Entre Amor e Dever
5 O Oculto Se Revela nas Intenções
O grande salão do Conselho ressoava em vozes graves e passos firmes.
As tochas ardiam com luz azulada, e o brasão de Lindon reluzia sobre o mármore claro.
No centro, Anisha.
Ela trajava a armadura de guerra, o manto ainda marcado pela poeira e fumaça.
Os conselheiros élficos observavam-na com uma mistura de curiosidade e por não dizer, desconforto.
A ausência do rei naquela sessão deixava o ambiente mais pesado — e, paradoxalmente, mais cruel.
— Relate novamente, — pediu um dos conselheiros, com voz severa. — Como uma patrulha de apenas cinco soldados conseguiu repelir uma investida de guerreiros sombrios?
Anisha manteve o olhar firme.
— Não foi uma vitória planejada, senhor. — disse, controlando o tom. — O ataque foi surpresa. Agimos instintivamente. Usei o terreno a nosso favor, e o fogo das lamparinas... para criar confusão.
— Fogo? — murmurou outro, surpreso. — E sobreviveu a isso?
— A chama destrói o que teme a luz. — respondeu ela, calmamente. — E os que nos atacaram...temiam.
Um murmúrio se espalhou.
Alguns elfos trocavam olhares descrentes. Outros, admirados.
Mas todos sentiam o mesmo desconforto: como uma mulher, ainda mais humana, podia deter a coragem que guerreiros de séculos não ousavam ter?
Elrond, sentado à cabeceira, observava em silêncio.
Seu olhar não era de desdém, mas de curiosidade profunda.
Quando ela terminou o relato, ele se levantou.
— O rei ficará satisfeito ao saber que a fronteira está segura, — disse, num tom neutro, porém respeitoso. — Agradecemos por sua coragem, capitã Anisha.
Ela curvou-se.
— Servir Lindon é uma honra.
Mas, ao sair do salão, ouviu os sussurros se levantarem como vento entre colunas:
“Humana... e capitã.”
“Como conseguiu ser aceita?”
“Dizem que o próprio rei admira as ações dela...”
Anisha caminhou com passos firmes, fingindo não ouvir.
Mas dentro dela, a mistura de orgulho e dor queimava como fogo sob a pele.
🍂
Mais tarde, buscou ar nos jardins reais.
As flores noturnas exalavam perfume doce, e o som do mar chegava distante, suave como lembrança.
E foi então que o viu.
Gil-galad, de pé sob um arco de árvores que direcionava para onde as quedas d’água desafiavam, sua expressão serena atenta ao pôr do sol que já tingia Lindon em um dourado intenso.
O vento movia seus cabelos, e a luz das estrelas — que já salpicavam no céu trazendo consigo o prenúncio da noite — parecia repousar sobre ele como bênção antiga.
O rei movia-se com a elegância tranquila de quem carrega eras no corpo e ainda assim parece alheio ao peso delas.
Anisha parou em admiração.
Por um instante, esqueceu o próprio nome. Seu peito se apertou de um modo novo, inapropriado — e, no entanto, irresistível. O brilho do olhar dele, a calma nas mãos, a firmeza silenciosa da presença…tudo nela reagiu, como se o próprio coração reconhecesse o que a razão negava.
Ela respirou fundo, tentando afastar o rubor que subia às faces.
"É o rei, dizia a si mesma. Um elfo. Um imortal. Um juramento feito à luz das estrelas."
Mas o coração não obedece a coroas.
Elrond, que se aproximava pelo outro lado do jardim, notou a cena à distância.
Os olhos atentos de Anisha — e o aquilo que paraiva no ar — dizia mais que qualquer palavra.
Por respeito, não interferiu.
Mas em seu íntimo, o pressentimento cresceu: o destino começava a se mover em direções perigosas.
Quando o sol desapareceu e Anisha saiu, ele se aproximou do rei.
— Meu senhor, — disse, com seu habitual tom calmo — o Conselho foi unânime em louvar a bravura de sua capitã.
Gil-galad assentiu, o olhar ainda distante.
— Fico satisfeito em ouvir isso.
— E talvez, — acrescentou Elrond, medindo as palavras — uma conversa mais privativa com ela possa ajudar na preparação das próximas defesas.
Gil-galad voltou-se para ele, um brilho contido nos olhos.
— Acha que devo chamá-la?
— Creio que seria…adequado. — respondeu Elrond, com serenidade ensaiada.
Naquela mesma noite, uma mensagem foi entregue aos aposentos de Anisha:
“Capitã, O Alto Rei solicita sua presença para um jantar reservado, com o intuito de revisar estratégias e rotas defensivas. Ao mais alto luar, no salão de refeições.” — Elrond, em nome do Trono de Lindon.
Anisha dobrou o pergaminho, o coração acelerando.
Sabia que não era apenas uma reunião.
Sabia também que deveria temer o que estava por vir.
Mas ao olhar pela janela e ver as estrelas surgindo sobre o mar, sentiu algo que não conseguia mais negar: o desejo de estar perto dele — mesmo que apenas por um instante — era mais forte que o medo das consequências.
🍂
O salão inferior fora preparado com simplicidade — ao menos, para os padrões de Lindon.
Velas altas ardiam em taças de cristal, refletindo nas colunas brancas e nas tapeçarias que narravam antigas vitórias élficas.
O perfume das flores do crepúsculo se misturava ao ar frio vindo das janelas abertas, e a lua, recém-nascida, derramava sua luz sobre o mármore dourado.
Gil-galad estava ali antes de todos.
Vestia-se de forma tradicional, o sobretudo dourado, o manto real caindo pesado sobre os ombros largos, mas seu semblante era de quem travava uma batalha que ninguém podia ver.
Não era medo — era expectativa.
E, por mais que tentasse negar, havia um desejo inquieto de reencontrá-la.
Quando Anisha entrou, o ar pareceu mudar.
Ela não usava joias, nem coroa, apenas um vestido simples, em tom claro, de um tecido leve que acompanhava os movimentos do corpo como o vento sobre a água.
Os cabelos escuros, agora soltos em ondas, caíam-lhe pelas costas, e um perfume suave de sândalo a envolvia, discreto, mas inconfundível.
Gil-galad sentiu o coração falhar um compasso.
Uma humana, entre tantos elfos, e ainda assim...brilhava.
— Capitã Anisha. — saudou ele, a voz rouca demais para o próprio gosto. — Espero que meu convite não tenha frustrado seus planos de descanso.
Ela curvou a cabeça, respeitosa, mas o sorriso que deu foi natural, quase tímido.
— Alto-Rei. Não, meu senhor. Vossas vontades são prioridades frente a descansos efêmeros apesar de crer que mesmo que o corpo repouse, a mente não encontrará alívio.
Ele ergueu uma sobrancelha.
— A mente?
— Pensamentos demais, talvez — respondeu ela, desviando o olhar, e sentando-se em seguida, consciente do peso daquele diálogo.
Por um instante, o silêncio pairou entre os dois.
Havia um algo intenso ali — não dito, mas sentido.
Gil-galad também sentou-se mas mal conseguia tirar os olhos da mulher a sua frente, sua mente percorrendo detalhes mínimos — o contorno dos dedos dela sobre a taça, o brilho da vela refletido em seus olhos — e a forma como ela evitava encará-lo por mais de alguns segundos, por receio de trair o que sentia.
Elrond chegou logo depois, com o ar diplomático de sempre, embora o leve sorriso em seus lábios indicasse que percebia mais do que dizia.
— Espero que o jantar seja produtivo, meu rei. — comentou, servindo-se de vinho. — Afinal, a capitã inspira grandes estratégias ultimamente.
Anisha sentiu o calor subir-lhe ao rosto.
Gil-galad fitou Elrond, com um olhar breve, quase advertência, mas o meio-elfo apenas ergueu a taça e sorriu.
— Não desejo costrangê-la — continuou — Mas a guarda nunca esteve tão eficiente. Deve ser...influência da nova liderança.
O rei pigarreou, tentando recuperar o tom solene.
— De fato. — disse, voltando-se a Anisha. — Sua atuação tem sido notavelmente brilhante.
Ela respondeu com humildade:
— Apenas cumpro meu dever, meu senhor.
Mas a voz falhou no fim da frase.
O “meu senhor” soou mais íntimo do que pretendia, como se carregasse outro tipo de reverência.
Gil-galad percebeu — e sentiu o peso disso em seu próprio peito.
O jantar seguiu em meio a conversas sobre estratégias, mapas e possíveis rotas de defesa, mas as palavras tornaram-se apenas um disfarce.
A cada instante, os olhos de um buscavam o outro, como se a presença alheia bastasse para dissolver o restante do mundo.
Elrond, atento, observava de longe — não com reprovação, mas com uma sombra de preocupação.
O rei de Lindon, que durante séculos se manteve inabalável, agora parecia perder-se em algo que nenhum conselho, nem espada, poderia controlar.
Quando a refeição terminou, Anisha se levantou, curvando-se diante dele.
— Agradeço o convite, Majestade.
— Agradeço eu — respondeu ele, baixo, mas firme. — Por sua bravura...e sua companhia.
Ela o fitou, e naquele instante, a tensão entre os dois era quase visível — o ar parecia preso entre o que era dito e o que era proibido.
Os olhos dele, profundos e contidos, encontraram os dela, luminosos e frágeis como se tivessem roubado um reflexo das estrelas.
Elrond, que os observava um pouco afastado, próximo as janelas, suspirou.
Sabia que dali em diante, nada voltaria a ser simples.
Quando Anisha se afastou, o perfume dela permaneceu no ar e Gil-galad, por mais que tentasse, não conseguiu ignorar.
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