Entre Amor e Dever

8 Um Prenúncio de Inverno


O luar entrava pelas janelas altas do palácio, derramando-se sobre os corredores de mármore como um véu prateado.

Em seus aposentos, Anisha dormia em sono agitado.

O corpo ainda ardia em febre, e as curandeiras murmuravam orações em voz baixa, tentando acalmar-lhe o espírito.

Mas o que se passava em sua mente não era descanso — era fogo.

Entre sonhos e delírios, ela via Gil-galad, não como rei, mas como homem.

O rosto dele curvando-se sobre o dela, a voz chamando seu nome em élfico, as mãos quentes tocando-lhe o rosto.

As imagens vinham e iam, intensas demais, reais demais.

Erenion... — murmurava no sono, o nome verdadeiro do rei escapando-lhe dos lábios febris. — Iston le... (Eu te conheço).

Uma das jovens curandeiras empalideceu.

Elas trocaram olhares e cochichos apressados — e antes que a madrugada terminasse, os rumores já haviam deixado o quarto.

🍂

Na manhã seguinte, o rumor corria sutil, mas certeiro, entre os corredores de Lindon.

Risos abafados, olhares desviados, murmúrios entre os guardas:

“A humana chamou pelo rei em seus sonhos.”

“Diziam que o nome dele estava em seus delírios…”

“Talvez a febre revele mais do que o silêncio, afinal.”

Gil-galad caminhava pelo salão do conselho quando percebeu os olhares.

No início, ignorou. Mas depois de ouvir risadas abafadas quando passou, parou abruptamente.

O que há de tão curioso hoje na corte? — perguntou, com voz firme.

Um silêncio constrangido se espalhou.

Elrond, ao perceber, aproximou-se com o semblante sereno, porém atento.

— Deixe, meu rei. São apenas boatos tolos.

Gil-galad ergueu uma sobrancelha.

— Boatos? Sobre quem?

Elrond hesitou.

— Sobre a capitã Anisha… e sua febre.

O rei o fitou em silêncio — o olhar calmo, mas a tensão visível na mandíbula.

— E o que dizem, exatamente?

Elrond desviou o olhar.

— Que... teria sonhado com o senhor.

Por um instante, nenhum som ousou existir.

O rei respirou fundo, virou-se e caminhou para o terraço, com o mar ao longe.

— Que a febre passe logo. — foi tudo o que disse, mas o tom traía algo entre irritação e desespero contido.

🍂

Ao entardecer, Elrond foi procurá-la.

Anisha estava de pé, contrariando as curandeiras, vestindo já o uniforme de patrulha.

O rosto ainda pálido, mas os olhos determinados.

Vai aonde, capitã? — perguntou ele, cruzando os braços.

— Ao norte novamente. — respondeu, sem hesitar. — Meu comandante pediu reforço para a escolta de Eglarest.

— Não está em condições de montar.

— Estou viva, e isso basta. — retrucou. — Meu lugar é protegendo, não sendo protegida.

Elrond suspirou.

— A febre lhe tirou a razão ou apenas revelou sua teimosia?

Ela sorriu, cansada.

— Talvez ambas.

Ele a observou com olhos gentis, depois baixou o tom:

— Há... coisas que correm na corte. Coisas que talvez queira saber.

Ela endureceu a postura e o rosto fez uma expressão de desgosto.

— Eu já sei — respondeu, sem vacilar. — e nada me ofende mais do que ser rechaçada por ter sonhado, ainda mais estando frágil.

Mas ao ajeitar o manto sobre os ombros, Elrond notou o brilho do anel de prata em sua mão.

— Está usando.

Anisha hesitou, olhou o próprio dedo.

— É uma lembrança. — disse simplesmente. — E um lembrete...

Abaixou o tom, como falasse para si mesma.

— Do que não posso ter.

🍂

Mais tarde, no pátio onde a cavalaria aguardava seus montadores, Gil-galad observava e ansiava por vê-la, lutando contra as próprias repressões que seu lado soberano lançava sobre seus pensamentos. Quando a viu aproximar-se, montada e pronta, o coração o traiu com um aperto súbito.

A luz da tarde tocava-lhe os cabelos dourados e o anel cintilava em seu dedo — discreto, mas impossível de ignorar.

Partirá novamente sem repousar? — perguntou o rei, num tom que tentava soar neutro.

— O reino precisa. — respondeu ela. E em tom mais baixo, quase num sussurro — E talvez eu precise também.

— Não aprovo isso.

Ela respirou fundo. Desceu do seu cavalo e se aproximou:

— Com todo respeito, Alto-Rei... não busco aprovação.

O olhar dele se endureceu, mas apenas por um instante. O tom começava a fica um pouco mais ríspido. A tensão entre os dois era visível.

— Anisha, aqueles rumores sobre seus sonhos…

Ela parou, surpresa — depois, abaixou o olhar.

— Sonhos são apenas ecos da mente... e daquilo que o coração tenta negar.

O silêncio que se seguiu era tão denso quanto o ar antes de uma tempestade.

Gil-galad deu um passo à frente.

— Diga-me... o que é que tenta negar?

Ela levantou o rosto, e o que viu nos olhos dele era perigoso demais para suportar.

— A mim mesma. — respondeu. — Porque a cada vez que o vejo, Alto-Rei... eu estou me tornando alguém que não sei controlar. E temo que, se ficar, deixarei de lutar pelo que devo... e passarei a lutar apenas por você.

Ele sentiu o chão fugir-lhe por um instante.

A vontade de dizer algo — qualquer coisa — queimava lhe nos lábios.

Mas o dever, o peso do trono, a lembrança de mil juramentos...o calaram.

O silêncio dele foi a pior resposta.

Anisha respirou fundo, e o brilho em seus olhos — foi se apagando como um fogo atingindo por um vento frio.

— Entendo. — murmurou, controlando a voz. — Foi um erro acreditar que havia algo além do dever.

Ela curvou-se em respeito, montou o cavalo e partiu.

O som dos cascos desapareceu sob o entardecer.

Gil-galad ficou ali, imóvel, até o último eco sumir.

Só então percebeu que o vento trazia o perfume de sândalo que ela costumava usar — e que agora parecia um lembrete cruel de tudo o que ele não teve coragem de dizer.

🍂

Elrond o encontrou horas depois, de pé diante da Grande Árvore.

— Ela partiu?

— Sim. — respondeu o rei.

— E o que disse a ela?

Gil-galad olhou para o horizonte e respondeu com amargura:

— O que não disse...foi o suficiente para perdê-la.