Entre Amor e Dever

10 O Conflito Precede A Salvação


Os ventos frios voltaram a soprar de Forlond, trazendo más notícias.

Na sala dos mapas, Elrond lia o relatório dos batedores quando o Alto Rei entrou, vestindo a armadura prateada — símbolo de guerra iminente.

O meio-elfo levantou os olhos, preocupado.

— Outra incursão nas fronteiras?

— Sim. — respondeu Gil-galad, a voz baixa e contida. — E Anisha está entre os que partiram.

Elrond franziu o cenho.

— Ela mal retornou de sua última patrulha. Não teve tempo para repouso.

O rei desviou o olhar.

— Foi escolha dela.

— Ou fuga. — replicou o conselheiro, com firmeza. — Não enxerga, Erenion? Ela está tentando apagar o que sente. E o senhor a está deixando sangrar sozinha.

Gil-galad silenciou, a mandíbula tensa.

Mas dentro dele, a verdade já se debatia, dolorosa e indomável.

🍂

Os sons da floresta ao norte eram diferentes — mais sombrios.

O vento trazia o cheiro de ferro, e o luar refletia nas lâminas erguidas.

Anisha liderava o pelotão com frieza, os olhos firmes e o coração em chamas.

Havia um vazio dentro dela, um buraco que nenhuma vitória parecia preencher.

O pensamento que se delineava em sua mente era que talvez fosse mais fácil morrer em combate do que continuar convivendo com o que não podia ter.

O ataque veio rápido: criaturas sombrias, deformadas pela magia corrompida, surgiram entre as árvores.

Gritos ecoaram.

Espadas cruzaram-se.

Anisha avançou como se o próprio fogo a movesse — veloz, implacável, ferindo e sendo ferida.

Um golpe atingiu-lhe o ombro, mas ela continuou lutando, o sangue escorrendo pelo manto.

— Capitã! — gritou um soldado. — Precisamos recuar!

— Recuem mas eu continuarei! — bradou ela, com os olhos faiscando.

As forças sombrias eram muitas, e as chances de sobrevivência de todos eram pouquíssimas.

Foi então que o som de trombetas ecoou — uma pequena comitiva da Guarda Real de Lindon chegava.

E à frente deles, reluzindo sob a luz fria da lua, estava o Alto Rei Gil-galad.

O mundo pareceu parar quando os olhares se cruzaram.

Ela, coberta de sangue e lama; ele, imponente e radiante em sua armadura de prata e azul.

O choque foi mútuo — raiva, alívio, medo, amor — tudo em um único instante.

Tirn amin! — ele gritou, em élfico. “Retira-te, insensata!”

Mas Anisha já tinha se lançado contra o inimigo.

O rei saltou do cavalo, desembainhando Aeglos, sua lança sagrada.

A luz dela cortou as sombras, e o campo se iluminou como se as estrelas tivessem descido à terra.

O combate terminou tão rápido quanto começou.

Os inimigos foram dispersos, mas o preço havia sido alto.

Anisha cambaleou, o ferimento aberto no ombro latejando.

Quando tentou se firmar, sentiu as pernas falharem.

Antes que caísse, foi amparada por ele.

— Loucura! — disse o rei, a voz tomada de emoção. — Que espécie de insensatez é essa, mulher?

Ela o olhou, ofegante, os lábios trêmulos.

— Solte-me! Não preciso de sua ajuda. Era melhor ter deixado que eu morresse de uma vez do que ir me tirando a esperança aos poucos.

O silêncio entre eles foi absoluto.

O sangue tingia sua luva e a capa dourada dela — o mesmo dourado que o perseguia nos sonhos.

Ele a puxou para si, segurando-a firme, o rosto próximo ao dela.

Os olhos se encontraram, e tudo o que ele negara por tanto tempo rompeu-se como vidro.

— Anisha... — murmurou, a voz quase um sussurro. — Eu...não devia…mas não posso mais negar.

Ela se desvencilhou tentando ter alguma postura digna frente ao homem que a desarmava por completo se apoiando em uma árvore próxima.

— Já é tarde, meu rei. Eu vi nos seus olhos o não que não disse.

— Então ouça agora o que calei. — respondeu ele, a voz rouca, sincera. — Amin mela lle. (“Eu te amo.”)

O vento cessou.

A floresta pareceu prender a respiração.

E ali, sob a lua de Lindon, o Alto Rei élfico e a capitã humana se tornaram finalmente aquilo que o destino vinha tecendo: dois corações destinados a se encontrar, mesmo que o mundo os separasse.

Elrond, ao longe, observava em silêncio — e pela primeira vez, não interveio.

Sabia que o preço seria alto.

Mas também sabia que, naquela noite, Lindon testemunhara um amor impossível, porém verdadeiro.