Entre Amor e Dever

15 A Maior Entrega É o Amor


O Conselho havia se calado…

Mas o silêncio era apenas o disfarce da guerra prestes a eclodir.

As vozes dos nobres ainda ecoavam pelos corredores de Lindon:

“Ela é perigosa.”

“É luz e sombra ao mesmo tempo.”

“O rei não a vê com clareza.”

E Gil-galad, por mais que erguesse a cabeça diante de todos, sentia a verdade arder em seu peito: não conseguia mais ser o mesmo desde que ela entrou em seu mundo.

Naquela noite, quando as estrelas cintilavam como lâminas, Anisha partiu sozinha.

Não pediu permissão, não deixou aviso.

Somente o anel de prata sobre a mesa de Elrond — um símbolo de que havia escolhido o exílio.

Elrond o encontrou pela manhã e, alarmado, procurou o rei.

— Ela se foi. — disse, a voz contida, mas tensa. — Seguiu para o norte, para o Bosque dos Esquecidos, se for o que o Mago pensa.

Gil-galad se ergueu, o olhar se escurecendo.

— Ninguém entra naquele bosque. Nem mesmo os mais antigos o fazem sem retornar mudados.

— Talvez seja esse o motivo. — respondeu Elrond. — Ela busca entender o que é. E talvez, se redimir por ser quem é.

O rei olhou para o horizonte, os olhos marejados.

— Ou talvez apenas fugir de mim.

🍂

O Bosque dos Esquecidos era um lugar que o tempo temia.

Árvores milenares formavam túneis de sombra e luz, e os ventos sussurravam nomes que há muito haviam sido esquecidos.

Foi ali que Anisha se ajoelhou, sozinha, sobre o musgo frio, o corpo ainda frágil do veneno, o coração ainda mais ferido do amor negado.

— Se há verdade em mim, que ela venha. — murmurou, pousando a mão sobre o solo.

O chão tremeu.

A terra respondeu.

Raízes começaram a pulsar sob seus pés, e uma energia dourada — antiga, quase viva — subiu por seu corpo, envolvendo-a em espirais de luz.

Seu grito rompeu o silêncio do bosque.

Não de dor, mas de libertação.

E então, o poder desperto ecoou sobre Lindon.

Nos céus, uma sombra se movia — um exército de criaturas sombrias, restos das forças que haviam atacado os portos do oeste.

As sentinelas soaram os alarmes, e o rei subiu às muralhas, vendo o horizonte se tingir de fogo e cinza.

Mas antes que o medo tomasse o povo, um clarão dourado cortou o céu.

Anisha surgiu entre as árvores, envolta em um manto de luz viva.

Suas mãos se ergueram, e de seus olhos emanava o brilho dos antigos — algo entre o humano e o divino, entre o mortal e o eterno.

O vento soprou como um rugido, e as sombras começaram a dissolver-se diante dela, como se a própria treva se curvasse.

Gil-galad, que imediatamente após a conversa, montou seu cavalo e seguiu para o Bosque, observava, atônito.

Ela sozinha detinha forças que nem os magos mais antigos ousariam invocar.

Por um momento, ele esqueceu ser rei.

Esqueceu o trono.

Esqueceu tudo.

Apenas viu.

E viu nela a luz mais pura e a dor mais antiga do mundo.

Quando o último eco de trevas desapareceu, Anisha cambaleou.

A luz se apagava aos poucos, deixando apenas o brilho suave em sua pele.

Gil-galad correu até ela, segurando-a antes que caísse.

— Anisha… — murmurou, a voz embargada. — Você salvou Lindon. Salvou todos nós.

Ela o fitou, os olhos cheios de lágrimas, e mesmo exausta, havia firmeza em seu tom.

— Não. Eu apenas adiei o que está por vir.

As sombras retornarão…e quando o fizerem, virão por mim.

Ele segurou sua mão com força.

— Então que venham por mim também.

Ela tentou sorrir, mas a dor era visível.

— Não diga isso. Você pertence a este reino, à eternidade. Eu pertenço ao esquecimento.

O rei baixou o rosto, tocando-lhe o rosto com a ponta dos dedos.

— Há milênios, jurei não amar, para não perder. Mas cada vez que a vejo, sinto que estou por um fio de quebrar todos os votos… por ti.

Anisha respirou fundo, lutando contra o choro.

— Se há amor em tuas palavras, que ele seja verdadeiro. Não o amor dos reis, mas o dos que sangram e perdem. Pois o meu… já não cabe em palavras.

Ela afastou lentamente sua mão, e o vento soprou entre eles, levando folhas douradas como despedidas.

— Fique! — disse ele, com a voz quase suplicante. — Fique, nem que seja por esta noite!

Ela balançou a cabeça.

— Se eu ficar, você esquecerá quem é. E se eu partir, talvez lembre que o amor não é fraqueza… é o que nos faz dignos dos deuses.

Virou-se, o manto se desfazendo em fios de luz.

E antes que desaparecesse na escuridão do bosque, voltou-se apenas uma vez.

— Que o destino te poupe, meu rei. Pois eu não o farei.

Quando ela se foi, o vento parou.

Gil-galad ficou ali, imóvel, olhando para o vazio onde antes havia luz.

E Elrond, que o encontraria ali ao amanhecer, jurou ter ouvido o rei sussurrar algo ao vento: “Se amar-te é minha ruína… que o mundo me destrua por inteiro.”

E assim, Lindon dormiu em paz por uma estação.

Mas nas profundezas do Bosque dos Esquecidos, algo acordava junto com Anisha.

Algo antigo.

Algo que nem mesmo os deuses ousaram nomear.