Entre Amor e Dever

12 O Invisível Dói e Destrói


Os dias seguintes àquela discussão foram de silêncio e distância.

Nem um olhar cruzado, nem uma palavra trocada.

Mas o ar em Lindon parecia diferente — como se o vento trouxesse ecos de algo que ninguém ousava nomear.

Anisha permaneceu reclusa.

Seus aposentos no alojamento constantemente estavam fechados, e ninguém ousava se aproximar.

Dizia-se que ela ainda se recuperava do ferimento — mas Elrond sabia que a dor verdadeira não estava no ombro, e sim no coração.

Certa manhã, ao vê-la no pátio, Elrond tentou falar.

— Está muito cedo para forçar o braço, — advertiu ele, observando-a erguer a espada.

Ela o ignorou, golpeando o ar com precisão quase furiosa.

— Anisha... — tentou ele, com voz mais suave. — Não pode carregar tudo sozinha.

Ela baixou a espada, respirando com dificuldade.

— Sozinha? — murmurou. — É como sempre vivi, Elrond. Nada mudou.

O meio-elfo hesitou, estudando o rosto dela — pálido, cansado, mas ainda cheio de força.

Sabia que por trás daquela máscara havia uma ferida que nem ele podia curar.

🍂

Enquanto isso, no salão principal, o Conselho de Lindon se reunia.

Os conselheiros murmuravam entre si — vozes cuidadosas, mas cheias de veneno.

— A mortal foi vista diversas vezes nos jardins privados, — dizia um. — E agora o rei a convoca pessoalmente?

— É apenas uma guerreira ferida, — retrucou outro, mais sensato. — Não há nada além de gratidão.

— Gratidão? — o primeiro zombou.— Ou algo mais ordinário, que não convém a um rei?

Gil-galad entrou na sala antes que o burburinho cessasse.

O silêncio caiu como uma lâmina.

Os olhos do Alto Rei percorreram o Conselho — calmos, porém perigosamente frios.

— Vejo que as palavras em Lindon continuam mais rápidas que as espadas. — disse ele, com firmeza contida.

O conselheiro mais velho, Erestor, ergueu a voz com cuidado:

— Alto-Rei, não é desrespeito. É... preocupação. Uma mortal entre nós sempre gera murmúrios, e a cidade observa cada gesto do trono.

Gil-galad o encarou em silêncio por um longo instante.

Então respondeu, frio:

— A cidade deve observar a guerra às portas do Oeste, não assuntos privados da Coroa.

O Conselho se dissolveu em murmúrios abafados, e o rei deixou o salão com o peso do dever sobre os ombros — e o gosto amargo da verdade na boca: quanto mais tentava protegê-la, mais a expunha.

🍂

Naquela noite, Elrond foi até os jardins e encontrou Anisha sentada junto a uma fonte.

Ela parecia calma, mas os olhos traíam o cansaço.

— Os conselheiros estão falando, — disse ele, sem rodeios. — E não de guerra.

Ela não respondeu, apenas lançou uma pedra na água, observando as ondas se expandirem.

— Deixe que falem. — murmurou. — Palavras não me ferem mais.

Elrond suspirou.

— Você não entende o quanto está em risco. Lindon não é como as terras dos homens. Aqui, cada olhar pesa, cada rumor se torna um julgamento.

— Então que me julguem. — respondeu ela, firme, encarando-o. — Não temo o escárnio deles. Já vi o que há de pior nos corações que se dizem puros.

Ele hesitou, mas a olhou com sinceridade.

— E o que sente por ele... isso também não teme?

Um longo silêncio.

Então, um sussurro:

— Não temo amar. — disse ela. — Temo nunca ser lembrada.

No alto da torre, Gil-galad observava a cena à distância.

Da varanda, via Elrond e Anisha junto à fonte — duas silhuetas banhadas pela lua.

Ele fechou os olhos, e pela primeira vez em séculos, o rei sentiu inveja: do homem que podia consolar, do toque que ele mesmo havia negado.

Mas o dever o prendia como grilhões.

O trono o sustentava e o destruía ao mesmo tempo.

E ao longe, os sinos de Lindon ecoaram.

O som era solene — prenúncio de um novo perigo vindo do leste.

Mas, para o coração do rei, o verdadeiro inimigo não estava fora dos muros.

Estava dentro dele.

E enquanto o mundo se preparava para mais uma batalha, a mais cruel de todas já ardia no coração de dois seres que jamais poderiam se pertencer.