Entre Amor e Dever
4 O Jardim Testemunha
O crepúsculo repousava sobre Lindon como um manto dourado.
As luzes dos jardins acendiam-se suavemente, refletindo nas folhas prateadas da Grande Árvore, cujo tronco era tão antigo que, segundo os anciãos, suas raízes tocavam as lembranças de Valinor.
Gil-galad caminhava por entre as pétalas que o vento espalhava pelo chão. Buscava apenas ar, talvez paz.
Mas o destino — ou algo mais sutil — tinha outros planos.
Perto da fonte cristalina, viu Anisha.

Ela se apoiava no parapeito de pedra, a mão envolta num curativo improvisado. O sangue seco ainda marcava parte do pulso, e, ao lado, repousava seu arco, cuidadosamente desmontado.
— Anisha? — a voz do rei soou antes que ele pudesse contê-la.
Ela se virou, surpresa.
Mesmo ferida, manteve o semblante sereno.
— Meu senhor...não o esperava por aqui.
Ele se aproximou, os passos leves sobre o gramado.
— Sou eu quem deveria dizer o mesmo. Não a vejo há dias. E agora que vejo...está ferida...
— Um arranhão apenas. — minimizou, tentando esconder o curativo atrás do corpo. — Um infortúnio durante a patrulha.
Gil-galad franziu o cenho, detendo o olhar sobre a jovem, que mantinha os olhos baixos.
— As patrulhas de Lindon não costumam ter relatos de infortúnios.
Ela respirou fundo, evitando olhar em seus olhos, pois saberia que seria traída por suas reais emoções.
— Talvez...porque o erro tenha sido meu.
— Seu?
Anisha hesitou. As palavras vieram suaves, quase inaudíveis:
— Estava absorta em pensamentos distantes...
O silêncio que se seguiu foi longo.
Gil-galad manteve-se imóvel, mas dentro dele algo pulsou — um pressentimento, uma centelha.
— Pensando no quê? — perguntou por fim, a voz baixa, quase um sussurro.
Ela ergueu os olhos para ele, e por um instante pareceu querer dizer a verdade.
Mas apenas sorriu, um sorriso pequeno, melancólico.
— Em coisas que distraem até os mais disciplinados.
O rei sustentou o olhar. E nesse breve instante, o ar entre eles pareceu vibrar — algo antigo e novo se encontrando, como duas cordas do mesmo instrumento tocadas ao acaso.
Ele se inclinou ligeiramente.
— Permita que Elrond veja isso. Não quero que volte a patrulhar ferida.
— Não é necessário, meu rei. — respondeu, e havia firmeza em sua voz. — Passará logo. Há feridas piores que não sangram.
Ela recolheu o arco e se curvou levemente antes de se afastar, deixando-o sozinho sob o brilho das estrelas.
Mas Gil-galad ficou ali, observando-a sumir entre as alamedas, a mente repleta de perguntas que ele, um rei, não deveria se permitir fazer.
Elrond, que vinha por outro caminho, parou a alguns passos dali.
Não precisou ouvir muito — bastou ver o modo como o rei a olhara, e o modo como ela baixara os olhos.
Seu semblante permaneceu impassível, mas o pensamento era claro:
"Isso não pode seguir sem cautela."
🍂
No dia seguinte, quando a alvorada se ergueu sobre as colinas de Lindon, Elrond foi ao alojamento dos patrulheiros.
Encontrou Anisha ajustando seu arco, o ferimento ainda visível.
— Anisha de Harlond, — chamou, num tom gentil, mas estudado. — Gostaria de conversar sobre suas patrulhas recentes.
Ela endireitou-se, surpresa pela abordagem.
— Claro, senhor.
Elrond a observou por um instante — a postura, o olhar, a serenidade que escondia algo mais profundo.
— Ouvi que demonstrou grande eficiência. E também... uma certa independência em suas ações.
Ela manteve o tom respeitoso:
— Faço apenas o que creio necessário para proteger Lindon.
— Mesmo que isso signifique ir contra o que esperam de você?
A pergunta a pegou de surpresa.
Mas Anisha sorriu, levemente.
— As expectativas...podem mudar conforme quem observa.
Elrond a fitou, intrigado.
— Há algo em você que não compreendo — confessou, num tom mais baixo. — E isso, em Lindon, é raro.
— Talvez porque eu mesma ainda esteja tentando compreender o que sou. — respondeu ela, sincera, oferecendo um sorriso tímido que finalizou aquele momento.
Ele se afastou, pensativo.
Não havia arrogância nela, nem insolência — apenas uma quietude que o desconcertava.
Enquanto a deixava, Elrond lançou um último olhar sobre aquela figura serena demais.
E pensou, em silêncio, que aquela mulher, — começava a suspeitar — poderia abalar o coração de um rei mais do que qualquer guerra.
Naquela noite, sob a Grande Árvore, o vento soprava e para um ouvido mais atento vibrava em um som que trazia parecia carregar duas vontades:
A da razão, e a do coração — prestes a colidirem.
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