Notas iniciais
Oie... Mais um capitulo fresquinho Kizlars

LÚCIA


O amanhecer se iniciara e, com ele, os afazeres de mais um dia também começavam.


Lúcia já estava de pé, ocupada com os preparativos do desjejum. Naquela manhã, despertara antes mesmo de sua mãe, tomada por uma sensação estranha que não sabia explicar. Havia algo inquietando seu coração, embora não conseguisse compreender o quê.


Ainda assim, afastou o pressentimento e tratou de preparar o café para todos. Quando os demais finalmente despertaram, a mesa já estava posta, o desjejum pronto e Lúcia também já se encontrava devidamente arrumada para mais um dia de trabalho no castelo.


— Alguém caiu da cama hoje — comentou sua mãe, sorrindo.


Apesar do cansaço que ainda carregava do dia anterior, havia ternura em seu olhar. Observava a filha com aquele orgulho silencioso de uma mãe que reconhecia, em cada pequeno gesto, o esforço e a dedicação de sua primogênita.


Lúcia apenas sorriu, ajeitando uma das últimas coisas sobre a mesa.


— Estou com um sentimento estranho, mamãe. Não conseguia mais permanecer na cama. Havia algo me inquietando, então me levantei para preparar nosso desjejum.


Antes que a mãe pudesse responder, uma batida soou à porta.


As duas se entreolharam.


Ainda eram seis horas da manhã.


Naquela propriedade, tão distante do castelo, visitas àquela hora eram extremamente incomuns. A jovem deixou o que fazia sobre a mesa, enquanto a mãe franziu o cenho, tentando compreender quem poderia estar à porta antes mesmo de o dia verdadeiramente começar.


Uma segunda batida se fez ouvir, desta vez um pouco mais firme.


— Quem viria até aqui a esta hora? — murmurou a mãe, lançando um olhar inquieto à filha.


Nenhuma das duas sabia responder.


E, sem que pudessem compreender o motivo, o estranho pressentimento que havia despertado a jovem naquela manhã pareceu tornar-se ainda mais forte.


A mãe caminhou até a porta e a abriu.


A surpresa foi imediata.


— Bom dia, minha irmã. Bom dia, minha menina. Perdoai-me por vir tão cedo, mas Vossa Majestade houve por bem dispensar-me dos serviços de Vossa Alteza neste dia. Assim, aproveitei a ocasião para vir tomar meu desjejum junto de minha família.


A mãe de Lúcia abraçou o irmão com profundo carinho. Fazia já muito tempo desde a última vez que o tivera tão perto.


Desde que Pierre assumira o posto de conselheiro real e passara a acompanhar de perto a formação do jovem príncipe, suas visitas haviam se tornado cada vez mais raras.


A rotina de Vossa Alteza era rigorosa, preenchida desde o romper da aurora até o cair da noite, e Pierre, como seu principal conselheiro, raramente dispunha de um momento que pudesse chamar de seu. Entre lições, treinamentos, estudos, compromissos da corte e os inúmeros deveres destinados ao futuro rei, quase não lhe restava tempo para aqueles que amava.


Por isso, aquele reencontro, ainda que simples, carregava consigo o calor de uma saudade antiga.


Sua irmã o apertou nos braços como quem desejava recuperar, naquele breve instante, todo o tempo que a vida e os deveres da coroa lhes haviam roubado.


Quando finalmente o soltou, Pierre permaneceu por alguns instantes diante dela, contemplando-a com um sorriso carregado de saudade. Havia tanto tempo desde a última vez em que puderam conversar com calma, sem que algum dever da corte os chamasse de volta.


Então, seus olhos encontraram Lúcia.


Sem hesitar, aproximou-se da afilhada e a envolveu em um abraço apertado, daqueles que diziam muito mais do que qualquer palavra seria capaz de dizer.


— Minha pequena... — murmurou, com a voz baixa e carregada de carinho.


Embora a tivesse visto no dia anterior, para Pierre cada encontro com Lúcia parecia precioso. Afinal, já não era como nos tempos em que podia visitá-los quando desejasse. Desde que assumira o posto de conselheiro do futuro rei, sua vida passara a pertencer quase inteiramente aos deveres da coroa.


Ali dentro do castelo, porém, precisava lembrar-se de quem era. Diante dos criados, nobres e demais membros da corte, não poderia se deixar levar pelos sentimentos. Era o conselheiro real, e sua postura deveria permanecer firme e discreta.


Mas, naquele breve abraço, permitiu-se esquecer o título.


Permitiu-se ser apenas Pierre.


Ao afastar-se de Lúcia, pousou uma das mãos sobre sua cabeça e sorriu, como fazia nos tempos em que ainda tinha tempo para acompanhar seu crescimento.


— Como cresceu... — disse baixinho, quase para si mesmo.


Lúcia apenas sorriu, sentindo naquele gesto todo o carinho que a distância jamais havia conseguido apagar.


Pouco depois, os gêmeos também tiveram seu momento de matar a saudade. Entre abraços, brincadeiras e risadas, pareciam recuperar, aos poucos, os dias que haviam passado longe uns dos outros.


E, quando finalmente todos se acomodaram à mesa do café da manhã, o ambiente tornou-se mais leve.


Havia conversas cruzadas, risadas espontâneas e pequenas histórias sendo contadas enquanto compartilhavam o pão, as frutas e o café. Por alguns instantes, ninguém parecia se importar com os compromissos do castelo, com a rígida rotina do príncipe ou com as responsabilidades que os aguardavam.


Eram apenas uma família reunida à mesa.


Depois de tanto tempo separados pelos deveres da coroa, aquele simples café da manhã havia se tornado um pequeno tesouro.


E Pierre, enquanto observava a irmã, Lúcia e os demais à sua volta, percebeu o quanto sentira falta daqueles momentos que um dia lhe pareceram tão comuns.


— Meu irmão, confesso que estou verdadeiramente maravilhada com vossa visita... — disse ela, sorrindo enquanto lhe servia uma xícara de café. — Mas dizei-me, por qual motivo a rainha vos dispensou de vossos deveres hoje?


A pergunta veio acompanhada de um sorriso, embora seus olhos permanecessem atentos ao semblante do irmão. Não queria transformar aquele reencontro em motivo de preocupação, mas era raro vê-lo com uma manhã livre.


— Espero que esteja tudo bem no castelo... — acrescentou, em tom casual. — É apenas estranho vê-lo aqui conosco a esta hora.


Pierre percebeu a delicadeza por trás das palavras e sorriu, compreendendo que ela apenas queria certificar-se de que tudo estava bem.


— Confesso, minha irmã, que também me causou estranheza quando fui chamado na noite de ontem — respondeu Pierre, mantendo a voz serena. — Contudo, a ama real de Sua Majestade tomou a liberdade de conversar com a rainha e rogou-lhe que concedesse ao jovem príncipe um momento que há muito lhe tem faltado: um pouco de descanso e a companhia de sua própria mãe.


Pierre fez uma breve pausa, pousando a xícara sobre a mesa.


— Não vos esconderei que nossas exigências têm sido severas. A rotina, as lições, as regras de conduta e a constante vigilância sobre cada gesto são necessárias à formação daquele que um dia haverá de portar a coroa. Todavia, talvez tenhamos levado tão a sério a preparação do futuro rei que, por vezes, nos esquecemos daquele que existe antes da coroa.


Seu semblante tornou-se mais pensativo.


— O príncipe ainda é jovem. E, embora tenha demonstrado grande capacidade para tudo aquilo que lhe ensinamos, há em seu coração um desejo que não pode ser simplesmente silenciado: o de conhecer a liberdade antes que os deveres da coroa a tornem uma lembrança distante.


Um discreto sorriso surgiu nos lábios de Pierre ao recordar o acontecimento do dia anterior.


— Até mesmo suas pequenas fugas nos dizem mais do que ele próprio seria capaz de confessar. A de ontem, por exemplo, quando acabou por esbarrar em minha jovem afilhada... — lançou um breve olhar para Lúcia. — Talvez não tenha sido apenas uma travessura de um príncipe que desejava escapar de suas obrigações, mas o gesto de um jovem que ansiava, ainda que por alguns instantes, viver sem que cada passo seu fosse determinado por uma regra.


Então voltou-se para a irmã.


— Não me resta dúvida de que Lucian está sendo preparado para o destino que lhe foi confiado. Um dia, haverá de sentar-se no trono e carregar sobre os ombros o peso de um reino. Mas, enquanto esse dia não chega, creio que devemos permitir-lhe conservar aquilo que nenhum ensinamento de corte poderá devolver-lhe depois: a liberdade de ser apenas um jovem.


Pierre sorriu de leve antes de concluir:


— Pois um rei pode aprender a governar um reino, minha irmã..., mas não deveria precisar esquecer como é simplesmente viver.


Todos assentiram às palavras de Pierre e, pouco depois, voltaram ao desjejum. As conversas tornaram a preencher a mesa, entre o tilintar das xícaras e algumas risadas.


Lúcia, porém, permaneceu em silêncio por alguns instantes.


As palavras de seu padrinho ainda lhe rondavam os pensamentos.


Na noite anterior, havia olhado para o príncipe com certa inveja. O castelo, os criados sempre ao seu redor... tudo aquilo parecia pertencer a um mundo ao qual ela jamais teria acesso.


E, por um instante, desejara saber como seria viver daquele lado dos muros.


Mas agora...


Seus dedos pararam sobre a xícara.


Ela podia sair pelos portões quando quisesse. Podia correr pelos jardins, conversar com quem desejasse, rir alto, errar sem que cada pequeno gesto se tornasse motivo para uma correção.


Lucian não podia.


Lúcia ergueu os olhos discretamente para Pierre.


Aquilo a incomodou mais do que gostaria de admitir.


Porque ainda queria descobrir como seria viver uma vida tão distante da sua. Ainda havia uma pequena parte dela que invejava o príncipe.


Mas, ao mesmo tempo, a lembrança dele correndo pelos corredores na noite anterior havia adquirido outro significado.


Ela se recordou de como ele parecia apressado, quase como alguém que fugia de alguma coisa que somente ele podia sentir.


Lúcia baixou os olhos.


Talvez tivesse sido injusta com ele.


Ou talvez não.


Afinal, ela ainda desejava aquilo que ele possuía.


Só não sabia mais se desejava também aquilo que vinha junto.


Por alguns segundos, ficou dividida entre os dois pensamentos, até que uma risada dos gêmeos a trouxe novamente para a mesa.


Lúcia sorriu de leve e voltou à conversa.


Mas, daquela vez, quando olhou para o castelo através da janela, não pensou apenas em tudo o que existia para além daqueles muros.


Pensou também em quem, apesar de viver entre aquelas paredes, talvez desejasse desesperadamente atravessá-los.

Notas finais
Espero que gostem Beijos Kizlars