Notas iniciais
O que estão achando?

Toda a atenção estava voltada para o jovem herdeiro.


Uma após outra, as princesas e jovens damas aproximavam-se para cumprimentá-lo, e Lucian, como lhe fora ensinado desde a infância, recebia cada uma com a devida cortesia.


Pierre, entretanto, parecia determinado a não lhe conceder um único instante de descanso.


Não saberia dizer quantas vezes haviam atravessado o imenso salão.


O conselheiro conduzia o príncipe de uma roda a outra, apresentando-o a princesas, filhas de nobres e jovens damas de famílias importantes, enquanto Lucian mantinha o sorriso impecável e a postura digna de um herdeiro.


Seus pais, sentados no alto do salão, observavam tudo atentamente.


Até que a rainha se levantou de repente.


A ama, que permanecia próxima, imediatamente voltou-se para ela.


— Onde vais, Vossa Majestade?


A rainha ajeitou discretamente a saia do vestido antes de responder:


— Preciso ajudar Pierre. Quero ver como Lúcia se sai com essas esnobes, mas não conseguirei descobrir se ela continuar sendo a sombra dele.


O rei não conseguiu conter uma breve risada diante da impaciência da esposa.


Ainda assim, assentiu, concordando com ela.


A rainha fez uma pequena reverência em respeito ao marido e, sem perder mais tempo, desceu os degraus que levavam ao salão.


Sua presença foi imediatamente percebida.


À medida que avançava, rainhas, duquesas e princesas interrompiam suas conversas para fazer reverências, enquanto ela seguia majestosa pelo salão, envolta em seu elegante vestido de festa.


Quando finalmente alcançou o grupo, dirigiu-se a Pierre com um sorriso sereno.


— Conselheiro Pierre, poderia me emprestar a jovem Lúcia por alguns instantes? Gostaria de sua companhia enquanto cumprimento algumas das rainhas presentes.


Pierre compreendeu imediatamente a intenção por trás do pedido.


Fez uma discreta reverência.


— Naturalmente, Vossa Majestade.


Lucian, porém, não pareceu tão disposto a aceitar a mudança de planos.


— Vossa Majestade... minha mãe, acredito que Lúcia ainda esteja aprendendo algumas coisas e talvez...


— Vossa Alteza...


A voz de Lúcia o interrompeu antes que pudesse terminar.


Ela deu um pequeno passo à frente.


— Se me permitirdes interrompê-lo, acredito que posso acompanhar Vossa Majestade.


Lucian voltou os olhos para ela.


Lúcia sustentou seu olhar por um breve instante antes de continuar:


— Até porque o príncipe precisa iniciar o baile e escolher uma princesa para conduzir a primeira valsa.


Por um momento, Lucian ficou sem resposta.


Pierre baixou o rosto, disfarçando um sorriso.


A rainha, por outro lado, parecia ter acabado de receber exatamente a resposta que esperava.


Lúcia fez uma reverência respeitosa e aproximou-se da rainha, posicionando-se à sua direita, ligeiramente atrás, como exigia a etiqueta.


A soberana lançou ao filho um olhar breve.


Vitorioso.


— Então está decidido.


E, antes que Lucian pudesse inventar qualquer outra desculpa, a rainha voltou-se para as demais convidadas.


— Se nos derem licença...


Com isso, tomou Lúcia consigo, deixando para trás um príncipe que, pela primeira vez naquela noite, parecia ter perdido o controle da situação.


Pierre aproximou-se discretamente do herdeiro.


— Parece que, desta vez, Vossa Alteza terá de se virar sem sua sombra.


Lucian lançou-lhe um olhar de reprovação.


— Não acho graça.


— Eu acho — respondeu Pierre, contendo o sorriso.


E, no outro extremo do salão, Lúcia percebeu que a rainha também sorria.


A rainha caminhava pelo salão com Lúcia ao seu lado.


A jovem mantinha os olhos baixos na medida certa, a postura ereta e as mãos delicadamente unidas à frente do corpo.


Por dentro, porém, seu coração parecia querer escapar do peito.


Não era todos os dias que uma simples camareira caminhava ao lado da rainha diante de toda a corte.


— Não fique tão tensa — murmurou a rainha, sem sequer olhar para ela.


Lúcia ergueu discretamente os olhos.


— Estou tentando, Vossa Majestade.


A rainha sorriu de canto.


— Eu sei.


Poucos passos depois, aproximaram-se de um pequeno grupo formado por três rainhas e algumas nobres.


A soberana cumprimentou-as com a elegância habitual.


— Vossas Majestades. É uma alegria revê-las.


Depois, voltou-se para Lúcia.


— Permitam-me apresentar-lhes uma jovem que tem me acompanhado nos últimos dias.


As mulheres voltaram os olhos para ela.


— Esta é Lúcia.


Lúcia fez uma profunda reverência.


— É uma honra conhecê-las, Vossas Majestades.


Uma das rainhas sorriu.


— Lúcia... É um nome bastante simples.


O comentário pareceu inocente.


Mas o olhar da mulher dizia outra coisa.


Lúcia apenas sorriu.


— Talvez por isso seja fácil de lembrar, Vossa Majestade.


A rainha ao lado conteve um pequeno sorriso.


A primeira mulher arqueou uma sobrancelha, surpresa por ter recebido uma resposta tão rápida.


— Vejo que és espirituosa.


— Procuro apenas ser cuidadosa com as palavras, Vossa Majestade.


— E de onde vem essa habilidade?


Lúcia hesitou por um instante.


— De ouvir muito, Vossa Majestade.


A mulher pareceu não compreender.


— Ouvir?


— Sim.


Lúcia manteve o tom sereno.


— Quem fala costuma escolher as palavras que deseja que os outros escutem. Quem observa em silêncio, por vezes, acaba percebendo também aquilo que não foi dito.


Houve um breve silêncio.


A rainha lançou um olhar discreto para Lúcia.


Era exatamente aquele tipo de resposta que esperava dela.


Uma das nobres presentes resolveu participar da conversa.


— Então sois uma observadora?


— Tento ser.


— E o que exatamente uma jovem como vós teria para observar em uma corte?


Lúcia percebeu o tom.


Não era uma pergunta.


Era um desafio.


Ainda assim, não se deixou provocar.


— Muitas coisas, minha senhora.


— Como o quê?


Lúcia olhou brevemente ao redor do salão.


— Quem fala quando deveria ouvir.


Algumas das mulheres trocaram olhares.


Lúcia continuou:


— Quem permanece em silêncio quando deveria falar.


A nobre cruzou os braços.


— E imagino que também observe quem merece confiança.


Lúcia sorriu discretamente.


— Essa talvez seja a coisa mais difícil de observar.


A resposta arrancou um pequeno sorriso de uma das rainhas.


Mas a nobre não desistiu.


— Diga-me, menina... O que uma jovem poderia saber sobre assuntos da corte?


Lúcia sentiu a pergunta pesar.


Por um instante, pensou em responder que nada.


Seria a resposta mais segura.


Mas então se lembrou de tudo o que aprendera observando os corredores do castelo, ouvindo criados, soldados, comerciantes e nobres. Lembrou-se das conversas que ouvira sobre impostos, colheitas, famílias que não conseguiam alimentar seus filhos e decisões tomadas em salas onde jamais seriam ouvidas.


Então respondeu:


— Talvez eu não saiba tanto quanto Vossa Senhoria.


A mulher sorriu, satisfeita.


Mas Lúcia ainda não havia terminado.


— Contudo, uma coisa aprendi.


A nobre voltou a fitá-la.


— O que aprendestes?


— Que uma decisão tomada por alguém que conhece apenas o palácio pode parecer perfeita dentro dele.


Lúcia fez uma pequena pausa.


— Mas pode ser muito diferente quando chega aos que vivem fora de seus muros.


O sorriso da nobre desapareceu lentamente.


Ninguém disse nada.


Lúcia imediatamente fez uma pequena reverência.


— Perdoai-me se fui além do que deveria.


A rainha então tomou a palavra.


— Não foi.


Lúcia olhou para ela.


A soberana voltou-se para as demais mulheres.


— Ela apenas respondeu à pergunta que lhe foi feita.


Uma das rainhas sorriu.


— E respondeu com bastante cuidado.


— É justamente o que tenho observado — respondeu a soberana.


Lúcia baixou novamente os olhos.


A rainha, porém, continuou:


— Há pessoas que sabem falar.


Fez uma pausa.


— Há pessoas que sabem ouvir.


Depois olhou para Lúcia.


— E existem raras pessoas que sabem quando fazer cada uma dessas coisas.


Lúcia ficou imóvel.


Não esperava aquele elogio.


A rainha então voltou-se novamente para as convidadas.


— Creio que isso seja muito mais útil em um conselho do que qualquer sobrenome importante.


Aquelas palavras fizeram Lúcia erguer os olhos.


Por um breve instante, encontrou o olhar da rainha.


E compreendeu.


Aquilo não havia sido apenas uma apresentação.


A rainha estava mostrando à corte exatamente por que havia escolhido aquela jovem para caminhar ao seu lado.


E, talvez pela primeira vez, Lúcia começou a compreender que sua maior qualidade não era saber responder.


Era saber como responder.


Sem arrogância.


Sem medo.


E sem jamais esquecer quem estava diante dela.

Notas finais
Estou indo rápido demais?