Entre Amor e Dever

6 Vitórias e Comemorações


Os ventos do norte sopravam frios sobre as muralhas de Lindon quando Anisha recebeu a convocação.

Uma nova ameaça despontava além dos limites do reino — incursões sombrias próximas às ruínas antigas de Forlond.

Sua presença foi exigida.

Ao amanhecer, ela trajava a armadura leve dos batedores da Guarda Real e o brasão de Lindon preso ao peito.

Os cabelos estavam presos, o semblante sereno, mas havia algo em seu olhar: a consciência de que partir era necessário, mas custoso.

Gil-galad a observou do alto das escadarias do salão real.

Não falou de modo formal, como rei — e sim com o tom grave de quem luta contra o próprio coração.

Por quantos dias estará fora?

— Três, talvez quatro, meu senhor. Depende da extensão da patrulha.

Ele assentiu, cruzando as mãos atrás das costas, em um gesto que tentava esconder a inquietação.

— Que Eru ilumine seu caminho. — disse, enfim. — E que volte em segurança.

Ela se curvou, sem ousar encarar seus olhos.

Mas antes de se afastar, murmurou:

— Voltarei, Majestade. Sempre volto.

Quando o som dos cascos se perdeu nos portões, o silêncio caiu sobre o rei como um manto pesado.

🍂

Dias se passaram.

Elrond o encontrou na sacada do palácio, observando o horizonte prateado onde o mar e o céu se confundiam.

O elfo mais jovem percebeu o olhar distante de Gil-galad — o mesmo olhar que outrora reservava às grandes decisões do reino, agora fixo em um ponto invisível.

Ela saberá se cuidar, meu rei. — disse Elrond, tentando parecer despreocupado.

Gil-galad respondeu sem desviar os olhos:

— Sim... eu sei.

Elrond hesitou. Depois, com voz baixa:

— Não é comum o rei demonstrar tanta preocupação por um membro da guarda.

Gil-galad virou-se lentamente, erguendo uma sobrancelha.

— Preocupação não é crime. É o dever de um comandante.

— Claro. — Elrond sustentou o olhar. — Mas o que sinto não é dever. É algo... mais humano.

O silêncio entre os dois se estendeu.

Gil-galad, enfim, desviou o olhar para o horizonte.

— Admiro Anisha, Elrond. — disse, controlado. — Ela é diferente. Uma mente arguta, uma presença que inspira.

Pausa.

— É uma... companhia interessante.

Elrond sorriu, leve, quase triste.

— Interessante é uma palavra pobre, meu rei. Para o que vejo em seus olhos, eu diria...inesquecível.

O rei não respondeu.

Mas o leve tensionar de seus lábios confirmou mais do que qualquer palavra.

🍂

Três dias depois desta conversa, Anisha retornou a Lindon, vitoriosa.

A patrulha havia interceptado um pequeno grupo de ladrões sombrios antes que atravessassem o rio Baranduin.

Nenhum ferimento grave — apenas exaustão e lama.

As notícias correram rapidamente.

Naquela mesma noite, os guardas reuniram-se nos jardins inferiores, onde lanternas douradas pendiam das árvores e risos ecoavam entre as flores.

Havia música, vinho, e até um bolo simples preparado pelos aprendizes da cozinha.

Elrond caminhava ao lado de Gil-galad quando ouviram um soldado exclamar, divertido:

— É a primeira vez que vou a um aniversário em que o aniversariante não está presente!

O rei parou.

— Aniversário? — repetiu, confuso.

O soldado leve se curvou e disse:

— Sim, Majestade. O da capitã Anisha! — respondeu o guarda, erguendo a taça. — Nasceu sob a segunda lua do outono, ou algo assim!

Elrond observou com surpresa contida, mas antes que pudesse comentar, Gil-galad já se afastava discretamente.

O rei, que durante séculos jamais se lembrara de datas humanas, agora não conseguia ignorar a ideia de que ela estava sozinha, enquanto o resto de Lindon festejava por ela.

Em seus aposentos, Gil-galad abriu o cofre de madeira que guardava apenas pertences pessoais — relíquias que datavam de reinos já esquecidos.

Entre elas, escolheu algo simples, mas simbólico: um anel fino de prata antiga, gravado com o emblema de Lindon — a estrela de seis pontas — e no interior, uma inscrição élfica quase imperceptível:

“Nai elen siluva lyenna.”

(“Que uma estrela brilhe sobre ti.”)

Não era um presente de rei, mas de alguém que queria guardar a lembrança viva de outro ser.

Encontrou Anisha na biblioteca, onde ela permanecia sentada entre pilhas de livros, ainda com o manto de viagem.

As tochas lançavam luz dourada sobre seu rosto cansado, e ela parecia perdida nas páginas — talvez buscando silêncio depois de tanto ruído.

Quando o rei se aproximou, ela se ergueu, surpresa.

— Alto-Rei! — murmurou, apressando-se em fazer uma reverência. — Não esperava encontrá-lo aqui.

— Nem eu esperava encontrá-la, — disse ele com um leve sorriso. — Pensei que estaria... comemorando.

Ela franziu o cenho, confusa.

— Comemorando?

— Seu aniversário, capitã.

Anisha ficou em silêncio, visivelmente desconcertada. Ela balançou a cabeça, como se tentasse afastar aquela frase para longe.

— Não costumo celebrá-lo. Nunca houve razão para isso. Mas alguém deve ter observado em meus registros e acabou por espalhar entre os soldados. Ninguém nunca se importou com isso.

Gil-galad deu um passo à frente, aproximando-se o suficiente para que ela sentisse o perfume discreto das folhas e do mar.

— Então permita-me ser o primeiro a fazê-lo.

Estendeu a mão, revelando o anel de prata.

— É apenas um símbolo... de gratidão. Por servir Lindon com tanto coração.

Ela hesitou, tocando o objeto com reverência.

— É lindo... mas não posso aceitar algo de tanto valor.

— Não tem valor material. — respondeu ele, baixando o tom. — Apenas...significado.

Os olhos de Anisha encontraram os dele, e naquele instante, o mundo pareceu suspenso.

A biblioteca, o frio da noite, o peso dos títulos e dos reinos — tudo se dissolveu em um único instante de verdade silenciosa.

Ela sussurrou:

— Obrigada, Alto-Rei.

Ele respondeu quase num murmúrio:

— Esta noite chame-me apenas de Gil-galad...

Um leve sorriso se formou nos lábios dela, e o rubor subiu-lhe às faces.

Do lado de fora, o vento agitou as folhas da grande árvore — como se as estrelas, cúmplices antigas, assistissem ao primeiro fio de um destino que não mais poderia ser desfeito.