O amanhecer no castelo começou diferente.


À medida que o dia clareava, carruagens chegavam uma após outra, trazendo nobres de diferentes condados. Os corredores, antes silenciosos nas primeiras horas da manhã, já estavam tomados por criados que acompanhavam seus soberanos, enquanto outros haviam sido contratados no próprio condado para auxiliar nos preparativos e nas tarefas que aquela ocasião exigia.


Havia movimento por toda parte.


E, embora Lúcia continuasse sendo oficialmente uma criada do castelo, naquele dia seu papel seria muito diferente.


Nas últimas horas antes do grande baile, ela acompanhava Lucian em suas últimas aulas de etiqueta. Depois, permaneceria ao lado de Pierre como sua sombra, observando e auxiliando o conselheiro durante as reuniões, para que sua presença diante do Conselho da Monarquia não fosse vista como uma simples concessão, mas como uma oportunidade real de demonstrar seu valor.


Era o dia em que sua possibilidade de ocupar uma cadeira entre os conselheiros seria, enfim, levada a sério.


Talvez por isso suas mãos estivessem frias.


Lucian, entretanto, parecia tão inquieto quanto ela.


Ele a observou por alguns instantes antes de suspirar.


— Lúcia, estás branca como papel. Acho melhor não ires. Como futuro rei que preza pelo bem-estar de seu povo, devo fazer-te companhia durante todo o dia.


Lúcia não conseguiu se conter.


Uma risada escapou de seus lábios.


— Seu medroso!


Lucian ergueu uma sobrancelha.


— Medroso?


— Muito bonito falar que estou indisposta quando é o senhor, jovem herdeiro, quem está com medo de dançar com algumas princesas.


Ela apontou discretamente para a janela.


— Vi algumas descendo das carruagens. São belíssimas. Quem sabe alguma delas não fisga o futuro rei?


Lucian revirou os olhos.


— Pare de dizer besteiras.


Ele então se aproximou dela e apontou para a própria gravata.


— E ajude-me com isto.


Lúcia cruzou os braços.


— Ué. Onde estão suas criadas para fazerem isso?


Lucian abriu um pequeno sorriso.


— Estou diante de uma delas, oras.


Lúcia estreitou os olhos.


— Eu não sou sua criada particular.


— Hoje és.


— Não sou.


— Então prove que és minha amiga.


Ela ficou em silêncio por um instante.


Amiga.


A palavra pairou entre os dois por alguns segundos.


Nenhum deles havia decidido exatamente o que eram um para o outro. Colegas de estudo? Aliados? Amigos?


Talvez fossem um pouco de cada coisa.


Lúcia finalmente suspirou, aproximou-se e tomou a gravata entre os dedos.


— Fique quieto.


— Eu estou quieto.


— Ainda não.


Ela apertou o nó com força.


Lucian arregalou os olhos.


— Lúcia...


Ela apertou um pouco mais.


— Pronto.


O jovem herdeiro levou a mão ao próprio pescoço.


— Isso está apertado demais.


— Está perfeito.


— Não consigo respirar.


— Ótimo. Assim não poderá dizer nenhuma besteira durante o baile.


Foi então que uma voz conhecida surgiu atrás deles.


— Jovem Lúcia, se sufocares o futuro rei antes mesmo de o baile começar, temo que estarás cometendo um pecado bastante peculiar.


Pierre havia acabado de entrar no quarto.


Lúcia se virou.


Lucian estava vermelho, tentando desesperadamente afrouxar a gravata.


Ao perceber a expressão divertida do padrinho, ela finalmente desfez o nó, soltando a gravata antes de se afastar alguns passos, rindo.


Pierre observou os dois por alguns instantes.


Então, com um sorriso discreto, voltou-se para a afilhada.


— Vejo que minhas lições de etiqueta estão produzindo resultados... bastante particulares.


Lucian lançou-lhe um olhar indignado.


— Não comece, Pierre.


Lúcia voltou a rir.


E, por alguns instantes, o peso daquele dia pareceu desaparecer.


Mas ambos sabiam que, assim que deixassem aquele quarto, as brincadeiras ficariam para trás.


O Conselho os aguardava.


E, pela primeira vez, Lúcia não entraria naquela sala apenas como uma criada.


Entraria para ser ouvida.


Ou talvez não.


Como se houvessem ensaiado aquela caminhada por meses, os três deixaram os aposentos.


Lucian seguia à frente, como determinava sua posição de herdeiro da Coroa. Pierre caminhava ao seu lado direito, ligeiramente atrás, na distância exata que demonstrava respeito à hierarquia sem deixar de evidenciar sua posição como conselheiro e tutor do príncipe.


Lúcia vinha do lado esquerdo, também alguns passos atrás de Pierre.


Não precisava que ninguém lhe explicasse o motivo.


Naquele castelo, cada passo tinha um significado.


Cada posição dizia quem era cada pessoa.


E ela conhecia muito bem o lugar que ocupava.


Pelo menos, até aquele dia.


Os corredores pareciam mais longos do que de costume.


Criados afastavam-se para lhes dar passagem. Alguns nobres que aguardavam nas proximidades das portas observavam discretamente a jovem que caminhava ao lado do príncipe e do conselheiro.


Lúcia manteve os olhos à frente.


Não demonstraria insegurança.


Não ali.


Quando finalmente chegaram diante das grandes portas do salão principal, os dois guardas que as protegiam se endireitaram.


Levaram as mãos às maçanetas.


Mas as portas não se abriram.


Os guardas aguardaram o sinal de Pierre.


O conselheiro já ia erguendo discretamente a mão quando percebeu que Lucian havia parado.


O jovem príncipe permanecia imóvel diante das portas.


Por um instante, toda a confiança que demonstrara durante as últimas aulas pareceu desaparecer.


Pierre o observou em silêncio.


Conhecia o rapaz bem demais para não perceber o que se passava.


Lucian respirou fundo.


Do outro lado daquelas portas estavam os membros do Conselho.


Nobres.


Conselheiros.


Homens e mulheres que passariam a observar cada palavra sua.


E, naquele dia, também observariam Lúcia.


O futuro rei hesitou.


Foi então que Lúcia se aproximou.


Sem chamar a atenção dos guardas, sem quebrar a formação que haviam mantido durante todo o caminho, deu apenas um passo à frente.


— Chegamos até aqui, príncipe herdeiro.


Lucian voltou os olhos para ela.


Lúcia sustentou seu olhar.


Não havia brincadeira em sua expressão agora.


Apenas firmeza.


— Devemos seguir.


Ela fez uma breve pausa.


— Agora, sem olhar para trás.


Lucian permaneceu em silêncio por alguns segundos.


Então respirou profundamente.


Endireitou os ombros.


E aquilo bastou.


O príncipe voltou a assumir a postura digna que se esperava de um futuro rei.


Pierre observou a cena em silêncio.


Um pequeno sorriso surgiu no canto de seus lábios.


Talvez aquela jovem ainda não soubesse.


Mas, naquele instante, acabara de fazer exatamente aquilo que tantos conselheiros levavam anos para aprender.


Soubera quando falar.


E, principalmente, soubera o que dizer.


Pierre finalmente fez um discreto sinal aos guardas.


As grandes portas começaram a se abrir.


E, do outro lado, estava o Conselho que decidiria se Lúcia seria apenas uma jovem com boas ideias...


ou alguém digna de ter sua voz ouvida pela Coroa.