Entre Acasos e Destinos
28 Capitulo 28
Notas iniciais
Apesar de o jovem Lucian ainda não compreender o motivo daquela estranha relutância em deixar Lúcia longe de suas vistas, sabia que ela estava certa.
Naquela noite, precisavam se separar para cumprir seus respectivos papéis.
Ela precisava mostrar que merecia uma oportunidade de estudar e, um dia, tornar-se conselheira.
Ele precisava mostrar à corte que sabia se portar como herdeiro e que estava preparado para, quando chegasse o momento, assumir o trono e governar o reino como seus pais esperavam.
Por isso, quando a música começou a se preparar para a primeira valsa, Lucian não escolheu a primeira dama que lhe sorriu.
Escolheu com cuidado.
Ao longo da noite, havia conhecido princesas de diferentes reinos. Algumas eram gentis, outras extremamente educadas, algumas divertidas.
Mas, em sua maioria, as conversas haviam permanecido na superfície.
Vestidos.
Festividades.
Viagens.
Bailes.
Assuntos que pouco lhe diziam sobre quem aquelas jovens realmente eram.
Então, lembrou-se de uma conversa que ouvira pouco antes.
Uma das princesas falava sobre fronteiras.
Sobre soldados.
Sobre as dificuldades enfrentadas por seu reino nas regiões montanhosas.
Aquilo despertara sua curiosidade.
Seus olhos percorreram o salão até encontrá-la.
Princesa Amélia de Montávia.
Lucian caminhou até ela.
Quando chegou diante da princesa, fez uma reverência impecável.
— Princesa Amélia de Montávia, daríeis a honra de iniciar comigo o baile na tradicional valsa?
Amélia pareceu surpresa.
Por um instante, suas faces ganharam um leve tom rosado.
Então, fez uma reverência.
— Seria uma honra, Vossa Alteza.
Lucian ofereceu-lhe a mão.
Pouco depois, os dois ocupavam o centro do salão.
A música começou.
Os primeiros passos foram acompanhados pelo silêncio respeitoso da corte, mas logo Lucian inclinou discretamente a cabeça em direção à princesa.
— Posso perguntar por que vos surpreendestes quando vos escolhi?
Amélia deixou escapar um pequeno sorriso.
— Porque não imaginei que Vossa Alteza tivesse ouvido nossa conversa.
— Ouvi apenas uma parte.
— E ainda assim me escolhestes?
— Justamente por isso.
Ela arqueou uma sobrancelha.
— Devo confessar que estou curiosa.
Lucian manteve o ritmo da dança.
— Quando passei por uma roda de damas, ouvi-vos falando sobre as fronteiras de vosso reino e sobre a posição dos militares naquela região.
Amélia assentiu.
— É um assunto que me interessa.
— Percebi.
— E isso foi suficiente para escolherdes uma princesa para a primeira dança?
Lucian pensou por um instante antes de responder.
— Não.
A princesa pareceu surpresa.
— Não?
— Foi suficiente para despertar meu interesse em conhecê-la.
Amélia sorriu.
— Uma resposta bastante diplomática.
— Estou tentando me comportar como um herdeiro.
Ela riu baixinho.
— Então espero que o herdeiro seja tão interessado quanto o príncipe.
— Por quê?
— Porque as fronteiras de Montávia não são um assunto simples.
A atenção de Lucian aumentou.
— Contai-me.
Amélia começou a explicar.
Falou sobre as montanhas que separavam seu reino dos territórios vizinhos, sobre os caminhos estreitos utilizados pelos comerciantes e sobre as regiões onde os soldados precisavam permanecer durante todo o ano.
Lucian fazia perguntas.
Não perguntas para impressioná-la.
Perguntas porque realmente queria compreender.
A princesa percebeu isso.
E, conforme a música avançava, a conversa deixou de parecer uma apresentação entre dois jovens de famílias reais.
Tornou-se uma troca de ideias.
— Se o caminho comercial passa por essa região — observou Lucian —, então uma disputa naquela fronteira não afetaria apenas os soldados.
Amélia o encarou por um instante.
— Não.
— Afetaria os comerciantes.
— E as famílias que dependem deles.
Lucian assentiu lentamente.
— Então talvez a questão não seja apenas proteger a fronteira.
Amélia completou:
— Mas garantir que aqueles que vivem dela também possam continuar vivendo.
Os dois se entreolharam.
Haviam chegado a uma conclusão semelhante por caminhos diferentes.
A música continuava.
E, pela primeira vez naquela noite, Lucian percebeu que talvez aquela escolha tivesse sido acertada.
Não porque Amélia fosse necessariamente a princesa que deveria escolher, mas porque, entre todas as conversas daquela noite, aquela era a primeira que lhe ensinava alguma coisa.
Do outro lado do salão, entretanto, a rainha observava atentamente.
E não era a única.
Lúcia, ao lado dela, também acompanhava a dança.
Por um breve instante, seus olhos encontraram os de Lucian.
Nenhum dos dois sorriu.
Apenas trocaram um olhar silencioso.
Um olhar que dizia que ambos estavam fazendo exatamente aquilo que haviam combinado.
Ele, cumprindo seu papel de herdeiro.
Ela, aprendendo a encontrar seu próprio lugar naquela corte.
Então, a música chegou ao fim.
Lucian fez uma reverência diante de Amélia.
— Agradeço pela dança, Princesa.
— Eu é que agradeço, Vossa Alteza.
Ela fez uma pequena pausa antes de acrescentar:
— Espero que esta não seja nossa última conversa sobre Montávia.
Lucian sorriu.
— Tampouco eu.
E, enquanto a princesa retornava ao seu lugar, Lucian levantou os olhos novamente.
Sem perceber, procurou Lúcia no salão.
Encontrou-a ao lado da rainha.
E, pela primeira vez naquela noite, entendeu que cumprir seu papel não tornava mais fácil ficar longe dela.
Apenas tornava necessário.
E, como era de se esperar, a partir daquela primeira valsa, muitas outras se seguiram.
Lucian manteve a postura digna de um herdeiro.
Dançou com cada princesa que lhe foi apresentada, ouviu suas histórias, respondeu às perguntas com educação e suportou até mesmo os pequenos acidentes que faziam parte de uma noite como aquela.
Inclusive quando alguma das princesas, tomada pelo nervosismo, pisava em seu pé.
Mais de uma vez.
E, embora seu rosto permanecesse perfeitamente sereno, Pierre percebeu a pequena contração em sua mandíbula.
— Tudo bem, Vossa Alteza? — perguntou certa princesa, assustada depois de mais um passo desajeitado.
Lucian sorriu.
— Perfeitamente.
Por dentro, porém, pensava que talvez governar um reino fosse mais fácil do que aquela noite.
Enquanto isso, do outro lado do salão, Lúcia também cumpria seu papel.
A rainha a apresentava a diferentes damas, princesas e esposas de nobres importantes.
E, como era inevitável, algumas conversas tornavam-se verdadeiros pequenos duelos.
Lúcia respondia.
Argumentava.
Ouvia.
E, quando percebia que uma determinada dama estava tentando colocá-la em uma posição desconfortável, encontrava uma maneira elegante de responder sem jamais ultrapassar os limites da cortesia.
Mas, mesmo enquanto conversava, seus olhos procuravam Lucian.
Não o tempo todo.
Apenas o suficiente.
Porque os dois haviam criado um código.
Um código simples.
Tão simples que Pierre jamais suspeitaria.
Um toque no próprio punho significava:
Preciso de ajuda.
Um toque na manga significava:
Não estou confortável.
Um olhar prolongado significava:
Preciso que venhas.
E, se Lúcia tocasse discretamente o colar que usava naquela noite...
Estou perfeitamente bem. Não interfiras.
Era uma combinação criada às pressas, poucos minutos antes de se separarem.
Pierre não fazia ideia.
E talvez fosse justamente isso que tornasse tudo mais divertido.
Lúcia estava no meio de uma conversa com duas jovens damas quando uma delas inclinou a cabeça, analisando-a.
— Devo confessar que ainda não compreendo por que Vossa Majestade decidiu trazê-la consigo esta noite.
Lúcia sorriu.
— Talvez Vossa Majestade tenha seus motivos.
— Certamente.
A segunda dama sorriu de maneira menos gentil.
— Mas deve ser estranho para alguém como vós estar entre pessoas de nossa posição.
Lúcia sentiu a provocação.
Ainda assim, manteve a calma.
— É um pouco diferente do que estou acostumada.
— Imagino.
A primeira dama olhou para o outro lado do salão.
— Pelo menos o príncipe parece estar se divertindo.
Lúcia acompanhou o olhar.
Lucian acabara de iniciar outra dança.
Ela observou por um instante.
Então, voltou-se para as duas.
— Parece que sim.
— Não vos incomoda vê-lo dançar com tantas princesas?
A pergunta fez Lúcia piscar.
Ela não esperava por aquilo.
— Não vejo por que deveria.
A dama sorriu.
— Que resposta conveniente.
Lúcia respirou discretamente.
Então, seus olhos encontraram os de Lucian.
Ele estava no meio de uma dança, mas percebeu imediatamente.
Por um segundo, o príncipe deixou de olhar para sua parceira.
Lúcia tocou o próprio punho.
O código.
Preciso de ajuda.
Lucian compreendeu.
Mas não podia simplesmente abandonar uma dança no meio do salão.
Então, enquanto continuava os passos, levantou discretamente a mão esquerda e ajustou o punho da própria manga.
Uma resposta.
Entendi.
Lúcia quase sorriu.
Mas voltou-se para as duas damas.
— Como dizia, Vossa Senhoria?
A jovem pareceu surpresa.
— Eu apenas perguntava se não vos incomoda ver o príncipe dançando com outras.
Lúcia inclinou levemente a cabeça.
— O príncipe está fazendo exatamente aquilo que deveria fazer esta noite.
— E vós?
— Eu também.
As duas se entreolharam.
Lúcia sorriu com serenidade.
— Talvez seja justamente essa a diferença entre estar em um baile e compreender por que estamos nele.
A resposta deixou as duas em silêncio.
Lúcia não precisou de Lucian.
Não daquela vez.
E, ao perceber isso, o príncipe também sorriu discretamente.
A dança terminou.
Ele fez uma reverência à princesa que o acompanhava e, antes mesmo de procurar sua próxima parceira, lançou um olhar para Lúcia.
Ela estava bem.
E não precisava ser salva.
Mesmo assim, havia algo estranhamente reconfortante em saber que, em meio a toda aquela gente, bastava um pequeno gesto para que os dois soubessem exatamente o que o outro estava pensando.
Pierre continuava completamente alheio ao segredo.
E talvez fosse melhor assim.
Porque, naquela noite, enquanto toda a corte acreditava que o príncipe e a jovem estavam simplesmente cumprindo seus papéis...
Os dois haviam criado, silenciosamente, uma pequena aliança que pertencia somente a eles.
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