Entre Amor e Dever

7 A Queda de Uma Estrela Não Apaga Seu Brilho


Os ventos do norte traziam o frio da montanha, e mesmo Lindon — abençoada pela luz das estrelas — parecia menos acolhedora naquela noite.

A lua cobria-se em névoa, e as tochas tremulavam ao longo das varandas de mármore.

No interior do palácio, Gil-galad revisava relatórios em seu salão privado.

Tentava concentrar-se, mas a mente o traía a cada instante.

Desde a noite anterior, algo o inquietava — uma sensação incômoda, quase física, como se uma parte dele estivesse ausente.

Foi Elrond quem trouxe a notícia.

— Majestade, a capitã Anisha retornou de Forlond em boas condições, mas... — hesitou — as curandeiras relataram febre alta.

— Febre?

— Nada grave, dizem. Exaustão e frio. Está recolhida aos aposentos da Guarda.

Gil-galad assentiu com calma forçada, mas o leve estremecer de suas mãos denunciou o que sentia.

Ele agradeceu, encerrou os documentos — e, ao contrário do que a razão ordenava, deixou o salão.

O corredor estava silencioso.

Lanternas pendiam sob o teto, lançando reflexos dourados nas paredes.

Cada passo do rei ecoava contido, medido, como se até o som pudesse denunciar a natureza imprópria do que fazia.

Chegando aos aposentos da capitã, encontrou a porta entreaberta.

A luz interna era suave, e o ar cheirava a ervas e mel.

Anisha dormia.

O corpo frágil repousava sob lençóis de linho, os cabelos espalhados sobre o travesseiro — dourados e desalinhados, como fios de sol perdidos na sombra.

Havia suor em sua pele pálida e a respiração irregular denunciava a febre.

Gil-galad ficou parado, imóvel, como se a cena o ferisse.

Por séculos, vira incontáveis batalhas, curara feridos, perdera guerreiros… mas aquela visão, tão simples, lhe causava algo diferente.

Medo.

O tipo de medo que não se tem por súditos, mas por alguém que já habita o coração.

Aproximou-se, ajoelhando-se ao lado do leito.

Toque leve — apenas dois dedos, afastando uma mecha de cabelo do rosto dela.

A pele queimava.

Follya, Anisha... — murmurou, em élfico. — “Descanse.”

Ela se moveu levemente, os lábios tremendo.

— Alto-Rei...?

Ele se sobressaltou.

— Descanse. — pediu, em voz baixa. — Perdoe-me... não pretendia acordá-la.

Os olhos dela se abriram aos poucos, confusos, turvos pela febre.

— Por que...veio?

— Soube que não passava bem. Vim apenas... ver se estava em segurança.

Um sorriso fraco surgiu nos lábios dela.

— Os reis não devem visitar seus soldados adoecidos...

Ele desviou o olhar, tentando conter o sorriso.

— E ainda assim estou aqui.

O silêncio que seguiu foi terno, carregado de algo que nenhum deles ousava nomear.

Gil-galad umedeceu um pano e o passou pela testa dela — gesto simples, mas em suas mãos parecia um ritual sagrado.

Cada toque era medido, contido, e ao mesmo tempo... cheio de sentimento reprimido.

Anisha fechou os olhos.

— Não precisava se preocupar. Só estou cansada...

— Eu me preocuparia mesmo que não houvesse razão. — disse ele, quase num sussurro.

Ela riu baixo, exausta.

— Isso soa perigoso, meu rei.

— Já não sei distinguir o que é perigoso do que é inevitável. — respondeu, antes que pudesse conter as próprias palavras.

O olhar dela se ergueu, surpreso.

Por um instante, o tempo parou — e tudo o que havia era o som do vento batendo nas cortinas, o aroma de ervas e a respiração entrecortada dos dois.

Ele se levantou, para não ceder ao impulso de tocar-lhe a face novamente.

— Descanse. — disse, suavemente. — Há guerras que se vencem dormindo.

Contrariando um forte desejo de permanência, se retirou silenciosamente.

Agora, sob a luz das velas, aquele momento se delineou com um símbolo de um vínculo não declarado, mas impossível de negar.

🍂

Naquela madrugada, Elrond o encontrou no terraço, de olhos voltados para o mar.

— Fiquei sabendo que visitou a capitã.

Gil-galad não respondeu.

— E o que viu? — perguntou o meio-elfo, com calma.

O rei demorou a responder.

— Vi... que o coração pode ser uma fraqueza. — disse, enfim. — Mas também a única coisa que nos lembra que ainda somos vivos.

Elrond observou o amigo em silêncio.

E enquanto o vento soprava do mar, carregando o eco distante das ondas, compreendeu que o destino do Alto Rei de Lindon já não pertencia apenas às estrelas — mas também ao olhar de uma mulher mortal.