Entre Acasos e Destinos
4 Capitulo 4
Notas iniciais
Acredito que já tenha sido possível compreender um pouco mais sobre o jovem Lucian. Mas, antes de voltarmos para Lucia, quero aprofundar um pouco mais o príncipe, sobretudo para mostrar que ele está, de fato, sendo preparado para herdar o trono. No entanto, a falta de liberdade para ter um tempo que seja apenas seu, acaba tornando tudo um fardo ainda maior.
Lucian
Após mais um longo discurso de Pierre sobre obrigações e deveres, ambos retornaram à biblioteca. O conselheiro real considerara que a aula daquela manhã havia sido um pouco vaga quando conversavam sobre as guerras e os tratados e, por isso, julgou importante abrir uma exceção no cronograma. Incluiriam aquela aula extra naquele momento e deixariam para o dia seguinte a continuação das aulas de dança.
— Escutai com atenção, Vossa Alteza, pois compreender as guerras é compreender também o peso de uma coroa.
O conselheiro caminhou diante do jovem príncipe, mantendo as mãos unidas às costas.
— Desde os tempos dos antigos reis, os homens erguem suas espadas por terras, riquezas, honra, vingança ou pela defesa de seus domínios. Um reino pode entrar em guerra para proteger suas fronteiras, reclamar um território ou defender aqueles que juraram lealdade à sua coroa.
O príncipe permaneceu em silêncio, atento às palavras.
— Contudo, nenhuma guerra pode durar para sempre. Quando os exércitos enfim baixam suas armas, cabe aos soberanos negociar a paz. É nesse momento que surgem os tratados: acordos selados entre reis e reinos, por meio dos quais se estabelecem tréguas, alianças, fronteiras e deveres entre as partes.
O conselheiro fez uma breve pausa antes de continuar:
— Guardai isto em vossa memória, meu príncipe: um rei tolo acredita que seu poder está apenas na espada. Um rei sábio compreende que, muitas vezes, uma palavra bem escolhida diante de uma mesa de negociações pode poupar milhares de homens de morrerem em um campo de batalha.
O príncipe ergueu o queixo, e sua expressão tornou-se mais severa.
— Então, meu senhor, a verdadeira força de um soberano não reside apenas no número de homens que pode enviar à guerra, mas na autoridade de sua palavra quando todos esperam que ele empunhe a espada. Se um tratado pode preservar meu reino sem derramar o sangue de meus súditos, então assiná-lo não será um ato de fraqueza... será o dever de um rei.
O conselheiro inclinou a cabeça, respeitosamente.
— Eis o pensamento de um verdadeiro soberano, Vossa Alteza.
O príncipe voltou os olhos para os mapas sobre a mesa.
— Pois, quando chegar o dia em que esta coroa repousar sobre minha cabeça, não desejarei ser lembrado apenas pelas guerras que venci, mas pelas vidas que minha decisão foi capaz de poupar.
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Um pouco mais afastada, em uma sala de vidro, a rainha e sua ama observavam atentamente todo o ensinamento. Lucian não tinha conhecimento de que poderia ser observado dali.
Embora não demonstrasse em público, a rainha sentia um profundo orgulho do filho e de tudo aquilo em que ele estava se tornando: um homem de caráter, valores e princípios.
A ama aproximou-se da rainha com cautela. Conhecia-a desde muito antes de a coroa repousar sobre sua cabeça e, talvez por isso, fosse uma das poucas pessoas que ousavam falar-lhe com tamanha franqueza.
— Minha rainha... creio que já seja chegada a hora de conversardes com nosso rei e pedirdes que conceda ao jovem Lucian um dia de descanso.
A rainha ergueu os olhos, permanecendo em silêncio.
— Eu compreendo que todas as regras, os estudos e a disciplina que lhe são impostos são necessários para aquele que um dia há de carregar a coroa. E sei que Vossa Majestade deseja prepará-lo para tudo aquilo que o aguarda.
A ama fez uma breve pausa antes de prosseguir, em tom mais suave:
— Mas temo que o peso que o jovem príncipe carrega dia após dia estejam, começando a pesar-lhe também sobre o coração. Tenho observado seu semblante, minha rainha. Ele já não demonstra a mesma alegria de outrora. Há tristeza em seus olhos, mesmo quando cumpre cada dever que lhe é imposto.
A rainha baixou lentamente o olhar.
— Não vos digo isso para questionar as decisões de Vossa Majestade, mas porque temo pelo menino. Um príncipe precisa aprender a suportar o peso de sua coroa, sim..., mas não deveria precisar carregá-la a cada instante de sua infância.
A ama então se aproximou mais um passo.
— Perdoai minha ousadia, minha rainha, mas há algo que jamais deveis permitir que a coroa vos faça esquecer.
Ela sustentou o olhar da soberana.
— Antes de ser rainha deste reino... Vossa Majestade é mãe de Lucian.
As palavras permaneceram no ar por alguns instantes.
— E talvez, neste momento, o jovem príncipe não esteja necessitando de uma rainha para ensiná-lo a ser soberano. Talvez esteja apenas necessitando de sua mãe.
Por alguns instantes, a rainha não respondeu.
Seu semblante, antes firme e impassível, perdeu lentamente a severidade. Seus dedos apertaram o tecido do vestido, enquanto seus olhos permaneciam fixos em algum ponto distante da sala.
— Antes de ser rainha... sou mãe de Lucian... — murmurou, quase para si mesma.
Aquelas palavras pareciam ter despertado algo que há muito permanecia adormecido sob o peso da coroa.
Ela respirou fundo e desviou o rosto, como se não quisesse permitir que a ama testemunhasse a emoção que começava a tomar seus olhos.
— Tenho estado tão ocupada preparando-o para ser rei... — disse ela, com a voz mais baixa. — Que talvez tenha me esquecido de permitir que ele simplesmente seja meu filho.
A ama permaneceu em silêncio.
A rainha caminhou até a janela. Do alto da torre, podia avistar parte dos jardins do castelo.
— Dizei-me... há quanto tempo ele parece assim?
— Há algum tempo, minha rainha.
A soberana fechou os olhos por um breve instante.
— E eu não percebi...
Havia culpa em sua voz.
— Passei a exigir dele postura, disciplina, conhecimento e coragem. Ensinei-lhe a caminhar como um príncipe, falar como um soberano e pensar como um rei, mas talvez tenha me esquecido de ensiná-lo que ele ainda pode correr pelos jardins, rir sem motivo e descansar sem sentir que está falhando com seu reino.
Ela se virou para a ama.
Dessa vez, já não havia apenas a rainha diante dela. Havia uma mãe.
— Falarei com o rei ainda hoje. Lucian terá seu dia de descanso.
A rainha fez uma breve pausa.
— E amanhã... não haverá mestre, conselheiro ou tutor entre mim e meu filho. Quero vê-lo.
Um pequeno sorriso surgiu em seu rosto, embora seus olhos ainda carregassem emoção.
— Quero conversar com Lucian não como rainha, mas como sua mãe.
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