Entre Amor e Dever

16 A Profecia Que Testa


O tempo não corria no Bosque dos Esquecidos.

Ali, os dias pareciam suspensos, e as noites respiravam memórias antigas.

Anisha caminhava em silêncio entre as árvores vivas, sentindo a pulsação da terra sob os pés.

Seu corpo ainda carregava o brilho da batalha, mas sua alma...sua alma ardia em conflito.

“Quem sou eu?”

“Humana? Deusa? Ou apenas um erro do destino?”

Os sussurros das folhas respondiam em línguas que ela não compreendia.

E, nas profundezas, o lago do bosque — um espelho de águas negras — começava a se mover, refletindo não o céu, mas o passado esquecido dos deuses.

Ela se ajoelhou.

E então, a visão veio.

Chamas antigas.

Cidades élficas em ruínas.

Um céu despedaçado.

E no centro de tudo, uma mulher de luz segurando uma espada feita de estrelas, enfrentando uma sombra tão vasta que parecia devorar o mundo.

Uma voz ecoou no vazio — suave e terrível como o vento dos primórdios:

“Filha dos que desafiaram o firmamento… o sangue dos deuses corre em ti. Foste selada na carne dos mortais, mas teu poder não dorme para sempre. Quando a sombra retornar, a escolha será tua: ou salvarás o mundo, ou o amarás.

Anisha gritou, e o lago explodiu em círculos de luz.

A profecia a rasgava por dentro, queimando sua mente com verdades que nunca quis saber.

Ao erguer-se, seus olhos já não eram os mesmos — brilhavam como os de quem enxergou o destino e desejou poder esquecê-lo.

🍂

Enquanto isso, em Lindon, os ventos traziam inquietação.

O Grande Mago andava inquieto pelas torres, consultando pergaminhos antigos e astrolábios que mediam o equilíbrio entre o céu e a terra.

Elrond o observava em silêncio.

— Diga-me o que teme — pediu.

O mago pousou as mãos sobre a mesa, o olhar grave.

— Temo que a salvação de Lindon traga sua ruína.

— Fala de Anisha? — perguntou Elrond.

— Falo do que dorme dentro dela. — respondeu o mago, baixando a voz. — Há lendas de uma linhagem esquecida, filhos de Ainur que se apaixonaram por mortais. Seres que não deveriam existir. Ela é descendente deles.

Elrond empalideceu.

— Então, ela é...

— Mais que humana. Mais que elfa.

— Um milagre ou uma maldição?

O mago suspirou.

— Depende de quem a ame.

🍂

No grande salão de Lindon, o Conselho se reunia.

O rei, em pé diante do trono, enfrentava os olhares frios de seus próprios conselheiros.

Lord Finarion tomou a palavra:

— Majestade, não podemos mais fingir que não sabemos. A mortal que salvou Lindon é um perigo. Não é uma de nós.

— E ainda assim — respondeu Gil-galad com voz firme — foi ela quem impediu a destruição do reino quando todos nós hesitávamos.

Um murmúrio percorreu a sala.

Outro conselheiro se levantou:

— Não por benevolência. Mas porque quer provar algo. E se ela não estiver lutando por nós, mas contra nós?

Gil-galad deu um passo à frente, o manto dourado ondulando.

— Vós temeis o que não compreendeis. Ela é uma dádiva, não uma ameaça.

Finarion ergueu a voz:

— Então por que o rei fala dela com o coração, e não com a razão?

O salão silenciou.

Gil-galad permaneceu imóvel, mas em seus olhos algo cintilou — raiva, dor e amor em guerra.

— Porque às vezes o coração é o único juiz digno da verdade.

O Conselho se calou, mas o veneno das palavras já havia sido lançado.

Os nobres saíram, mas as vozes ainda ecoavam:

“O rei está perdido.”

“A mortal o enfeitiçou.”

“Lindon cairá por amor.”

🍂

À meia-noite, Gil-galad subiu sozinho à torre mais alta.

O vento soprava do oeste, e ele olhava em direção ao bosque.

Algo em seu peito dizia que Anisha ainda estava viva — e sofrendo.

“Se o destino ousar tomá-la de mim… que os deuses enfrentem a minha ira.”

Naquele instante, uma rajada de vento trouxe o sussurro da profecia até ele, como se o bosque falasse através do ar:

“Quando a sombra se erguer, e a lua sangrar, ela decidirá entre o amor e a salvação.”

E o rei compreendeu, com horror, que o amor que o fortalecia também seria o que o destruiria.

Nas profundezas do bosque, Anisha abriu os olhos.

As árvores estavam em silêncio, o lago agora tranquilo.

Ela tocou o peito — sentia a presença de algo vivo dentro dela, uma força imensa, indomada.

— Se é esse o meu fardo... que assim seja. — sussurrou. — Mas não me peçam que esqueça o amor, pois é dele que nasci.

E quando se ergueu, as estrelas acima dela se moveram.

Um presságio, um aviso — e talvez, uma promessa.

Pois a filha dos deuses havia despertado.

E o destino de Lindon jamais seria o mesmo.