Entre Amor e Dever
3 Folhas Que Mudam ao Virar a Estação 🍂
Os dias seguintes correram em calma aparente.
Mas em Lindon, onde até o vento parecia conhecer o ritmo do coração de seu rei, algo sutil havia mudado. Gil-galad mantinha o semblante sereno de sempre — recebia mensageiros, deliberava sobre as fronteiras, participava dos conselhos do crepúsculo.
Mas sua atenção por vezes vacilava. No meio de uma reunião, os olhos se perdiam no horizonte, e por breves instantes, ele parecia distante, como em outro lugar.
Elrond, atento, notou.
Não porque o rei dissesse algo — Gil-galad raramente se deixava trair —, mas porque o conhecia desde antes da Segunda Era vestir-se de bruma.
Durante um conselho sobre as novas patrulhas do norte, Elrond o observou em silêncio.
Gil-galad ouvia os generais, mas os dedos, antes sempre firmes, tamborilavam levemente o braço do trono — um gesto raro nele.
E quando um dos comandantes mencionou o nome Anisha, apenas de passagem, ao relatar o progresso de patrulhas, o toque cessou de repente.
O olhar do rei se ergueu, rápido demais.
— Continue — disse ele, disfarçando o interesse. — O desempenho do destacamento tem sido constante?
— Sim, meu senhor. A arqueira Anisha tem se mostrado valiosa. Perspicaz nas táticas, ainda que... independente. — O elfo fez uma breve pausa, escolhendo as palavras. — Não é comum tal...destemor entre os subordinados.
Gil-galad manteve o semblante neutro.
— Destemor, quando nasce do discernimento, é virtude. — respondeu, e seus conselheiros silenciaram, cientes de que aquela frase encerrava a discussão.
Mas Elrond não perdeu o brilho diferente em seu olhar.
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Mais tarde, ao cair da noite, o rei caminhava sozinho pelas varandas superiores. O mar cantava lá embaixo, e o vento trazia o aroma das florestas distantes.
Foi quando ouviu passos.
— Meu rei, — a voz de Elrond soou, calma, mas carregada de uma curiosidade que nem a sabedoria dos séculos escondia. — Há muitos conselhos pela manhã. E, no entanto, o senhor parece distante deles.
Gil-galad se voltou, fitando o amigo.
— Está dizendo que falho em meu dever?
— Estou dizendo que algo o preocupa. — Elrond se aproximou, respeitoso, porém firme. — E não creio que seja o exército de Lindon.
O rei respirou fundo.
Por um instante, a verdade quase se desenhou em seus lábios — mas ele a conteve, como um guerreiro segura a lâmina antes do golpe.
— Há coisas, Elrond, que mesmo um rei não pode nomear sem que mudem de forma. — respondeu, olhando o mar. — Por isso, prefiro o silêncio.
— O silêncio também é resposta, meu senhor. — murmurou Elrond, antes de se afastar.
Gil-galad permaneceu imóvel, o olhar perdido no reflexo prateado das ondas.
Em sua mente, as palavras de Anisha ecoavam: “Descanso é o que buscam os que se sentem em casa. E eu...ainda não encontrei o meu lugar.”
Ele fechou os olhos.
Talvez porque, pela primeira vez em milênios, sentisse o mesmo.
Nos dias que seguiram, o rei passou a visitar a biblioteca com mais frequência — sempre à noite, sempre sob o pretexto de estudos estratégicos.
Mas raramente encontrava o que buscava.
Era como se a ausência dela preenchesse os corredores com um vazio novo, um que nem mesmo as estrelas conseguiam aplacar.
E embora Gil-galad jamais dissesse em voz alta, Lindon começava a mudar.
Não pelas marés ou pelos inimigos ao norte — mas porque o coração de seu rei, antes imóvel como uma montanha, agora ouvia o som do vento…e ele tinha o nome de uma mulher.
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