Entre Acasos e Destinos
5 Capitulo 5
Notas iniciais
Conseguiram compreender melhor como é o mundo de Lucian? Pelo menos o peso que o jovem carrega sobre os ombros?
É bom termos um aprofundamento sobre os mundos de ambos para entendermos onde iremos conduzi-los nos próximos capítulos.
Mas hoje quero aprofundar um pouco mais em Lucia e em seu mundo, e mostrar por que, para ela, o peso que carregava também era grande.
LUCIA
O entardecer se aproximava. Mais um dia chegava ao fim no castelo, e a jovem Lucia se dirigia pelos corredores para ir embora. Porém, antes de descer até a área dos criados e seguir para a saída, não pôde deixar de ouvir, em uma das salas, a conversa de seu padrinho com o jovem em quem havia esbarrado mais cedo e que, posteriormente, descobrira ser o futuro rei.
— Eis o pensamento de um verdadeiro soberano, Vossa Alteza.
— Pois, quando chegar o dia em que esta coroa repousar sobre minha cabeça, não desejarei ser lembrado apenas pelas guerras que venci, mas pelas vidas que minha decisão foi capaz de poupar.
A jovem se apressou em sair do campo de visão dos guardas e continuou seu caminho. Porém, agora, seguia mais distante em pensamentos.
Lucia admirara-se ao ouvir um rapaz tão jovem possuir um pensamento tão superior à sua idade. Acreditava que o herdeiro não deveria ser muito mais velho do que ela.
Se é que ele realmente é mais velho...
Corou com o próprio pensamento e, imediatamente, tratou de limpar a mente.
Continuou seu caminho em direção à feira, pois sabia que, àquela hora do pôr do sol, seus pais estariam ajudando os feirantes a desmontar as barracas e guardar os produtos antes de retornarem aos seus lares.
Assim que chegou ao início da feira, avistou seus pais.
Por um momento, parou apenas para observá-los.
Mesmo diante das condições em que viviam, eles ainda se amavam como se fosse a primeira vez. E, mesmo em meio às dificuldades, sempre haviam cuidado dela e de seus dois irmãos com muito zelo.
Era aquilo que Lucia invejava.
O amor.
Apesar de ainda ser jovem, ela sonhava com ele. Sonhava com uma vida estável. Sonhava em poder retribuir aos pais tudo o que haviam feito por ela.
E, por um único momento, invejou o príncipe.
Com todo o status e poder que possuía, os pais dele jamais precisariam trabalhar até o fim de suas vidas apenas para conseguir sobreviver.
— Lucia! Venha, Lucia! O que faz aí sozinha, minha menina? — perguntou sua mãe.
A jovem despertou de seu transe ao ouvir a voz materna.
— Ela deve estar no mundo de Lucia, minha esposa. Vamos, minha menina. Está tarde e você deve estar cansada.
Ela se adiantou e, mesmo diante dos protestos dos pais, ajudou-os a carregar as últimas mercadorias.
Depois de receber o pagamento pelo dia de trabalho, juntou-se aos pais e, juntos, iniciaram a caminhada de volta para casa, que ficava um pouco mais distante.
Porém, mesmo cansada, Lucia não demonstrou.
Não queria que seus pais se sentissem culpados por não terem cavalos ou sequer uma simples carroça para facilitar a locomoção.
— Mamãe! Papai! Lucia!
Assim que avistaram a casa, os irmãos correram para recebê-los.
Apesar da pouca idade — os gêmeos tinham apenas dez anos —, eram a alegria daquela casa.
Lucia sorriu ao vê-los e se lembrou de quando a mãe descobrira que estava esperando por aquelas duas bênçãos.
O sonho da pequena Lucia sempre fora ter alguém com quem brincar.
Todos os dias, ajoelhava-se aos pés de sua cama e pedia a Deus que lhe desse amigos ou irmãos para que pudesse ter companhia.
O que jamais imaginaria era que seus pais não estavam preparados para ter mais uma boca para alimentar e, por isso, evitavam, a todo custo, realizar seu desejo.
Porém, no final do outono, sua mãe, ainda pálida após um desmaio, descobriu que estava grávida.
A surpresa maior veio no nascimento.
Em vez de um bebê, nasceram dois.
A pequena Lucia era só alegria, enquanto seus pais tentavam, ao máximo, esconder a difícil situação em que se encontravam.
O pai de Lucia, muitas vezes, passava dias fora para conseguir colocar comida à mesa.
Mas, mesmo diante de todas as dificuldades, os dois jamais deixaram de demonstrar todo o amor que sentiam pelos três filhos.
Quando completou doze anos, Lucia acordou certo dia ao ouvir a mãe chorando.
Implorava a Deus por um milagre.
Implorava para que conseguisse comprar leite para as crianças.
Foi naquele momento que Lucia compreendeu que seu pedido a Deus havia sido realizado.
Porém, aquilo também havia trazido um custo que ela jamais imaginara que teria de pagar.
Lucia não tinha culpa pelo nascimento dos irmãos.
Ela os amava.
Mas, depois daquele dia, alguma coisa dentro dela mudou.
A menina que um dia sonhara apenas em ter alguém com quem brincar começou a enxergar as dificuldades da própria família de uma maneira diferente.
Passou a acreditar que também precisava ajudar.
Abandonou a escola sem que seus pais soubessem e começou a fazer pequenos trabalhos do outro lado da cidade, longe de onde seus pais costumavam trabalhar.
Até que, certo dia, a escola entrou em contato.
Lucia era uma jovem extremamente inteligente e tinha um futuro brilhante pela frente no condado.
Seus pais ficaram furiosos ao descobrirem que ela havia abandonado os estudos.
Porém, quando descobriram o motivo, a raiva deu lugar às lágrimas.
Pediram perdão.
Mas, diante deles, já não estava mais a menina que acreditava em contos de fadas.
Estava a jovem que começava a crescer e a assumir responsabilidades que jamais deveriam ter pertencido a ela tão cedo.
Depois daquele dia, não havia mais nada que pudessem fazer para fazê-la mudar de ideia.
Precisaram aceitar o destino que ela própria havia escolhido para si.
— Vamos, Lucia. Vá se banhar primeiro enquanto preparo nosso jantar — disse a mãe, olhando-a com ternura.
Lucia sabia que sua mãe havia carregado peso após peso durante todo o dia e, por isso, mesmo com as pernas doloridas por conta das escadas do castelo, insistiu:
— Pode ir, minha mãe. Eu tive um tempo maior de descanso hoje. Pode deixar que eu mesma prepararei o jantar.
Mesmo relutante, a mãe acabou sendo puxada pelos irmãos, que haviam entendido a deixa da irmã mais velha.
Após terminar o jantar, Lucia chamou todos à mesa.
Antes de iniciarem a ceia, fizeram uma oração para agradecer pelo alimento que tinham sobre a mesa.
Então, entregaram-se ao delicioso jantar preparado pela filha, aproveitando a paz daquele lar e as conversas descontraídas ao redor da mesa.
Ali, apesar de todas as dificuldades, havia respeito.
Havia carinho.
Havia amor.
E, por alguns instantes, aquilo era tudo o que Lucia precisava
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