Entre Amor e Dever
13 O Renascimento Da Luz
As planícies de Lindon estavam cobertas de cores e sons.
Era o tempo da colheita — um dos raros momentos de celebração em meio às sombras crescentes do leste.
Lanternas élficas flutuavam sobre os campos, e músicas suaves ecoavam entre as árvores antigas.
Gil-galad caminhava entre o povo com sua habitual serenidade, mas algo dentro dele parecia ausente.
Desde o retorno de Anisha, ela o evitava.
Nenhum olhar, nenhuma saudação.
E ainda assim, era impossível não notá-la.

Quando ela surgiu entre os convidados, o murmúrio foi imediato.
Usava um vestido em um tom de verde-escuro com detalhes dourados, tecidos leves que realçavam o brilho natural de sua pele e o dos cabelos, soltos em ondas que caiam longamente pelas costas. Algumas joias e adornos destacavam-a ainda mais.
Não trazia espada, mas andava com a mesma postura de uma capitã — firme, altiva, quase desafiadora.
Elrond, que observava à distância, notou o contraste: bela como o verão, mas com o olhar de um inverno sem fim.
Ela manteve-se afastada da mesa dos nobres, misturando-se aos guardas e aos guerreiros.
Sorria por cortesia, mas a tristeza em seu semblante era inegável — uma melancolia profunda, contida sob o verniz de diplomacia.
Na mesa principal, o Alto Rei tentava disfarçar o incômodo.
Entre conversas e brindes, seus olhos buscavam-na instintivamente.
E quando ouviu dois jovens elfos atrás dele comentarem — “Nunca vi beleza igual, nem entre as damas de Aman…” — algo dentro dele se contorceu.
Ciúme.
Um sentimento que há eras ele acreditava incapaz de sentir.
Elrond percebeu o desvio de atenção do rei.
— Não é próprio de ti perder o foco em meio a celebrações.— murmurou com ironia suave.
Gil-galad respondeu sem olhar para ele:
— Há… coisas que desviam até mesmo a mais antiga das atenções, meu amigo.
Elrond suspirou. Sabia que o que começara como curiosidade agora ardia em desespero reprimido.
O vinho fluía, a música aumentava e o riso do povo se espalhava como perfume no ar.
Mas em meio ao som das flautas, Anisha que conversava com alguns soldados de seu pelotão, levou a taça aos lábios.
O gesto foi simples, quase distraído.
Alguns instantes depois, ela piscou, confusa.
A taça escapou de sua mão.
Elrond foi o primeiro a perceber a mudança — o tremor leve nos dedos, o desequilíbrio súbito.
— Anisha? — chamou, erguendo-se de imediato.
Ela cambaleou, tentando sustentar-se, mas a cor já fugia de seu rosto.
Gil-galad se levantou, derrubando a cadeira.
— Chamem os curandeiros! — ordenou, a voz ecoando firme, mas o coração em pânico.
A música cessou. O silêncio caiu pesado.
Elrond chegou até ela, apoiando-a nos braços.
Os olhos da guerreira estavam vidrados, respirando com dificuldade.
— Vinho…amargo… — murmurou, quase sem voz.
Gil-galad ajoelhou-se ao lado, ignorando as tradições, ignorando o olhar espantado dos presentes.
— Fique comigo, capitã. — disse ele, voz trêmula. — Olhe para mim.
Ela tentou sorrir.
— Pensam… que os mortais não suportam o peso de Lindon. Talvez tenham razão…
Mas antes que desfalecesse, uma aura de luz pálida começou a irradiar-se de sua pele.
Os elfos recuaram, murmurando orações antigas.
Elrond olhou surpreso.
— Isto não é veneno comum…
Do meio da multidão, o Grande Mago de Lindon, envolto em manto azul prateado, aproximou-se com pressa.
Ele ergueu o cajado, observando a luz que emanava do corpo da capitã.
— Não a toquem! — bradou ele. — Isto não é morte... é despertar.
Um murmúrio de espanto percorreu o campo.
Gil-galad encarou o mago, a voz tomada de urgência:
— Fale! O que está acontecendo com ela?
O mago fechou os olhos, recitando palavras antigas em quenya.
A luz se intensificou por um instante e então diminuiu, envolvendo Anisha como um véu.
— Ela… — o mago começou, com voz grave. — Ela não é inteiramente humana, meu senhor.
O rei o fitou, confuso e furioso.
— O que quer dizer com isso?
— Há ecos antigos em seu sangue. Marcas que nenhum mortal carrega. Descende dos Primeiros Filhos da Criação, seres que os Valar ocultaram do mundo quando a luz de Aman foi ferida. Seu corpo é de carne humana, mas sua essência… — ele hesitou — …é de luz divina.
Elrond, atônito, murmurou:
— Então é por isso que ela sobreviveu àquelas feridas impossíveis…
— Sim — confirmou o mago. — E também por isso será caçada. Há forças que não permitirão que uma filha dos deuses caminhe entre reis élficos.
Gil-galad a observava, o coração em tormenta.
Tudo fazia sentido agora — o brilho estranho em seus olhos, a força incomum, o magnetismo que o atraía desde o primeiro encontro.
Não era apenas amor. Era destino.
Anisha, ainda inconsciente, sussurrou algo entre os lábios, um nome que ninguém reconheceu.
Mas o rei entendeu.
Era o nome dele.
E quando a noite caiu sobre Lindon, a lua refletia sobre o corpo adormecido da mulher que não era apenas guerreira, nem apenas humana.
Era o elo perdido entre o divino e o mortal — a chama que o Alto Rei jamais deveria ter amado — mas que o mundo jamais o deixaria esquecer.
Fale com o autor