Entre Amor e Dever
19 A Sombra Que Ecoa no Oculto
As estrelas choravam sobre Lindon.
Um clarão púrpura se erguia no norte, rasgando o céu com relâmpagos e vozes.
O ar cheirava a ferro e cinza.
E, no coração do Bosque dos Esquecidos, Anisha aguardava.
O chão sob seus pés tremia.
Cada respiração parecia carregar o peso de eras esquecidas.
Ela sabia o que estava por vir.
“Hoje, não luto por reinos,” pensou. “Luto por ele. Por nós.”
De súbito, o ar se partiu.
Uma sombra emergiu do lago — densa, viva, dotada de olhos como poços de fogo.
Era ela mesma. Ou o que restara do medo, da dor e da raiva que um dia a moldaram.
A voz da sombra ecoou, grave e múltipla:
— Não há luz que exista sem mim.
— Não há amor que sobreviva à verdade.
Anisha apertou a espada, e uma chama azulada se acendeu ao redor da lâmina.
— Se és o que eu fui, então me ouve: eu não sou mais feita de medo.
A sombra riu.
— És feita dele. De todos os medos que negaste. De amar um rei que nunca poderá ser teu. De viver sabendo que o amor é teu fardo, não tua cura.
A floresta se partiu em dois ventos opostos — um dourado, outro negro.
E a batalha começou.
O som das lâminas era como trovão.
Anisha movia-se com a graça dos deuses, cada golpe um raio, cada defesa uma prece.
Mas a sombra era veloz, e cada ferimento que ela sofria parecia abrir também o céu acima.
O chão explodiu em chamas etéreas; raízes se erguiam como serpentes, tentando prendê-la.
A sombra sussurrou junto ao ouvido dela, em mil vozes:
— Por que lutas contra o que és? Tu nasceste para destruir.
Anisha cravou a espada no chão, o poder ressoando como sinos celestes.
— Não! Eu nasci para amar!
— Então morrerás por isso.
A sombra lançou-se sobre ela, e o choque fez a floresta inteira gritar.
O poder das duas se chocou em um redemoinho de luz e trevas, uma tempestade que podia ser vista até de Lindon.
Gil-galad correu pelas trilhas do bosque, ofegante, o coração ardendo.
Cada passo o levava mais perto dela — e mais longe da salvação.
Quando chegou à clareira, o mundo parecia suspenso em um único instante de eternidade.
Anisha estava de joelhos, o corpo coberto de luz.
Diante dela, a sombra tombava, desfeita em cinzas e lamentos.
Mas o preço era alto.
Elrond e o Grande Mago surgiram logo atrás.
O mago ergueu o cajado, o semblante tomado por reverência e medo.
— Ela venceu… mas os deuses a chamam de volta.
— Não! — gritou o rei, ajoelhando-se ao lado dela. — Eu não permitirei!
Anisha ergueu os olhos, e neles havia paz.
— Gil-galad... — sussurrou. — Eu prometi que te protegeria.
— Fica comigo, por todos os deuses, fica comigo...
Ela sorriu, fraca.
— Eu não pertenço mais à terra. Os deuses me pedem de volta, e eu... eu devo ir.
Ele segurou a mão dela, desesperado.
— Levaram tudo de mim antes. Não levarão você!
Ela tocou o rosto dele, com ternura e força.
— Meu amor, eu não estou partindo. Eu estou voltando ao que sempre fui. E mesmo assim… sou tua. Eternamente.
A luz começou a envolver o corpo de Anisha.
Primeiro suave, depois intensa, até se tornar impossível olhar.
Ela se ergueu, suspensa no ar, os cabelos se transformando em fios de ouro e fogo.
O mago caiu de joelhos.
Elrond murmurou em reverência:
— Ela se tornou o elo entre o mundo e os deuses… a ponte que separa o fim do início.
Gil-galad chorava, os olhos presos nela, o peito partido em mil pedaços.
“Se este é o preço do amor, então que o amor seja meu destino.”
Anisha o olhou uma última vez, e suas palavras ecoaram como vento e música:
— Eu serei o amanhecer depois da ruína. Onde houver trevas, lembra-te de mim. Pois enquanto houver luz em Lindon… ainda haverá um pouco de nós.
E então, ela desapareceu.
A floresta silenciou.
O lago brilhou uma última vez, refletindo duas figuras unidas — a guerreira e o rei.
Depois, nada.
Apenas o vento… e a lembrança.
🍂
Na aurora seguinte, as flores do luar renasceram e o céu sobre Lindon nunca pareceu tão claro.
Gil-galad caminhava entre os jardins, o anel prata que dera a Anisha preso em seus dedos.
E ao fechar os olhos, ouviu uma voz distante, leve como brisa:
“Não chore por mim, meu rei. A eternidade é apenas o outro lado do amor.”
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