Entre Amor e Dever

20 O Sol Sempre Retorna


Cem invernos haviam passado sobre Lindon. Cem primaveras floresceram e morreram sob o mesmo sol que um dia a viu partir.

Gil-galad envelhecera apenas na alma — o corpo dos reis élficos resistia, mas o olhar trazia a melancolia de mil luas.

Seu reino permanecia próspero, porém havia um silêncio antigo entre as pedras e as folhas. Pois todos sabiam: o rei que governava com sabedoria o fazia com o coração despedaçado.

Naquela noite, quando o vento soprou do oeste e trouxe o perfume das árvores do Bosque dos Esquecidos, o rei sonhou.

Um sonho lúcido, claro como profecia.

Ele caminhava por uma planície dourada e via, ao longe, o sol rasgando a linha do horizonte.

E de dentro dele — não um raio, não uma sombra — mas uma forma feminina feita de pura luz.

Ela caminhava entre clarões, o cabelo esvoaçando como fios de ouro e fogo.

A cada passo, a terra florescia.

A voz dela atravessou o vento:

— Erenion Gil-galad…meu rei… O que é amado nunca se perde. Eu retornei.

Ele despertou, o coração em chamas.

Sem esperar o nascer do sol, montou seu cavalo branco e partiu sozinho, seguindo o instinto — ou o chamado.

O céu começava a clarear quando chegou à Colina dos Primórdios, onde o sol toca primeiro as terras de Lindon.

E ali, o milagre se fez.

O sol não nasceu como de costume — ele se abriu.

Um feixe dourado se expandiu, como se o próprio céu respirasse.

De dentro dele, lentamente, surgiu Anisha.

Sua pele cintilava como se guardasse o reflexo das estrelas.

Seus olhos eram oceano e fogo, ternura e eternidade.

Os cabelos dançavam entre luz e sombra, como se o dia e a noite disputassem nela um lar.

Gil-galad caiu de joelhos, sem conseguir falar.

As lágrimas corriam sem que percebesse.

Ele se sentia pequeno, indigno de olhar para algo tão sagrado.

Mas Anisha caminhou até ele com um sorriso sereno — doce, humano, infinitamente amoroso.

Quando estendeu a mão, a voz dela era música, era paz:

— Levante, meu rei. O tempo nada mais é que uma sombra. E a sombra… passou.

Ele ergueu o rosto, os olhos marejados.

— Tu voltaste… — murmurou, a voz embargada. — Jurei jamais pedir isso aos deuses.

Ela acariciou o rosto dele com a ponta dos dedos, e onde o toque passava, o calor do sol renascia.

— Eles nada deram, Erenion. Foi o amor que me chamou. Nem mesmo a eternidade pôde nos separar.

Gil-galad tocou a mão dela, temendo que fosse apenas luz — mas era carne e alma, quente, viva, real.

E chorou.

— Eu te esperei em cada amanhecer.

— E eu te busquei em cada pôr do sol — respondeu ela. — Pois tu és o meu início e o meu fim.

Ela o abraçou então — não com a paixão impetuosa de outrora, mas com uma ternura que fazia o mundo cessar.

Em seus braços, o rei sentiu o peso de todas as dores se dissolver.

— Tu me ensinaste o que é ser mais do que força — sussurrou Anisha. —Agora sou luz e sangue, chama e vento. Sou o que renasce, e sou tua.

Gil-galad, ainda trêmulo, encostou a testa na dela.

— Então deixa-me viver à tua sombra, se o sol for teu nome.

Ela sorriu, os olhos marejados.

— Não. Agora somos o mesmo céu, meu amor. O mesmo dia. E o mesmo destino.

O vento soprou ao redor deles, levando as pétalas das flores do amanhecer.

Naquela manhã, os sinos de Lindon tocaram por vontade própria. As flores que haviam secado desde a partida de Anisha desabrocharam novamente.

E sobre o reino dourado de Lindon, o rei e a mulher do sol caminharam juntos — não como monarcas, mas como as duas metades que sustentavam o mundo.