Entre Amor e Dever

11 O Sucesso da Batalha É Mais Do Que Vencer


O campo de batalha dormia em cinzas.

O amanhecer trouxe um vento frio que arrastava o cheiro de ferro e sangue.

Anisha permanecia sentada à sombra de uma árvore, enquanto Elrond ajoelhado diante dela, limpava o ferimento com precisão.

A pele dela tremia sob o toque, mas não pelo medo.

— Precisará de repouso, — disse o meio-elfo, firme. — A lâmina quase alcançou o osso.

Ela desviou o olhar, seca.

— Já suportei piores.

Elrond suspirou.

— Não é sempre uma questão de suportar. Às vezes é de permitir-se ser cuidado.

Os olhos dela se ergueram por um instante — frios, cansados.

— Eu não tenho esse luxo, senhor Elrond.

A conversa morreu ali.

E na marcha de volta a Lindon, o silêncio reinou.

Nem um olhar trocado com o rei.

Nem uma palavra.

Apenas o som ritmado dos cascos e o farfalhar das capas ao vento.

🍂

Na manhã seguinte, o palácio estava banhado por uma luz pálida. Elfos murmuravam pelos corredores — havia algo no ar, uma tensão não dita.

Anisha fora convocada à sala privada do rei.

Quando entrou, Gil-galad estava de costas, junto à janela, a luz filtrando-se sobre os longos cabelos prateados.

Sem armadura, apenas com as vestes douradas, ele parecia menos um rei e mais… humano.

Ele se voltou, encarando-a, o olhar profundo, contido — e ao mesmo tempo, devastado. Ela estava ali, em pé mas a expressão endurecida e olhar vazio. As mãos repousavam atrás do corpo e ela parecia fechada demais.

— Por que fez aquilo? — perguntou, quebrando o silêncio. — Por que arriscou a própria vida de forma tão insensata?

Ela ergueu o queixo.

— Porque é o que faço. Proteger. Lutar. O mesmo que o senhor ensina e exige.

— Não. — interrompeu ele, aproximando-se. — Não era bravura, era desespero. Eu vi em seus olhos, Anisha. Você queria morrer ali.

Ela respirou fundo, a voz falhando por um instante.

— Talvez. Ou talvez eu só quisesse parar de sentir.

Gil-galad fechou os olhos, virando o rosto, como se aquelas palavras fossem lâminas.

— Eu não posso… — começou, mas ela o interrompeu:

— Eu sei. — disse, amargamente. — “Não pode.” “Não deve.” “Não convém.” Já ouvi todas essas palavras antes.

Ele a olhou, surpreso com o tom.

Ela deu um passo à frente, os olhos marejados, mas firmes:

— Eu sei o que significa amar alguém que não pode ficar. Sei o que é ser efêmera num mundo que não morre. Mas, Alto-Rei… — sua voz quebrou, doce e desesperada — o senhor fala como se o amor doesse apenas em si.

O silêncio entre eles foi sufocante.

Ela continuou, com a voz mais baixa:

— Eu não tenho mais nada a perder, meu rei. O senhor tem o mundo inteiro… e ainda assim parece não o bastante.

Ele avançou um passo, o semblante endurecido pela dor.

— Você não entende. Se eu ceder, se eu amar você, o que restará quando o tempo levar sua vida e eu ainda estiver aqui? Quantos séculos eu teria que suportar lembrando seu rosto, sua voz? Isso... isso seria minha ruína.

Ela sorriu, amarga, desviando o corpo como se tentasse recuperar algum fôlego. Quando o encarou novamente, os olhos pareciam faiscar:

— Então não olhe pra mim como se me desejasse. — sussurrou. — Não me toque como se quisesse o que não tem coragem de lutar.

Gil-galad ficou imóvel. As palavras o atravessaram como flechas.

— Anisha...

Mas ela o interrompeu outra vez, a voz quebrando em fúria e tristeza:

— Eu preferia mil vezes morrer por você, Gil-galad, do que viver uma vida onde o que sinto nunca teve sequer a chance de existir.

Ele cerrou os punhos, os olhos marejados, mas a voz ergueu-se, cheia de dor contida:

— Você está louca.

Ela riu fracamente e soltou um longo suspiro.

— Louca? Não. Louca seria se eu negasse o que sinto, como o senhor faz. Sou mais sã do que pensa. E talvez mais viva do que o senhor jamais foi.

Do lado de fora, Elrond escutava.

Não queria ouvir — mas as palavras atravessavam as portas, cortantes como lâminas.

Ele fechou os olhos, o coração pesado.

Sabia que ali, naquele confronto, o amor se tornara uma ferida aberta — e que nem o tempo, nem a sabedoria dos elfos, poderiam curá-la facilmente.

Quando Anisha saiu da sala, passou por ele sem olhar, o rosto pálido, o passo firme.

O anel em seu dedo ainda brilhava — ironia cruel de um amor que agora doía mais do que encantava.

Elrond entrou na sala em seguida.

Gil-galad estava imóvel, de cabeça baixa, as mãos tremendo levemente.

— Ela o ama. — disse Elrond, sem rodeios.

— Eu sei. — respondeu o rei, a voz rouca. — E é isso que me destrói.

Lá fora, o vento soprava sobre Lindon.

E enquanto as folhas dançavam sob o céu prateado, duas almas — uma eterna, uma mortal — se afastavam tentando esquecer o que o destino já havia decidido unir.