Notas iniciais
Mais um capitulo fresquinho.

Acho que agora já conseguimos compreender o que cada um invejaria no outro, não é mesmo?


E, com isso, podemos prosseguir com os acontecimentos, acompanhando os caminhos de cada um individualmente, para que, pouco a pouco, suas histórias possam começar a se entrelaçar.


Afinal, como já havíamos mencionado, Lucian e Lúcia pertencem a mundos completamente distintos.


Um nasceu cercado pelas paredes do castelo, destinado ao trono e criado sob o peso de um futuro que jamais lhe pertenceu por escolha.


A outra nasceu longe dos salões reais, conhecendo uma vida muito mais simples, mas também carregando desejos e sentimentos que o príncipe jamais precisou conhecer.


E talvez seja justamente aí que esteja a beleza desta história.


Porque, embora tenham recebido destinos tão diferentes, a vida tratou de lhes conceder duas pequenas coincidências antes mesmo que soubessem da existência um do outro.


O príncipe herdeiro Lucian e a jovem Lúcia nasceram no mesmo dia.


E seus nomes, separados por apenas uma pequena diferença, parecem carregar uma estranha semelhança.


Dois nascimentos no mesmo amanhecer.


Dois destinos completamente distintos.


Duas vidas que, até então, seguiam caminhos que jamais deveriam se cruzar.


Mas algumas histórias começam muito antes de seus personagens se encontrarem.


E talvez o dia em que ambos nasceram tenha sido apenas o primeiro acaso de uma história que ainda estava longe de começar.



Lucian


Lucian ainda parecia anestesiado diante da ideia de que, pela primeira vez em muito tempo, não precisaria seguir sua rigorosa rotina.


Não haveria estudos naquele horário. Não haveria lições, compromissos ou alguém à porta para lembrá-lo de cada obrigação que o aguardava.


Era estranho.


Tão estranho que o jovem príncipe ainda não sabia muito bem o que fazer com aquela liberdade.


Mas havia algo que o deixava ainda mais desconcertado.


Sua mãe.


Lucian não sabia como agir diante dela daquela maneira.


Sem cerimônias. Sem deveres. Sem a necessidade de se sentar diante da rainha carregando consigo todas as formalidades que aprendera desde tão pequeno.


Por um breve instante, tentou buscar alguma lembrança de quando aquilo havia sido diferente.


Vieram apenas fragmentos.


Uma voz que parecia distante.


O perfume que, de algum modo, ainda lhe era familiar.


A lembrança vaga de um colo que já não conseguia reconstruir por completo.


Depois disso, tudo parecia ter se misturado às paredes do castelo, às lições e às responsabilidades que cresceram junto com ele.


Talvez tivesse apenas três ou quatro anos.


Não sabia dizer ao certo.


E talvez fosse justamente por isso que agora se sentisse tão perdido.


Ele sabia perfeitamente como deveria se portar diante de uma rainha.


Só não sabia mais como se aproximar da própria mãe.


— Dizei-me, meu príncipe, o que desejais fazer neste dia? — perguntou a rainha, com um sorriso sereno. — Podemos permanecer aqui, em vossos aposentos, e conversar, assistir a algum filme ou, se assim preferirdes, posso ensinar-vos uma receita que minha mãe me ensinou quando eu ainda era uma jovem princesa.


Ela fez uma breve pausa, observando o filho com ternura.


— Ou, quem sabe, poderíamos deixar o castelo por algumas horas e passear pelo condado. Recordo-me de ter ouvido Pierre comentar, certa vez, que a feira cresceu bastante e que agora há toda sorte de barracas e mercadorias por lá.


Seu sorriso tornou-se um pouco mais espontâneo.


— Hoje não há deveres a cumprir, meu filho. Portanto, não precisais pensar como príncipe. Escolhei apenas aquilo que vosso coração desejar.


Talvez, naquele momento, fosse até mais difícil para a rainha do que para o próprio jovem herdeiro.


Lucian não sabia como se comportar diante de tamanha liberdade, mas ela também não havia planejado aquele dia.


Durante tantos anos, aprendera a organizar reuniões, cerimônias, audiências e decisões que envolviam todo o reino. Sabia exatamente como falar diante de seus súditos, como agir diante de outros soberanos e como cumprir cada uma das responsabilidades que o título lhe impunha.


Mas ninguém jamais lhe ensinara como simplesmente ser mãe de um jovem.

Sem horários a cumprir.

Sem conselhos a dar.

Sem corrigir sua postura ou lembrá-lo de seus deveres.


Aquele dia não lhe pedia que fosse a rainha.


Pedia apenas que fosse sua mãe.


E talvez fosse justamente isso que a deixava tão inquieta.


Depois de fazer suas sugestões, ela permaneceu em silêncio.


O sorriso ainda estava em seus lábios, mas seus olhos denunciavam uma ansiedade que tentava esconder. Observava o filho diante de si como se procurasse, em cada pequeno movimento dele, alguma indicação de que estava fazendo aquilo da maneira certa.


Esperou.


E, enquanto esperava, percebeu o quanto desejava ouvir qualquer coisa que viesse dele.


Uma escolha simples.

Um pedido.

Até mesmo uma recusa.


Qualquer coisa que lhe permitisse descobrir, ainda que aos poucos, do que seu filho gostava, o que desejava fazer, para onde gostaria de ir.


Talvez, depois de tantos anos decidindo pelo reino, aquela fosse a primeira decisão que ela realmente desejava que Lucian tomasse.


Não como herdeiro.

Não como príncipe.

Mas como seu filho.


E, a cada segundo de silêncio, a rainha sentia crescer dentro de si uma espécie de temor silencioso.


E se ele não soubesse o que responder?

E se aquele tempo juntos lhe parecesse tão estranho quanto parecia a ela?

Ainda assim, permaneceu ali.

Sem apressá-lo.

Apenas esperando.


Porque, naquele dia, mais do que qualquer outra coisa, ela queria que Lucian percebesse que, por algumas horas, não havia reino algum entre os dois.


Havia apenas uma mãe esperando pelo filho.


— A senhora fala deveras sério, mãe? — perguntou Lucian, quase sem esconder a surpresa. — Podemos realmente fazer o que quisermos hoje? Sem que Pierre venha atrás de mim para corrigir cada passo que dou?

Um pequeno sorriso surgiu em seus lábios.


— Não me entendais mal. Tenho grande apreço por meu conselheiro e sei que tudo quanto faz é para o meu bem. Mas... — hesitou por um instante, procurando as palavras certas. — Sinto que me falta algo. Um espaço que não sei bem como explicar. Às vezes, tenho a sensação de estar cercado por tantas regras que mal consigo respirar dentro delas.


Seus olhos se voltaram para a mãe.


— A ideia de conhecer o condado e a feira parece-me maravilhosa. Há tanto que nunca pude ver além dos muros do castelo...


Lucian então pareceu refletir por alguns instantes antes de completar:


— Mas, se formos assim, todos saberão quem somos. E logo estaremos cercados de pessoas, cumprimentos e reverências. Não teremos a oportunidade de viver aquilo que a senhora acabou de me oferecer.


Ele sorriu, quase como se a ideia lhe parecesse ousada demais para ser dita em voz alta.


— Talvez pudéssemos ir sem que ninguém soubesse.


Fez uma pequena pausa.


— Como duas pessoas comuns.


Seu olhar encontrou o da mãe, agora carregado de uma expectativa que não conseguia esconder.


— Acho que gostaria de saber como é ser normal... nem que fosse apenas por um dia.


A rainha compreendeu imediatamente o que o filho desejava.


Por alguns instantes, apenas o observou. Então, um sorriso discreto surgiu em seus lábios.

Havia algo naquela ideia que lhe despertava uma lembrança distante, quase esquecida.

Ela conhecia aquele desejo.


Anos atrás, quando ainda era apenas uma jovem princesa, também tivera curiosidade de saber o que existia para além dos muros do castelo. Também já havia desejado caminhar pelo reino sem que todos soubessem quem era, sem os olhares atentos da corte e sem o peso de uma coroa sobre seus ombros.


E talvez fosse justamente por isso que não conseguiu recusar.


— Muito bem, meu filho — disse ela, levantando-se. — Se é assim que desejais conhecer o condado, então não vejo razão para que não o façamos.


Caminhou até a porta e chamou por sua ama.


— Minha senhora, preciso que providencieis duas vestes discretas e confortáveis. Nada que denuncie nossa posição. Hoje sairemos do castelo como duas pessoas comuns.


A ama surgiu pouco depois e, ao ouvir o pedido, permaneceu em silêncio por alguns instantes.


Então olhou para a rainha.


Depois, para Lucian.


E não conseguiu conter uma pequena risada.


A rainha arqueou uma sobrancelha, já sabendo muito bem o motivo daquele riso.


— Não ouseis dizer uma palavra.


A ama sorriu, divertindo-se.


— Perdoai-me, minha rainha... mas é impossível não me recordar de uma certa jovem princesa que, há muitos anos, também acreditava que poderia conhecer o reino sem que ninguém percebesse.


A rainha soltou um suspiro, embora um sorriso já denunciasse que a lembrança também havia retornado.


— Eu era jovem.


— E muito determinada — respondeu a ama, ainda sorrindo.


Lucian observava as duas em silêncio.


Pela primeira vez, talvez estivesse descobrindo uma parte de sua mãe que jamais conhecera.

Antes da coroa.

Antes das obrigações.

Antes de ser a rainha que todos conheciam.


Havia existido apenas uma jovem princesa curiosa, desejando descobrir o mundo que se escondia para além dos muros do castelo.

E, naquele dia, muitos anos depois, mãe e filho teriam a oportunidade de descobrir um ao outro para além dos títulos que sempre os separaram.

Notas finais
Beijos Kizlars