Entre Amor e Dever
18 O Medo Encontra Seus Caminhos
As colinas de Lindon já não cantavam como antes.
Os ventos que sopravam do oeste traziam murmúrios de inquietude — e a luz das estrelas, outrora nítida, parecia velada por um véu de cinzas.
Elrond subia os degraus do grande salão quando encontrou o Grande Mago, curvado sobre um mapa astral.
Linhas de fogo e sombras se cruzavam no pergaminho como se o céu sangrasse.
— O que vês? — perguntou Elrond, apreensivo.
O mago ergueu o olhar, cansado.
— Algo que nunca deveria ter despertado.
— A sombra?
— Não apenas isso. — Ele passou o dedo por uma linha negra que cortava o mapa. — O poder de Anisha e o amor do rei criaram uma fenda. A magia de ambos é pura, mas o mundo… o mundo não entende o que é puro. Ele tenta corromper o que não pode possuir.
Elrond sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha.
— Então o elo entre eles...
— Está atraindo forças antigas. Algo se ergue novamente nas montanhas do norte.
O mago o fitou com gravidade.
— Se ela for a chave da renovação, também pode ser a ruína.
No salão do trono, o Conselho se reunia mais uma vez.
Os lordes élficos estavam divididos entre o medo e a desconfiança.
O nome de Anisha era sussurrado como se fosse maldição.
— Ela fugiu ao bosque e retornou com poderes que nenhum de nós compreende — vociferou Lord Finarion. — Agora os céus escurecem e o mar se agita. Não é coincidência.
Outro conselheiro, de voz baixa e venenosa, acrescentou:
— Os mortais trazem desequilíbrio. E esta mulher seduziu até mesmo o coração do rei.
Gil-galad, sentado em silêncio, ergueu-se de súbito.
Sua presença preencheu o salão como trovão contido.
— Basta! — sua voz ecoou, firme e cortante. — Se há desequilíbrio, é porque esquecemos quem somos. Anisha arriscou a vida por este reino. Nenhum de vocês ousou fazê-lo.
Os nobres baixaram os olhos, mas o veneno já havia se espalhado.
E ao final da reunião, rumores cresciam pelos corredores:
“O rei está enfeitiçado.”
“A mortal o domina.”
“A queda de Lindon começou.”
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Naquela noite, o rei retirou-se para os jardins silenciosos.
As flores do luar — lírios prateados que só abriam sob estrelas puras — agora estavam murchas.
Ele ajoelhou-se, tocando uma pétala morta.
“Mesmo a beleza morre quando o medo governa o coração.”
Um murmúrio suave ecoou atrás dele. Era Elrond.
— As flores sentem o que os deuses calam — disse o elfo mais jovem. — E Lindon está doente, meu rei.
Gil-galad suspirou. — Eu sei. Desde que ela partiu, o equilíbrio se partiu também.
— E, ainda assim, a ama. — Não era uma pergunta.
O rei ergueu o olhar, cansado, mas sincero.
— O que é o amor, senão uma escolha de morrer todos os dias e, mesmo assim, querer viver?
Elrond se aproximou, hesitando.
— O mago teme que o elo entre vocês tenha despertado forças esquecidas.
— Então que despertem — murmurou o rei. — Porque sem ela, não há reino que valha ser salvo.
Elrond se calou.
Naquele momento, compreendeu o que o amor verdadeiro fazia: não apenas fortalecia — ele queimava.
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Longe dali, nas profundezas do bosque, Anisha tremia.
Havia passado dias em meditação e luta contra si mesma.
Seu corpo mortal já não suportava todo o poder que despertava — e a terra ao redor começava a reagir.
O lago escurecia.
O vento falava com vozes de outros tempos.
E uma presença fria rondava a floresta, sussurrando em seu ouvido:
“Tu foste feita para trazer equilíbrio, mas toda balança precisa de um lado sombrio.”
Anisha se ajoelhou, colocando as mãos na terra.
— Não... eu serei a luz.
“Mesmo a luz projeta sombras.”
Um relâmpago atravessou o céu, iluminando a floresta.
E, por um instante, duas silhuetas se formaram atrás dela — uma feita de fogo, outra de trevas.
O mal havia sentido o despertar.
E marchava, silencioso, rumo a Lindon.
Na torre, Gil-galad ergueu o olhar para o norte.
Seu coração ardeu, e ele soube — Anisha o chamava.
Não por palavras, mas por alma.
“Ela luta sozinha…”
E, sem hesitar, o Alto Rei tomou sua espada e ordenou que ninguém o seguisse.
— Se o destino quer me provar, que me encontre diante dela.
Elrond tentou impedi-lo.
— Majestade, o perigo é real!
Gil-galad pousou uma mão sobre o ombro do amigo, com um meio sorriso amargo.
— Não há perigo maior do que negar o amor que o destino oferece.
E então partiu.
Sozinho.
Com o coração dividido entre o dever e a eternidade — e o vento trazendo o eco distante da profecia:
“Quando a sombra se erguer, e a lua sangrar, ela decidirá entre o amor e a salvação.”
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