo que eu vou acreditar no que você disse? Só tinha você lá, nem adianta tentar por a culpa em outra pessoa! Não é de hoje que você apronta essas suas rebeldias!

–Eles fugiram mãe! Eu não mecho que com essa coisa de pichação!

–Eles encontraram sprays de tinta na sua mochila, Evellyn, pare de mentir!

–Não estou mentindo! Eu faço grafite, não sou uma vândala! Acredite em mim, só dessa vez! — Evellyn implorava, mas sua mãe não parecia acreditar em uma só palavra.

–Chega dessa discussão! Parece que só sabe falar gritando, menina! Quando seu pai chegar você vai ver!-Ela disse, voltando para a cozinha, enquanto continuava resmungando sobre qualquer coisa sobre fardos e filhos rebeldes.

–Não me confunda com você. -murmurou Evellyn, baixo o bastante para que sua mãe não ouvisse. Tudo que ela não precisava agora era ser mais xingada. Ela sabia o que viria depois. Ela não tinha culpa de nada, pelo contrário, tentou impedi-los, mas foi pega no flagra, com tinta spray nas mãos e as roupas sujas. Os outros fugiram, deixando-a sozinha para levar a culpa. Por mais que tentasse falar a verdade, eles nunca acreditariam, nem a deixariam se defender. Eles sempre desconfiavam dela apenas pelo fato de ela ser, “ela”.

***

Como havia previsto, seu pai não acreditou em nada do que disse.

Eellyn! Estou criando pessoas de bem, não marginais! Que droga! Você só nos trás dor de cabeça! Estou farto!

“Pai!Pelo amor de Deus! Não sou uma marginal! Eu não picho, eu fago grafite!”

–Basta! É tudo coisa de gente de rua! Isso nunca será arte! Aliás, essa sua “paixão” por arte não a levará a lugar nenhum! Está proibida de chegar perto de tintas, ou qualquer desenho, que não seja trabalho escolar! Com você tem que ser assim, leis rígidas. E eu não quero saber que você voltou a pintar! Agora suba para o seu quarto e só saia de lá até aprender a ser gente! ”Aquilo foi o cúmulo do absurdo para Evellyn.

–O quê? Isso não é justo! Vocês não podem me privar disso!

–Oh que piada! É claro que sim, somos os seus pais, e você tem que nos respeitar! Suba para a droga do seu quarto, antes que as coisas não piorem!

–Vocês são hipócritas! Isso não tem nada a ver com respeito!

–Evellyn! Cala a boca! — Seu pai grunhiu, levantando a mão.

–Evellyn, pelo amor de Deus, vá para o seu quarto! Seu pai está alterado!

Evellyn subiu para o seu quarto aos prantos. “Eles nunca entendem, meu Deus, é insuportável morar nessa casa”. Atirou-se na cama enquanto tentava, sem êxito, abafar o choro. Sua mãe ouviu seus gemidos pela porta:

–Chorar pra quê? Como se isso fosse ajudar em alguma coisa. Você não é mais um bebê. Tem muito que aprender nessa vida menina! Tanta gente passando por sofrimento maior e você aí, chorando por nada. A culpa disso tudo é sua!

Sua mãe gritou da porta. Suas palavras eram como facas, e atingiam em cheio o coração de Evellyn. Todos os dias eles brigavam, e pelos motivos mais banais que poderia se imaginar. Ela não suportaria viver mais daquele jeito. Em momentos assim, ela sentia um ódio tremendo dos pais. Tudo que desejava naquele momento era que aquele sofrimento tivesse um fim. Ela invejava os pais de seus amigos, embora que tivessem suas brigas, (porque nenhuma família é perfeita) em algum momento eles tinham seus pais por perto, podiam conversar sobre várias coisas nas quais nunca se imaginaria conversando com os seus. Apoiavam, demonstravam amor em diversas formas, eles podiam ter uma vida normal. Ela não. E aquilo era muito injusto, e só aumentava ainda mais o ódio que sentia por eles. Todos os dias terminavam em brigas e prantos, e ela se perguntava o porquê de tudo aquilo, a única resposta que achava, é que devia ser mesmo o monstro que eles diziam que ela era, para merecer aquilo.

***

Depois do jantar, todos pareciam calmos. Evellyn não havia descido, e nem comeria, porque as brigas mexiam tanto com ela que chegava a perder o apetite. Andrew parecia estar mais calmo agora, sentado na sua poltrona, enquanto lia o jornal. Ágata estava no piano, tocando clássicos que o seu pai mais gostava. Ele adorava orquestras. E ela sabia que isso o acalmaria, pelo menos um pouco.

–Muito bem, Ágata. Perfeito como sempre.

–Obrigada, pai.

–E então, como foi no balé hoje? — Andrew perguntou, mas na verdade, não ligava para os detalhes.

–Bem, foi normal.

–Você me disse que hoje eles escolheriam a bailarina para estrelar Giselle, não é? Aposto que não teve para ninguém, você é a melhor bailarina daquela escola. Claro, é uma Baker. Não admitimos derrota!”Disse o pai, todo orgulhoso.

–Bem, pai, na verdade...”Ela não pode terminar a frase, porque o pai a puxou para um abraço. Fraco, talvez, mas o primeiro em muitos meses. Eram raras as demonstrações de carinho entre eles. Andrew era um homem frio, mas mantinha todas as suas esperanças em Ágata, sentia que podia moldá-la, torná-la a filha perfeita que pediu a Deus.

“-Ágata.. Minha filha. Sempre me impressionando. Sei que nunca irá me decepcionar. Ah! Se sua irmã fosse como você, não só pela aparência, mas pelo caráter, eu seria o homem mais feliz desse mundo! E então, o que você quer me contar?”

A julgar por tudo que havia ocorrido durante aquela tarde, parecia ser desnecessário lhe dizer que não iria estrelar em Giselle. Achou melhor não dizer nada, pelo menos, não agora.

“-Nada com o que se importar agora, pai. É melhor eu ir para o meu quarto, tenho uma prova amanhã.” — Disse ela, retirando-se.

No quarto, sozinha no meio de todos aqueles problemas matemáticos, Ágata pensou no que faria agora. Seu pai estava tenso, e contava sempre com ela. Com o compromisso do balé, e tantas provas a caminho diminuía o seu desempenho em ambos. Se ele percebesse que não ia bem nas aulas como antes, poderia até tirá-la do balé. Ser perfeita parecia ter se tornado a sua obrigação, e não iria suportar olhares desapontados. Além disso, Valentina nunca fora gentil com ela, sempre rude, a chamava de fraca, entre outras coisas. Ela era sua rival. Ágata teve vários insights ao mesmo tempo, e percebeu que, muitas vezes Valentina tentou lhe prejudicar. Agora tinha uma chance de mostrar que não era fraca e ingênua como todos pensavam. Podia se vingar. E, no momento de loucura, pegou o celular e discou o número conhecido.

“-Alô, sim, eu me decidi. Faça o que tiver de fazer.”-E desligou.

***

Enfim havia chegado o dia da apresentação. Ágata estava nervosíssima, mais por Valentina do que por ela. Estava arrependida de ter confiado em Sofia.

“-Você parece um pompom de líder de torcida!”-Disse Evellyn, enquanto observava a figura da irmã provando a roupa no quarto.

“-Chama-se tutu, Evellyn.”-Corrigi ela. Scarlet entrou no quarto, e como se fosse um repelente, Evellyn saiu na mesma hora.

“-Vamos logo, senão vai se atrasar.”

“-E o meu pai? Até agora ele não chegou.”

“-Ele não vai poder ir, está com muito serviço, e por isso vai ficar até tarde no trabalho.”-Scarlet disse, demonstrando desconfiança. Ágata ficou decepcionada. Todo aquele esforço para agradar o seu pai, e nada. Nada era suficiente. O trabalho era sua prioridade. Família era sempre a última opção.

“-Entendo.” — Foi só o que disse, porém, haviam muitas palavras duras engasgadas, que ela nunca teria coragem de falar.

“-Vamos logo. Quanto mais cedo irmos, mais cedo voltamos.”- E as duas seguiram para a escola de balé.

***

Ágata e as outras bailarinas eram só parte da abertura da apresentação. Uma dança simples e rápida, que quase ninguém iria ligar, porque todos queriam ver Valentina.

“-Olha! Quanta gente!”-Uma bailarina gritou, chamando a atenção das outras. Ágata permaneceu no seu lugar, vendo Sofia vir em sua direção.

“-E então?”

“-Está feito, hoje a espanhola cai do palco!”

“-Sofia!”

“-Que foi? É apenas uma expressão.”

“-Estou arrependida, Sofia. Não é justo com ela!”

“-Ah, Ágata! Poupe-me! Não podemos voltar atrás, e afinal, é só um susto pequeno nela. Vai servir para ela descer do salto. Agora pare de falar que alguém pode ouvir.”

“-Meninas! Meninas! Dirigem-se para o palco agora!”-Gritou uma mulher, que temporariamente substituiria o professor. Valentina estava sentada, esperando pela sua hora, aflita.

“-Que cara é essa Valentina?”

“-Mãe, não sei se consigo! Estas sapatilhas estão muito apertadas!”

“-Ah, pare de reclamar! Estas sapatilhas são parisienses, dei uma nota por elas! Isso é puro nervosismo seu.”-Disse a mulher. Valentina olhou para Ágata, esta, que fez o mesmo. E seu olhar deixava à mostra toda a culpa. Valentina não compreendeu, mas depois saberia o porquê.

A apresentação das meninas foi rápida, mas teve sua beleza. A plateia aplaudiu um pouco desanimada, pois o melhor ainda estava por vir. Com os passos desengonçados, Valentina se dirigiu ao palco, sendo aplaudida logo no começo. A música começou a tocar e ela iniciou sua dança. Ela sentia uma dor terrível em seus pés, como se tivessem placas grossas pressionando. Sentiu o corpo todo enrubescer ao ouvir as primeiras vaias, pois a cada passo mais ousado ela despencava no chão. Podia sentir o olhar de reprovação da mãe. Ágata assistia a cena com o estômago embrulhado, sabendo que era sua culpa. Olhou para Sofia, que assistia serenamente, como se não soubesse de nada. E assim seguiu a apresentação, um desastre após o outro, muitas vezes as vaias eram trocadas por risadas. Enfim estava acabando. Valentina suava frio de tanta dor, sentia os pés sangrarem, mas precisava fazer aquele último passo. Pelo menos, sairia com um pouco de dignidade. Tomou o impulso, e sem pensar, saltou. Ágata congelou. Conhecia aquele passo mas não sabia que estava incluso. Olhando Valentina piruetar no ar, pode prever a desgraça que ocorreria. Valentina pousou a poucos milímetros do palco na ponta dos dedos, fazendo seu pé se contraír e se torcer. Com a dor, perdeu o equilíbrio. Valentina despencou do palco com a mesma graça que dançava, porém, cortando o momento com um grito agonizante. De repente, a música parou, as vaias cessaram, e os refletores centralizaram no corpo pequeno de Valentina, estendido no chão, numa posição toda desconcertada. Todos viraram para olhar.

“-Minha filha?! Onde está a minha filha?! Valentina! Oh meu Deus!”-Sua mãe se desesperava, vendo sua filha sendo carregada por uma maca. Ágata se sentia um monstro ao olhar para seu rosto inconsciente. Mais uma vez, o espírito competitivo lhe fez a cabeça, e não poderia haver outro fim para um ato como aquele.

***

Ágata chegou em casa arrasada e furiosa consigo mesma. Não via a hora de ter notícias de Valentina, e torcia para que ela melhorasse rápido. Faria qualquer coisa para se livrar daquele sentimento de culpa.

Seu pai estava jogado no sofá, assistindo a um jogo qualquer, enquanto bebericava seu uísque.

“-E então? Como foi?”-Perguntou, sem demonstrar qualquer interesse.

“-Tem certeza de que quer mesmo saber, ‘papai’? Não tem algo mais importante para fazer? Talvez eu ligue para a sua secretária para marcar uma hora, talvez assim eu consiga finalmente conversar com o meu PAI!”-Explodiu Ágata, parecia que era outra pessoa.

“O que houve com essa garota?! Ta vendo só? Isso é influência da irmã!”

“-Não é nada disso, uma colega dela se machucou hoje. Saberia se tivesse ido. “

“-E o que isso justifica por acaso? Quem se machucou foi a outra, não ela.”

“-Andrew!”

“-Ah! Esqueça isso, temos outros problemas para resolver agora.”

“-Qual? São tantos..”

“-Precisamos pensar no que fazer com a Evellyn. Ela não pode ficar aqui, não desse jeito.”

“-Ela já passou dos limites, eu sinceramente não sei mais o que fazer.”

“-É impossível falar com ela sem que ela se enfureça.”

“-Isso é influência desses amigos de rua que ela fez. Vamos mandá-la para um colégio interno, não vejo outra alternativa. Assim nos livramos de pelo menos esse problema.”

“- Falando assim você parece o seu pai, que nunca conseguiu vencer seus problemas, sempre querendo sumir com eles, como se não existissem.”

“-Você não sabe de nada, Scarlet!”

“-Sei muito bem Andrew, ou você esqueceu-se do que o seu pai fez? Que simplesmente se livrou de uma pessoa para se livrar de um problema.”

“-Fale baixo, Scarlet! Se as meninas escutam isso.. Olha, o que o meu pai fez foi para o nosso bem, e vejo que terei que fazer a mesma coisa com Evellyn, de uma forma mais leve, é claro.”

“-Andrew! Ela não matou ninguém, porcaria!”

“-Então é isso que eu sou para vocês? Apenas um problema?”-Evellyn estava sentada no alto da escada, e havia escutado toda a conversa. Uma máscara escura começava a jorrar de seus olhos, demonstrando o início de um choro.

“-Evellyn, precisamos conversar.”-Ela odiava aquelas conversas, na verdade, a palavra “conversa” só era usada no lugar de brigas.

“-Eu ouvi tudo, Já sei que querem se livrar de mim.”

“-Não se faça de sonsa, Evellyn! Sabe muito bem que a culpa de tudo isso é sua! Essa sua rebeldia. Todos os dias você tem que nos infernizar, com essa sua arrogância. Isso tem que acabar! Olhe a sua irmã, ela nunca nos deu motivo para isso.

“-Sinceramente, eu tenho vergonha de morar numa casa como essa. Os vizinhos ficam perguntando o que são todos esses gritos, e eu tenho que inventar uma desculpa qualquer. Evellyn! Isso é vergonhoso!”

“-Você tem que mudar você não pode continuar aqui desse jeito! Por que não tenta ser como a Ágata?”-Eles repetem. Suas palavras, duras como pedra, ecoavam na mente de Evellyn, que a essa altura se encontrava totalmente perdida. A quem iria recorrer? Todos estavam contra ela e ela não tinha ninguém para conversar, ninguém para desabafar, sem que a julgasse e dissesse que também estava errada. Sabendo que de qualquer forma, teria sua vida tirada dela própria, decidiu abrir o jogo:

“-Quer saber? Eu cansei! Cansei de morar nesse inferno! Se vocês querem mesmo se livrar de mim, me mandem para algum colégio interno fora da cidade, do estado, do país! Pouco me importa! Desde que eu não tenha que conviver com vocês! Vocês sempre me culpam por tudo, eu sou sempre o problema, e vocês estão sempre certos. Mas a culpa SEMPRE é de vocês! Na verdade, vocês nem deveriam ter filhos, porque não sabem como cuidar de uma família, estão sempre preocupados com vocês! Eu quero mais, é que tudo se exploda!!!

Evellyn soltou tudo que queria falar a muito tempo. O rosto estava vermelho de tanta raiva. O pai, ao ouvir o que considerou uma blasfêmia, num décimo de segundo, sem pensar, lhe deu um tapa bem forte no rosto, tão forte que a jogou no chão. Evellyn gritou, apavorada. A Ação do pai surpreendeu até mesmo Scarlet, mas ele não parecia estar arrependido. Evellyn estava jogada no chão, com as mãos levadas ao rosto, que ardia em razão do tapa. Ela o fitava com expressão de choque.

“-Cale essa boca, garota! Você não é ninguém aqui para falar desse jeito! Tem muito que aprender nessa vida! Você não sabe o que é sofrer, não sabe o que é sofrer nessa vida, não sabe o que é trabalhar sentindo dor para sustentar uma família. Há muito tempo eu queria fazer isso e você mereceu! Quem sabe assim não aprende a ser gente?! E vê se para de chorar, porque você não tem motivo algum para isso!”

Ágata viu toda a cena, e ficou chocada. Há muito tempo, não via uma briga daquelas. Viu sua irmã jogada no chão, e foi até ela. Pegou-a e levou até o seu quarto. Para seus pais, olhou apenas com uma expressão de choque, porque no fundo, também morria de medo deles.

Evellyn se trancou no quarto, jogando-se novamente ao pé da cama, e desabou a chorar. O rosto ainda doía um pouco, mas a dor mais profunda era no seu coração. Entre soluços e soluços, ela puxava o ar com dificuldade. Começou a gemer de dor. Agora podia ouvir seus pais discutindo mais uma vez. Desesperada, começou a quebrar tudo que visse pela frente. Rasgou muitos de seus desenhos, pois era um fracasso, assim como ela. Quando terminou, olhou a sua volta, e o quarto estava destruído, assim como ela. Percebeu que aquilo era a única coisa que sabia fazer, destruir tudo à sua volta.

****

“-Você exagerou dessa vez, Andrew.”

“-E o que queria que eu fizesse? Que ficasse me lamentando pela filha rebelde que nós temos? Assim como você? Não obrigada, prefiro agir rapidamente, viu só? Ela se calou, e talvez fique assim por muito tempo.”

“-Você foi bruto demais! Ela nunca mais vai querer olhar na sua cara.”

“-Por Deus, Scarlet. Com todos os problemas que eu tenho, esse seria o menos deles. E, ela já não fala comigo há bastante tempo.”

O silêncio reinou naquela hora. Andrew olhou para sua esposa, e notou que ela chorava. Ele a envolveu em seus braços, mas ela se esquivou. Então, naquela hora, notou que não era só com suas filhas que ele era um fracasso, seu casamento também estava se degradando.

“-Eu estou cansado disso tudo. Você também está. Acho que devemos dar um tempo, não podemos continuar a viver assim.”

“-O que você quer dizer com isso? Por acaso não está pensado em divórcio, está?!”-Andrew, soltou uma risada fraca, e depois revirou alguns envelopes, até encontrar um catálogo, que destacava uma ilha muito procurada por turistas.

“-Não, claro que não! Longe disso. Hoje, segui o conselho de um amigo, e fiz reservas para nós dois no hotel dessa ilha. Pensei que poderíamos ir num dos barcos da fábrica, afinal, ela não fica muito longe daqui. Passamos um fim de semana longe de tudo, o que acha?”

“-Não estou de reconhecendo, Andrew, você não liga para essas coisas..”

“-Ah, Scarlet. Eu estou cansado, trabalho e trabalho, mas nunca uso meu dinheiro em algo que eu realmente queira.”

“-E as meninas?”

“-Falei com a Srº Molly, e ela não irá se importar em ficar com as meninas lá na casa dela.”

“Sei não Andrew, estou com um pressentimento ruim...” — Scarlet hesitou.

“-Não há com o que se preocupar, o barco está em ótimas condições! Mandei revisarem!”- Depois de muito pensar, ela acabou cedendo.

“Ótimo! Então partiremos nessa sexta. Agora, estou cansado por hoje, vou dormir.” Ele se retirou, mas Scarlet continuou na cozinha, pensativa. Sentia que algo ruim iria acontecer.

***

A sexta chegou voando. Quando seus pais anunciaram que ficariam alguns dias fora, Evellyn só faltou soltar fogos de artifício. Só lamentava por pouco ser tão pouco tempo. Elas iriam ficar na casa da Sra. Molly, uma velha viúva, professora aposentada. A casa de Molly era tradicional, e havia um lindo jardim na entrada, e como sempre, ela se encontrava lá. Quando notou a presença deles, abriu um grande sorriso convidativo:

“-Olha só! Nem vi vocês chegando! Vamos entrar um pouquinho!”

“-Obrigado, Sra. Molly, mas já estamos atrasados. É melhor irmos logo, Scarlet.”

“´-Mais uma vez obrigada por deixar que as meninas fiquem aqui.”

“-Que isso, milha filha! Eu que agradeço! Estou sempre sozinha e é muito solitário.

“-Tchau pai, tchau mãe.” — Ágata os abraçou. Evellyn já entrava na casa.

“Evellyn, você não vai nem se despedir?”-Evellyn olhou bem para seus pais, mal sabia ela que seria a última vez que os veria com vida.

“-E para quê? Vão estar de volta daqui a dois dias mesmo. Bem que poderiam ficar mais tempo... –A última frase não fora mais que um murmúrio.

“-Se é assim que você pensa tudo bem então. Não falo mais nada. Adeus, Evellyn.”-Disse a mãe, mas Evellyn já havia dado as costas.

***

A casa de Molly parecia uma casa de bonecas. Repleta de móveis antigos, toalhas bordadas à mão, e muitas plantas. Nas horas vagas, Molly fazia artesanato, e isso logo interessou Evellyn:

“-Posso tentar?”- Disse ela, apontando para o banquinho e para o montinho de argila sob uma pequena mesa giratória.

“-Claro, meu bem! Pode começar enquanto eu mostro o resto da casa para a sua irmã.” — Ela disse, puxando Ágata pela mão.

A casa não era muito grande, porém tinha o seu charme. Havia apenas um banheiro, e dois quartos, um deles pertencera à sua filha, e parecia não ter mudado nada desde que se mudou.

“-É muito bonito, obrigada.”

“-Por nada, meu bem. Agora vou ver como sua irmã está se saindo”- Ela disse indo ao encontro de Evellyn. Surpreendeu-se ao ver que ela já tinha modelado o vasinho.

“-Olha só, não é que você leva jeito para essas coisas?”

*********

É incrível como bastam apenas alguns segundos, para mudar toda uma vida, ou acabar com ela. Scarlet e Andrew seriam os exemplos perfeitos disso.

O sol já estava se pondo, lembrando que estavam no mar desde o meio dia, dentro de um barco com todos os confortos possíveis, e sem nenhum sinal de perigo. Mal desconfiava suas mentes inocentes, de que, bem junto do motor ia ali uma bomba relógio, esperando ansiosamente pelo momento de seu show. Bem de longe, a pessoa responsável por tudo aquilo contava incessantemente, sem sombra de erro, numa perfeita contagem regressiva. Sua mente doentia não permitia cálculos errados. A cada segundo a sede de vingança aumentava ainda mais.

Já se passavam das oito, e Scarlet estava impaciente, a maresia lhe fazia mal:

“-Andrew, ainda falta muito? Eu não paro de vomitar...”

–Ah, você é muito fraca Scarlet! Já estamos quase chegando, olhe! Já posso vê-la!”–Andrew apontou, gozando. Na verdade, ele mesmo não sabia onde estava, mas resolveu não falar nada. Logo pegaria o rumo certo.

“-Conversa fiada!”-Disse Scarlet, olhando para a imensidão do céu escuro sem estrelas, e mais água.

Havia se passado meia hora, e agora só faltava um minuto para o grand finale. E como prévia do que estava por vir, o barco parou.

“-Ai o que foi agora?!”

“-Parece que deu pane no motor, não se preocupe eu vou ver o que houve agora.”

“-Não acredito, mais atrasos.”-Scarlet murmurou. Andrew foi até o motor, agora faltavam menos de 30 segundos. O motor parecia intacto, a não ser por um ruído estranho, que lembrava o batucar de um relógio.

“-Que estranho...”-Andrew murmurava, gastando os preciosos segundos que ainda lhe restavam.

“-O que é estranho?”-Scarlet se aproximou, enquanto bebericava uma limonada.

“-Esse barulho... Deixe-me ver mais de perto.” — Andrew olhou em todos os cantos, até encontrar um pequeno objeto, cheio de fios. De onde vinha o barulho. –Dez segundos. Examinou-o bem, olhou para os números. –Cinco segundos. O pavor tomou conta de seu corpo, já previa a morte.

“-Meu Deus Andrew! Que cara é essa?!”

“-Scarlet! Tem uma bomba no barco! Pule! Depressa! — Andrew empurrou sua esposa para fora do barco, mas já era tarde. No exato segundo cronometrado, um grande brilho se acendeu no meio daquele noite sem luz, levando-os para longe desse mundo, e dessa vida, despedaçando o barco em mil pedaços, degradando qualquer prova daquele crime. Agora, nem tão longe, o assassino contemplava o “show”, um sorriso diabólico brotou em seu rosto. Estava vingado (a).

****

Sem a mínima suspeita do que havia ocorrido, as duas irmãs curtiam os dois dias de paz que tiveram. Molly as cobria de mimos, não havia brigas. Evellyn havia despertado outra paixão, o artesanato, e Molly não se cansava de dizer que um dia, ela seria uma grande artista. Ela se sentia bem melhor ao ouvir isso, um pouco de apoio era tudo que precisava. Decidiu que mostraria sua arte para seus pais, mesmo com o risco de ser esnobada. Não importava, pelo menos tentaria lhe explicar o seu amor por arte, e talvez tivessem algo para conversar. Decidiu que de agora em diante, tentaria ser diferente. Molly havia dito uma vez:

“-Querida, para que as mudanças em nossa volta ocorram, não depende só das pessoas ao nosso redor, o mais importante, é que você faça a sua parte.” — Dessa vez tentaria seguir o conselho de Molly.

O dia da volta dos pais havia chegado. Eles combinaram o horário, e mesmo que atrasassem, eles estariam em casa antes das meninas voltarem da escola. Mas, quando elas voltaram, toparam com a casa vazia.

“-Que estranho, eles ainda não voltaram.”

“-Devem ter se atrasado, logo irão chegar.”

“-Mas eles disseram que..”

“-Eu sei o que disseram Ágata. Anda, vamos entrar e esperar que voltem.”

As horas se passaram, e nada. A preocupação e o medo logo vieram.

“-Já é noite! Eles disseram que estariam de volta à tarde!”

“-Ligue para o hotel, talvez consiga falar com eles.” — Ágata pegou o telefone, e discou o número que encontrou no catálogo. Evellyn observava a face da irmã perder a cor.

“-Eles disseram que.. Nossos pais nunca chegaram lá, e por isso a reserva foi cancelada!”

“-Tem certeza disso?!” Você disse quem eles eram?”

“-Eu disse, Evellyn! Eu disse! Onde eles estão...?”

“-Como eu vou saber?”

“-Estou com medo Eve...”

“-Não há razão para medo. Eles vão voltar. TEM que voltar. Deve ter uma explicação. — Evellyn não sentia firmeza em suas palavras.

“-Assim espero.”

***

Ambas as irmãs não conseguiram pregar os olhos naquela noite. A preocupação só aumentava, e a madrugada parecia eterna. Ansiavam que o sol logo se levantasse, e enfim, receber notícias de seus pais.

Na escola, quase tudo ocorria normalmente, a não ser pelo fato de as duas irmãs, que estavam distantes de tudo, e pela primeira vez, juntas. Na saída, uma surpresa não muito boa esperava por elas. Havia um homem esperando por elas, era ruivo, e tinha a feição pesada, como se escondesse algo. Seu sorriso parecia estar de luto.

“-Eu acho que sei quem ele é.. É um amigo do papai. Vem!”-Ágata puxou Evellyn pela Mao e foi ao encontro de Connor.

“-Você veio nos levar até os nossos pais?”

“-Olá Ágata, olá Evellyn. Sim... eu... irei levá-las até os seus pais, de certo modo... Entrem no carro.

Elas entraram no carro, Connor começou a dirigir, sem dizer uma só palavra durante o trajeto.

“-Para aonde está nos levando?”

“-Para o porto.” — Respondeu Connor, friamente. Evellyn murmurou para a irmã:

“-Não gosto desse cara. Ele não me parece nada confiável.”

“-Não é nada disso, Evellyn. Deve ser o jeito dele.”

Não demorou muito, e já estavam no porto, que parecia movimentado demais para àquela hora do dia. Notou que a maioria das pessoas que se encontravam lá eram seus visinhos. A guarda costeira e a polícia também se encontravam lá. Aquilo tudo pareça um pandemônio.

“-O que está acontecendo?”

“-Veja por si só. É melhor se prepararem.”-Connor disse, com pesar. As meninas saíram do carro num salto, Todos olhavam para elas com pena. Ouviram um policial conversar co m uma médica: “O barco foi totalmente decomposto, até agora não sabemos a causa da explosão, a policia continua a investigar...”

Ambas gelaram na hora:

“-Não pode ser!Não, é impossível!

“-Imagino que talvez devam ser Ágata e Evellyn Baker.”

“-Sim. Onde estão os nossos pais?!”-O policial respirou fundo, buscando as melhores respostas.

“-Não sei bem como dizer isso. A guarda costeira recebeu uma ligação anônima noticiando um suposto acidente de barco. Eles encontraram os restos do barco, e seus pais estavam entre eles... Infelizmente, não sobreviveram à explosão.”

A notícia foi dada. E numa fração de segundo o choque tomou conta de seus corpos. Enquanto processavam as palavras do policial, perceberam que já não tinham mais chão. A dor da perca rapidamente bateu à porta do coração. Ágata entregou-se ao desespero e a dor do pranto. Evellyn estava em estado de choque, as lágrimas rolavam sem pedir permissão, ela se recusava a acreditar, precisava ver os seus rostos.

“-Ei garota! Volte aqui! Você não pode chegar perto dos corpos!”-O policial foi atrás de Evellyn, mas ela já havia ganhado velocidade. “Só pode ser um engano, tem que ser um engano!” Repetia para si mesma. Chegou perto das macas, puxou a lona. A imagem que viu fora mais traumática que a notícia em si. O rosto dele estava quase irreconhecível. Foi então que caiu em si. O grito ensurdecedor de Evellyn calou toda a multidão, que se virou para vê-la lá, caída de joelhos, de frente para os seus pais. Um misto de insights passaram pela sua cabeça. Tantas brigas, tantos xingamentos, lembraram de suas palavras duras. As várias vezes que desejou a morte deles. A última frase dirigida ao seu pai: “Eu quero mesmo é que tudo se E-X-P-L-O-D-A!” A frase do policial: “Ainda não se sabe a causa da explosão.” Ela não sabia o poder que tinham as palavras. Agora se sentia responsável por aquilo. O que tanto pediu havia acontecido. Seus pais nunca mais a perturbariam, tudo tem o seu fim. Sentiu seu estômago embrulhar, a vista escurecendo, uma dor no peito. Ela tinha ódio dela mesma.

“-Evellyn!”-Gritou uma voz chorosa e apavorada. Ágata pegou a irmã pela cintura.

“-Ágata!Ágata!Eu sou um monstro! Eu sou culpada! É minha culpa! MINHA CULPA!!”-Evellyn gritava, todos olhavam.

“-Evellyn! O que você está dizendo?! Pare, por favor!”

“-A garota está em estado de choque, anda, vamos examiná-la!” — Um homem alto de jaleco branco disse, e mais quatro o acompanharam. Tiraram Evellyn dos braços da irmã e começaram a examiná-la.

“-A pressão dela está alta, é melhor levarem para o hospital. Parece que ela teve um colapso. — O médico disse. Ágata não suportava mais aquilo.

“-Para onde estão levando a minha irmã?! Evellyn!Evellyn! Não me deixa aqui sozinha!”-Molly apareceu de repente, e a abraçou, tentando acalmá-la.

“-Acalme-se querida, vamos com a sua irmã.”

Longe dali, um policial conversava com Connor.

“-Você é amigo da família?”

“-Sim, sou.”

“-Conhece algum parente próximo? Essas meninas não podem ficar sozinhas.”

“-Bem, na verdade, não conheço nenhum parente deles. Todos os avós morreram...Mas uma vez, Andrew havia me comentado sobre sua irmã, que dava notícias de tempos em tempos. Katellyn, ou só Kate, não me lembro.

“-Poderia nos levar até ela?”

“-Vai ser difícil, ela viaja pelo mundo inteiro. Mas acho que sei como chegar até ela. Por favor, me acompanhem.

Connor os levou até o escritório de Andrew. Na lista telefônica encontraram o número de Kate. Ela estava na França, pronta para assinar um contrato de seis meses com uma revista. Ao receber a notícia, sua dor fora similar a das sobrinhas. Antes, levava uma vida sem compromisso, viajando para onde lhe desse na telha, apenas ela e suas fotografias. Amava aquela vida. Mas agora, sabia que suas sobrinhas precisavam dela, e não poderia recuar. Sem pensar, arrumou as malas, e largou para sempre a vida que tanto amava.

Quanto as irmãs, só lhes restaram a dor. Evellyn continuou em observação, enquanto Ágata seguia sozinha, agora com a tia que não conhecia. Tentando ser forte, pois era a única coisa que poderia fazer. Acontecera tudo tão de repente que era quase impossível de se conformar. O que ambas sentiam é que estavam presas a um pesadelo, que só teria seu fim vingado três anos depois.

Notas finais
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